domingo, 13 de novembro de 2011

Zeca Torres I *

Silvio Margarido andou postando em seu blog (O Reino da Detonação) os textos da revista “Registro Musical”, da qual participei junto com ele, Jorge Nazaré e Danilo de S’Acre (ou seja, o Bicho de três cabeças). E dessa postagem resultou um interessante comentário. Coisas da internet...

José da Costa Torres, ficou mais conhecido como Zeca Torres I, ou primeiro, ou Zeca Torres Grande, em oposição ao outro Zeca Torres (Pequeno). Seja como for que o chamemos, o que conta é que este acreano de Xapuri foi um dos maiores músicos da história do Acre.
Zeca Torres I integrou-se à Banda da Polícia Militar, provavelmente no início da década de 40, aonde chegou à posição de Contramestre. Seu estilo musical acompanhava a personalidade de homem polido, que não bebia, e concentrava-se na composição e execução de musicas lentas como foxes, valsas e boleros. Mas sua fama se devia à facilidade para compor e escrever musicas, preparando as pautas a serem executadas pela Banda com extrema fluência e rapidez.
Consta que certa vez, ao integrar um conjunto que iria fazer uma alvorada no Segundo Distrito, Zeca Torres e seus companheiros ficaram fazendo hora em um bar, esperando que as luzes da cidade fossem apagadas às 11 horas da noite, como era a pratica então. Em meio à conversa alguém disse que seria bom se tivessem preparado uma musica especial em homenagem à filha do dono da casa onde iriam tocar a alvorada. Ao que Zeca Torres I perguntou o nome da moça: Orieta. Dito isso, pediu ao dono do bar um papel de embrulho e por lá ficou rabiscando. Na hora marcada, os músicos atravessaram o rio e ao chegar a casa onde seria executada a alvorada Zeca Torres pediu uma lanterna e executou uma valsa inédita que ele havia composto no pouco tempo em que estiveram no bar, escrita em papel de embrulho, e que foi devidamente instrumentalizada no dia seguinte. Nome da valsa: Orieta.

Esta habilidade musical era reafirmada todas as vezes que artistas de fora do Acre vinham aqui se apresentar e necessitavam dos serviços dos músicos da Banda para o acompanhamento de seus shows. Foram várias situações em que artistas de renome nacional, ao confrontar-se com sua aptidão musical, perguntavam:
- Você é de fora do Acre?
Ao que ele respondia sempre com simplicidade.
- Não, eu sou de Xapuri mesmo, do seringal.
Em uma dessas ocasiões, em que o artista Alcides Gerard ensaiava com integrantes da Banda da Guarda Territorial, ele disse:
- Rapaz eu tô chateado porque tem um samba que eu gosto muito, mas que não veio na bagagem.
Diante disso, Zeca Torres I perguntou-lhe.
- O senhor canta esse samba há muito tempo?
- Canto.
- Como é o samba?
Alcides Gerard começou a cantarolar o samba e o Zeca Torres, assim de lado, anotava tudo em um papel. Depois instrumentou toda a composição e distribuiu pros outros músicos da banda e disse:
- Agora o senhor pode cantar seu samba.
- Mas eu não trouxe
- Pode cantar, que já ta ai.
Ai ele cantou e no fim da musica chegou pro Zeca Torres e perguntou:
- Você disse que aprendeu musica em Xapuri?
- Foi.
- Você é um gênio homem. Você vai pro Rio de Janeiro que eu vou conseguir pra você fazer umas gravações.



Com efeito, pouco tempo depois chegou um telegrama do Alcides Gerard chamando Zeca Torres pra ir ao Rio. Zeca aposentou-se e foi, mas não chegou a gravar. Acontece que na semana da gravação Zeca Torres foi assistir a um jogo do Vasco da Gama, seu time do coração, e não suportando a emoção, teve um fulminante ataque cardíaco que apagou uma das mais brilhantes estrelas musicais que o Acre já teve.**

Stefany Nascimento deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Registro Musical":***
Olá!!
Estava fuçando por aqui e achei esse blog que por sinal é muito interessante... Parabéns!!!
Fico imensamente feliz e agradecida por essa postagem linda sobre Zeca Torres I... Sou bisneta dele e é muito gratificante ver seu nome "reconhecido" como um dos maiores músicos da história do Acre... Agradeço de coração em nome de toda a família Torres... Um forte abraço...

* Texto publicado originalmente na revista “Registro Musical”; Rio Branco, FGB-MinC, 1998;
** Artigo selecionado para a coluna desta semana com a co-participação de Silvio Margarido on-line graças ao G-Talk.
*** Pra quem quiser ir direto à fonte o link é: http://reorientando.blogspot.com/2008/11/registro-musical.html

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