domingo, 6 de novembro de 2011

“Guia históricamente incorreto da propaganda do Brasil”

Se o cara queria fazer propaganda de si mesmo... conseguiu. Vendeu uma penca de livros e ganhou um bocado de grana. Bom negócio, portanto. Mas, convenhamos, o meio que ele escolheu para se auto-promover beira o mau-caratismo. Terá sido então tão bom negócio assim?

Já deve estar óbvio que estou falando do livro que andou freqüentando a lista dos mais vendidos no ano passado e que só agora tive oportunidade de ler: o “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”. O próprio site do livro anuncia gloriosamente que este livro vendeu mais de 200.000 exemplares. Ou seja, um best seller e sonho de consumo de qualquer editora. Ainda mais nestes tempos bicudos em que os tablets renovam a ameaça de que o mercado editorial esteja em crise tal como o mercado fonográfico.
E a fórmula de tanto sucesso é simples. Pegam-se alguns dos personagens e processos históricos mais conhecidos pela sociedade brasileira e os desqualificam radicalmente através de uma simplória e superficial remontagem de informações históricas. Com isso ganham-se sensacionais manchetes destinadas a promover a polêmica e, é claro, por tabela também seu autor.
Por exemplo: a FEIJOADA NÃO É BRASILEIRA e nem foi inventada pelos escravos nas senzalas sendo, na verdade, um produto da culinária européia; SANTOS DUMONT NÃO INVENTOU O AVIÃO e nem o relógio de pulso; ZUMBI DOS PALMARES ERA ESCRAVISTA; e assim por diante...


Do alto dessas manchetes polêmicas seu autor, um jornalista paranaense, surfa numa crítica ácida que o leva a conclusões inacreditáveis e por vezes muito, muito, perigosas. Talvez, se ele tivesse se limitado a tentar desconstruir paradigmas cristalizados da história nacional a partir de pesquisas aprofundadas o resultado fosse bastante interessante até. O problema é que, além da evidente superficialidade de algumas de suas abordagens, aqui e acolá lança mão de comentários “engraçadinhos”, mas completamente irresponsáveis.
Vejamos o caso que nos diz respeito mais de perto para exemplificar o que acontece também com outros temas do livro. Um dos capítulos do livro diz respeito ao Acre e ao suposto preço que teria sido pago por ele como resultado de sua anexação ao Brasil. Percorrendo o texto fica evidente que o autor, além de ter se baseado predominantemente em uma única fonte (a Formação Histórica do Acre, de Leandro Tocantins), não faz justiça à fonte citada ao distorcer boa parte de suas conclusões sem embasamento suficiente para tanto. A impressão que passa é que nem leu realmente todo o trabalho de Leandro Tocantins antes de concluir que o Acre “não vale o que a gata enterra” (para usar o dialeto local).
Os exemplos do que afirmo acima são muitos e não caberiam no espaço deste artigo. Mas, por exemplo, quando afirma que o Acre deu e continua dando prejuízo ao Brasil ignora solene e, acredito que também, propositalmente, que durante todo o primeiro ciclo da borracha o Acre deu muito lucro ao governo brasileiro se pagando muitas vezes. Nem precisaria procurar em teses e dissertações recentemente elaboradas. Tivesse seu autor consultado outro clássico da historiografia acreana como A conquista do Deserto Ocidental de Craveiro Costa, teria descoberto que o Acre se tornou Território Federal exatamente por conta da ganância do governo brasileiro em arrecadar os ricos impostos sobre a borracha que, em menos de cinco anos, pagou com sobras o que foi gasto com a indenização à Bolívia e a construção da ferrovia Madeira-Mamoré.
Mas parece que ceder à tentação de acompanhar a preconceituosa, infeliz e polêmica afirmação do Diogo Mainardi feita anos atrás no programa Manhatan Connection sobre o Acre não valer o preço de um pangaré era poderosa demais pra ser desperdiçada. Afinal este livro e sua venda milionária vivem exatamente disso: polêmicas a qualquer preço.
Outro exemplo eloqüente do tipo de falácia praticada pelo autor do referido livro nem faz parte deste. Não faz muito tempo, quando da divulgação das fotos aéreas dos índios isolados em nossa fronteira com o Peru, o jornalista fez uma crítica à veracidade da caracterização destes povos como isolados já que numa das fotos uma das meninas carregava um terçado de metal. Para ele isso seria o bastante para provar que estes índios não tinham nada de isolados...
Parece desconhecer o douto jornalista, sem entrar no mérito de sua intenção no caso, que o termo correto que se emprega atualmente para designar estes povos indígenas que permanecem sem contato com nossa sociedade é: “povos em isolamento voluntário”.
Ou seja, com isso se deixa claro que o tal “isolamento” não significa NENHUM contato, mas sim uma escolha autônoma destes grupos de não manter RELAÇÕES permanentes ou temporárias conosco, mas sem significar que contatos - que são, inclusive, muito perigosos para ambos os lados - entre índios e não-índios não ocorram eventualmente, o que nos dias de hoje - em que o assédio de madeireiros peruanos e narcotraficantes é permanente nas áreas dos isolados - seria impossível.
O perigo de tais conclusões superficiais e destinadas a atrair a atenção da mídia é que alguém mais apressado e mal-intencionado pode logo concluir: mas se estes índios não são verdadeiramente isolados então não precisam de cuidados diferenciados e tem que ser tratados como todos os outros povos indígenas do país. O que poderia ser uma verdadeira tragédia para a sobrevivência dessas populações.
Com este tipo de abordagem só poderíamos concluir que seu autor é um completo irresponsável. Mas quando ficamos sabendo que ele é egresso da redação da revista Veja, um dos veículos de comunicação mais reacionários deste país, as coisas começam a fazer mais sentido. Além do que, se o objetivo primordial do autor era se promover ele de fato conseguiu. Tanto que já foi lançado um novo livro: o Guia Politicamente Incorreto da História da América Latina. Mas, sinceramente, continuo achando que esse tipo de sensacionalismo barato acaba sendo um péssimo tipo de propaganda porque é claramente fajuto e se torna depreciativo de quem o pratica.

1 comentários:

  1. Ei, chefinho, uma outra coisa: No livro, ele fala da expressão "ir para o Acre" como sinônimo de morrer. Segundo ele, ela surgiu na época da ferrovia Madeira-Mamoré, quando dos 22 mil trabalhadores foram enviados à região, 2 mil morreram. Mas, o que tem a ver a Ferrovia com o Acre??

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