sábado, 4 de fevereiro de 2012

Da descoberta do amor

Aproveitando que dois de fevereiro foi dia de homenagearmos Iemanjá e que acabei de voltar da beira mar...

Lembro-me bem, apesar de já estar chegando aos cinquenta, dos primeiros amores de minha vida. Afinal, amor de menino é assim: puro, inocente, ingênuo, mas intenso e definitivo. E, o melhor, agora eu sei, provoca na gente um tipo de lembrança que faz juz ao sentido do termo “recordar”: do latim re cordis, voltar ao coração. Memórias tão profundas e entranhadas em mim que ao sair de algum canto recôndito de meu ser e voltar ao coração fazem a respiração falhar, o corpo estremecer e a mente sorrir. Como é bom ser menino e crescer com coisas boas pra lembrar.
Pois bem, toda essa onda de explicita nostalgia foi só pra introduzir o assunto do artigo de hoje. É que, neste inicio de ano, finalmente, levei meus pequenos pra conhecer o mar... E tenho que confessar que a simples expectativa de fazer isso me encheu de lembranças. Porque, como nasci em Copacabana e cresci no Flamengo, ambos bairros com praias, vivi muitas histórias boas ou terríveis no mar.




Assim, como numa preparação ao que iria acontecer me pus a lembrar de como era bom passar o dia inteiro na praia numa época em que sequer existia essa coisa de filtro solar e as meninas cultivavam a lenda de que passar coca-cola melhorava o bronzeado. Lembrei de quantos castelos de areia construí e de como catava os “Tatuís” enterrados para povoar meus magníficos castelos destinados a desaparecer na primeira onda mais forte que viesse lamber as areias onde eu brincava. E de como era bom ter o corpo inteiro coberto pela areia quentinha de sol e depois sair rolando todo “enfarofado” até alcançar a água. É que, em nossa inocência, não sabíamos ainda das famigeradas micoses que certamente estariam escondidas naquela areia aparentemente tão branquinha e limpinha. Assim como podíamos realizar intermináveis guerras de nossas temíveis “bombas de areia”, feitas com areia molhada recoberta por areia seca e que tornávamos bolas perfeitamente esféricas graças à sutil arte de menino, sem que nenhum adulto brigasse com a gente já que no fim da tarde a praia ficava vazia e era toda nossa.


Mas, nenhuma outra lembrança voltou com tanta força, nestes dias pré-viagem, que a sensação, impregnada de absoluta certeza, de que era o mar que gostava de mim e brincava comigo mandando pequenas ondas nas quais me jogava pra que elas me levassem até a areia, só pra voltar pulando, correndo e rindo pra mergulhar de novo “furando” a próxima onda. Rapaz!!! Olhando hoje pra essas imagens, que vejo quando fecho os olhos, tenho novamente a sensação, impregnada de absoluta certeza, de que o mar foi meu primeiro grande amor de menino. Afinal, naquela época eu não me interessava ainda por meninas, a não ser como companheiras ou rivais de brincadeiras. Além do que é óbvio que não to contando com o amor de/pela mãe, porque esse não está fora, já nasce com a gente, existe desde sempre, ou se preferir, desde o ventre.
Por isso, não é difícil imaginar como eu estava ansioso por ver meus meninos na praia. Como reagiriam? Conseguiriam superar o medo natural dessa entidade tão grande e poderosa que é o mar? Saberia eu conduzir seus primeiros passos mar adentro como meu próprio pai havia feito comigo?
Mas minhas preocupações logo se revelaram uma grande besteira. Foi lindo ver a surpresa nos olhos deles já ao pisar na areia quente. Então é assim que é a praia pai? Começa com essa longa travessia, driblando gente, quarda-sóis, barcos de pesca e vendedores ambulantes? E o que dizer da água gelada, então? Pai!!! A água é salgada, olha só! Diziam os dois quase ao mesmo tempo enquanto passavam a língua pelos lábios e descobriam por eles mesmos aquelas coisas que não pode ser explicadas ou contadas, devem ser vividas pra se tornarem verdadeiras. Menino! Não faz isso que essa água é suja!!!


Não demorou muito pra que o Yago, do alto de seus sete anos, se jogasse na primeira ondinha que ousou desafiá-lo. Enquanto Vinicius, com toda a “cautela” que Deus houve por bem lhe dar, graças a Deus, experimentava entrar só até a canela pra então voltar pra areia. E, desconfiadamente, bem de acordo com seus cinco anos de forte personalidade, entrar de novo na água pra ir até o joelho e voltar pra areia. E repetir o mesmo processo até que a água chegasse à sua cintura, sua barriga, seu peito, onde decidiu: aqui já tá bom. Chega!


Daí pra frente foi presenciar, satisfeito, as mesmas cenas que meu coração de menino guardava já faz tanto tempo. Os meninos bolando na areia, o prazer das ondas que vem e vão jogando a gente pro raso e pro fundo numa interminável brincadeira, a construção de novos e efêmeros castelos de areia, os barcos chegando repletos de peixes de cores e formatos ao mesmo tempo atraentes e estranhos. Até que o por do sol, pr’além do fim do mar, definisse chegada a hora de ir pra casa, em meio a infinitos e invencíveis protestos de meus meninos felizes.



Pois foi assim que foi. E isso tudo não passaria de pequenas lembranças de férias, não tivesse o Yago, nesta semana, me perguntado: Pai a gente pode ir pra praia de novo no mês que vem? Foi quando não pude deixar de sorrir de sua inocência e ficar feliz por perceber que meu menino havia encontrado um dos primeiros amores de sua vida.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Humanas raízes de uma certa Gameleira


Diz o ditado popular que santo de casa não faz milagre. Uma homenagem como a que aconteceu na terça-feira no histórico Cine-teatro Recreio desmente essa “verdade” ao valorizar o que o Acre tem de melhor: pessoas que fizeram das dificuldades da vida um infinito universo de possibilidades. A seguir o texto de abertura da cerimônia.

Eurilinda Figueiredo interpretando o texto de abertura da cerimonia - foto Val Fernandes


Senhoras e Senhores..., Sejam todos bem vindos esta noite...

Talvez não exista no mundo outra terra
mais misteriosa ou surpreendente que o Acre.
Quando menos se espera é daí mesmo que sai
o que ninguém seria capaz de supor...
Pois nossa história de hoje é bem assim mesmo...
Surpreendente e, de certa forma, talvez, mágica...

Voltemos então no tempo... até os idos de 1930...
só pra lembrar como tudo se deu...

Eram anos tristes aqueles...
A borracha não tinha mais preço. Muitos seringais fecharam... outros se apequenaram pra sobreviver. Muita gente foi embora pra nunca mais voltar... outros ficaram de teimosos que eram...
O governo brasileiro não queria nem saber do Acre. Se havia sido assim antes, quando o Acre ainda dava dinheiro, imagina agora que só dava prejuízo pra Capital, o longínquo Rio de Janeiro...
Mas..., como se diz nas mais velhas histórias... É no lodo apodrecido dos pântanos, dos igapós, que surgem as mais belas flores... sejam elas flores de Lótus, sejam Vitórias Régias... É assim que é... sabedoria antiga...

O personagem Raimundo Doido que anunciava os filmes do Cine Recreio (aqui interpretado por Ivan de Castela) - foto Val fernandes

Pois foi assim que, em 1934, surgiu uma pequena alegria no horizonte acreano... Os novos ares da Revolução de Getúlio finalmente chegavam por aqui e os acreanos pela primeira vez experimentariam o doce sabor da democracia elegendo deputados para falar por nós lá na distante capital... E... neste mesmo ano nasceria por aqui um menino que tantas alegrias ainda nos daria...
Mais um ano, 35, e seria a vez da menina que estamos homenageando hoje chegar a esse mundo acreano, lá no antigo seringal São Luiz do Remanso... pra logo vir pra cá, pra cidade, pro Quinze, pra crescer e frutificar...
E nem bem o mundo mudava, em plena convulsão da nova grande guerra que chegava, numa quarta feira de dezembro de 39, vinha a um Acre, novamente rico por sua borracha, o terceiro de nossos ilustres homenageados, o ultimo a chegar, mas justamente aquele que seria encarregado de nos contar o que viu desde então...
Portanto, Senhoras e Senhores, sem mais delongas... quero dizer que esta noite aqui estamos pra falar de três personagens... três filhos diletos da cidade que amamos...

Uma mulher que aprendeu e... por bem saber... vive a ensinar...
Um homem que sabia escrever e... com que arte e alegria nos descreveu...
Outro homem que traz a musica dentro de si e... por isso toca... e como nos toca...


Os tres homenageados - João Donato, Guajarina Margarido e Artur Leite, representando seu pai Zé Leite - foto Adonay Melo

E por falar em musica... não sabemos, na verdade, se estes três personagens se conheceram de fato... Mas certamente estiveram juntos muitas vezes, ainda que não soubessem uns dos outros. Afinal, não havia muita coisa pra se fazer em Rio Branco naqueles idos dos anos quarenta em que cresceram e se tornaram gente...
É que aos domingos, na praça, sempre havia uma retreta bem executada pela Banda da Guarda Territorial e sou capaz de jurar que por lá eles se encontraram... num dia qualquer de suas vidas... e como estamos aqui pra lembrar... pedimos que a Banda da Policia Militar, descendente direta daquela outra da Banda da Guarda..., nos lembrem... quem sempre fomos e... orgulhosamente, com nossos pés rachados, ainda somos...
(Neste momento a Banda da PM executou o Dobrado Capitão João Donato e, logo em seguida o Hino Acreano)

OBS: Ah sim! E para quem não pôde ir à cerimônia, mas gostaria de ter ido, aviso que a TV Aldeia, que transmitiu o evento ao vivo para todo o Estado do Acre, promete exibir uma reprise na próxima terça-feira (17/01), às 21 horas.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O mundo todo é aqui

(Entre o Paraná dos Mouras e Porto Walter)

Neste ano viajei por boa parte do interior do Acre. Agora já conheço todos os municípios acreanos. Isso me levou a tentar escrever uma série de artigos para outra coluna de jornal que estava planejando. A tal coluna aconteceu, a série que iria se chamar “Viagem ao interior do Acre” não. Assim, pra abrir o ano da coluna Miolo de Pote, hoje trago o artigo que deveria ter inaugurado aquela série.

“Acreditar em Mil Acres,
Na força dos fracos,
Ficar por aqui...”
(Beto Brasiliense)

Assim que chegamos ao lugar da reunião vimos um tranquilo senhor que aguardava na porta do auditório. Um rápido olhar era capaz de denunciar que aquele homem, que atendia pelo original nome de Javan, já havia vivido muito e que nem sempre as coisas lhe tinham sido fáceis. Um olho castigado, quase fechado, dava uma estranha assimetria ao seu rosto repleto de rugas e marcas do tempo e contrastava com o corpo bem ereto, sem sinais aparentes de fragilidade. Ainda assim possuía tal brilho no olhar e no inacreditável sorriso que não dava margem a duvida quanto à dimensão de sua dignidade. O que logo foi confirmado quando lhe perguntamos sua idade: 94 anos.
A conversa iniciada na porta se estendeu até o interior do auditório, enquanto as pessoas chegavam e se acomodavam para o programado encontro com os dois senadores. E mesmo sentados distantes um do outro o Senador Jorge Viana e Seu Javan continuavam conversando, quase sem perceber a grande movimentação de pessoas que acontecia ao redor. Até que o Senador não resistiu e se levantou para ficar novamente junto dele.
E, em poucos minutos, Seu Javan contou uma parte de sua longa trajetória.
- Seus pais vieram de onde?
- Vieram do Pará.
- É mesmo? Não é fácil encontrar pessoas do Pará aqui pelo Acre. Eles vieram quando?
- Em 1895. Vieram para o Paraná dos Mouras e por lá se estabeleceram.



- E como o senhor veio parar aqui em Porto Walter?
- Bem, eu tinha vinte anos, lá onde a gente morava não tinha mulher e eu queria ganhar a vida. Por isso vim pra cá, trabalhar com seringa que naquele tempo dava muito.
- É mesmo? Era movimentado, então?
- Rapaz era bom demais, só de vapores grandes vinham cinco todos os anos...
E, enquanto Seu Javan recitava de memória, sem titubear, os nomes dos tais vapores grandes, o povo espalhado na sala, agora cheia, começava a ficar impaciente com a extensão daquela conversa que parecia não ter fim. Refletindo o momento, o Prefeito decidiu então ir começando as falas no microfone. Mas nem isso foi capaz de interromper a conversa dos dois.
- E o senhor já foi a Rio Branco Seu Javan?
- Que nada menino. A cidade maior que conheço é Cruzeiro do Sul.
Neste momento, nem o som dos alto falantes que se sobrepunham as todas as outras vozes, foi capaz de apagar a surpresa do rosto do Senador que já teve a oportunidade de viajar por meio mundo.
- Quer dizer que o senhor nunca saiu daqui?
- Não meu filho.
- Mas... O senhor quer ir a Rio Branco? Eu o levo...
- Quero não meu amigo. Tô feliz por aqui mesmo...
Neste ponto se tornou totalmente impossível continuar a conversa. Primeiro porque todos no auditório estavam pra lá de ansiosos com tanta espera e depois porque o impacto da convicção com que Seu Javan via o mundo era avassalador e não deixava espaço para outras considerações. Ele acabara de revelar, com imensa simplicidade, o mesmo tipo de conhecimento profundo que já foi expresso há milhares de anos atrás, por outro grande sábio, lá no distante oriente: “A noção de que cada ser no mundo é um mundo em si.” (Confúcio).


Também pudera. Como é imenso o mundo de Seu Javan! Tem o tamanho da grandeza do Juruá e de suas florestas que se estendem pra muito alem de onde alcança a vista. Um mundo tão incomensurável que poucos devem ser capazes de efetivamente conhecê-lo no espaço de uma vida...
Era fim de tarde quando deixamos Porto Walter. Nos meus ouvidos ainda ecoava o olhar, o sorriso e as palavras de Seu Javan que, generosamente, acabara de ensinar o sentido de ter uma boa vida. Impossível não entender, então, que pra ser feliz não precisamos de nada daquilo que nos acostumamos a desejar em nossa tragicômica sociedade de consumo desenfreado, mas apenas amar nosso lugar e dar valor a cada pequena conquista da vida.
Grande Seu Javan!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Rosalina (3ª Parte)*

Qual seria o segredo das histórias que ficam e das que desaparecem? Eu não sei! Só sei que esta é uma daquelas histórias que se contam em voz baixa e grave, mas que nunca consegui esquecer...

“Não existiria som se não houvesse o silêncio.
Não haveria luz se não fosse a escuridão.
Silenciosamente eu te falo com paixão.
Eu te amo calado (...)”
Lulu Santos

(...)Nesses tempos felizes, Rosalina freqüentava os filmes que eram exibidos no Cine-teatro Recreio e suspirava como todas as suas amigas pelos galãs de cinema. (...)Bem poderia aspirar a um ótimo casamento. Principalmente se fosse com um desses moços bonitos e bem vestidos que não paravam de chegar e que faziam mocinhas reunidas para um sorvete nas mesas do Pavilhão Acreano, rir e corar nervosamente.

Não demorou muito para que finalmente o coração de Rosalina balançasse por um desses interessantes homens desconhecidos. Coube a um piloto de avião que vinha regularmente ao Acre a sorte de despertar o amor de Rosalina e dela se enamorar tão profundamente que não tardaria a lhe propor casamento. Quando Praxedes soube da notícia do eminente casamento de Rosalina se desesperou. Até aqui o acaso lhe beneficiara e nunca mais Lázaro tinha encontrado Rosalina na rua enquanto prestava serviços forçados na limpeza das vias públicos. Por isso Praxedes havia conseguido manter sua farsa de falsas cartas trocadas. Lázaro, com sua rude inocência, acreditava quando a falsa Rosalina lhe escrevia dizendo que também simpatizava com ele, mas que não poderia lhe falar, ou sequer lhe dirigir o olhar, porque sua mãe nunca permitiria tal coisa.
Mas ela não disse que não gosta de mim, pensava Lázaro, sem desconfiar que tudo não passava de uma mentira de seu igualmente apaixonado amigo jornalista. Por isso, tão logo soube da notícia do casamento de Rosalina, que segundo alguns já tinha até comprado o vestido de noiva, Praxedes decidiu escrever aquela que seria sua última carta falsamente assinada por Rosalina. Nela contou para Lázaro que um súbito amor teria arrebatado seu coração e que por isso não poderia mais escrever para aquele que agora julgava ser seu melhor amigo. Pedia ainda ao Lázaro que àquele amor tão belamente confessado nas cartas anteriores se voltasse para sua recuperação, já que um dia ele sairia da prisão e teria então uma nova chance de encontrar alguém que o merecesse mais que ela.


Lázaro ficou transtornado ao ler a carta de despedida daquela que havia se tornado a razão de sua vida. Gritou com toda força de seus pulmões que a mataria e que nunca poderia permitir que ela pertencesse a outro homem. Praxedes, assustado, tentou acalmar a fúria cega que havia aflorado de Lázaro e temeu pelo pior. Mas era tarde, o mal estava feito e agora era rezar para que o tempo cuidasse de aplacar as dores de seus corações partidos.
Porém, mais uma vez o destino foi ingrato e levou a um encontro que nunca deveria ter acontecido. Exatamente no dia seguinte da malfadada carta de despedida da falsa Rosalina, Lázaro foi posto junto com outros presos para roçar o capim da rua onde ficava a casa da mãe da simpática professora. Lázaro chegou a pensar que era uma coisa de Deus aquela oportunidade de se vingar da mulher que parecia tão meiga e fraternal, mas que na verdade o havia usado e agora estava jogando-o fora como se fosse um brinquedo velho e quebrado. Lázaro estava tão cego pelo ódio que quase não percebeu quando Rosalina saiu da casa de sua mãe para ir à escola, como fazia todos os dias. Ao vê-la tão serena depois de ter escrito aquelas monstruosidades na carta do dia anterior, Lázaro sentiu seu ódio aumentar a um ponto insuportável e apertou com força o cabo do terçado com que cortava o capim da rua.

Todos os outros presos que trabalhavam junto com Lázaro sentiram o peso que pairava no ar e interromperam automaticamente seu trabalho ao ver aquele homem que transpirava ódio no meio do pó da rua. Rosalina também sentiu que havia alguma coisa errada e olhando para a frente viu aquele homem estranho vindo em sua direção. Sorrindo como sempre, apesar de se sentir inexplicavelmente nervosa Rosalina ainda tentou perguntar o que afligia aquele homem evidentemente tão abalado, mas não conseguiu articular a frase que lhe escapava dos lábios. Só teve tempo de ver o brilho da lâmina do terçado que cortou violentamente o ar para se cravar em seu coração.
A sombra que emanava dos olhos daquele homem mergulhado em raiva e rancor tomou conta do corpo de Rosalina que caiu inerte no chão. Imediatamente todos os outros presos pularam sobre Lázaro e impediram-no de se matar, consumando o que ele mais desejava então, morrer junto com sua amada Rosa1ina.
O que aconteceu com o Praxedes, depois desse dia terrível, não se sabe ao certo. Mesmo o fim de Lázaro é desconhecido. Enquanto alguns dizem que ele se matou, outros contam que ele apareceu morto exatamente no dia em que teria chegado uma ordem do Supremo Tribunal para soltá-lo. Não são poucos os que contam ter visto espíritos atormentados vagando no meio da noite pelos corredores do prédio da Prefeitura de Rio Branco, a antiga penitenciária.
O certo é que o túmulo da professora Rosalina sempre foi um dos mais visitados do cemitério São João Batista e muitas são as pessoas que lhe fazem promessas e dizem ter recebido dela as graças pedidas.

* Texto publicado na revista Outras Palavras, n. 17, julho de 2002.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Rosalina (2ª Parte)*

Existem acontecimentos que se perdem no pó dos tempos. Outros ficam pra sempre gravados na memória de homens e mulheres. Surgem assim, nas ruas e esquinas das cidades, vozes que não se calam, anônimas, coletivas, fugidias, longínquas. Qual seria o segredo das histórias que permanecem?

“A vida é mesmo assim,
dia e noite, não e sim.
Cada voz que canta o amor,
não diz tudo que quer dizer.”
Lulu Santos


(...)Foi uma longa noite de insone de sonhos. Logo pela manhã, por uma estranha armadilha do destino, Lázaro recebeu a visita de Praxedes, o único que lhe procurava prisão já que ele não tinha mais ninguém neste Acre de meu Deus. Não suportando mais tantos desejos e sonhos lhe sufocando o coração, Lázaro contou para Praxedes sobre seu amor por Rosalina, que a tudo ouvia atordoado e incrédulo.

Nunca antes Praxedes, um jornalista que havia coberto o crime cometido por Lázaro e desde então se aproximara dele, havia visto seu contido amigo tão animado, tão vivo e feliz. Pelo contrário, mesmo sendo Praxedes o único que parecia perceber o homem que havia por trás da rudeza aparente de Lázaro, durante as poucas conversas dos dois, havia sempre um bloqueio, uma parede imposta por Lázaro, que impedia o jornalista de compreender os verdadeiros motivos daquele homem embrutecido e condenado pela sociedade.
Mesmo ao tentar chamar Lázaro à realidade mostrando-lhe que Rosalina nunca poderia ser sua, Praxedes foi de certa forma contagiado por aquela fervorosa paixão e vislumbrou por um breve momento a possibilidade de ver seu amigo voltar a vida. E num momento de absoluta insensatez prometeu a Lázaro que escreveria uma carta para Rosalina em seu nome. Se por acaso houvesse qualquer chance de correspondência de seu amor essa seria a melhor e mais correta forma de saber.
A partir desse dia foi como se Praxedes tivesse descoberto, também ele, um motivo para esperar cada novo dia. O hábil jornalista procurou se informar sobre a Professorinha Rosalina, seus hábitos, suas ocupações, seus gostos e preferências. Passou então a procurar vê-la na praça e a esperar a hora em que ela costumava sair da escola para subir a poeirenta Avenida Getulio Vargas até a casa de sua mãe. Logo percebeu, ele também, o encanto extraordinário de seu inocente sorriso.


Vista da Avenida Getúlio Vargas, início da década de 40, Relatório do governador Luís Silvestre G. Coelho

Ao sentar para cumprir sua promessa Praxedes viu frases cheias de amor e apaixonada poesia se sucederem rápidas e fluidas pelas folhas de papel. A imagem de Rosalina não saía de suas retinas e lhe perturbavam a alma. Num sobressalto, Praxedes viu que, ele também, estava sucumbindo à força daquela, aparentemente, frágil e doce menina e pôs-se a chorar. Sentiu o peso de sua vida perdida entre ruas sujas e manchetes de jornal e suas lágrimas molharam o papel da carta que ele escrevia por Lázaro.
Mas ele nunca havia pensado realmente em mandar carta nenhuma para Rosalina. Por isso, depois de mostrá-la para Lázaro, Praxedes a guardou com carinho, apesar de garantir a seu amigo que a enviaria. Conforme se passavam os dias sem resposta de Rosalina, Lázaro entristecia e se apagava cada vez mais. Os dias nublados do inverno chuvoso pareciam colaborar com a tristeza do prisioneiro que ansioso esperava ver através do alambrado da Penitenciária um rápido vislumbre que fosse de sua amada.
O jornalista começou a ficar preocupado com o que Lázaro poderia fazer. Talvez até decidisse por fim à própria vida diante de tamanha desilusão. Foi quando Praxedes cometeu seu segundo e pior erro. Em parte por causa da tristeza de Lázaro e em parte por causa de sua própria paixão por Rosalina. Decidiu responder em nome da professorinha a carta que, na verdade, nunca havia enviado. Assim ele iria animar Lázaro e, ao mesmo tempo, poderia escrever outras cartas de amor para sua terna Rosalina, antes de fechá-las num envelope e guardá-las para sempre na gaveta. Esse deveria ser um segredo só deles.
Assim, rapidamente se passaram as semanas enquanto aqueles dois homens apaixonados mandavam e recebiam cartas de uma Rosalina que só existia em seus sonhos...
Indiferente a isso tudo, a Rosalina de verdade, dona daquela peculiar beleza cabocla das mulheres acreanas, tocava sua vida como qualquer outra moça de sua idade. Ainda mais porque os anos 40, que estavam só começando, se revelavam como tempos extremamente movimentados. A Grande Guerra estourou na Europa e as rádios e pessoas não comentavam outro assunto. A borracha subiu rapidamente de preço e trouxe uma súbita e bem-vinda prosperidade como há muito não se via. Os entendidos nas coisas dos mercados internacionais diziam que isso era só o começo e a borracha ainda iria subir muito mais até o fim da Segunda Guerra Mundial. Bons ventos sopravam no Acre que parecia novamente renascer graças ao velho e bom ouro negro de outrora.

Grupo Escolar Sete de Setembro onde a Profª. Rosalina trrabalhava (no local do atual Palácio das Secretarias), Relatório de Hugo Carneiro, 1929.


Nesses tempos felizes, Rosalina freqüentava os filmes que eram exibidos no Cine-teatro Recreio e suspirava como todas as suas amigas pelos galãs de cinema. Nova, boa professora e simpática como só ela sabia ser, Rosalina bem poderia aspirar a um ótimo casamento. Principalmente se fosse com um desses moços bonitos e bem vestidos que não paravam de chegar e que faziam as mocinhas reunidas para um sorvete nas mesas do Pavilhão Acreano, rir e corar nervosamente.

*Texto publicado originalmente na coluna “Histórias das Margens”, Revista “Outras Palavras”, n. 17, julho de 2002.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Rosalina (1ª Parte)*


Semana passada o mestre-jornalista Elson Martins me lembrou de uma data que eu não gostaria de deixar passar em branco. Disse-me que no dia 25 de novembro passado completaram-se 70 anos desde a morte da Professora Rosalina da Silveira. Um crime incompreensível que contei há alguns anos atrás na Revista Outras Palavras e que, mesmo tendo sido censurado por isso, arrisco trazer de volta pra esta coluna.

“Não existiria som se não houvesse o silêncio.
Não haveria luz se não fosse a escuridão.
A vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim.
Cada voz que canta o amor,
não diz tudo que quer dizer
Tudo que cala fala mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão.
Eu te amo calado (...)”
Lulu Santos**


Existem acontecimentos que se perdem no pó dos tempos tão logo tenham passado. Outros ficam pra sempre gravados na memória de homens e mulheres, dos que estiveram presentes ou não, dos que cantam e dos que ouvem. Surgem assim, nas ruas e esquinas das cidades, vozes que não calam, anônimas, coletivas, fugidias, longínquas. Qual seria o segredo das histórias que ficam e das que desaparecem? Eu não sei! Só sei que esta é uma daquelas histórias que se contam em voz baixa e grave, mas que nunca consegui esquecer...


Penitenciária Ministro Vicente Rao, atual prédio da Prefeitura Municipal de Rio Branco.


Quando Hugo Carneiro construiu, em meados dos anos 20, o quartel da Força Policial do Território do Acre (no mesmo lugar onde está até hoje o quartel da PM) começou a levantar também a Penitenciária bem ao lado (o mesmo prédio que foi transformado no Hotel Chuí e depois na atual sede da Prefeitura de Rio Branco) e que só foi concluído alguns anos depois pelo Governador Epaminondas Martins. Atrás da Penitenciária Ministro Vicente Rao ficava o pátio onde os presos todos os dias tomavam banho de sol. Como se esse pátio não era cercado de muro, mas por um forte alambrado de arame, Lázaro podia ver quando Rosalina saía de casa para ir às compras, e não conseguia evitar que fortes sensações tomassem conte de seu coração tão rude e calejado. Logo ele que era temido pelos outros presos devido a sua fama de valentia e frieza, se via tomado por um estranho calor e ternura sempre que via a bela Rosalina. Como não podia evitar esses sentimentos Lázaro tratava de ao menos ocultá-los. Tinha vergonha porque o que sentia por Rosalina não era o desejo carnal que conhecera por outras mulheres, mas algo que o enchia de pensamentos e sonhos incompreensíveis.
Realmente, a jovem professora Rosalina era conhecida, não tanto por sua beleza, mas por uma simpática alegria que contagiava a todos os que se aproximassem dela. Ninguém conseguia ficar triste diante daquele sorriso que parecia acender o dia. Para todos os que a encontravam Rosalina tinha palavras e olhares carinhosos. Era bom estar perto daquela moça simples e humilde que apenas começava a tomar ares de mulher.
Lázaro nunca se iludiu ou cultivou a esperança de um dia poder dizer pra Rosalina tudo que se passava dentro dele. Até que numa certa ocasião, num belo dia de sol, ao sair de sua casa e passar ao lado do pátio dos fundos da penitenciaria, Rosalina levantou a cabeça descuidadamente e viu Lázaro que a olhava fixamente. Nesse momento o coração de Lázaro se perdeu num louco carrossel de pensamentos e sentimentos confusos. Poderia ele almejar o amor de tão singela criatura? Seria possível esquecer todo seu passado de sofrimento e crimes para ser feliz ao lado daquela linda mulher que o fazia tão insensato quanto um menino sonhador que acredita que o impossível não existe? Enquanto tudo isso se passava como um raio pela cabeça de Lázaro, Rosalina desapareceu descendo a rua em direção a escola.

Serviços de terraplanagem para a construção da Praça Rodrigues Alves, década de 40, Relatório do governador Luís Silvestre G. Coelho


Naquela noite Lázaro não dormiu. Não conseguia parar de pensar em Rosalina. Imaginava-se beijando aqueles lábios, abraçando aquele corpo macio e tendo direito a uma vida simples, com casa, filhos e cachorros no quintal. No fundo só queria mesmo a aurora de outro dia pra poder ver novamente a luz daqueles olhos. Foi uma longa noite de insone de sonhos. Logo pela manhã, por uma estranha armadilha do destino, Lázaro recebeu a visita de Praxedes, o único que lhe procurava prisão, já que ele não tinha mais ninguém neste Acre de meu Deus. Não suportando mais tantos desejos e sonhos lhe sufocando o coração, Lázaro contou para Praxedes sobre seu amor por Rosalina, que a tudo ouvia atordoado e incrédulo...

*Texto publicado na coluna “Histórias das Margens”, Revista “Outras Palavras”, n. 17, julho de 2002.
** Pra quem não se lembra ou não chegou a ver, esclareço que os artigos da coluna “Histórias das Margens” sempre começavam com um trecho de música que tentava induzir o leitor a um certo tom e ritmo para a leitura dos textos (Por isso sugiro que antes de ler, se cante a musica citada).

sábado, 26 de novembro de 2011

Histórias em Dó Maior*


Como nas duas ultimas semanas publiquei artigos sobre integrantes da Banda da Guarda Territorial, atual Policia Militar, para completar nosso cenário, hoje trago recortes de jornais e livros que retratam parte da história musical acreana ao longo dos tempos.

“Do acampamento boliviano alguém grita em português: ‘Abílio faz o favor de tocar tua flauta’. E Abílio ‘le obsequia con La Siciliana, ejecutada com maestria y sentimiento musical y excuchada por ambos os contendores con silencioso recogimiento’. Logo mais, a melodia sentimental de Abílio é substituída pela musica sibilante das armas.” (Assim Leandro Tocantins descreveu um dos mais notórios episódios ocorridos durante o combate de Porto Acre, em janeiro de 1903, através do qual se evidencia que éramos inimigos, pero no mucho; in Formação Histórica do Acre, 1979:157)

“CIUME E... BALA
Na Casa Floquet, á Avenida General Olympio da Silveira, costumam reunir-se á noite alguns rapazes a as poucas mundanas desta Villa em palestras mais ou menos intimas, que degeneram sempre em danças extravagantes e suarentas, ao som de um grammophone cabuloso e impertinente.” (Noticia veiculada no jornal “O Rio Acre” de Rio Branco em 14/02/1909, pag. 4. Qualquer semelhança com a forma como, às vezes, os jornais locais tratam certas ocorrências das madrugadas no Calçadão da Gameleira, é mera coincidência.)

“NOS DOMINIOS DA ARTE DO SILENCIO
A nossa cidade pode ufanar-se do explendido cinematographo que possue. A empreza ‘EDEN’ teve razão quando deu ao seu sympathico centro de diversões a divisa ‘O MUNDO DEANTE DE NÓS’(...)
Para amanhã, domingo está annunciada a bellissima obra dramatica, extrahida da opera do mesmo nome, "A BOHEMIA", de Musset, cujo successo está affirmado.
O film é dividido em 4 apparatosos actos de grande espectaculo, trabalhados pelos artistas da "Comedia Franceza", de Paris.
A orchestra "Voluntarios da Lyra", caprichoso conjunto musical de pau e corda da qual fazem parte os divertidos rapagões Urias Raulino, José Marçal, Nito Moreira, Manoel Ferreira, F.Coringa e João Noleto, tem emprestado ás sessões do "EDEN" apreciavel realce (...)” (Matéria do jornal “A Capital” de Rio Branco, publicada em 06/08/1921, pág. 2, no Cine-Eden que foi mais tarde transformado no nosso Cine-teatro Recreio, onde está rolando nesta semana o Festival Pachamama)

“SOCIEDADE SPORTIVA E DRAMATICA TARAUACAENSE.
“ALMA ACREANA”.

Está sendo ansiosamente esperada pelo publico desta cidade a representação dessa interessante burlêta de costumes regionaes, em 3 actos, da autoria do nosso jovem e talentoso collaborador Dr. José Potyguara da Frota da Silva, qual segundo estamos informados, subirá á luz da ribalta, em premiére, no proximo dia 8 de dezembro (...)
O enredo de “Alma Acreana”, cujo desempenho occupa 25 personagens, desenvolve-se em um dos nossos seringaes, na época actual, e está entremeado com uma linda e adequada partitura de 19 números de musicas inéditas do festejado maestro Mozart Donizetti (...)” (Matéria do jornal “A Reforma” publicado na Cidade Seabra, atual Tarauacá em 30/11/1930, através da qual fiquei sabendo dessa peça legitimamente acreana que desapareceu no tempo e que eu adoraria ver remontada)


“ESTREOU O JAZZ-ORQUESTRA DE ZYD-9
Estreou na noite do dia 27do fluente, com agrado geral, o Jazz-orquestra de ZYD-9, recém chegado de Belém, onde tocava na “Boite Garé” daquela capital, constituindo, provisóriamente, um conjunto com os musicos Raimundo Estácio Neves, Saxofone; Sandoval Teixeira de Araujo, Clarinete; Elias Ribeiro Alves, Banjo, e Mario do Carmo Pires, bateria, ressentindo-se ainda o magnifico conjunto da falta do piston-trompete e do seu pianista, os quais ainda estão viajando com destino a essa cidade.
São todos eles solistas consumados e com um largo e atualizado repertório que irá melhorar, por certo, a programação da Rádio Difusora Acreana, executando os ultimos sucessos musicais em boleros, foxs, sambas, chorinhos, mambos, etc, etc.
Vem assim preencher uma lacuna que se fazia sentir em nossa Rádio Emissora, e a sua estréia do dia 27, sob o comando do locutor Alfredo Mubarac e dirigida pelo Prof. Raimundo Neves constitui-se um verdadeiro sucesso.” (Matéria do jornal “O Acre” de Rio Branco, publicada em 07/10/1951, pág: 3, e que nos faz lembrar o tempo em que a Rádio Difusora estava na vanguarda das artes no Acre.)

“O ESPIRITO DA COISA - DEU NO QUE DEU
A fórmula é simples: coloque num lugar fechado e calorento mais de mil pessoas, sirva bastante bebida alcóolica e coloque prêmios em dinheiro para atiçar a competição. Serve para as lutas de boxe e para a finalíssima do Famp. Deu no que deu. (...)
Mas valeu o trabalho musical de Damião, o espetáculo de Pia e Felipe, a coragem de Francis Mary denunciando a repressão e o esforço dos demais participantes. Agora, rumo ao festival de praia do Amapá, onde quem esquentar a cabeça leva um caldo.” (Trecho da Coluna do Toinho Alves no jornal “O Rio Branco”, publicada em 13/07/1983, quando ainda havia FAMPs e Festivais no Amapá... Bons tempos, apesar de todos os pesares da época.)


* Material extraído, dentre muitas outras notícias de época, da revista “Registro Musical”; Rio Branco, FGB-MinC, 1998; Silvio Margarido, Jorge Nazaré, Danilo de S’Acre e Marcos Vinicius Neves;

domingo, 20 de novembro de 2011

Zeca Torres II

Como estou imerso na III Conferencia Municipal de Cultura e como na semana passada, trouxe pra coluna o texto sobre o Zeca Torres I, achei justo, além de mais prático também, trazer nesta semana o artigo sobre o Zeca II, contraparte popular do outro.

José Evangelista Torres também conhecido como Zeca Torres Pequeno devido a sua pequena estatura e para diferencia-lo do Zeca Torres I (o compositor anterior) que era alto. Além do nome, os dois Zecas Torres tinham mais uma semelhança, o extraordinário talento musical. Mas as coincidências acabam ai. Zeca Torres II tinha um temperamento completamente oposto ao primeiro. Além de adorar uma bebida, seu estilo musical era alegre e popular, onde predominavam sambas e marchas. A todo momento durante essa pesquisa deparávamos com as histórias do Zeca Torres Pequeno. Ou seja, por seu estilo de vida, ele tornou-se um personagem folclórico da musica acreana.




De seus dados biográficos mais específicos, pouco sabemos. Existe uma controvérsia entre as fontes quanto à sua origem. Enquanto duas informações nos dão conta de que Zeca Torres II era do Piauí, outras duas nos contaram que ele era natural do Ceará. Seja como for, em meados da década de 40, ele já fazia parte da Banda da Guarda Territorial, compondo uma extensa e variada quantidade de musicas, seja para serem tocadas pela Banda, seja para serem cantadas em festas populares. Além disso, consta que passou uma temporada em Sena Madureira, na década de 50, onde teve inclusive uma escola de sanfona.
Mas a principal característica de Zeca Torres II ficou mesmo registrada pela memória popular acreana. Reza a lenda que todas as vezes que ele ia preso, e ia muito graças à bebida, ele fazia uma musica, normalmente com o objetivo de sair da prisão. São comuns, por isso, as marchas, valsas e outras composições suas oferecidas aos comandantes da Guarda ou às suas esposas. É preciso dizer que normalmente o expediente funcionava e ele era libertado. Aliás, uma de suas mais famosas canções trata exatamente deste tema e era mais ou menos assim:
"Encarcerado eu me achava,
triste relembrando a minha dor,
a lua que no céu brilhava,
sorria docemente da minha dor"




Outro episódio que é sempre lembrado quando o assunto é Zeca Torres Pequeno foi-nos contado da seguinte forma:
“Certa vez ele vinha do outro lado, bêbado que só o diabo, e nesse tempo não tinha ponte, era catraia. Ai ele queria atravessar e o catraiero devia estar do lado de cá, porque sempre tinha um de plantão. Ele chamou: Catraiero ! Catraiero ! E nada do catraiero aparecer, e tava querendo chover, e já chuviscando, parece que o catraiero tava cochilando e nada de aparecer. Ai ele pegou uma canoa vazia que estava encostada e foi remar, mas não sabia remar e a canoa começou a descer de rio abaixo. Ai ele gritou, Seu Zé da Rocha...(era um catraiero antigo que tinha aqui)...
Seu Zé da Rocha venha me salvar
a canoa vai descendo e eu não sei remar !

Pronto! No outro dia a cidade tinha mais um samba!”


Vai meu samba

Vai meu samba
Despertar aquela ingrata
Que dormindo não escuta serenata
Vai meu samba
Dizer a ela bem baixinho
Que eu vivo tão só
Sem amor e sem carinho
Você meu samba que nasceu
De um botequim
Reconheça as minhas mágoas
Ninguém sofre igual a min
A minha vida
Triste vida igual a sua
Hei de morrer cantando
E namorando a lua.
Autor: Zeca Torres Pequeno

domingo, 13 de novembro de 2011

Zeca Torres I *

Silvio Margarido andou postando em seu blog (O Reino da Detonação) os textos da revista “Registro Musical”, da qual participei junto com ele, Jorge Nazaré e Danilo de S’Acre (ou seja, o Bicho de três cabeças). E dessa postagem resultou um interessante comentário. Coisas da internet...

José da Costa Torres, ficou mais conhecido como Zeca Torres I, ou primeiro, ou Zeca Torres Grande, em oposição ao outro Zeca Torres (Pequeno). Seja como for que o chamemos, o que conta é que este acreano de Xapuri foi um dos maiores músicos da história do Acre.
Zeca Torres I integrou-se à Banda da Polícia Militar, provavelmente no início da década de 40, aonde chegou à posição de Contramestre. Seu estilo musical acompanhava a personalidade de homem polido, que não bebia, e concentrava-se na composição e execução de musicas lentas como foxes, valsas e boleros. Mas sua fama se devia à facilidade para compor e escrever musicas, preparando as pautas a serem executadas pela Banda com extrema fluência e rapidez.
Consta que certa vez, ao integrar um conjunto que iria fazer uma alvorada no Segundo Distrito, Zeca Torres e seus companheiros ficaram fazendo hora em um bar, esperando que as luzes da cidade fossem apagadas às 11 horas da noite, como era a pratica então. Em meio à conversa alguém disse que seria bom se tivessem preparado uma musica especial em homenagem à filha do dono da casa onde iriam tocar a alvorada. Ao que Zeca Torres I perguntou o nome da moça: Orieta. Dito isso, pediu ao dono do bar um papel de embrulho e por lá ficou rabiscando. Na hora marcada, os músicos atravessaram o rio e ao chegar a casa onde seria executada a alvorada Zeca Torres pediu uma lanterna e executou uma valsa inédita que ele havia composto no pouco tempo em que estiveram no bar, escrita em papel de embrulho, e que foi devidamente instrumentalizada no dia seguinte. Nome da valsa: Orieta.

Esta habilidade musical era reafirmada todas as vezes que artistas de fora do Acre vinham aqui se apresentar e necessitavam dos serviços dos músicos da Banda para o acompanhamento de seus shows. Foram várias situações em que artistas de renome nacional, ao confrontar-se com sua aptidão musical, perguntavam:
- Você é de fora do Acre?
Ao que ele respondia sempre com simplicidade.
- Não, eu sou de Xapuri mesmo, do seringal.
Em uma dessas ocasiões, em que o artista Alcides Gerard ensaiava com integrantes da Banda da Guarda Territorial, ele disse:
- Rapaz eu tô chateado porque tem um samba que eu gosto muito, mas que não veio na bagagem.
Diante disso, Zeca Torres I perguntou-lhe.
- O senhor canta esse samba há muito tempo?
- Canto.
- Como é o samba?
Alcides Gerard começou a cantarolar o samba e o Zeca Torres, assim de lado, anotava tudo em um papel. Depois instrumentou toda a composição e distribuiu pros outros músicos da banda e disse:
- Agora o senhor pode cantar seu samba.
- Mas eu não trouxe
- Pode cantar, que já ta ai.
Ai ele cantou e no fim da musica chegou pro Zeca Torres e perguntou:
- Você disse que aprendeu musica em Xapuri?
- Foi.
- Você é um gênio homem. Você vai pro Rio de Janeiro que eu vou conseguir pra você fazer umas gravações.



Com efeito, pouco tempo depois chegou um telegrama do Alcides Gerard chamando Zeca Torres pra ir ao Rio. Zeca aposentou-se e foi, mas não chegou a gravar. Acontece que na semana da gravação Zeca Torres foi assistir a um jogo do Vasco da Gama, seu time do coração, e não suportando a emoção, teve um fulminante ataque cardíaco que apagou uma das mais brilhantes estrelas musicais que o Acre já teve.**

Stefany Nascimento deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Registro Musical":***
Olá!!
Estava fuçando por aqui e achei esse blog que por sinal é muito interessante... Parabéns!!!
Fico imensamente feliz e agradecida por essa postagem linda sobre Zeca Torres I... Sou bisneta dele e é muito gratificante ver seu nome "reconhecido" como um dos maiores músicos da história do Acre... Agradeço de coração em nome de toda a família Torres... Um forte abraço...

* Texto publicado originalmente na revista “Registro Musical”; Rio Branco, FGB-MinC, 1998;
** Artigo selecionado para a coluna desta semana com a co-participação de Silvio Margarido on-line graças ao G-Talk.
*** Pra quem quiser ir direto à fonte o link é: http://reorientando.blogspot.com/2008/11/registro-musical.html

domingo, 6 de novembro de 2011

“Guia históricamente incorreto da propaganda do Brasil”

Se o cara queria fazer propaganda de si mesmo... conseguiu. Vendeu uma penca de livros e ganhou um bocado de grana. Bom negócio, portanto. Mas, convenhamos, o meio que ele escolheu para se auto-promover beira o mau-caratismo. Terá sido então tão bom negócio assim?

Já deve estar óbvio que estou falando do livro que andou freqüentando a lista dos mais vendidos no ano passado e que só agora tive oportunidade de ler: o “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”. O próprio site do livro anuncia gloriosamente que este livro vendeu mais de 200.000 exemplares. Ou seja, um best seller e sonho de consumo de qualquer editora. Ainda mais nestes tempos bicudos em que os tablets renovam a ameaça de que o mercado editorial esteja em crise tal como o mercado fonográfico.
E a fórmula de tanto sucesso é simples. Pegam-se alguns dos personagens e processos históricos mais conhecidos pela sociedade brasileira e os desqualificam radicalmente através de uma simplória e superficial remontagem de informações históricas. Com isso ganham-se sensacionais manchetes destinadas a promover a polêmica e, é claro, por tabela também seu autor.
Por exemplo: a FEIJOADA NÃO É BRASILEIRA e nem foi inventada pelos escravos nas senzalas sendo, na verdade, um produto da culinária européia; SANTOS DUMONT NÃO INVENTOU O AVIÃO e nem o relógio de pulso; ZUMBI DOS PALMARES ERA ESCRAVISTA; e assim por diante...


Do alto dessas manchetes polêmicas seu autor, um jornalista paranaense, surfa numa crítica ácida que o leva a conclusões inacreditáveis e por vezes muito, muito, perigosas. Talvez, se ele tivesse se limitado a tentar desconstruir paradigmas cristalizados da história nacional a partir de pesquisas aprofundadas o resultado fosse bastante interessante até. O problema é que, além da evidente superficialidade de algumas de suas abordagens, aqui e acolá lança mão de comentários “engraçadinhos”, mas completamente irresponsáveis.
Vejamos o caso que nos diz respeito mais de perto para exemplificar o que acontece também com outros temas do livro. Um dos capítulos do livro diz respeito ao Acre e ao suposto preço que teria sido pago por ele como resultado de sua anexação ao Brasil. Percorrendo o texto fica evidente que o autor, além de ter se baseado predominantemente em uma única fonte (a Formação Histórica do Acre, de Leandro Tocantins), não faz justiça à fonte citada ao distorcer boa parte de suas conclusões sem embasamento suficiente para tanto. A impressão que passa é que nem leu realmente todo o trabalho de Leandro Tocantins antes de concluir que o Acre “não vale o que a gata enterra” (para usar o dialeto local).
Os exemplos do que afirmo acima são muitos e não caberiam no espaço deste artigo. Mas, por exemplo, quando afirma que o Acre deu e continua dando prejuízo ao Brasil ignora solene e, acredito que também, propositalmente, que durante todo o primeiro ciclo da borracha o Acre deu muito lucro ao governo brasileiro se pagando muitas vezes. Nem precisaria procurar em teses e dissertações recentemente elaboradas. Tivesse seu autor consultado outro clássico da historiografia acreana como A conquista do Deserto Ocidental de Craveiro Costa, teria descoberto que o Acre se tornou Território Federal exatamente por conta da ganância do governo brasileiro em arrecadar os ricos impostos sobre a borracha que, em menos de cinco anos, pagou com sobras o que foi gasto com a indenização à Bolívia e a construção da ferrovia Madeira-Mamoré.
Mas parece que ceder à tentação de acompanhar a preconceituosa, infeliz e polêmica afirmação do Diogo Mainardi feita anos atrás no programa Manhatan Connection sobre o Acre não valer o preço de um pangaré era poderosa demais pra ser desperdiçada. Afinal este livro e sua venda milionária vivem exatamente disso: polêmicas a qualquer preço.
Outro exemplo eloqüente do tipo de falácia praticada pelo autor do referido livro nem faz parte deste. Não faz muito tempo, quando da divulgação das fotos aéreas dos índios isolados em nossa fronteira com o Peru, o jornalista fez uma crítica à veracidade da caracterização destes povos como isolados já que numa das fotos uma das meninas carregava um terçado de metal. Para ele isso seria o bastante para provar que estes índios não tinham nada de isolados...
Parece desconhecer o douto jornalista, sem entrar no mérito de sua intenção no caso, que o termo correto que se emprega atualmente para designar estes povos indígenas que permanecem sem contato com nossa sociedade é: “povos em isolamento voluntário”.
Ou seja, com isso se deixa claro que o tal “isolamento” não significa NENHUM contato, mas sim uma escolha autônoma destes grupos de não manter RELAÇÕES permanentes ou temporárias conosco, mas sem significar que contatos - que são, inclusive, muito perigosos para ambos os lados - entre índios e não-índios não ocorram eventualmente, o que nos dias de hoje - em que o assédio de madeireiros peruanos e narcotraficantes é permanente nas áreas dos isolados - seria impossível.
O perigo de tais conclusões superficiais e destinadas a atrair a atenção da mídia é que alguém mais apressado e mal-intencionado pode logo concluir: mas se estes índios não são verdadeiramente isolados então não precisam de cuidados diferenciados e tem que ser tratados como todos os outros povos indígenas do país. O que poderia ser uma verdadeira tragédia para a sobrevivência dessas populações.
Com este tipo de abordagem só poderíamos concluir que seu autor é um completo irresponsável. Mas quando ficamos sabendo que ele é egresso da redação da revista Veja, um dos veículos de comunicação mais reacionários deste país, as coisas começam a fazer mais sentido. Além do que, se o objetivo primordial do autor era se promover ele de fato conseguiu. Tanto que já foi lançado um novo livro: o Guia Politicamente Incorreto da História da América Latina. Mas, sinceramente, continuo achando que esse tipo de sensacionalismo barato acaba sendo um péssimo tipo de propaganda porque é claramente fajuto e se torna depreciativo de quem o pratica.