domingo, 3 de junho de 2012
Cinco décadas de Estado do Acre (I)
Porque...
Nas esquinas da história acreana já se tornou antológica a bem humorada e contundente crítica feita ao governo por ocasião do cinquentenário da Revolução Acreana, em 1952. Diante da total inação governamental um jornal acreano publicou uma primeira página totalmente preta com letras brancas que diziam "Ficam adiadas para o centenário as comemorações do cinquentenário!"
Muitos historiadores se especializaram em criticar, nos últimos anos, a atuação do governo que vem se empenhando em não deixar que essa história se repita e tem desenvolvido diversas e intensas atividades comemorativas de alguns dos principais acontecimentos da história acreana que, diga-se de passagem, é tão cara para a sociedade em geral. Até porque esta é, inclusive, uma das obrigações constitucionais do estado brasileiro em seus diversos níveis.
Aliás, não devemos ignorar o fato de que a adoção de novos parametros curriculares transversais no sistema educacional, bem como a substituição do vestibular pelo Enem como forma de avaliação para o ingresso na universidade pública no Acre, vem trazendo um enorme prejuízo para as novas gerações de acreanos que crescem sem ter o minimo conhecimento da história local. Mas parece que isso não integra o rol de principais preocupações daqueles historiadores especialistas em criticar as ações governamentais de valorização e difusão da historia acreana.
Ouso até dizer que se dependessemos apenas da produção academica e não fosse o notório interesse dos acreanos, a atuação do governo e, ainda mais recentemente, de alguns jornalistas e blogs independentes que se dedicam a divulgar a história acreana, estaríamos diante da eminencia de algum jornal local ter que publicar uma primeira página totalmente em branco, porque não haveria sequer o que dizer diante de tamanha inércia... Mas, deixemos de conversar miolo de pote e passemos ao que de fato interessa...
Como...
Não seria possível compreender a importancia deste momento em que o Acre completa cinquenta anos desde que se tornou estado se antes não entendermos como isso afetava a vida dos acreanos nos sessenta anos anteriores a essa conquista. Aliás, de maneira geral, o processo histórico que resultou na criação do estado do Acre deve necessariamente ser analisado a partir de tres diferentes processos.
O primeiro diz respeito ao período em que o Acre permaneceu na condição de Território Federal e que durou 58 anos, de 1904 a 1962. O segundo trata da batalha legislativa que aconteceu no Congresso Nacional, entre 1957 e 1962, e que resultou numa intensa batalha politica aqui no Acre, na qual se digladiaram os mais diversos segmentos sociais acreanos, através do PSD e do PTB. E o terceiro que é constituido pelos ultimos cinquenta anos propriamente ditos em que o Acre já tornado um Estado autônomo da República brasileira precisou encarar o desafio de decidir e buscar seu proprio caminho.
Mas mesmo antes de dar início à análise destes tres diferentes processos não podemos prescindir de tratar, ainda que brevemente dos antecedentes da criação do Territorio Federal do Acre.
Antes...
São amplamente conhecidas as histórias da Revolução Acreana, que se estendeu de 1899 a 1905, período no qual se lutou contra a dominação boliviana no vale do rio Acre e peruana no Purus e no Juruá. Porém, poucos refletem sobre o fato de que a assinatura do Tratado de Petrópolis (1903) com a Bolívia e do Tratado do Rio de Janeiro (1909) com o Peru não encerrou a luta dos acreanos para conquistar seu direito à cidadania brasileira, pelo contrário.
Até o final da Questão do Acre não havia no Brasil o sistema de territórios federais. O país tinha acabado de concluir uma enorme mudança política com o fim da Monarquia e o início da República (1889) e passou a ser constituído por uma federação de estados autônomos. Isso vinha de encontro ao desejo republicano de descentralização em oposição ao forte papel desempenhado pelo governo central no período monarquico.
Mas, com a vitória dos revolucionários acreanos contra a dominação estrangeira de imediato puseram-se em confronto os interesses do Amazonas, que queria que as terras acreanas lhe fossem anexadas; do Pará, que não queria o aumento da participação amazonense no mercado internacional da borracha; e dos próprios acreanos que esperavam ver o Acre transformado no mais novo estado da Republica brasileira.
Ao vitorioso nesse confronto caberiam as ricas rendas da alfandega do Acre, maior produtor da borracha de melhor qualidade (a famosa Acre fina) de toda a Amazônia. Contrariando e surpreendendo a todos o Governo Federal decidiu, então, criar o exdruxulo sistema de Território Federal, a ser administrado diretamente pelo poder central. Matava-se, com isso, vários coelhos com uma só cajadada! Evitava-se acirrar ainda mais a disputa entre o Amazonas e o Pará, impedia-se também o aumento do poder dos seringalistas acreanos que passaram a ser temidos depois de vencer um conflito internacional às suas próprias custas e, não menos importante, passava-se a engordar o Tesouro Nacional com a ambicionada renda da borracha acreana.
domingo, 27 de maio de 2012
De livros e amores
Se não me engano, por diversas vezes escrevi aqui nesta coluna sobre a importancia dos livros em minha vida. Mas, se não falei deveria tê-lo feito. Porque, não consigo sequer imaginar o que seria viver sem eles. Gracas aos livros, desde muito cedo, viajei por mundos estranhos, exóticos. Vivi aventuras de tirar o folego. Conheci pessoas tristes, belas, violentas, sagazes, sedutoras, comuns. Me deparei com situações e sentidos que sequer seria capaz de supor serem possiveis.
E por uma questão de gratidão devo confessar que devo tudo isso a minha mãe. Foi Dona Wilma foi quem me ensinou a amar os livros e fazer deles parte indissociável de meus dias. Mesmo sabendo que muitas vezes ela deve ter se arrependido, ainda que docemente, quando eu deixava de estudar matemática pra acompanhar as aventuras de Tom Saywer, ou de estudar português pra mergulhar 20.000 léguas submarinas atrás da imaginacão alucinante de Julio Verne.
Por isso mesmo, um dos três livros que escolhi para falar durante o programa é um daqueles que li quando menino. A bela adaptação que Origenes Lessa fez de alguns mitos gregos que me encantaram e fizeram sonhar com hidras, centauros e deuses do Olimpo. Ah como eram emocionantes aquelas noites de sono perdidas\ganhas lendo até o dia amanhecer!
Assim como tambem não poderia deixar de falar no programa sobre essa minha outra paixão chamada história do Acre. E para tanto, nada melhor do que recorrer a outro apaixonado pela mesma perdição (porque paixão é sempre encontro e perdição, né não?), um cara chamado Euclides da Cunha. Só que dessa vez, tive que tratar de um livro que, apesar de intensamente planejado, por uma sutil ironia do destino, nem sequer chegou a ser escrito.
Estou falando, é claro, do “Paraiso Perdido”. Aquele que seria seu segundo livro vingador, como declarou o proprio Euclides, depois do retumbante sucesso de “Os Sertoes”. Afinal, como todos sabem, ele morreu depois de vir ao Acre e antes de ter tido tempo de escrever seu sonhado livro. Assim o “Paraiso Perdido” que nos chegou é na verdade um esboço do que poderia ter sido, gracas a reunião de textos diversos que ele escreveu sobre o Acre, mas que nem por isso são menos importantes ou belos do que poderiam ter sido aqueles que não chegaram a ser escritos... O que talvez sirva pra provar que mais do que de tinta e papel os livros são feitos de sonhos e desejos e muitas vezes é o que basta.
E pra terminar... Já que são apenas três livros a serem comentados em cada programa. Falei sobre um livro muito especial que me acompanha a décadas. Um livro muito diferente dos anteriores porque é milenar e tambem porque não foi escrito por uma só pessoa, mas vem sendo escrito e reescrito por muitas mãos ao longo de todo esse tempo.
Estou falando do “I Ching, o Livro da Mutações”, que os chineses inventaram há cerca de 5.000 anos. Ou melhor, que um personagem mítico, por alguns chamado como Fou Hsi, teria criado a partir da observação direta da natureza e do espírito humano. Um livro que muitas vezes é minimizado por também poder ser usado como oráculo, mas que é muito mais que isso. É, na verdade, um livro de historia, um tratado sobre ética e comportamento, uma obra admirável para a compreensão e condução de uma vida espiritual plena.
E o que é melhor. Um livro que, diferente dos livros sagrados ocidentais, não tenta individualizar modelos a serem seguidos através deste ou daquele personagem histórico e nem se apoia no surrado maniqueismo de nossa sociedade que hipocritamente se orienta pela lógica do bem em permanente luta contra o mal. Que até pode ser muito util na hora de escrever roteiros de cinema, convenhamos. Mas que vive a nos induzir a erros de avaliação e de reação diante dos desafios da vida.
O “I Ching”, pelo contrário, trata bem e mal, masculino e feminino, claro e escuro, quente e frio, etc. como meras manifestações da unidade de todos os seres e simultaneamente da pluralidade através da qual a vida se manifesta.
Enfim... Foi isso, em síntese, o que conversei durante a gravação desse programa que me deu muito prazer de participar. Até porque, alem do formato original e interessante, com a participação de comentadores além dos convidados, como voces poderão ver por si mesmos na terca-feira, 05 de junho, às 21:30, foi feito por uma equipe muito bacana, dirigida por Suzana Macedo e Izabel Jaguaribe. A quem agradeço demais a gentileza e carinho com que fui tratado. Assim como não posso deixar de agradecer à Bia Lessa que indicou meu nome para participar de um trabalho tão legal como esse. Espero voces por lá...
Obs - Pra quem quiser mais informações sobre esse interessante projeto sugiro ir ao site do Canal Futura, no link http://www.futura.org.br/livros-que-amei-nova-serie-mostra-as-obras-favoritas-de-convidados-especiais, ou no Face no endereço http://www.facebook.com/pages/Livros-Que-Amei
Aviso - Não vi o jornal impresso ainda, mas no site do jornal Página 20 a informação sobre o dia do programa está incorreta... lá consta que será na proxima terça-feira. Mas, como dito acima, será mesmo no dia 5 de junho.
domingo, 20 de maio de 2012
Que verdades? Que história?
O ano era 1962 e o Acre vivia um momento muito especial da sua história. Depois de uma longuíssima espera, 58 anos para ser preciso, os acreanos pela primeira vez poderiam eleger seu governador e deputados estaduais. Era o velho sonho da autonomia política que enfim se tornava realidade.
Aconteceu então uma épica e surpreendente campanha política que resultou na eleição do jovem acreano de Cruzeiro do Sul, José Augusto de Araujo que derrotou um dos maiores líderes políticos da história acreana: Guiomard Santos, exatamente o autor da lei que transformou o Território em Estado. Um episódio que ainda não foi devidamente compreendido pela história e que precisa, um dia desses, ser objeto de profunda pesquisa, já que sobre ele circulam diversas versões contraditórias.
O certo é que o mês de março de 1963 assistiu a posse do governador José Augusto e dos deputados constituintes que teriam a missão de escrever e aprovar a primeira constituição estadual no prazo de cem dias, sob pena de o Acre ser obrigado a adotar a Constituição do Amazonas.
O que se sabe com certeza é que ao invés deste ter sido o fim de um dos mais tristes episódios da historia acreana, significou na verdade o inicio do suplício à que o ex-governador foi submetido.
Foram longos seis anos de perseguição de José Augusto e seus familiares, de internações forçadas, num tipo de cárcere disfarçado, em hospitais que não ofereciam a menor condição de atender os sérios problemas cardíacos que ele tinha e que haviam sido muito agravados desde os duros episódios de 1964. Até que em 1971, em meio à profunda depressão e dificuldades de toda sorte, seu coração não mais aguentou tanto sofrimento e deixou de bater definitivamente...
Trágica ironia... Justamente o primeiro governador do Acre, que incorporou toda a esperança e anseios democráticos de uma sociedade secularmente renegada por seu país, foi sem ter sido. Porque aparentemente nada sofreu por parte da Ditadura. Ele não foi cassado oficialmente, renunciou. Ele não foi assassinado diretamente... foi sendo morto aos poucos... até não mais suportar e morrer de causa natural!
Este é o tipo de verdade com que a Comissão da Verdade terá que lidar... Aquelas verdades que não constam de documentos, que foi escamoteada, disfarçada, distorcida até parecer ser o que não foi... Entretanto, são essas verdades, ainda mais subterrâneas e obscuras que os malfadados porões da Ditadura, que ainda vivem dentro de milhares de vitimas diretas e indiretas dos anos de chumbo e que estão a clamar por justiça histórica... ao menos.
domingo, 6 de maio de 2012
O homem que venceu o tempo
O que um homem acumula ao longo de sua vida? Rancores e ressentimentos? Boas lembranças e conhecimento? Observar o que um homem deixa como herança e legado aos que vem depois dele, pode ser uma boa maneira de encontrarmos a resposta para essa essencial pergunta.
Abrir a porta daquele armario me provocou ao mesmo tempo enorme desespero e imensa animação. A pilha de pastas e envelopes recobertos por grossa camada do pó dos tempos de imediato revelava que os proximos dias seriam muito, muito, trabalhosos mas profundamente recompensadores.
domingo, 29 de abril de 2012
Mestre Irineu e a Esfinge Amazonica (II)
O movimento espiritual, cultural e social criado por Raimundo Irineu Serra - junto com outros homens como Daniel Mattos e Gabriel Costa - se espalhou desde sua genese por áreas da política, das instituições publicas e privadas, pelo campo artístico, simbólico e estéticos integrantes do Acre do século XX, e, por conseguinte, também do nosso próprio mundo pós-moderno.
Por isso, em certas passagens deste livro, seus autores se confrontam com questões relacionadas ao contexto político acreano. Momentos sobre os quais a aplicação de parâmetros gerais da história política brasileira ao caso do Acre e à atuação de Irineu junto às lideranças políticas locais, pode parecer extraordinariamente tentadora. Porém, no Acre não existe direita, centro, esquerda; neo-liberais, democratas ou socialistas da forma como nos acostumamos a pensar em relação ao Brasil.
Por força de seu contexto político diferenciado, como Território Federal desde 1904, os acreanos não tinham direitos políticos que os possibilitassem ter partidos e disputas eleitorais que consolidassem espectros ideológicos claramente definidos.
Daí, por exemplo, porque a Legião Autonomista que originou o PTB local e que teoricamente representava setores mais populares e “autonomistas” da sociedade, foi contra o projeto que transformava o Território Federal em Estado Autônomo, ao final dos anos 50. Ao passo, que o PSD, originado do antigo Partido Construtor e, portanto, pelo menos teoricamente, mais conservador, elitista e favorável às políticas do governo federal, foi quem levantou e defendeu o movimento que resultou na tardia criação do Estado do Acre, em 1962.
Da mesma forma não se pode transformar a amizade de Mestre Irineu com o Cel. Fontenele de Castro e com o Governador Guiomard Santos, lideres maiores do PSD acreano, que após 1964 seria transformado na Arena, em um possível apoio político à Ditadura Militar. Esta tentativa pode não ser mais do que uma extrapolação de inexistentes composições políticas e sociais do contexto acreano. Ao passo que se constitui num dos temas mais importantes do trabalho desenvolvido neste livro.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Dignidade Acreana
Quinta-feira, pela manhã, estava meio angustiado. Mesmo sem saber muito bem porque. Então, num impulso, fiz algo que havia se tornado muito comum pra mim nos últimos tempos: peguei o telefone e liguei pro Rivaldo Guimarães. Ele bem poderia me ajudar a encontrar algumas boas histórias e antigos autonomistas pra dar entrevista pro documentário que a TV Senado irá produzir, por iniciativa do Senador Jorge Viana, sobre os cinqüenta anos da transformação do Acre em Estado.
Mas, pra minha surpresa, não foi ele que atendeu e sim sua filha. E as noticias que ela me deu não eram boas. Ele estava naquele momento em São Paulo, na UTI do hospital, e seu estado de saúde era muito, muito, grave. Não preciso nem dizer que fiquei arrasado, tentando apenas não perder as esperanças de que ele conseguisse se recuperar que era tudo o que podia fazer neste momento. Porém, nem bem passava de uma hora da tarde quando recebi a noticia que Seu Rivaldo, como eu costumava chamá-lo, havia nos deixado.
* * *
Não faz muito tempo, desde que começou a ser veiculado o programa Papo ou História na Aldeia FM, me acostumei a falar com Seu Rivaldo praticamente toda semana. Na verdade, ele sempre foi um grande e disponível colaborador quando o assunto eram as coisas do Acre e de sua história. Mas agora com o programa de rádio ele me ligava constantemente, corrigindo minhas ratadas com tal arte e amabilidade que a conversa sobre este ou aquele detalhe das histórias contadas no rádio derivava por mil e um assuntos, cada qual mais fascinante e esclarecedor que o outro. Nunca menos que 30 ou 40 minutos de boa prosa, coisa de acreano.
E nem era pra menos. Seu Rivaldo, irmão de outro grande e saudoso amigo, Jorge Nazaré, transpirava alegria enquanto falava. Não havia lugar para coisas ruins ou maledicência contra quem quer que fosse em nossas longas conversas. Como quando me contou as hilárias histórias do Tomé Manteiga, enquanto eu bolava de rir do outro lado da linha. Ou como quando, animado, me contou da nova fase de seu clube do coração: o Juventus. Ele sempre via o lado luminoso das pessoas e dos acontecimentos. Sem dúvida nenhuma, reflexo do estado de espírito luminoso que ele manteve ao longo de toda a vida.
Só uma vez senti em sua voz certo pesar. Foi quando, no auge da animação de uma dessas nossas conversas, o chamei para sentarmos numa mesa de bar para podermos falar ainda mais longamente. Ele me disse, então: Podemos sim meu filho, apesar de minha situação de saúde ultimamente não me permitir nem mais tomar água direito. Ali entendi que aquele homem que amava intensamente a vida estava com sérios problemas de saúde que o machucavam muito. Mas, ele logo puxou outro assunto e nossa conversa retomou o ritmo e a animação costumeiras.
* * *
Não vou aqui cometer o pecado de tentar falar da biografia do Seu Rivaldo. Até porque se eu não fosse preciso nas informações ele certamente ficaria brabo comigo. Mas não posso me furtar de lembrar que esse homem extraordinário aqui desenvolveu as mais diversas atividades. Desde aluno brilhante do Colégio Acreano - a ponto de despertar a admiração dos que haviam ali entrado depois dele, como lembrou neste sabado o Senador Jorge Viana em emocionado discurso no momento de seu enterro - a plantador e vendedor de hortaliças que produzia no Bairro da Capoeira quando este nem era ainda conhecido como bairro, passando pela função de importante jornalista e influente formador de opinião e chegando ao posto de Juiz depois de se formar na primeira turma de direito da UFAC, quando esta ainda nem era chamada de UFAC.
Mas pra além de tudo, Rivaldo sempre foi um homem de bem, defensor do Acre e dos acreanos nas mais diversas circunstancias. Sua esposa Arnete Guimarães, num esforço sobre humano para conter a avassaladora tristeza que sentia, lembrou do amor que um dos muitos jovens acreanos que tiveram suas vidas recuperadas pela mão amiga do Juiz Rivaldo Guimarães declarou por aquele que considerava seu verdadeiro pai. Um momento de enorme emoção na despedida desse grande homem.
Na verdade, nesta semana eu deveria estar escrevendo a continuação do artigo iniciado semana passada, mas não poderia deixar de prestar hoje uma homenagem a esse acreano que, apesar de ter nascido na Paraíba, amava essa terra com todas as fibras de seu ser. Até porque ninguém vai me convencer que não foi ele mesmo quem estava me avisando de sua partida quando me vi ligando, aparentemente por acaso, para ele na quinta-feira, coisa de amigo.
Assim como não posso deixar de considerar absoluta verdade o que ouvi hoje em meio as homenagens a ele prestadas. Que Rivaldo Guimarães era exatamente como a água pura e boa de beber que existe no miolo do pote... essa água cristalina do generoso pote acreano que Seu Rivaldo, honrando nossas mais profundas raízes, passou a vida servindo aos que tinham sede.
Obrigado meu amigo, apenas desejo que sua nova jornada seja luminosa e cheia de amor como foi sua vida terrena. E tenha certeza que não haveremos de esquecê-lo.sábado, 31 de março de 2012
Mestre Irineu e a Esfinge Amazônica
Recebi o convite de Paulo e Edward para escrever esta apresentação como um imenso desafio. Afinal, como veremos adiante, a tarefa a que se impuseram estes excepcionais pesquisadores é das mais complexas e difíceis de realizar.
Dizer que o Acre, como de resto a própria Amazônia, é muito pouco conhecido ou compreendido pelos brasileiros em geral, seria apenas repetir uma idéia que já se tornou lugar comum no imaginário nacional. Uma idéia que está na origem das muitas brincadeiras e piadas como aquela que afirmava categoricamente que: “O Acre não existe”.
Mas o que diferenciaria o Acre tanto assim? Não deixa de ser curioso constatar que essas mesmas brincadeiras não são tão recorrentes em relação à outras regiões ainda mais distantes dos grandes centros do país. Isso nos faz refletir sobre o fato de que talvez o Acre possa ser realmente mais difícil de ser conhecido e/ou compreendido do que outras regiões da Amazônia.
Sem dúvida foi algo diferente, inusitado, singular, o que atraiu irresistivelmente ao Acre um de nossos maiores escritores, Euclides da Cunha, logo após o estrondoso sucesso do grandiloquente “Os Sertões”, sobre a Guerra de Canudos. Uma marcante experiência que o levou a afirmar, há mais de um século, que o Acre ainda estava “À Margem da História” brasileira.
Olhando sob essa perspectiva, não seriam, então, as piadas e as brincadeiras sobre o Acre, apenas reflexos de temores inconscientes despertados por um lugar que não só é distante e desconhecido, mas que, sobretudo, possui uma aura misteriosa, quase indecifrável e, por isso mesmo, pode parecer, de alguma forma, temível?
Para o leitor que pode estar achando isso tudo certo exagero de minha parte, talvez seja esclarecedor saber que, no início do século XX, este sentido se tornou tão comum e corrente que deu origem a uma expressão popular que usava o termo “Ir para o Acre” como sinônimo de “morrer”.
Mas, fiz toda essa digressão apenas para explicar porque, no dia em que conheci os autores do livro “Eu venho de longe” fiquei muito preocupado ao saber que o tema que os havia trazido até o Acre era a vida de uma das mais significativas e complexas personagens da trajetória acreana: o Mestre Irineu. Não consegui, então, evitar o pensamento: Isso não vai dar certo!

Afinal, se tentar compreender o Acre é um desafio colossal. O que dizer então sobre a tentativa de sistematizar a história de vida de um homem que foi capaz de criar uma nova e original religião, surpreendentemente originada nos mais profundos confins da floresta amazônica para se espalhar por todo o mundo, mobilizando milhares de pessoas das mais diferentes origens e culturas. Ou seja, Paulo e Edward, tinham, a meu ver, enormes chances de serem devorados por nossa particular esfinge amazônica.
É certo que, por aqui, muita coisa se conta sobre o Santo Daime. Ou sobre o enorme negro maranhense que comandava uma comunidade lá pras bandas da Colônia Custódio Freire e tinha fama de curador. Mas, escrito mesmo, em relação à vida do homem que promoveu uma verdadeira revolução espiritual neste pedaço perdido de floresta, sem que quase ninguém percebesse, muito pouca coisa.
Existe, isso sim, uma vasta bibliografia desenvolvida a partir do novo contexto que envolveu o Santo Daime desde que este começou a se expandir por outras regiões fora do Acre e da Amazônia. O que só aconteceu efetivamente após a morte de Irineu. Mas não custa ressaltar que são publicações e abordagens que não são aceitas ou difundidas, sendo muitas vezes repudiadas, pelos tradicionais seguidores de Mestre Irineu.
Por isso, quando, há cerca de dez anos, estive no Maranhão, participando de um encontro promovido pela Fundação Palmares. Fui tomado pelo impulso avassalador de procurar os caminhos por onde Raimundo Irineu Serra teria passado antes de vir para o Acre. Logo após o término do encontro do qual estava participando, visitei a Casa das Minas, as ruas do velho centro histórico de São Luis, com suas fontes públicas e túneis subterrâneos, nas quais tive encontros totalmente inesperados. Mas, como o instinto do pesquisador, às vezes, é irresistível, consegui ir até São Vicente de Ferre, cidade natal de Irineu.

Lá conheci o lugar vazio onde antes havia existido uma tapera de adobe e palha, na qual, segundo os moradores locais, teria nascido Irineu. Pouco depois, encontrei com um sobrinho de Irineu que conhecia bem a história do jovem que partiu pra ganhar o mundo e voltou, décadas depois, como um homem feito e dono de seu mundo, já que havia se tornado importante líder de uma comunidade. E, finalmente, fui ao pequeno e improvisado arquivo da paróquia da cidade onde encontrei o livro de registro de batismos no qual me deparei com uma informação nova. Ao invés de nascido em 1892, como difundido no Alto Santo e por todos seus demais seguidores, constava que Irineu havia nascido em 1890.
Esta, portanto, deveria ser uma informação importante para toda a comunidade daimista. Trouxe, então, a fotografia do registro onde constavam os nomes do pai e da mãe de Irineu, ou seja, sem margem a duvida de que se tratava dele mesmo. E, assim que cheguei, fui ao Alto Santo dar conta à Madrinha Peregrina do que havia encontrado. Ao que ouvi surpreso. “Que Bom! Você encontrou um documento sobre ‘Meu Velho’. Mas, se ele disse pra nós que nasceu em 1892, então nasceu em 1892 mesmo. Obrigada!”
Desde então a breve história acima descrita encerra para mim o inquestionável paradigma, ou paradoxo, da comunidade originalmente fundada por Mestre Irineu.
Obs: Sobre o processo de registro da Ayahuasca como Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira que está em curso, e é correlato ao tema que estou tratando neste artigo, recomendo a leitura do excelente artigo de Edson Lodi publicado neste mesmo jornal ontem, sábado.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Não dividam meu coração na curva do rio*
Todo mundo sabe que Brasiléia é uma cidade de fronteira. Afinal, poucos são os acreanos que nunca visitaram Cobija, do outro lado do rio, e seu comércio de mil e uma utilidades. Como quase todo mundo sabe também que ambas as cidades (Brasiléia e Cobija) surgiram de um acontecimento que marcou nossa história comum.
Mas pra quem não se lembra bem, não custa esclarecer que estou falando do famoso combate do Igarapé Bahia em que, nos idos de 1902, revolucionários brasileiros tomaram o barracão do seringal situado à margem desse igarapé. Com isso provocaram a reação de campesinos e gomales organizados na Coluna Porvenir que, a mando de Nicolas Suarez, promoveram a maior vitória dos bolivianos e o maior massacre de brasileiros ocorrido durante toda a "Guerra do Acre".
Pois foi esse combate que delimitou definitivamente que a fronteira "real" (e não apenas a "legal" dos Tratados) entre brasileiros e bolivianos estava demarcada nesta região pelas margens do Rio Acre. Do lado de lá do rio Bolívia, do lado de cá Brasil. Assim surgiria a premente necessidade de ocupar essa área, fazendo com que o General Pando ali fundasse a cidade de Cobija, ainda em 1906, e provocasse, em contrapartida, a fundação da Vila Brasília, em 1910, posteriormente renomeada Brasiléia.
E foi esta origem histórica - aparentemente tão antiga quanto pouco importante para nós outros que aqui vivemos, 110 anos depois, em 2012 - que deu origem a um problema concreto que atualmente está afligindo os moradores de parte de Brasiléia, apesar de ser ainda desconhecido pela maioria dos acreanos.
Eu mesmo não tinha a menor noção deste novo problema de fronteira até participar de uma missão de trabalho, organizada pelo Senador Jorge Viana, com o objetivo de documentar os estragos causados pela recente alagação, que praticamente destruiu o centro e outros bairros de Brasiléia, e assim auxiliar na captação de recursos para sua reconstrução.
Acontece que uma das áreas mais atingidas na cidade foi o bairro Leonardo Barbosa que, por estar totalmente situado na beira do rio, ficou 100% alagado. E, o pior, viu se agravar o desbarrancamento que há tempos provoca grande temor de seus moradores pelo risco de repentinamente ver suas casas deixarem de fazer parte do Acre e do dia pra noite se tornarem novamente território boliviano!
É isso mesmo. Uma parte de Brasiléia, do Acre, que poderia voltar a ser da Bolivia. O que seria de seus moradores então? Na hora tomei um susto e achei que era brincadeira. Mas, não é. Então fiz a unica pergunta óbvia e cabível nesta situação: mas como assim? Vamos até lá, que voce mesmo vai ver. Respondeu-me o funcionário que participava do atendimento dos alagados.
Acontece que o rio Acre é reconhecidamente um rio jovem e por isso seu leito definitivo ainda não está consolidado. Dai ele fazer tantas curvas ao longo de todo o seu percurso. Com o tempo essas curvas vão sendo desgastadas pela correnteza do rio até serem cortadas. Formam-se assim lagos, conhecidos por alguns como "sacados", que se tornam ótimos locais de pesca até serem recobertos pela vegetação e o tempo se encarregar de aterrá-los.
E não é que parte do bairro Leonardo Barbosa é constituida exatamente por uma dessas pronunciadas curvas do rio? E que o alto barranco onde foi construída a rua asfaltada que dá acesso a essa área do bairro está quebrando rapidamente, estando prestes a apartar? Dai a dúvida que assola seus moradores. Caso o rio aparte essa área, suas casas ficarão do lado de lá do rio e, portanto, passarão a fazer parte das terras bolivianas. Afinal, o que está do lado de lá do rio não é Bolívia?
O que fazer neste caso? Sinceramente... sei não! Só sei que se trata de um problema real, palpável, que deve ser encarado com seriedade porque poderá afetar dezenas de casas e centenas de moradores... Seria importante cuidar disso de forma preventiva para depois do problema efetivado não ter que agir emergencialmente. Porque, certamente o rio continuará a seguir seu curso e sua natureza, como acabou de nos mostrar inequívocamente.
Vai que de repente, surge um outro Galvez para de novo proclamar: Já que nossa pátria não nos quer e estrangeiros não queremos ser, criamos outra! E assistimos ao surgimento de um novo micropaís encravado entre o lado de lá e o de cá de nossa fronteira que, ninguem duvide, é viva.
Obs: Desculpem-me por esta conclusão/brincadeira final, não estou de nenhuma forma fazendo pouco da situação, mas simplesmente não resisti...
Obs 2: Só no momento em que estava diagramando essa página na redação do jornal, é que fui avisado que o professor Evandro Ferreira, também tratou deste assunto em seu blog Ambiente Acreano. Conhecendo a qualidade de seu trabalho, sugiro que interessados no tema o leiam.
* O título deste artigo é vagamente inspirado em um dos titulos de livros mais lindos que já vi: "Enterrem meu coração na curva do rio"
sábado, 17 de março de 2012
A história nos tempos do breve*
Mesmo nestes tempos de informação rápida e superficial, não podemos deixar de parar um pouco e olhar melhor pr'aquilo que passou. Quando não fosse por outro motivo, porque continua passando.
Varias pessoas ultimamente andam me cobrando textos mais curtos, sob pena de ser pouco lido. Não consigo deixar de achar que isso é sintoma dos Twiteres, Faces, Gtalks, etc. que nos assolam atualmente. Entretanto, vou fingir que não é nada disso e tentar seguir as lições de Eduardo Galeano (do qual falamos nessa coluna bem recentemente) mestre em contar histórias breves, mas com sentido.
Era uma vez um seringal (que não chegou a ser)
Há 130 anos surgia à beira do rio Acre um seringal com destino de cidade. Na verdade o que deveria ser mais um seringal, como tantos outros que surgiam do dia pra noite naquele distante ano de 1882, logo se tornou um porto pra vender, aviar, comprar, trocar, negociar um pouco de tudo, inclusive amores fugidios com que escapar da solidão das florestas, colocações e seringais.
E foram tantas as casas comerciais, os hotéis, os restaurantes, os cassinos e todos os demais tipos de serviços que se possa imaginar, que não teve alternativa. O porto cresceu, criou ruas, ganhou casas, esquinas, moradores, praças, gentes e jeitos de cidade, até se tornar a maior de todo esse lugar. Mas nunca deixou de ser meio seringal, meio porto, meio floresta, meio cidade, meio rua, meio rio... E é por isso que, em certas ocasiões, tudo se mistura de novo, como neste ano de 2012.

Os ossos do Barão
Há 100 anos morria o Barão do Rio Branco, em cuja homenagem se nomeou essa cidade - que não tem nenhum rio "branco", mas sim um rio "acre" - porque não foi por questão de cor, mas de gosto que as pessoas fizeram questão de aqui permanecer, mesmo contra todas as evidencias e consequencias.
O que me lembra aquela musica: "Quem parte, quem fica! O que significa". Porque neste mesmo ano de 1912 em que partiu o Barão, chegava às terras acreanas outro homem que haveria de também mudar boa parte de nossa história: Mestre Raimundo Irineu Serra.
Cidadãos, enfim!
Há 50 anos os cidadãos acreanos deixavam de ser apenas aqueles que moravam nas cidades e seringais para se tornarem seres políticos de fato, como deveriam ter sido por direito desde sempre. Assim, em 15 de junho de 1962 terminava a maldição do Território Federal do Acre.
Uma praga bem rogada que, desde 1904, não permitiu que os acreanos comandassem seu próprio destino, forçando-os a engolir governantes desconhecidos, autoritariamente impostos pelo governo federal. E o pior é que nem o fato da maioria destes governantes não demonstrar nenhum outro compromisso com o Acre a não ser o de enricar o máximo possivel no menor tempo possível, fez com que o governo brasileiro reconhecesse o absurdo da situação.
Foi necessária uma longa batalha no Congresso Nacional - que se arrastou por cinco anos, entre 1957-1962 - e uma intensa mobilização (através dos comitês Pró-autonomia) para que os acreanos pudessem enfim desfrutar de uma cidadania plena. Nada demais, enfim, apenas os mesmos direitos básicos de todos os outros brasileiros.

O que alguns não querem lembrar
Há 35 anos, em 1977, tinham início as primeiras pesquisas arqueologicas a serem feitas no Acre. Um trabalho extraordinário realizado pela equipe do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) que - mesmo sem as facilidades tecnológicas com que contamos atualmente, tipo: gps, google earth, etc. - conseguiu revelar dezenas de sítios arqueológicos. De barco, de jipe, de pés, a partir das informações generosamente dadas pelo moradores destas terras e florestas, começava a se descortinar nosso passado profundo nas margens do Purus, do Iaco, do Iquiri, do Acre, do Juruá, do Tarauacá, do Muru.
Não podemos esquecer que, até então, a história do Acre começava em meados do século XIX e que, desde então, passou a ser contada em milhares de anos. Um grande salto para o conhecimento da trajetória humana nos altos rios desta Amazônia ainda incompreendida.
O que alguns querem que se esqueça
Há 20 anos, tão generosamente quanto havia recebido quinze anos antes, o Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) deu à Célinha, uma acreana do pé rachado, a oportunidade de realizar a primeira escavação arqueológica sistemática no Acre.
Financiado pelo Smithsonian Institution, graças aos esforços de Ondemar Dias e Betty Meggers, o trabalho realizado no extraordinário Sítio Los Angeles, que atualmente seria genérica e pobremente reduzido à condição de "geoglífo", foi um marco na pesquisa arqueológica no Acre porque nos forneceu inéditas e fundamentais informações deste sítio que é um dos principais e mais ricos já descobertos na Amazônia Ocidental.
Pena que aqueles que praticam uma propaganda sensacionalista de sí próprios, mal disfarçando seus evidentes interesses financeiros, insistam em querer apagar esse pioneiro e importante trabalho. Só mais um exemplo daquela velha história já cantada por Caetano: "Narciso acha feio o que não é espelho". Mas não adianta, porque há verdades que nunca poderão ser apagadas, quando não fosse por mais nada, apenas porque são simples e incorruptíveis verdades e assim, quando menos se espera, sempre haverão de voltar à tona.
Geografia de nós
Há apenas tres dias nos deixou esse grande brasileiro chamado Aziz Ab'Saber. Um homem que fez da ciencia e do Brasil as causas de sua vida. Este geógrafo que amava sua profissão, como poucos atualmente, nos fez ver e pensar a Floresta Amazônica, a Caatinga, a Mata Atlantica, o Cerrado, como nenhum outro antes. O Brasil perde assim um intransigente defensor e uma referencia, não só científica, mas principalmente ética. Enfim, deixamos de contar com a presença deste homem íntegro que carregava o "saber" em seu próprio nome, mas não com seu exemplo. E este haverá de permanecer como motivação para todos os que não aceitam as iniquidades cometidas em nome da vaidade ou de uma falsa idéia de "ciência" em nosso país.
Obs: Como muitos devem ter percebido, este artigo é, na verdade, introdução e roteiro de alguns dos temas que iremos tratar na coluna "Miolo de Pote" deste ano. Além do que, sob a desculpa de escrever pouco, acabei, como sempre, escrevendo demais. Tenho jeito mesmo não!
* O título deste artigo é vagamente inspirado no titulo do celebre romance de Gabriel Garcia Marques: "O amor nos tempos do cólera."


