sábado, 17 de setembro de 2011

A Utopia

(você lembra?)

Mensagens que chegam. Assim, inesperadamente.
Me lembram histórias antigas que ainda não ouvi.
Presto atenção, suspendo o nariz, apuro o faro,
Porque breve é o tempo em que caminhamos lado a lado.

Ouço a música nova
Que vem no vento do sul e toca
As cordas do que pressinto... agora.

“O trem da utopia há muito partiu para o céu
deixando pra trás a terra,
todas as misérias.
Para quem ficou
Restou uma dura missão:
Construí-lo outra vez.” *


Leio Thomas Morus
Que me chega em edição de bolso
E no longo espaço de apenas um vôo
Preenche com sentido o que nem ouço,
Só sinto.

Porque mesmo na pequena ilha de Utopia,
Lá entre o sempre e o lugar nenhum,
ainda existe a guerra e a religião.
E por isso mesmo me pergunto
Qual pode ser o lugar da igualdade
Onde ainda reinam a Morte e Deus.
Ou dito de outro modo,
Homens sobre homens.
Poder de um sobre todos.

Quisera ser Homero
Saber fazer de poesia
Um épico eterno
Povoando a memória
e a inconsciência dos homens
através de línguas antigas,
há muito esquecidas.
Mas sou simplesmente um contador...
só posso contar pra você
de pontas que se unem
Inesperadamente.
De repente...
tocando muita, muita gente
Simultaneamente.

Desculpe-me.
Sei que minha rima é pobre
Mas só assim consigo rimar...
Eira com beira
Esteira com peneira
Besteira... bobeira...
Asneira com lesêra...
Porque entre a risada e a arte
Ainda fico com a primeira.


Por isso não me desconheça meu amigo.
Não tô baixando nessa infinita bubuia.
Ainda trilho o rumo,
mais ou menos inseguro,
daquela impossível ilha de Utopia.
Ainda sigo...
subindo o tortuoso rio que me guia.
desde o início...

Mas estou tranquilo.
Sei que não sou o único!
Ainda tem...
você também!
Mesmo assim escrevo
Como que pra você,
como que pra ninguém,
Porque me enternece menos
o raro que o comum.
E essa é a tristeza de meu coração.
Viver a contar dessa utópica ilha
que só existe na alma do homem
e em outro tempo
e outro lugar algum.

Para um amigo,
tão sutil e imaginário
como a própria ilha
que um dia povoou
meus sonhos...


* (CD Trem da Utopia de Alvaro Santi, musica de Gedson Meira)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Foi um Rio que passou em minha vida

(e meu coração se deixou levar...)

Esta semana, excepcionalmente, estou escrevendo este artigo num outro rio que não minha querida Rio Branco. Estou no Rio de Janeiro que me viu nascer. Vim a trabalho, como tem sido nos últimos anos, para gravar uma participação no programa “Livros que amei” que está em fase de produção e deverá ser exibido pelo canal Futura entre dezembro e fevereiro. Quando souber ao certo, aviso. Até porque, como não poderia deixar de ser, falei muito do Acre através do original olhar de Euclides da Cunha em seu “Paraíso Perdido”. Mas já vou adiantando que foi um dia de trabalho muito agradável numa antiga casa do Alto da Boa Vista, um dos lugares mais bonitos deste vasto mundo.
Ou seja, esta tinha tudo pra ser uma viagem muito prazerosa. Entretanto, nesta sexta feira, aconteceu algo que, sinceramente, eu não esperava e mexeu profundamente comigo.
É que, como sempre faço quando venho ao Rio e tenho tempo disponível, fui ao centro da cidade onde, durante anos a fio, costumava perambular em meio aquele verdadeiro formigueiro humano observando pessoas, ouvindo fragmentos de conversas e conferindo a profusão de novidades e velhidades das vitrines.
Mas, em todos estes anos, estivesse eu fazendo o que fosse, ocupado ou ocioso, sempre que vinha ao centro dava um jeito de passar num lugar muito especial: o tradicional sebo do edifício Avenida Central, que já havia sido em um passado não muito remoto, o prédio mais alto do Rio de Janeiro. Pra mim, a melhor e mais importante livraria do Rio e, por conseguinte, do mundo.
Ali passei intermináveis horas de minha vida. Na maioria das vezes sem nem comprar nada. Apenas olhando, namorando, desejando livros que um dia eu haveria de conseguir levar pra casa, nem que pra isso tivesse que juntar dinheiro por meses. Entranhou-se assim, em meu ser, o gosto pelo delicioso cheiro de papel velho, o vício incurável de respirar ácaros literários, a estranha admiração por livros empilhados em anarquia absoluta - como em todo e qualquer sebo que se preza e que constitui aquela santa confusão que tanto revela quanto esconde - mantendo viva a possibilidade de novas e surpreendentes descobertas no dia seguinte e fazendo-me voltar e voltar e voltar sempre...



Por isso amo os sebos


Porém, mal saltei da escada rolante, meu olhar buscou o lugar do sebo, naquele gesto tantas vezes repetido que se tornou quase automático, e só havia uma profusão de lojas de informática. Confesso que fiquei instantaneamente atordoado. Devia ter alguma coisa errada. Será que me enganei de entrada, devia ser a do outro lado e me confundi. Afinal já faz mais de cinco anos desde que vim aqui pela ultima vez. Dei a volta apressado na sobreloja inteira, angustiado, peito oprimido, só pra ter certeza do que eu já tinha. O velho sebo não está mais ali. Em todo o andar, só lojas e mais lojas de notebooks, periféricos, softwares, jogos para Play Station, X-box e outras tantas tranqueiras informáticas desse nosso estranho mundo virtual. Confesso que fiquei tão atordoado que acabei entrando na loja que agora ocupa o lugar do sebo e, sem ter o que fazer ali, comprei um carregador de celular pirata. Acho que foi uma pequena, surda e inútil vingança. Uma forma de não me render ao não deixar de entrar naquele, agora irreconhecível, lugar que eu tanto amara... Como se dissesse silenciosamente: vocês acabaram com o Sebo mas eu estou aqui pra continuar comprando nele... Coitada da vendedora, não deve ter entendido porque eu trazia tamanha raiva e frustração nos olhos e na voz...
Mas eu não estava mesmo disposto a me dar por vencido. Tanto que no mesmo passo em que vinha me mandei lá pro outro lado da Avenida Rio Branco. Fui pra Rua do Rosário, uma viela estreita, repleta de sobrados antigos, perto da Praça 15, que abrigava o meu segundo sebo predileto. Um sebo muito charmoso porque, se não era tão maravilhosamente entulhado como o primeiro, tinha um jirau alto e estreito onde as estantes empoeiradas costumavam guardar algumas das melhores preciosidades em forma de livros velhos que já encontrei. Este sim deveria ainda estar em seu lugar. Afinal aquela não era uma das áreas comerciais mais valorizadas do centro da cidade.
Mas pra quê? Antes eu tivesse ido embora sem espernear. No lugar deste outro sebo agora está instalada uma charmosa loja de produtos para decoração...


Onde foi parar aquele Rio que conheci tão bem? Nada aqui é mais como era antes. Compreendi então o misto de saudade e melancolia que os mais velhos costumam sentir em relação aos tempos passados. É completamente estranho e desesperador ver que o mundo que você conhece e confia, já não existe mais. Que está tudo diferente, tudo mudado pra pior. Ver que livros foram substituídos por computadores ou bibelôs. Perceber que coisas muito, muito, muito importantes foram destruídas e substituídas por absurdas inutilidades, dói.



Palacio Monroe que ficava no fim da Avenida Rio Branco e que foi demolido de forma insana, para a construção do Metrô quando eu era apenas um menino, demarcando um Rio de Janeiro que não existe mais...


Acho que, pela primeira vez na minha vida, tive a absoluta certeza de estar envelhecendo.
Decidi, então, não prolongar mais aquele suplício e fui pra estação do Metrô. Dizia-me: vou-me embora antes que piore e descubra que não há mais nada aqui que eu conheça e de que goste de verdade. Voltei então pro edifício Avenida Central pra pegar o Metrô na Estação da Carioca que fica ali do lado. Mas, nem bem botei o pé na rua da estação, ouvi um som grave e doce de saxofone. Era aquela musica linda que já foi cantada por tanta gente (inclusive o bom e velho Elvis) e mais recentemente virou tema do filme Ghost – do outro lado da vida. Meu coração deu um pulo. Não conseguia acreditar que o velho do sax continuava tocando aqui no meio da rua.
Imediatamente minha mente voltou anos atrás, quando aquele menino que subia feliz pro sebo, parava pra ouvir o negro de enormes bochechas que sopravam e sopravam musicas intermináveis num surrado sax, só pra ganhar umas poucas moedas que os passantes colocavam em seu chapéu. Quantas vezes o menino havia parado pra ouvir e ver com tristeza que aquele formigueiro humano agitado e incessante parecia nem perceber verdadeiramente a arte do velho saxofonista, que ainda assim prosseguia entoando suas longas e quentes melodias, indiferente à indiferença dos passantes apressados.
Me senti salvo, então. E, antes de descer a escada do Metrô, sorri (um sorriso de puro agradecimento) pro velho do sax e suas enormes bochechas que sopravam e sopravam “Unchained Melody”. Durante muito tempo ainda, mesmo dentro do barulhento trem do Metrô, eu segui assobiando aquela “melodia” que “libertou” e aqueceu novamente meu coração.
“And time goes by, so slowly… (E o tempo vai passando, tão lentamente...)
Lonely rivers flow to the sea, to the sea,” (Os rios só fluem ao mar, ao mar...)

sábado, 3 de setembro de 2011

Machu Picchu – Um século (III)

(ou: Mistérios da floresta na montanha)

Faz um século desde que a cidadela de Machu Picchu foi redescoberta e passou a nos inundar de perguntas e paradoxos. E o que isso a tem a ver com o Acre? Tudo indica que muito mais do que podemos desconfiar a principio.

No artigo anterior dessa série contei, com muito menos detalhes do que eu gostaria, sobre a experiência de percorrer o Caminho Inca. Uma das longas trilhas construídas pelos Incas para interligar seu vasto império. Na verdade, foi seu extenso e bem consolidado sistema de estradas, chamado como “Qhapaq Ñan” por alguns autores, que fez com que a civilização Inca fosse uma das mais extraordinárias da antiguidade americana e possibilitou que o Tahuantinsuyu se tornasse o Império das quatro direções.
Já mencionei no artigo anterior meu espanto ao percorrer o trecho do “Caminho Inca” que leva a Machu Picchu e ver a excelência e a engenhosidade com que foi construído. A todo o momento nos surpreendíamos. Aqui um túnel que possibilitava ultrapassar uma rocha enorme sem ter que fazer um extenso contorno. Acolá, um tanque de água cristalina que nos esperava no topo de um dos muitos “passos” (ponto culminante de uma montanha do caminho) para nos refrescar, como há de ter refrescado muitos “Chasquis” (os corredores que constituíam o serviço de correio dos Incas) há séculos antes de nós.



Mas, surpreso mesmo fiquei quando entramos no ultimo trecho do “Caminho”. É que, nas três horas finais de caminhada, antes de alcançarmos Machu Picchu, percorremos uma espessa floresta, aparentemente muito semelhante à floresta que nos acostumamos a conhecer por aqui pelo Acre. E depois de dois dias e meio caminhando por campos amarelos ressecados e pelas franjas dos brancos picos nevados das montanhas andinas causa um profundo estranhamento se ver em meio a uma vegetação tão verde e fechada que chega a provocar certa sensação de sufocamento.
Começamos assim a descobrir que Machu Picchu se encontra estrategicamente localizada no limiar entre dois mundos: o do altiplano e o das florestas. Alguns autores inclusive levantam a hipótese de que Machu Picchu teria sido construída por exatamente com a finalidade de coordenar e controlar povos da floresta submetidos pelo Império Inca, garantindo o acesso e o fluxo dos diversos produtos que vinham do Antisuyu para abastecer a nobreza Inca.


Para quem não está familiarizado com a história incaica, talvez seja importante ressaltar que este Império se dividia em quatro reinos, ou suyus. O Chinchaysuyu se encontrava ao norte, correspondendo ao rico litoral norte do Peru e se estendia até a Colômbia e o Equador. O Collasuyu ficava ao sul, era o maior dos quatro reinos e incluía o Lago Titicaca, tido como região mítica de onde se originaram os primeiros Incas. O Cuntisuyu ficava a oeste do Império e era formado pelas terras áridas da vertente ocidental dos Andes e pelo litoral centro-sul peruano. Já o Antisuyu ficava a leste de Cuzco (que era o centro de todo o Império) e era constituído pelas vastas florestas que se estendiam desde as vertentes orientais dos Andes (também chamada de região de Montaña) até as terras baixas amazônicas.
E foi exatamente este ultimo reino o mais difícil de ser dominado pelos Incas. Segundo a historiadora María Rostworowski foi no reinado do Inca Pachacutec (apontado também como o possível construtor de Machu Picchu) que se deu a expansão do Império na direção dos povos “Antis”, como eram denominados pelos Incas os povos da floresta. A dispersão territorial característica desses povos, os inúmeros obstáculos enfrentados por exércitos acostumados aos territórios abertos do altiplano em meio à floresta fechada, a própria resistência empreendida pelos “Antis” tornaram essa conquista extremamente difícil.




Tanto assim que “os exércitos cuzquenhos, sempre vitoriosos, sofreram na selva sua primeira derrota” (Rostworowski, 2001, pg.188). Sobre este acontecimento o cronista Cieza de León contou que as tropas incas foram dizimadas na densa floresta e poucos conseguiram voltar a Cuzco com a notícia do desastre. Como maneira de se explicar frente ao enfurecido Inca, os sobreviventes teriam inventado uma lenda: a de que haviam sido monstruosas serpentes que haviam atacado e matado o grosso das tropas. Foi quando uma velha feiticeira se apresentou para apaziguar os monstruosos animais com magias e encantamentos, depois do que os exércitos puderam se internar na floresta sem temer ser destruídos pelos monstros lendários.
Com ou sem feiticeira, Pachacutec Inca Yupanqui decidiu comandar ele mesmo uma nova expedição à região. Para tanto mandou batedores e espiões para as florestas das terras baixas com a missão de observar seus misteriosos habitantes e a frente de um grande exército invadiu a região. Entretanto, ao chegar a Marcapata, Pachacutec teria recebido noticias de uma rebelião que agitava seu Império, o que o fez retornar rapidamente a Cuzco.
Coincidentemente, ao observarmos os mapas da região entre Cuzco e o Acre, vemos que as nascentes do rio Madre de Diós se encontram muito próximas da capital Inca. E o nome Quéchua deste rio é Amaru Mayo, ou Rio da Serpente. O que pode nos levar a concluir que foi este rio a rota seguida por aquela expedição militar que teria sido derrotada por monstruosas serpentes. Até porque é obvio que um numeroso exército teria muita dificuldade em avançar por terra na região da densa floresta amazônica, tornando o rio o caminho natural para este avanço.




Além disso, muito recentemente arqueólogos finlandeses e bolivianos encontraram em Riberalta, na confluência entre os rios Beni e Madre de Diós (o velho Amarumayo), uma ruína Inca, que parece comprovar definitivamente a expansão do Império e do comércio Inca até bem próximo do Acre.
O certo é que, hoje, quando penso na rodovia do Pacífico, não consigo me livrar da sensação de que essa estrada não tem nada de novo. É como se, depois de alguns poucos cinco séculos, apenas começássemos a nos lembrar de um outro caminho, muito antigo, do qual havíamos nos esquecido.

OBS: Outras informações sobre as possíveis ligações entre os Incas e os povos da floresta, já foram disponibilizadas nesta coluna através da longa série “Do Acre aos Andes” que publiquei aqui, em 2009.

sábado, 27 de agosto de 2011

Manoel, o audaz


Um dos principais personagens da história acreana permanece como um ilustre desconhecido. Sobre ele não se sabe quase nada de concreto, apesar das muitas lendas que por aqui circulam. Espero um dia ainda poder pesquisar e escrever sobre a vida desse homem a quem o Acre deve tanto. Enquanto isso não acontece, segue um pequeno aperitivo só pra sentir o gosto.

O Grande descobridor das terras acreanas se chamava Manoel, mas não era português. Realizou seu maior empreendimento navegando águas desconhecidas, mas nunca conheceu uma caravela. Não era branco, mas caboclo escuro, quase negro. Não era europeu, mas amazônida nascido no Manacapuru. Não deixou registros próprios porque não sabia escrever, mas deixou seu nome inscrito na memória e na história da Amazônia ocidental.
À semelhança dos navegadores europeus do século XVI, Manoel Urbano da Encarnação, em pleno século XIX, se lançou no desconhecido, sempre ao arrepio das correntes, rio acima, percorrendo os vales do Purus, do Iaco, do Aquiri, do Iquiri e de outros rios, igarapés e varações para se tornar quase uma lenda.


No principio da década de 1850 a administração da Província do Amazonas nomeou Manoel Urbano da Encarnação e João da Cunha Correa como diretores de índios do Purus e do Juruá respectivamente. O governo amazonense buscava organizar e taxar a atividade dos coletores de drogas do sertão que, provavelmente, já percorriam livremente essa região desde o principio do século XIX. Além disso, Manoel Urbano tinha também a missão de percorrer os rios que cortavam a região para averiguar a possibilidade de ligação entre os afluentes do Purus e os do rio Madeira, que se confirmada poderia dar origem a uma nova rota comercial desde o sul do continente americano.
É verdade que Serafim Salgado já havia subido o Purus em missão oficial de reconhecimento, em 1851, mas foi pouco além da foz do rio Iaco, quase sem entrar em terras acreanas. Coube verdadeiramente a Manoel Urbano da Encarnação a primazia de percorrer essas terras desconhecidas estabelecendo o primeiro contato formal com os povos indígenas da região. E, diferente de outros exploradores de nossa história, Manoel Urbano passou a estabelecer com esses povos uma relação de respeito e cooperação.
Não existe nenhuma referencia à violências ou traições contra os índios ocorridas nos rios do vale do Purus nas três décadas durante as quais Manoel percorreu a região guiando cientistas, exploradores e os primeiros seringueiros brasileiros a chegar à região. Pelo contrário, enquanto Chandless se refere a Manoel Urbano como um caboclo com grande inteligência natural, Castelo Branco menciona o fato de que ele era comumente chamado pelos índios do Acre como o Tapauna Catu, o negro bom, aquele em quem se pode confiar.



Manoel Urbano era mesmo diferente. Ele não se limitou a ser explorador e diretor de índios, foi também um povoador estabelecendo assentamentos permanentes de base indígena que serviram como ponta de lança da ocupação nacional da região. Entre seus muitos filhos, Braz Gil da Encarnação e Leonel da Encarnação se fixaram próximo à boca do Ituxi/Iquiri e outros pontos do Purus. Ou seja, Manoel Urbano permaneceu durante muitos anos percorrendo essa imensa região. Não havia prático mais hábil na navegação dos rios repletos de balseiros e rebojos traiçoeiros. Não havia homem mais famoso no Purus do que o Tapauna Catu, do qual diziam ter cento e vinte anos, ou mais. É que aos poucos Manoel Urbano da Encarnação foi deixando de ser apenas um homem comum e se tornando uma verdadeira lenda nesses rios e barrancos, um mito da floresta.

sábado, 20 de agosto de 2011

Machu Picchu – Um século (II)

(ou: Mistérios de uma jovem alma)

Já não me lembro o dia exato em que cheguei a Machu Picchu. Lembro apenas que isso faz vinte e cinco anos e que foi um dia inesquecível. Afinal “naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos e um jeito de herói, era mais forte e veloz que qualquer mocinho de cowboy.”

Acredito que 1986 foi um ano diferente para muitos brasileiros. Pra quem não se lembra, ou ainda não estava por aqui, basta recordar que este foi o ano do plano Cruzado instituído pelo Presidente José Sarney para tentar acabar com a enlouquecida hiperinflação que parecia não ter limites.
Na verdade o Brasil ainda vivia o rescaldo da enorme frustração que havia sido a derrota das “Diretas Já” e a morte de Tancredo Neves. Mas por breves momentos, o tabelamento de preços imposto pelo Plano Cruzado parecia que poderia sim resultar no fim do dragão da inflação. A tal ponto que muitas donas de casa brasileiras foram convertidas em “fiscais do Sarney” para impedir que as famigeradas máquinas de remarcação voltassem a aumentar o preço das coisas. Mas, infelizmente, durou pouco o sonho. Só o tempo que os interesses político-eleitorais demoraram para ferir de morte o tal plano econômico de forma a garantir mais poder ao PMDB do Sarney de triste memória para todos nós que lá estávamos. Porém, antes de seu fim, esse mesmo Plano Cruzado abriu uma janela de novas oportunidades que nos apressamos em aproveitar. Afinal, a gana de viver mais e mais é uma das melhores qualidades dos jovens, não é?
Acontece que nesta época a diferença entre o dólar oficial e o paralelo era imensa e só podia comprar dólar pelo cambio oficial quem saísse do país de avião. Bolamos um plano perfeito então. Como queríamos ir à Machu Picchu, eu e alguns amigos da Faculdade, a gente fez as contas para sair por via aérea do Brasil pela menor rota possível - por conseguinte, com o menor custo possível - e só a diferença do cambio já pagaria boa parte de nossa viagem.
Não deu outra. Fomos de ônibus até Foz do Iguaçu onde pegamos um avião para Puerto Stroessener, no Paraguai, e assim nos habilitamos a pegar U$1.000 cada um, pelo preço galinha morta do cambio oficial. A conseqüência imediata disso é que já começamos nossa viagem por uma rota completamente louca.
A partir do Paraguai tivemos que cruzar o norte da Argentina, pela bela região de Salta, para entrar no sul da Bolívia e atravessar este belo e pobre país até alcançar o Peru ao norte. Viajávamos em cinco. Eu, Waltinho, Tereza, Lili e Carlinha. Todos nós estudantes da mesma Universidade, mas cada um de um curso diferente, um grupo meio, digamos, exótico. Eu namorava Tereza e Waltinho namorava Lili, o que deixava Carlinha solta pra arrumar namorados ao longo da viagem e assim conseguir pequenas vantagens (como refeições por conta dos caras) em alguns dos lugares por onde passávamos. Mas, infelizmente, seria impossível contar aqui tudo o que vivemos naqueles dias extraordinários, precisaria do espaço de um livro inteiro e não de apenas um artigo para contar sobre as belezas e as tragédias de nossa encantadora América Latina. Ainda mais porque éramos jovens e, na estrada, livres. E tudo é mais bonito e mais intenso quando se é jovem e livre. Alguém duvida?



Da esquerda pra direita sentadas: Tereza, Carlinha e Lili; em pé: Waltinho e eu - Fotografados por um lambe-lambe das ruas de La Paz



Bueno. O certo é que depois de muitas peripécias chegamos à Cuzco e decidimos fazer o Caminho Inca ao invés de conhecer Machu Picchu através do trem que todos os dias ali despeja milhares de turistas de todas as partes do mundo. É que fazendo o Caminho Inca, além de conhecermos diversas ruínas ao atravessar as altas montanhas andinas, ainda poderíamos, se bem programados, chegar a Machu Picchu antes das dez horas da manhã, hora em que começam a chegar os milhares de turistas que vão de trem. E, segundo o que ficamos sabendo, era tanta gente que desembarcava na cidadela perdida dos Incas que visitá-la depois das dez não tinha a menor graça. Ou seja, tudo que queríamos era Machu Picchu só pra gente. Afinal, a ousadia parece ser outro traço indelével da juventude.
Porém, no dia anterior à viagem, exatamente na hora de alugarmos os equipamentos (já que em Cuzco se pode alugar barraca, saco de dormir e todo o mais necessário para a caminhada), as meninas arrumaram diferentes justificativas pra não ir (dor de cabeça, TPM e outras cositas do gênero). No fundo, no fundo, sabíamos, todos, que era só cagaço mesmo. Uma pena, porque decidimos ir assim mesmo, eu e Waltinho.
Já no trem conhecemos muitos outros mochileiros que iam também fazer o Caminho Inca e colamos com uma Finlandesa que viajava sozinha por nome Irene e um cucaracho brasileño, que estava a tanto tempo na estrada que já nem conseguia mais falar português direito e se expressava misturando inglês, português e espanhol. Um novo e ainda mais exótico grupo de quatro pessoas que nos três dias seguintes se ajudaram a vencer a altitude, o cansaço extremo, o frio que congelava nossos ossos. Afinal, a capacidade de fazer grandes e sinceras amizades de repente, também parece ser uma capacidade fácil e natural quando se é jovem.
Ainda bem, porque logo descobrimos que o trem não parava pra quem fosse fazer o caminho Inca poder descer. Ou seja, teríamos que nos jogar do trem em movimento ao chegar o km 88 (nunca mais esqueci). Assim, desde o início ficou claro que se não ajudássemos uns aos outros aquela aventura poderia não terminar bem. E assim foi feito. Três dias uns carregando a mochila uns dos outros quando o esgotamento batia, mas também trocando impressões e sensações sobre este caminho que é uma das mais fascinantes experiências que um ser humano pode viver.



Perigoso trecho do Caminho Inca (Foto Sergio Neves - AE)


Vocês não imaginam a beleza das montanhas e picos nevados que atravessamos então. Os Incas haviam sido tão caprichosos ao construir seus caminhos, que chegaram à sofisticação de trazer pedras brancas de muito longe só para pavimentar o caminho em meio às rochas negras e garantir que seus correios pudessem transitar dia e noite com facilidade. Túneis, fortalezas em ruínas, pontes suspensas, escadas esculpidas nas pedras, fontes de água cristalina no cume dos “passos”, enfim... Não se pode ter uma idéia completa da grandiosidade e da engenhosidade dos Incas só visitando Cuzco.
Mas, por outro lado, não posso mentir, não é fácil não. É muito, muito, difícil caminhar aos quatro mil metros de altitude já que o ar é extremamente fino e o oxigênio parece não fazer parte dele, ao mesmo tempo em que as pernas muitas vezes insistem em não suportar o peso do próprio corpo, tamanho o cansaço.
Em compensação, é indescritível a felicidade que se sente ao, depois de longos e penosos três dias, chegar à Porta do Sol e vislumbrar do alto, pela primeira vez, Machu Picchu. Só posso dizer que é como se naquele momento pudesse finalmente ver - não com os olhos do corpo, mas com os olhos do espírito - o poder e a eternidade em forma de montanhas e mistérios inesgotáveis. Beleza e encanto em sua expressão mais pura. Afinal, a vida é mesmo mágica diante de olhos jovens. Ou alguém não acredita???




Vista de Machu Picchu desde a porta do sol (foto de Sergio Neves - AE)

sábado, 13 de agosto de 2011

Histórias d'alem fronteira

Os poderes constituídos não conseguem compreender o espírito da fronteira. Para os governos em geral a fronteira é um problema, é o limite e com ele a sempre presente possibilidade da transgressão dos limites. Limite da Pátria, limite da moeda, da língua, da cor, do gesto, do jeito, limite da alma, enfim. É preciso, portanto, cuidar (o que na maioria das vezes significa apenas proibir).
Em geral, não vemos o que está lá e cá ao mesmo tempo, o que transpira de um lado ao outro, o que une, o que liga, o caminho que leva e traz, o limite do outro, do novo, do distinto, o limiar que junta o início e o fim, o que transcende tudo aquilo que não pode ser limitado. Neste sentido, a fronteira é a alma dessa terra limite.
Hoje ouvi uma nova história sobre a fronteira. Uma boa história que preciso dividir com vocês. Adianto que se trata de uma história prosaica, simples, em alguns momentos até mesmo de palavreado impróprio, pelo que já peço perdão antecipadamente. Mas, também garanto que se trata de uma daquelas histórias singulares, que revela a complexidade oculta por trás dos cartões postais, ou no nosso caso, o que esta para além das lojas coloridas que nos vendem importados piratas da China, dessa derradeira relíquia comunista que anda travestida em grande e universal consumista. Síntese perfeita de nosso louco tempo, pré-apocalipse.
Mas... Sem mais enrolação, com vocês a história que me encantou e me fez sorrir, hoy dia.


A Triste e Trepidante Balada de Tio Ivo

Ele era mais um dos milhares de bolivianos(as) nascidos de mistura com brasileiros(as) que passaram toda a vida do lado de lá da fronteira. Um bom homem era Tio Ivo, trabalhador, íntegro, sincero, um bom boliviano. A única coisa que ainda se permitia era tomar uns tragos de vez em quando.
Na verdade, de vez em sempre. Todo fim de semana bebia até ficar borracho. Depois sossegava Tio Ivo, que era um bom homem. Não chegava a ser alcoólatra, apenas bebia nos fins de semana.
Na verdade, era mesmo alcoólatra, porque bebia pra valer, todo fim de semana. Mas era um bom boliviano e disso ninguém duvidava.
Mas, naquele dia, ficou bravo Tio Ivo. Outro golpe de estado estava bagunçando tudo na Bolívia. De novo, novamente, outra vez, pensava revoltado. Todo ano golpe militar, golpe, golpe atrás de golpe. Não teria fim nunca essa triste história de seu país sofrido?
Neste dia então, depois dos tantos tragos regulamentares, inesperadamente, se embrabeceu Tio Ivo, resolveu sair às ruas e declarar toda sua indignação pra quem quisesse escutar. Bradava assim:
- Me cago em Bolívia!!!!!! Carajo!!!!
Quem via aquela cena, nem podia acreditar no que via. Não era apenas um grito, um protesto qualquer. Tio Ivo falava do fundo de sua alma. Estava cansado de ver seu país desse jeito, maltratado por autoridades que se sucediam no poder através da força e da sempre renovada tragédia de seu povo. Andava, com os passos incertos de todo e qualquer bêbado, Tio Ivo, e de repente parava pra tornar a bradar...
- Me cago em Bolívia!!!!!! Carajo!!!!
Estava cansado. Definitivamente cansado de ver seus conterrâneos ter que atravessar as águas do rio Acre a nado, fugindo para o Brasil, a cada novo golpe. Todo ano, golpe de novo e a mesma coisa, lá se vão a nadar pro outro lado meus amigos. Ano que vem, de novo, golpe e lá sem vão os inimigos de meus amigos a nadar pro outro lado desse rio chamado Acre. Outra dor, outra indignação, outra vez:
- Me cago em Bolívia!!!!!! Carajo!!!!
Tanto fez Tio Ivo que, como não podia deixar de ser, chamou a atenção dos soldados em patrulha pelas ruas em razão do estado de sítio em que se encontrava a Bolívia naquela tarde de Cobija. E não deu outra. Vieram os soldados, truculentos, a interrogar: Mas! Que passa, Hombre! Que Passa!!! Ao que não teve duvidas Tio Ivo que, duplicando o tom e o volume de sua voz, redobrou a força e a dor de seu brado de protesto.
- Me caaaaaago em Bolívia!!!!!! Caraaajoooooo!!!!
Os militares - nitidamente collas, filhos do altiplano, ao ver aquele homem grande que, de muito branco, estava em vermelho de fogo, indignado, sob o sol escaldante da tarde de Cobija, legítimo filho dessa mistura que a floresta produziu ao longo dos séculos últimos - não também não tiveram duvidas. Prenderam Tio Ivo. Onde já se viu tamanha ofensa à Pátria. Ainda mais em pleno Golpe de Estado...


Quase tão rápida quanto aquela prisão, percorreu as ruas quentes da tarde de Cobija, a notícia, que, como era de se esperar, logo foi bater no ouvido de Tia Vitória. A mulher de Tio Ivo. Como és?!!!? Preso mi Ivo? Eso no puede ser, me voy a ver eso ahora, ahorita!
Um metro e meio de pura valentia Tia Vitória. Pense numa mulher braba. Decidida - um metro e meio pleno, bem cheio e medido, de autoridade - partiu para o quartel Tia Vitória. Já na porta, o soldado bem que tentou lhe barrar, ao que ouviu assustado: Quiero hablar con el Comandante! E era tanta firmeza que o soldado não lhe pôde impedir de prosseguir. Logo acudiu o Oficial do dia tentando por ordem na casa. Mas de nada resultou. Me llame el Comandante! Mas, Señora... No me importa, quiero hablar con el Comandante y solo con el Comandante, ahora!
Não demorou pra se convencerem que não havia outro jeito de acalmar Tia Vitória e logo apareceu El Comandante de la tropa. Atônito, talvez até mesmo intimidado, por tamanha autoridade em tão reduzido espaço de gente, indagou a seus comandados: Más que sucedió??? E coube ao Tenente explicar o motivo de tão justificada prisão. El señor Ivo estava en la calle del ciudad a gritar insultos contra nuestra pátria. El dijo, con su pérdon mi Comandante: Me cago em Bolívia!!!!!! Carajo!!!!
Mas antes mesmo que o Comandante pudesse olhar para baixo, no rumo da pequena mulher, com reprovação. Tia Vitória desancou a comandar... Más hombre. Ivo és un buen hombre. Aquí vive, aquí trabaja de sol a sol, y usted, ahora, desea que Ivo vaya a la orilla del rio, coja una catraia, cruce el rio y vaya a cagar em Brasiléia? No, no, no. Ivo vive aquí em Bolívia, tiene que cagar aquí mismo en Cobija. Suelte mi Ivo ahora, ahorita. VAMOS!
Ao que o comandante, olhando firme, com indisfarçável ar de reprovação, para o Tenente, não demorou em decretar... Andelante hombre, lo que está esperando, suelte Dom Ivo. AHORA!
E lá se foi... com a moleza típica dos borrachos, naquela tarde quente de Cobija, Tio Ivo, seguindo, capisbaixo, aquele metro e meio de pura valentia e autoridade, chamado Tia Vitória.

Obs: Ganha um exemplar deste jornal o primeiro que souber dizer quem me contou, há pouco, essa história... e ainda dou pistas: Dom Ivo é tio deste nuestro amigo, meio cholo, meio Acre que tantos de nós conhecemos e gostamos por demais... e que, há algum tempo atrás, nasceu de novo, para nossa felicidade (agora ficou fácil!!!)

domingo, 31 de julho de 2011

Machu Picchu – Um século (I)


(ou: Mistérios da alma humana)

No dia 24 de julho de 1911 Hiram Bingham chegava a Machu Picchu. Um acontecimento que, sem que o explorador pudesse desconfiar, determinaria boa parte de minha vida, como deve ter feito com muitos outros antes e, ainda fará, depois de mim.

Se chamava “Cidadelas Perdidas”, se não me falha a memória, aquele livro em dois volumes que encontrei num sebo. Dentro de um deles uma narrativa, em especial, me encheu de sonhos e desejos. Eu era mais que um menino e menos que um rapaz então. Ainda podia passar noites inteiras lendo livros extraordinários que me faziam viajar por todas as partes do mundo e por todos os tempos possíveis entre o passado e o futuro.
Aquele capítulo que nunca consegui esquecer tratava da descoberta de Machu Picchu pelo norte-americano Hiram Bingham, em 1911. A narrativa daquela tensa subida por altas montanhas que roubava o fôlego dos exploradores, das dificuldades que a densa floresta das escarpadas encostas impunha, das dúvidas que assaltavam a expedição a cada dificuldade do longo e improvável caminho, fazia minha imaginação ver tudo como se estivesse acontecendo diante de meus olhos.
Mas nada nesta fantástica história era superior ao exato momento em que Hiram Bingham finalmente viu diante de si a mítica e lendária cidade perdida encravada entre dois cumes da “montanha velha” (tradução de Machu Picchu, em Quechua). Senti, como ele, naquele momento meu coração disparar e ser invadido por uma forte vertigem, coisa extremamente perigosa pra quem está “atrepado” naquelas alturas de mais de 2.400 metros.


Até hoje não consigo saber o que era maior então. A paisagem impressionantemente monumental, com o rio Urubamba serpenteando aos pés daqueles altos picos que ousavam desafiar o céu. A sensação de ter realizado uma extraordinária descoberta que iria rápida e permanentemente maravilhar todo o mundo, estabelecendo uma nova série de mistérios a serem desvendados. Ou a absurda consciência de que nada que Hiram Bingham fizesse depois seria maior ou mais importante do que aquela descoberta, aquele exato momento em que a vida de um homem deixa de ser ameaçada pela iminente possibilidade do fim e se torna eterna como as próprias montanhas que o cercavam então.
Acho muito difícil que, mesmo considerando o notório pragmatismo norte-americano, Hiram não tenha compreendido naquele instante porque os Incas consideravam as montanhas, não apenas sagradas, mas como os próprios deuses em si.
Lembro nitidamente que foi neste momento da leitura que decidi duas coisas definitivas para a minha própria vida: um dia eu iria a Machu Picchu e, não tinha jeito, eu ainda seria arqueólogo. Hoje, escrevendo esse artigo, fico muito feliz por já ter feito ambas as coisas (não exatamente da forma como imaginei naquela época), mas essas são outras histórias que vão ter que ficar pros próximos artigos.



Entretanto, não posso deixar de ressaltar aqui que, um século depois daquele momento extraordinário, ainda não se sabe exatamente o que foi Machu Picchu. Já se disse que era uma fortaleza secreta, um retirado e restrito templo para as escolhidas do Inca, o mausoléu de Pachacutec (o maior dos Incas e hipotético construtor da cidade) cuja múmia teria sido retirada dali pouco depois da chegada dos espanhóis à Cuzco, o refúgio do último Inca depois da fulminante destruição do Império pelos espanhóis, estratégico local de supervisão da produção de diferentes povos submetidos ao Império Inca, importante centro religioso, político, etc.
A mais recente teoria em discussão dá conta de que Machu Picchu teria sido um centro de peregrinação. A extremidade de um caminho sagrado que se iniciava na Ilha do Sol no meio do Lago Titicaca e terminava em seu famoso templo central. Vai saber. Mais que sua infinita beleza, talvez a principal característica de Machu Picchu seja mesmo essa propriedade de, através de seus inesgotáveis e indecifráveis mistérios, continuar desafiando o que há de mais profundo em nossa alma.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O PODER DO SILENCIO*


31 anos desde que a morte de um homem mudou o curso da história. Seu nome: Wilson Pinheiro. Um homem alto, determinado, de fala mansa e rara, mas de olhar poderoso.

Por um mês procuramos, em vão, sinais de sua voz. Nada.
Nenhum papel de pão manuscrito, nenhum documento do Sindicato, nenhuma entrevista nos jornais, nenhuma frase solta e memorizada pela multidão que seguia os passos daquele homem de evidente coragem.
Foi por vozes alheias que começamos a conhecer a história de Wilson. Sobram relatos do dia 21 de julho de 1980, quando três balas desferidas pelas costas puseram fim a sua vida. O primeiro dos líderes da floresta a morrer sem razão, por uma causa. Mas não o ultimo a pagar com a vida para que outros pudessem continuar vivendo de acordo com suas tradições culturais. Foram esses relatos da morte, da comoção popular, do enterro, da indignação, da dor e das juras de vingança, publicadas nos jornais acreanos e repetidas nas entrevistas feitas com as pessoas que participaram dessa história, que nos fizeram começar a ouvir o som da voz daquele homem calado.
Não pudemos evitar um calafrio na espinha ao conhecer a história do homem enterrado com uma moeda na boca para evitar a fuga de seus assassinos. Os signos populares são poderosos. Às vezes a sina de um homem pode ser sintetizada em um único gesto.
Não pudemos, tão pouco, evitar um enjôo desagradável ao ler matérias do jornal oficial que diziam que a culpa da malfadada “tensão social” vivida pela população acreana naqueles anos terríveis era dos agitadores, dos subversivos, dos comunistas que só queriam conflagrar a multidão para destruir a ordem vigente.
Se bem entendemos essa história, era o povo que estava tentando manter a ordem das coisas de um Acre invadido por pessoas que pouco sabiam da gente que vivia do que a floresta tinha pra oferecer, que só se interessavam por tirar o máximo possível no menor tempo possível. Quem subvertera a ordem natural das coisas havia sido o então chamado “Capitalismo Selvagem”, o Governo Militar, o Governo Biônico Estadual, para os quais só contavam índices econômicos favoráveis e um povo manso que obedecesse prontamente o que lhe era determinado. Era preciso progredir, desenvolver nosso país subdesenvolvido (outra palavra da moda na época). Afinal de contas “Esse é um país que vai pra frente” e “O Brasil, (é) o país do futuro”.
Naquela época eram eles que falavam, Wilson calava, mas agia. Usava sua enorme força vital para conduzir o povo em uma marcha pacífica pelo “empate” com o progresso. Talvez até soubesse que não podia vencê-los. Eles possuíam a polícia, as forças armadas, o capital, a justiça, tudo ao seu lado. E o povo o que tinha? Somente determinação e coragem frente à força bruta. Mas, se não se podia vencer os opressores, se pudesse ao menos “empatar” eles. E lá iam, mulheres e crianças à frente, impedir mais uma derrubada. Centenas de Wilsons, anônimos, calados, transformando suas ações em uma voz que gritava.


E, da culminância da dor, a vingança. Morte trocada. Para um Wilson morto, uma outra morte, um Nilão, culpado ou não, um deles. Era tudo que ainda podiam fazer se quisessem sobreviver. Aceitar de braços cruzados a morte de Wilson significaria a derrota e a condenação à morte de muitos outros homens de um povo submetido ao terror instituído. Existe razão possível na guerra?
As versões estão lá, para todos verem. Quem perder algum tempo lendo as matérias publicadas no “Varadouro”, no “Nós Irmãos”, na “Gazeta do Acre”, no “O Rio Branco” e no “O Jornal” poderão constatar a mobilização popular que se espalhava por todos os vales - de Boca do Acre até Assis Brasil, de Sena Madureira até Cruzeiro - contra a invasão dos “paulistas”. Quem se der ao trabalho ler as páginas daqueles jornais conhecerá o descaso oficial para a captura dos assassinos de Wilson e depois a fúria com que os assassinos de Nilão foram perseguidos, presos e torturados. Manchetes que não precisariam ter sido publicadas, se nossos governantes fossem sensatos e esse um país justo.
Anos se passaram desde então. A luta continuou e as manchetes dos jornais seguiram estampando notícias de crimes de encomenda, de conflitos eminentes, de empates vitoriosos e de ações públicas insuficientes. Outros homens tombaram antes que a floresta acreana e os modos de se viver dela pudessem ser salvos. Poucos culpados foram presos por seus crimes. Mas o povo venceu. No que era possível, mas venceu. Reservas extrativistas foram demarcadas, o povo da floresta fez uma aliança que mostrou a todos a existência de uma população que só queria tranquilidade e justiça pra tocar sua vida. A voz de Wilson e de seu povo havia sido forte o suficiente para se fazer ouvir longe.
O Acre nunca mais seria o mesmo então. O povo das cidades também havia assistido à chegada de milhares de famílias expulsas de suas casas, presenciado a miséria que explodia em suas invasões periféricas e ouvido as vozes que se levantaram de dentro da floresta. Os educados filhos da cidade também tiveram que ver tudo o que acontecia em Xapuri, Brasiléia, Boca do Acre, Quinari, Tarauacá.
Mais uma vez a voz que vinha do interior seria expressa por vozes estranhas ao povo que falava. Era a vez das monografias acadêmicas, das dissertações de mestrado, das teses de doutorado. O que era coragem e sabedoria popular foi promovido à ciência, multiplicando títulos, abordagens, recortes epistemológicos - economia, história, sociologia, antropologia - expressões e palavras estranhas ao povo que de sujeito havia sido transformado em objeto.
Diferente das manchetes de jornais que não deveriam ter sido escritas, alguns dos novos títulos revelavam o aprendizado da sociedade com o que havia de mais antigo e inovador nela mesma, a voz do povo. “Ocupação recente das terras do Acre” (1982); O sertanejo, o brabo e o posseiro” (1985); “Conflitos pela terra no Acre” (1987); “Os ‘Imperadores do Acre’ – uma análise da recente expansão capitalista na Amazônia” (1988); “Seringueiros e Sindicato: Um povo da floresta em busca de liberdade” (1991); “Capital e trabalho na Amazônia Ocidental” (1992); entre tantos outros publicados nos corredores das UNBs, UFACs, UFMGs, PUCs.
Isso sem falar nas livrarias dos shopping-centers repletas de livros sobre a devastação da Amazônia, sobre a vida e a morte de Chico Mendes, sobre ecologia. Será possível que a sociedade de consumo rápido e desenfreado tenha realmente ouvido aquela voz que silenciou na boca de Wilson Pioneiro? Talvez nunca saibamos ao certo.
O que parece certo é que o Acre continuou seu caminho, tentando construir um destino próprio. Porque aqui existiu uma voz que nunca foi escrita, da qual não se registrou o timbre e nem restou nenhuma frase, mas que não deixou de ser repetida e ouvida por florestas e cidades dessa Amazônia Ocidental desde então. A voz de um homem alto e determinado, de fala mansa e rara, dono de um olhar e um silêncio poderosos.

* Adaptado de texto publicado na Revista Wilson Pinheiro – 20 anos depois; Rio Branco, FEM, julho de 2000.

sábado, 16 de julho de 2011

A Porta do Acre

(ou: Que correntes nos prendem ao passado? – III)

Esta semana completaram-se 112 anos desde que Galvez proclamou a criação do Estado Independente do Acre. Por isso fecho hoje o ciclo de republicação de artigos que tratam de Porto Acre, ou “Cidade do Acre” como lhe chamou o então Presidente da Republica acreana, sobre o exato local em que tudo aconteceu num ensolarado e memorável 14 de julho.

O atual visitante de Porto Acre pode até não perceber a enorme importância desta cidade para a história acreana. Aos olhos do viajante, Porto Acre deve parecer apenas mais uma vila de poucos moradores. Pacata e lenta como só as cidades do interior sabem ser. Mas, sob as aparências que se apresentam aos olhos de quem acaba de chegar, aqui existe um lugar que resistiu ao tempo, como seus fundadores resistiram através de uma guerra para ficar neste lugar. Afinal de contas, foi aqui que a história do Acre começou.
É verdade que existem no Acre outros povoados ainda mais antigos, como Rio Branco e Xapuri, mas quando eles foram criados às margens do rio “Aquiri”, território dos índios Apurinã, sequer existia um lugar que pudesse ser chamado de “Acre”. Por isso o patrimônio histórico de Porto Acre é um dos mais significativos do nosso Estado, apesar de toda a destruição causada pelo tempo e pelos homens.
Só pouquíssimas casas de arquitetura mais tradicional, resistem nas ruas de Porto Acre. E, ainda por cima, essas duas ou três residências são evidentemente bem mais recentes que toda aquela história que fez a fama, o nome e a existência dessa cidade.
Do mesmo modo, poucos habitantes dali guardam a memória de tudo que se passou entre aqueles barrancos altos. Afinal, já lá se vai muito tempo desde que tudo aconteceu. Os revolucionários que não morreram de bala durante a guerra, morreram depois de morte morrida. Seus filhos, também já se foram e seus netos não ficaram por aqui e estão por ai, espalhados pelo mundo. Nada que não seja completamente normal nesse país de solene e notória falta de memória.



Mas nada disso importa. O patrimônio de Porto Acre é de uma natureza diferente da maioria dos lugares que se tornaram conhecidos por seus conjuntos arquitetônicos raros, singulares e ricos. Ele está ali, diante dos que não sabem vê-lo. Porque o patrimônio histórico e cultural de Porto Acre está inscrito em sua própria paisagem.
Naquele lugar, o alto do barranco está ali, a curva e o estirão do rio estão ali. Olhando com bastante atenção quase se pode ver ainda a grossa corrente atravessada de uma margem à outra impedindo a passagem dos revolucionários acreanos.
Mas não só. O patrimônio de Porto Acre ainda está oculto também no interior das casas e da terra, sob a forma de objetos, garrafas, “cascas” de balas, pequenas letras de chumbo do jornal “El Acre” já encontradas ou por encontrar.
Todos os meninos dessa cidade, de quando em vez, acham os tesouros de um passado distante que sabem já passou há muito, mesmo sem saber avaliar quanto. Sabem também os meninos que aqueles tesouros não valem dinheiro. Quando muito valem um cupom na rifa de Seu Artur, ou uma história bem contada que os encha de imagens e orgulhos momentâneos. Sentem os meninos que apesar de não ter valor em dinheiro, os tesouros de Porto Acre valem muito e ainda podem brincar com eles, indiferentes ao passar do tempo.




Não, Porto Acre, não está esquecida. Por menos evidente que seja, Porto Acre não esqueceu de si mesma. Pode-se dizer, talvez, que está adormecida num sono longo e profundo, mas desperta um pouco cada vez que revela suas paisagens e/ou pequenos pedaços de história ocultos.
Não! Porto Acre, não é uma cidade fácil de ser conhecida. É preciso, porém, conhece-la. Não apenas como a conhecem os velhos de memória antiga, ou os livros de história, mas como a conhecem os meninos que pulam do barranco em facadas primorosas rumo às águas barrentas e que, no final da tarde, vêem o curso do rio desde o alto do barranco e se lembram que aqui começamos a ser quem somos.
Porque, ao subir o rio, uma vez passado o porto, uma porta se abre e se sabe, chegamos ao Acre.

*Adaptado de artigo publicado na Revista “Galvez e a Republica do Acre”, pela Fundação Elias Mansour, em 1999, por ocasião do centenário do Estado Independente do Acre.


OBS: Já que o artigo de hoje trata mesmo de aniversário, quero aproveitar para, mesmo muito atrasado, dar Parabéns!!!! ao Ronaldo “Spock”, diagramador do Página 20 que toda semana fica esperando meu costumeiro atraso em enviar o material da coluna, por seu aniversário na semana passada.
Sem ele, não existiria Miolo de Pote. Por isso, é importante ressaltar que ele, como poucos hoje em dia, tem a grandeza de, mesmo permanecendo invisível para quem lê a coluna, nunca deixou de se empenhar para que nossos artigos saiam bem nos jornais de domingo. Assim, por uma questão de justiça e de gratidão quero aproveitar o artigo de hoje para homenagear esse amigo e fundamental “sócio” da coluna.

PARABÉNS!!!!!!! E SAUDAÇÕES RUBRO-NEGRAS (pra não perder o costume)!!!!

domingo, 10 de julho de 2011

Que correntes nos prendem ao passado? (II)

(ou As muitas correntes de Porto Acre)

Recentemente um amigo me questionou sobre a veracidade do famoso episódio do corte da corrente durante o combate de Porto Acre. Por isso, hoje, vamos ver o que dizem, e/ou contradizem, algumas fontes históricas sobre esse acontecimento.

O ultimo grande combate da Revolução Acreana ocorreu em Porto Acre, entre os dias 15 e 24 de janeiro de 1903, e configurou-se na historiografia acreana como decisivo uma vez que Puerto Alonso (nome boliviano daquele povoado) era o centro das ações do exército boliviano no Acre.
Segundo as descrições que nos chegaram daquele episódio, os bolivianos estavam aquartelados em uma praça fortificada com alambrados de arame e trincheiras na parte alta do povoado. E, como medida complementar de defesa, atravessaram uma longa e grossa corrente de ferro de uma margem à outra do rio Acre para impedir a passagem de vapores brasileiros pela cidadela fortificada, evitando o abastecimento do exército revolucionário acreano. Para possibilitar a vitória sobre os bolivianos era imprescindível cortá-la e livrar a passagem dos vapores.
O próprio comandante das tropas insurgentes, Cel. Plácido de Castro, em suas memórias denominadas “Apontamentos sobre a Revolução Acreana” narrou assim o episódio: “Urgia que fizéssemos descer o navio ‘Independência’, a cujo bordo tínhamos borracha, com a qual devíamos comprar munições... Os bolivianos, plagiando Humaytá, tinham collocado uma corrente para vedar a passagem. Uma das extremidades dessa corrente, porém, estava em terreno que já havíamos conquistado. Entretanto, foi difficilimo cortar essa corrente... Ás seis horas da manhã, collocados todos nos seus postos, verificado o entricheiramento da casa de machinas, feito com 30.000 Kilos de borracha, mandei suspender ferro...A passagem foi feita garbosamente, debaixo de uma estrondosa salva de balas.”



O que chama a atenção nessa descrição de Plácido de Castro é o caráter secundário que ele deu ao corte da corrente em si, remetendo a ação principal à passagem do vapor Independência feito sob fogo cerrado, inclusive de um pequeno canhão d os bolivianos.
Vejamos agora o que o Coronel Azcui, boliviano que documentou e descreveu as campanhas do Acre, nos conta sobre o mesmo caso. “El 18 de enero a merced de una densa niebla el Affuá pudo burlar la vigilancia de los que lo aguardaban y pasar a Caquetá apitando fuertemente. Las gruesas cadenas que hiciera poner el delegado para impedirle el paso habían sido cortadas en los dias anteriores.”
Cabe ressaltar que Affuá era o nome que os bolivianos davam ao vapor que lhes foi tomado pelos acreanos e rebatizado como vapor Independência. Mas, curiosamente, também Azcui não se dedicou a descrever o corte da corrente em si, concentrando-se em citar a passagem do vapor pelo porto como um dos lances decisivos do combate.
De onde veio então a épica descrição do corte da corrente de Porto Acre ? É preciso considerar que se trata de uma das histórias mais populares dentre os que gostam e contam a história das revoluções acreanas. Só nos resta então recorrer ao clássico e principal historiador da Revolução Acreana, Leandro Tocantins, que tratou a questão da seguinte maneira: “Os bolivianos, repetindo a tática de Humaitá, na Guerra do Paraguai, colocaram uma grossa corrente, de lado a lado do caudal. Os homens do Batalhão franco-atiradores ficaram incumbidos de serrá-la, quase inteiramente mergulhados, para livrarem-se dos projetis. O primeiro grupo não conseguiu realizar a tarefa, e só uma segunda tentativa, às ordens do italiano Ernesto Aosta, engajado às forças de Plácido, logrou o sucesso desejável: a corrente partiu-se meio a meio, desaparecendo nas abundantes águas do repiquete e sob contínuo fuzilar do inimigo.”
O curioso dessa descrição feita por Tocantins é que não constam outras fontes de onde ele teria encontrado essas informações sobre o corte da corrente, até porque as fontes que ele utilizou para descrever o combate de Porto Acre são aquelas que já citamos acima, que não descrevem o corte em si.



Daí serem necessárias algumas perguntas, tais como: porque aqueles que estiveram presentes ao combate não descreveram o corte da corrente, apesar de afirmarem ambos que ela foi cortada com muita dificuldade? Porque, como afirma Tocantins, a corrente teria sido cortada no meio do rio Acre cheio pelo repiquete se os acreanos dominavam a margem onde estava presa a tal corrente e seria muito mais fácil simplesmente soltar sua extremidade durante a noite? Se o corte da corrente foi tão repleto de lances heróicos por parte de acreanos e bolivianos não deveria ter sido tratado com mais relevo por parte daqueles que testemunharam os acontecimentos? Como Tocantins soube de detalhes não contados pelos protagonistas do episódio? Essas perguntas só poderiam ser respondidas imediatamente com especulações pouco fundamentadas.
Entretanto, não podemos desconhecer que existem diversos livros que trataram a Revolução Acreana de forma ficcional que propositalmente exageraram certos episódios para realçar o caráter épico da conquista do Acre. Além do que, não devemos ignorar tão pouco que, desde o fim da revolução acreana passaram a circular inúmeros relatos orais daqueles que lutaram efetivamente na guerra do Acre, ou por parte de seus descentes que ouviram contar sobre, e que nos legaram versões variadas sobre passagens que nunca foram registradas pela historiografia tradicional (lembrando, ainda, que alguns desse relatos chegaram a ser publicados em jornais acreanos dos anos 10 e 20 do século passado).
De onde surgiu, então, a lenda sobre o heróico corte da corrente no meio do rio Acre por um grupo de voluntários que tinham consciência que se tratava de uma missão suicida é, ainda hoje, um mistério que talvez nunca seja efetivamente confirmado ou negado. Porque assim é a natureza da história: imprecisa, contraditória e, por isso mesmo, fascinante.

* Adaptado de artigo publicado no Jornal “O Acre”, em dezembro de 1997.