terça-feira, 29 de março de 2011

História política recente da Ayahuasca (V)

As instituições responsáveis pela construção da uma proposta de inventário (FGB, FEM, IPHAN, MinC) estão trabalhando através da identificação de três grandes “campos ayahuasqueiros” e da convicção de que o inventário deve ser orientado e realizado pelas próprias comunidades... 1 - O “Campo Originário” da Ayahuasca é o mais antigo de todos. Algumas informações indiretas da arqueologia tentam situar sua origem por volta de 2.000 antes do presente. Mas esses estudos ainda são superficiais e inconclusivos. O fato é que suas práticas se encontram em plena vigência, entre dezenas de grupos indígenas da Amazônia. (até aqui, trecho do artigo passado) Na verdade, existe um grande “arco panamazônico” de ocorrência do uso da Ayahuasca, que começa ao sul, na Bolívia, segue a leste, por Rondônia, Acre, Amazonas e Roraima, e a oeste, pelo Peru, Equador, Colômbia e Venezuela. No Panamá, por conseguinte, fecha-se a extremidade norte do “arco ayahuasqueiro”. Esta é, exatamente, a região dos formadores da bacia Amazônica, ponto de contato entre os Andes e as terras baixas do grande “Rio de Las Amazonas”. Região de uma floresta muito variada, a mais rica em biodiversidade dentre todas as outras configurações bióticas de floresta, área de povos tribais de diferentes troncos lingüísticos que estabeleceram uma extensa rede comercial e cultural que conectava, desde os povos do Altiplano Andino, até os grupos indígenas das florestas da “Montaña” e das “Terras Baixas”. Em síntese, pode-se dizer que o “Campo Originário” é milenar e mega-diverso: multilinguístico, plurinacional, panamazônico, com origem e rota de difusão ainda desconhecidas, mas, indubitavelmente responsável pela criação e transmissão deste sofisticado conhecimento para a sociedade contemporânea e pós-moderna em que vivemos. Por outro lado, as diferentes experiências indígenas terão que ser avaliadas, não só em suas características originais, mas também em relação aos impactos e mudanças que essas práticas culturais vêm sofrendo atualmente. É inevitável, portanto, o reconhecimento das marcas dos últimos cinco séculos de pressão e opressão contra os milenares conhecimentos mágico-espirituais ameríndios. 2 - O “Campo Tradicional” (ou tradicionalista) da Ayahuasca surgiu na Amazônia Ocidental - tríplice fronteira entre o Brasil, a Bolívia e o Peru – a partir do início do século XX. Seus “mestres fundadores” operaram, não sem problemas e grandes dificuldades, é bom que se diga, a transposição das práticas ayahuasqueiras dos grupos indígenas originários para o mundo dos “cariús”, os “não-índios”, neste caso, brasileiros da Amazônia Ocidental. Entre 1912 e 1920, Raimundo Irineu Serra e os irmãos Antonio e André Costa, todos negros maranhenses, aprenderam a usar a ayahuasca e agregaram, a ela, um profuso conjunto de símbolos e ritos cristãos e afro-brasileiros. Começava, assim, a tradução do uso individual e esporádico de caboclos amazônicos para uma utilização coletiva, com caráter religioso e curativo, em uma sociedade que vivia sem a presença do governo, da igreja ou da medicina formal. Enquanto os irmãos Costa seguiram uma experiência religiosa isolada - que terminou por volta dos anos 40, na cidade de Brasiléia, alto rio Acre - Irineu Serra, a partir de 1935, e também outro negro maranhense chamado Daniel Mattos, algum tempo mais tarde, deram início ao estabelecimento de um trabalho religioso - como rezadores, curadores e orientadores espirituais - na periferia rural de Rio Branco, capital acreana. Com o tempo, formaram-se, em torno destes dois mestres fundadores, comunidades de trabalhadores que passaram a professar uma religião cabocla, marcadamente cristã, mas também difusamente indígena, negra e espírita: o Alto Santo de Mestre Irineu e a Barquinha de Mestre Daniel. Começava, assim, uma longa história de resistência contra varias formas de opressão socioeconômica e preconceito, em que se alternaram episódios de intolerância e momentos de reconhecimento e legitimação por parte das autoridades constituídas. Uma trajetória cultural intensamente vivida no Acre, não só pelos “daimistas” como por toda a sociedade local, nas últimas nove décadas (e se alguém achar isso muito pouco, é importante lembrar que o próprio Acre tem apenas cento e seis anos de existência). Paralelo a isso, em Rondônia, ao final dos anos cinquenta e início dos sessenta, Gabriel Costa, baiano de origem, soldado da borracha por imposição, viveu um processo muito semelhante ao dos dois mestres já citados, entretanto, com matrizes simbólicas e rituais bem distintas, apesar dos possíveis contatos que aconteceram entre Gabriel e Irineu. Surgia, assim, a União do Vegetal, terceiro tronco ayahuasqueiro deste conjunto de manifestações caboclas, brasileiras, amazônicas. Nesta abordagem, consideramos que o período formativo das práticas rituais desse campo ayahuasqueiro (iniciado em 1912), encerrou-se em 1971, ano em que morreram os Mestres Irineu e Gabriel (Daniel já havia morrido em 1958) e que, por uma estranha coincidência, foi também o ano em que Acre, Rondônia e a própria Amazônia brasileira haveriam de mudar radical e definitivamente graças aos processos sócio-econômicos desencadeados pela Ditadura Militar. Desde então, consolidou-se o “campo tradicional” da ayahuasca, constituída por todas as comunidades tradicionalistas, estritas seguidoras das doutrinas do Daime ou Vegetal, como estabelecidas por seus três “mestres fundadores”: Irineu, Daniel e Gabriel. Um campo que vem crescendo, de forma consistente, nos últimos anos, mas sem fazer dessa expansão um objetivo em si. (semana que vem o ultimo artigo da série). Obs: Esta série de artigos integra um texto que será publicado no livro do Seminário das Comunidades Tradicionais da Ayahuasca, realizado em 2010.

domingo, 20 de março de 2011

De novo, velhas histórias!

(ou: O eterno retorno e a volta dos que não foram.)

Extra! Extra! O plantão extraordinário do Miolo de Pote, abalado pelas ultimas noticias que circularam na imprensa local e nacional, interrompe a série sobre a ayahuasca para repercutir o que não pode, não deve, ser ignorado...

Esta semana se tornou estranhamente significativa por conta de uma série de recorrências históricas. Mais estranhas ainda porque são acontecimentos aparentemente desconectados entre si. Porém, se olharmos com mais atenção, talvez seja possível encontrar fios históricos insuspeitos, que certamente encerram interessantes significados. Vejamos pois.



Leio com espanto a recente notícia de conflitos, rebelião e quebra-quebra generalizados no canteiro de obras da Usina do Madeira. Não consegui evitar então a imediata regressão a um tempo em que se tentou construir uma ferrovia naquela mesma região com resultados, de certa forma, bastante semelhantes. Voltemos, portanto, ainda que brevemente, há um século.
Graças a um certo Tratado de Petrópolis, assinado em 1903, se empreendeu a construção, entre 1907 e 1912, de uma ferrovia que viabilizasse o comércio da borracha, ultrapassando os obstáculos impostos pelas cachoeiras do rio Madeira. Uma obra notoriamente difícil de ser realizada. Tanto que, na década de 70 do século XIX, tentativas anteriores já haviam fracassado de forma retumbante. Tratava-se de uma construção tão perigosa que ganhou o singelo apelido de “Ferrovia do Diabo” e deu origem à lenda de que havia cobrado a vida de um trabalhador para cada dormente ali fincado.
Quantas e quantas notícias passaram então a circular nos jornais brasileiros sobre as inúmeras revoltas que aconteceram durante a construção da Madeira-Mamoré? Revoltas que começavam ainda nos navios que traziam homens de várias partes do mundo para trabalhar na obra (chineses, alemães, ingleses, barbadianos, etc.), muitos dos quais se recusaram a desembarcar, devido à assustadora fama da ferrovia. Além, é claro, das diversas revoltas que eclodiram em seus canteiros de obras, motivadas pelas péssimas condições de trabalho, pela falta de suporte adequado para os trabalhadores, pelas febres e doenças variadas que dizimavam dezenas de vidas a cada dia. Mas esses fatos tem exatos cem anos e fazem parte de um longínquo passado de um Brasil que já não é mais o mesmo.



Mas não é que, hoje (quinta-feira), leio a notícia de que os alegados motivos para o quebra-quebra promovido por trabalhadores no canteiro de obras de Jirau é que “Os trabalhadores se queixam das condições de trabalho oferecidas na obra e exigem aumento salarial. Acusam ainda o consórcio ESBR (Energia Sustentável do Brasil) --formado pelas empresas Chesf, Eletrosul, Suez e Camargo Corrêa--, responsável pela obra, de não oferecer infraestrutura adequada para tratar um surto de malária que atinge o canteiro de obras.” (UOL-notícias). Oxê, coisa estranha, sô.
E diante de tanta coincidência só nos resta esperar que a Hidrelétrica do Madeira, prevista para ficar pronta em 2012, não tenha um destino semelhante ao da Ferrovia Madeira-Mamoré que foi inaugurada em 1912. Aquele ano que foi exatamente o ultimo do 1º Ciclo da Borracha Amazônica – ciclo econômico colapsado, a partir de 1913, por conta das plantações inglesas de seringueiras na Malásia - fazendo com que a tão sonhada ferrovia entrasse em um longo e sofrido processo de decadência que se arrastou até seu melancólico fechamento, em 1972. Não, isso não é possível, afinal, como dizia o velho Marx, a história não se repete jamais.


Por outro lado, leio aqui e acolá no vasto universo da internet, preocupantes notícias de que o governo peruano estaria trazendo indígenas da região da montaña (região da floresta sub-andina), para as florestas da fronteira peruana com o Acre, colocando em risco os povos isolados que ainda perambulam por ali. E, imediatamente, minha memória saltou para a segunda metade do século XIX, ao lembrar das inúmeras histórias de caucheiros peruanos trazendo índios das beiras do altiplano pra dizimar os índios “brabos” que habitavam por aqui, com o início do 1º Ciclo da Borracha. E sou obrigado a reconhecer que os “altos interesses” da Republica do Peru (traduzidos sob a forma de madeiras nobres, petróleo e hidrelétricas), bem seriam capazes de fazer com que se reeditassem práticas de um século e meio atrás. Um período dramático da história amazônica, quando povos inteiros foram dizimados e desapareceram para sempre. Seria mesmo possível tal absurda repetição de tão tristes histórias em plena civilização planetária do século XXI? Não, o velho Marx, senhor da consciência da sociedade capitalista, não poderia estar errado. A história não se repete.



Mas... Para que também não me acusem de estar sendo excessivamente mal-humorado, ou pessimista, não posso deixar de contar que não consegui conter um sorriso (quase riso) quando li, no início da semana, a notícia do protesto de uma deputada estadual sobre a farra carnavalesca dos marinheiros do navio-hospital em Cruzeiro do Sul.
Entretanto, antes que me julguem erradamente, tenho que esclarecer que meu sorriso (quase riso) não foi devido à atuação da deputada, cuja preocupação com o atendimento (mal) feito às pressas da população em função da extremada vontade de brincar o carnaval juruaense dos marinheiros, é legitima e compreensível.
É que não consegui evitar a imediata lembrança que essa matéria despertou. Falo do fato de que foi exatamente Cruzeiro do Sul o principal palco de uma das mais animadas e originais manifestações carnavalescas de toda a história do Acre: a “Marujada”. Uma brincadeira, difundida pelos Senhores Bianêz, Aldenor, entre vários outros, ao longo de muitas décadas, na qual, além de cantarem um vasto repertório de marchinhas carnavalescas, os brincantes representavam um motim ocorrido no navio que, depois de dominado pelo comandante, terminava em uma enorme festa dos marinheiros felizes por chegar ao porto, à terra firme, ao final de sua longa viagem pelos rios amazônicos.
Neste caso, parece que essa recente notícia dos marinheiros de Cruzeiro do Sul é a prova definitiva de que a história pode se repetir sim, senão como farsa, mas, pelo menos, como festa. Afinal, brincar é preciso, como navegar, viver é que não é preciso.
Ao contrário das histórias dos trabalhadores do Madeira e dos índios das fronteiras. Estas, sim, nos obrigam a admitir, ainda que com tristeza e pesar, que Marx tinha mesmo razão. A história realmente não se repete jamais, apenas continua sendo a mesma velha e injustificável história de uma humanidade, por tantas vezes, incompreensível.

Obs: Eu sei que deveria ter dado continuidade à serie de artigos sobre a história da ayahuasca, em respeito àqueles que a estão seguindo. Porém, não consegui resistir ao inesperado e avassalador assalto de tantas novas(?) noticias. Assim, peço desculpas aos improváveis leitores desta coluna... garantindo voltar, na próxima semana, àquela história que ainda me faz acreditar que haja algum sentido para a humanidade.

segunda-feira, 14 de março de 2011

História política recente da Ayahuasca (IV)


Marca cultural da Amazônia, impressa no tecido do mundo. Conhecimento antigo, engendrado durante milhares de anos... Presente da floresta à humanidade...

Eis o breviário, o plenário, o calendário, o seminário...
(artigos passados).


Psicotria viridis, foto de Thiago Silva (Blog daflorestadejuramidam.blogspot)





Eis o inventário...
Enquanto aqui no Acre nós seguíamos discutindo os rumos da vida. O IPHAN - a quem coube dar andamento ao pedido feito pelas comunidades tradicionais ao Ministro da Cultura - submeteu todo o farto material bibliográfico que enviamos à sua Câmara Temática do Patrimônio Imaterial. Nosso pedido teria que receber um parecer técnico antes de ser submetido ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, a quem cabe a deliberação pelo registro ou não do “Uso ritual da Ayahuasca” como patrimônio imaterial da cultura brasileira.
E como era de se supor, já que isso faz parte do “modus operandi” do IPHAN, foi solicitada a realização de um inventário das manifestações culturais ayahuasqueiras para que o processo possa ser corretamente apreciado pelo Conselho. Afinal não se trata apenas de registrar e pronto. É preciso saber o que registrar. A música que permeia todas as diferentes tradições? O feitio do chá, os fardamentos, a rica iconografia e seu inerente simbolismo?
Necessário responder, enfim, quais expressões culturais caracterizam as comunidades ayahuasqueiras. Quais são seus elementos comuns e suas diferenças. Mas, também, em que livro estes bens culturais devem ser registrados? No livro dos lugares, no dos saberes, no das celebrações ou no livro das formas de expressão, como consta da legislação vigente. E uma vez respondido isso tudo, ainda há que se responder quais as salvaguardas necessárias para garantir a proteção, manutenção e a promoção deste patrimônio cultural e que deverão passar a ser obrigações do estado brasileiro. Caso a solicitação seja aprovada, é claro.
Diante dessa infinidade de questões e definições necessárias para o registro da Ayahuasca se torna evidente que a realização do Inventário sobre o uso cultural, ou ritual, da Ayahuasca só é possível a partir de uma ampla e efetiva participação das comunidades ayahuasqueiras, que são as principais interessadas e afetadas por essa ação.



Banisteriopsis caapi, foto de Thiago Silva (Blog daflorestadejuramidam.blogspot)





E, por sua vez, sob a orientação desta participação política, todas as instituições públicas envolvidas no processo terão que desenvolver um claro e inequívoco reconhecimento da enorme diversidade das manifestações culturais relacionadas às praticas e rituais ayahuasqueiros. Compreensão essencial para uma correta e equilibrada identificação das referencias e bens culturais que são relevantes e que terão que ser considerados no registro da Ayahuasca como patrimônio brasileiro.
Portanto, o ponto de partida, que acreditamos também poderá ser o da chegada (tal qual estrada de seringa), passa pela diferenciação dos três grandes campos ayahuasqueiros, através dos quais o inventário deverá ser realizado.

Eis o cenário...
Ainda não se sabe ao certo onde e quando surgiu o conhecimento cultural da Ayahuasca. No mesmo sentido, hoje, não sabemos quantos ayahuasqueiros existem no Brasil. Como discutir sobre algo que nem conhecemos e nem entendemos? Para tentar organizar essa aparente confusão, as instituições responsáveis pela construção da uma pré-proposta de inventário estão trabalhando através da identificação preliminar de três grandes grupos, ou “campos ayahuasqueiros” e da convicção de que o inventário deve ser, em grande medida, orientado e realizado pelas próprias comunidades.



Com isso, estamos buscando compreender a atual realidade, tanto no que diz respeito às praticas rituais diversas, que podem ser milenares, seculares ou muito recentes, como apontar manifestações culturais não religiosas, que têm grande importância e influência, também, sobre a história de muitas comunidades, segmentos sociais e cidadãos brasileiros. Ressaltando que esta é apenas uma proposição de possível recorte de caráter cultural e histórico, ainda impreciso e sujeito à análise e alteração pelas comunidades usuárias da ayahuasca.
1 - O “Campo Originário” da Ayahuasca é o mais antigo de todos. Algumas informações indiretas da arqueologia tentam situar sua origem por volta de 2.000 antes do presente. Mas esses estudos ainda são superficiais e inconclusivos. O fato é que suas práticas se encontram em plena vigência, entre as dezenas de atuais grupos indígenas da Amazônia...

terça-feira, 1 de março de 2011

História política recente da Ayahuasca (III)

Um movimento em direção ao estado brasileiro que se iniciou lá atrás, em 1991, com a elaboração da primeira Carta de Princípios das comunidades ayahuasqueiras. Um momento apenas, mas longo e profundo como a própria noite dos tempos. Uma ocasião pra não esquecer.





Abertura do Seminário das Comunidades Tradicionais da Ayahuasca realizado no Horto Florestal. (Fonte: Blog do Altino)






Eis o Breviário...
Foram muitas reuniões, mas não conseguimos construir um consenso válido e satisfatório. Estávamos em 2007.

Eis o plenário...
Nesse meio tempo, teve início o fértil processo de construção do Sistema Municipal de Cultura de Rio Branco.

Eis o calendário...
Inesperadamente, a oportunidade. Íamos já pelo meio de 2008. O aviso de que o Ministro da Cultura Gilberto Gil iria visitar mais uma vez o Acre, provocou nova reunião. E a luz se fez... (até aqui trechos dos artigos anteriores).

Eis o seminário...
Mas, como já disse Caetano, “a vida não se resume a festivais”. E, aqui no Acre, as questões do Daime estão relacionadas diretamente a muitas e distintas dimensões da vida social, exigindo dos poderes públicos respostas adequadas e eficazes. Vida real, cotidiano, ruas, casas, praças, escolas, hospitais, repartições, enfim...
Logo as discussões da Câmara Temática explodiram (no bom sentido) para muito além da cultura (em seu sentido tradicional). E começamos a articular a ligação das diversas iniciativas paralelas, que estão em pleno curso, num só movimento.
Ao grupo que vem discutindo nos últimos três anos com o IMAC a questão da regulação ambiental para extração e transporte de cipó e folha, se reuniram profissionais da saúde que seguem lutando para por fim à discriminação de doadores de sangue; além do pessoal da educação preocupado com o fato de nossas escolas continuarem privilegiando manifestações religiosas das maiorias dominantes e tratando com desrespeito e desconhecimento a fé das minorias étnicas ou religiosas do nosso estado. E assim por diante.





Assim surgiu na Câmara Temática a proposta de realizar o “Seminário das Comunidades Tradicionais da Ayahuasca: Construindo Políticas Públicas para o Acre” onde pudéssemos discutir todos os problemas e questões pendentes das comunidades em relação ao Estado e suas políticas públicas. Além, é claro, de avançar com as discussões de viés cultural e político. Um seminário proposto e realizado pelas comunidades ayahuasqueiras de Rio Branco, mas aberto para os povos indígenas, bem como para todos que ali quisessem estar.
E o resultado foi extraordinário. Na sua abertura, mais importante que a presença de diversas autoridades públicas dos poderes executivo, legislativo e judiciário, foi um inédito encontro ecumênico (com participação de representantes católicos, evangélicos e mães-de-santo) organizado a partir do consistente trabalho que vem sendo realizado pelo Instituto Ecumênico Fé e Política.
Nas sessões temáticas através das quais foi organizado o Seminário, foram debatidos os principais problemas da vida cotidiana na Amazônia brasileira e apresentadas propostas para possíveis soluções. Tudo com a presença e a participação de secretários estaduais e municipais relacionados a cada área temática. Formando assim um consistente mapa para orientar o caminho que continua sendo trilhado pela Câmara de Culturas Ayahuasqueiras do Conselho de Cultura de Rio Branco.
Com isso, esta Câmara se tornou a primeira a propor e realizar um seminário onde foram ampliadas e amplificadas as discussões travadas no cotidiano do Conselho de Cultura. Desde então, outras Câmaras mais ativas (arte-educação, musica, literatura, indígenas, etc.), estão seguindo o exemplo e vêm preparando ou realizando uma série de seminários que esperamos ser um passo decisivo na construção do nosso Plano de Cultura, próximo e desafiador objetivo.




Sessão da Assembléia Legislativa que concedeu o titulo de cidadão acreano aos Mestres Irineu, Daniel e Gabriel, ao final do Seminário da Ayahuasca. (Fonte: Agencia de Noticias do Acre)




Por outro lado, o Seminário das Culturas Ayahuasqueiras Tradicionais foi o primeiro grande desafio de discussão pública, sem intermediação direta do estado, auto-regulada e conduzida pelas próprias comunidades, aberta aos diversos centros religiosos da ayahuasca com todas as suas diferenças e divergências. Mas, talvez não por acaso, desde então, centros irmãos, que já haviam perdido muito tempo se desentendendo, por vezes de forma justificada, outras tantas não, agora estão falando e agindo como parte de um mesmo sentido. E isso faz uma grande diferença porque prova que o consenso (ou a pactuação política) até aqui alcançado, não só é real, como está proporcionando novas ações conjuntas, algumas inesperadas e surpreendentes, como a recente reforma coletiva (ou em “adjunto”, como se diz por aqui) do Tumulo de Mestre Irineu, no Alto Santo.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

História política recente da Ayahuasca (II)

Qual a imagem que o uso da Ayahuasca tem para o povo brasileiro? Não apenas a imagem superficial, aquela imediatamente acessível a todos os olhos, todas as bocas, mas também a que ocupa um lugar muito mais profundo em nosso imaginário.

Eis o calendário...

Inesperadamente, a oportunidade. Já estávamos no meio de 2008, mas o aviso de que o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, viria visitar mais uma vez o Acre, a última como dublê de Ministro e Músico, provocou nova reunião, na mesma Assembléia Legislativa, com a mesma composição que um ano antes.




Autoridades religiosas e políticas presentes no Alto Santo durante a cerimônia de entrega ao Ministro do pedido de registro da Ayahuasca como patrimônio cultural brasileiro. (fonte: blog do Altino).





E a luz se fez... O consenso aconteceu espontaneamente em torno de um novo arranjo, tão surpreendente quanto longamente cultivado. O pedido de reconhecimento do uso ritual da Ayahuasca como Patrimônio Cultural Brasileiro implicava, e todos tinham consciência disso, que ninguém poderia ser impedido de participar do processo.
Ou seja, provavelmente poderia, novamente, ocorrer uma mistura indistinta de grupos muito desiguais sob o imenso guarda-chuva da “Ayahuasca”, como já havia acontecido em outros fóruns e deliberações do estado brasileiro, como certas conflituosas reuniões do CONFEN. Em alguns casos, isso soava como inaceitável para os centros “tradicionais” do Acre.
Seria necessário, portanto, propor um processo de registro que, ao tratar dos fenômenos e manifestações sociais e culturais das comunidades ayahuasqueiras, tratasse e compreendesse, de forma distinta, os diferentes. E fazer isso sem se afastar do objetivo central, que é ver as culturas ayahuasqueiras reconhecidas como parte indissociável do tecido social do país, conquistando, assim, o deslocamento da questão da Ayahuasca do Gabinete da Presidência da República/CONFEN, para o Ministério da Cultura.
Sabendo, de antemão, que o reconhecimento da dimensão sócio-cultural do uso ritual da Ayahuasca não responderá, automaticamente, a todas as questões relacionadas ao uso recreativo da ayahuasca, ou as suas possíveis aplicações terapêuticas, ou a sua exploração turística e comercial, ou às possíveis abordagens jurídicas, etc. Por conseguinte, trata-se de estabelecer um novo e importante parâmetro de análise para que essas questões possam ser respondidas com mais coerência. Sem resultar, como acontece em tantos casos, em mais preconceito, intolerância ou discriminação de milhares de cidadãos brasileiros que fazem da Ayahuasca um sacramento religioso secular, milenar, amazônico, muito anterior, inclusive, ao próprio estado brasileiro.
Aproveitar a presença do Ministro da Cultura, Gilberto Gil, histórico representante artístico de nossa cultura tropical, florestal, tupiniquim, passou a ser, então, a possibilidade concreta de promover um acontecimento chave, e estabelecer um novo marco na história das comunidades ayahuasqueiras.




Ministro Gilberto Gil recebe o pedido de reconhecimento da Ayahuasca como patrimônio cultural brasileiro (fonte: blog do Altino).






Essa insuspeita conspiração do tempo possibilitou, assim, que fosse realizada uma singela solenidade (extra à “agenda oficial”) de entrega, ao Sr. Ministro, de um documento assinado por boa parte dos mais tradicionais centros daimistas e do vegetal (já que a UDV também participou de todo o processo), ligados aos três “mestres fundadores”: Irineu, Daniel e Gabriel.
Naquela noite especial, ali no antigo Alto Santo, de Mestre Irineu e Madrinha Peregrina, o nosso Gil (desculpando-me pela intimidade com o então Ministro, mas guiado pela força do costume de fã), recebeu mais que um pedido de abertura de um processo burocrático pelo paquidérmico estado brasileiro. Ele recebeu um documento que atesta o acordo/pacto celebrado pelas “Comunidades tradicionais da Ayahuasca” para, junto com os outros campos ayahuasqueiros da sociedade brasileira, lutar pelo pleno reconhecimento de seus legítimos direitos culturais e religiosos.




Ministro da Cultura Gilberto Gil cumprimentando a Dignatária do Alto Santo Madrinha Peregrina Gomes Serra em 30 de abril de 2008 (fonte: blog do Altino).






Um movimento em direção ao estado brasileiro, iniciado em 1991, com a elaboração da primeira carta de princípios das comunidades ayahuasqueiras ou, antes ainda, quando, em meados dos anos 70, chegou, por vias transversas, a certos novos baianos tropicalistas, uma garrafa do Daime de Mestre Irineu. Vai saber?!?! Um momento apenas, mas longo e profundo, como a própria noite dos tempos. Uma ocasião pra não esquecer.

(continua semana que vem).

Obs: Esta série de artigos integra o texto que será publicado, muito em breve, no livro do Seminário das Comunidades Tradicionais da Ayahuasca, realizado em 2010.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

História política recente da Ayahuasca (I)

A Ayahuasca não existe na natureza, ela é um produto da cultura. Diferente do Peyote, do Tabaco, da folha de Coca e de outras tantas plantas que se tornaram sagradas e parte da elaboração de diversas e importantes formações sociais ao longo da história da humanidade.



A Ayahuasca, Daime, Vegetal, Huni, Kamarãpi - a “liana das almas” de tantas culturas e tantos diferentes nomes - é feita com a mistura de duas plantas diferentes: o cipó Jagube e a folha Chacrona, o que pressupõe, não apenas o conhecimento das propriedades de cada uma, como também a percepção da interação entre ambas. É, pois, marca cultural da Amazônia, impressa no tecido do mundo. Conhecimento antigo, engendrado durante milhares de anos... Presente da floresta à humanidade...
Ainda que assim seja, é imprescindível perguntar: qual a imagem que o uso da Ayahuasca tem para o povo brasileiro? Não apenas a imagem superficial, aquela imediatamente acessível a todos os olhos, todas as bocas, mas também a que ocupa um lugar muito mais profundo em nosso imaginário.
Uma possível resposta não pode ser obtida de forma breve ou superficial. Só a compreensão da história cultural e política, que tem sido construída pelas comunidades ayahuasqueiras na Amazônia e no Brasil, no último século, pode ser capaz de nos dar uma explicação minimamente confiável.

Eis o Breviário...
Foram muitas reuniões, mas não conseguimos construir um consenso válido e satisfatório, mesmo havendo boa vontade de todos ali reunidos e tendo um objetivo comum, esse sim, consensual.
Estávamos em 2007. As reuniões aconteciam na Assembléia Legislativa do Estado do Acre, com a presença de várias das principais lideranças “políticas” das maiores e mais antigas comunidades ayahuasqueiras do Acre, alguns gestores públicos e a coordenação da Deputada Federal Perpétua Almeida.
Discutíamos uma nova tomada de posição em relação à postura do estado brasileiro, que ainda insiste em discutir as questões relativas à Ayahuasca, sob a ótica de uma política nacional antidrogas. Parecia óbvia, então, para todos, a incapacidade do governo em encontrar um eixo de discussão que contemplasse, de forma integral, as necessidades das comunidades ayahuasqueiras, tendo em vista os aspectos históricos peculiares do Acre e a liberdade religiosa garantida na constituição brasileira.
O fato é que, nos últimos cinco anos, tanto o Governo do Estado do Acre quanto a Prefeitura de Rio Branco, impelidos pelas comunidades, têm buscado desenvolver uma nova abordagem, com caráter prioritariamente cultural e ambiental. Por conta disso, por exemplo, foram abertos diversos processos de tombamento no Alto Santo e no sítio histórico de Rio Branco, foi criada a APA Irineu Serra, foram realizadas ações de fortalecimento do Centro de Memória Daniel Mattos - criado por iniciativa da própria comunidade herdeira da doutrina desse Mestre Fundador - além da criação de outros centros e salas-memória.
Ainda assim, foi muito difícil encontrar uma ação consensual que servisse para estender este novo eixo de diálogo também ao Governo Federal. Embora a possível solução já parecesse bastante evidente: propor o reconhecimento do uso da Ayahuasca como patrimônio cultural amazônico e brasileiro, simplesmente ainda não estávamos prontos e, além disso, não tínhamos respostas satisfatórias para as diversas perguntas e questões que se colocavam.


Irmandade do Alto Santo - Ao centro Mestre Irineu e à esquerda (o 5º) Daniel Mattos – década de 30

Eis o plenário...
Nesse meio tempo, teve início o fértil processo de construção do Sistema Municipal de Cultura de Rio Branco. Pela primeira vez, pessoas das comunidades ayahuasqueiras participavam diretamente do movimento cultural acreano, da mesma forma que muitos outros segmentos que, até então estavam excluídos, se auto-excluíam ou, simplesmente, não participavam mesmo, também se integraram.
Foi muito interessante ver daimistas, artistas, líderes comunitários, filhos e mães de santo, militantes, esportistas, turismólogos, roqueiros, metaleiros e forrozeiros, juntos, discutindo um mesmo princípio. Assim nasceu a diversidade, que é mãe desse conselho de cultura municipal de tantos pais e de configuração tão particular.
O funcionamento de trinta e cinco câmaras temáticas, somado ao seu diferenciado modelo de auto-representação, possibilitou que as diferenças, apenas recentemente afloradas, se aprofundassem. Sob esse signo, começou a funcionar a Câmara Temática de Culturas Ayahuasqueiras, experiência que pode ser conhecida, com maiores detalhes, em muitos dos textos do livro do Seminário realizado no ano passado e que está em vias de imediata publicação.
É importante explicitar que as discussões ocorridas, desde então, nesta Câmara, não só proporcionaram um aprofundamento de temas, conteúdos e conceitos da área cultural, como se tornaram uma referência avançada para outras câmaras menos articuladas ou ativas. Uma surpresa. Afinal, não havia como prever, durante a construção do Sistema de Cultura de Rio Branco, quais das Câmaras Temáticas iriam avançar, quais iriam ter dificuldades, e quais nem chegariam a funcionar plenamente.
Logo, a partir de diversos trabalhos coletivos - não sem muita discussão, divergências e contratempos - a Câmara de Culturas Ayahuasqueiras se tornou uma das mais inovadoras e consistentes desse nosso instigante Conselho de Cultura.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Na carreira...

Nesta semana estamos reabrindo os trabalhos anuais da coluna Miolo de Pote. E, mesmo sabendo que fazer esse tipo de coisa não é lá muito comum, quero, já no primeiro artigo do ano, confessar de público um dos meus mais antigos e arraigados vícios: corridas de Fórmula 1.


Abrindo o verbo

Parece que foi ontem, mas o tempo passa cada vez mais ligeiro e avexado. Assim estamos iniciando hoje o quinto ano da coluna Miolo de Pote. Uma coluna semanal que não tem nenhum compromisso estrito com temas ou formatos. Apenas a vã tentativa de, a cada ano, encontrar novos caminhos para manter alguma motivação para esse que vos escreve e para quem, por ventura, venha a ler os, normalmente, muito longos artigos desta coluna.
E, talvez seja bom ressaltar já neste ponto, que desde o ano passado tenho procurado atender à solicitações e sugestões de leitores enviadas através de e-mail, da área de comentários do jornal, ou, ainda, através do blog-espelho da coluna (colunamiolodepote.blogspot.com). O que pretendo continuar fazendo esse ano.
A idéia inicial é continuar trazendo para cá textos sobre aspectos diversos da história e da cultura acreana, arqueologia, questões indígenas e amazônicas, etc. Novidade mesmo, pelo menos por enquanto, é a nova “arte” da coluna, generosamente criada e doada por Ulisses Lima, grande parceiro que pode ser encontrado no blog da Confraria dos Últimos Românticos (confrur.blogspot.com).
Além disso, estou propondo ter uma pequena coluneta sobre Fórmula 1, sem periodicidade definida, agregada à coluna. Uma vez que conheço alguns poucos, mas bons, viciados como eu, que não tem nenhum espaço nos jornais locais pra poder jogar conversa fora. Ou, dito de outra forma, conversar “miolo de pote” sobre esse esporte completamente irrelevante do ponto de vista social, mas imensamente fascinante no que diz respeito à necessidade humana de desafiar continuamente seus próprios limites físicos, tecnológicos, etc...
E, já de saída, convido a todos aqueles que gostam de corridas a enviar artigos, comentários ou críticas que poderão ser aqui publicados na medida do possível.
Por isso esse primeiro artigo é dedicado às ultimas novidades da temporada 2011 da fórmula 1. Imagino que com isso, estarei decepcionando alguns dos leitores usuais da coluna, aos quais peço desculpas, mas, vícios são vícios, e costumam ter razões que a própria razão desconhece.


Carreras son Carreras

É triste, mas é verdade. Sou totalmente viciado em Fórmula 1. A ponto de dar nó em pingo d’água pra não perder uma corrida, ou ficar acordado a madrugada inteira só pra assistir os treinos de classificação que antecedem as corridas, afinal de contas, na atual Fórmula 1, usualmente são os treinos que definem quem vai vencer a corrida.
Na verdade, esse é um vicio antigo... Começou há muito com Fittipaldi e se estendeu pelos últimos trinta anos de minha vida. Mas sobre o vício em si e as motivações que me levam a não ingressar no VCA (viciados em corridas anônimos), conversaremos outro dia. Hoje não resisti à tentação de dar meus palpites sobre a temporada que apenas iniciou seus trabalhos, nesta semana, em Valência.
Começando pelo lançamento, ocorrido ontem, do novo modelo da Mclaren. Foi com grande surpresa, que li a declaração de Jenson Button de que o estranhíssimo carro desse ano foi feito sob medida para o seu estilo de pilotagem. Será que Jenson está dizendo que a Mclaren dará prioridade a ele ao invés de Hamilton - que, sabidamente, sempre foi o queridinho da equipe de Wocking a ponto de obrigar o mimado Fernando Alonso a ter que sair da equipe inglesa, para um ano quase sabático na sofrível Renault, enquanto esperava uma vaga pra correr na Ferrari?
Porque, ou eu sou muito burro, ou está subentendido que se a Mclaren priorizou o estilo de Button, o fez em detrimento do estilo bem mais agressivo de Hamilton. E se assim foi feito, porque Hamilton até aqui não falou nada sobre esse improvável favorecimento de Button no projeto do novo carro? Prefiro achar que isso é conversa fiada do Button e o novo carro será muito mais eficiente para o estilo de Hamilton do que o contrário, quem viver verá...
Aliás, esse tem sido um dos principais argumentos para o discurso pré-temporada de vários pilotos. Começando pelo heptacampeão Schumacher, cujo retorno foi uma das maiores decepções do ano passado. Enquanto todo mundo esperava que ele fosse rivalizar com Vettel, Alonso, Hamilton, Kubica, etc. se limitou a comer poeira de seu jovem companheiro de equipe Niko Rosberg. E, é claro, a culpa pelo desempenho pífio de Schumacher foi atribuída ao carro, que não favorecia o “estilo” de pilotagem do alemão. Da mesma forma que a culpa pelos pobres resultados de Felipe Massa foram dos pneus que não favoreciam o “estilo” do brasileiro.


E como se essa fosse a fórmula mágica da nova Fórmula 1 (repaginada por uma série de mudanças no regulamento) muitos foram os pilotos que - justificando suas fracas atuações na temporada passada ou plantando novas e grandes expectativas para a atual temporada - fizeram suas análises baseados na relação entre as características dos carros, seus pneus, especificações de certos componentes (como o renascido Kers), e seus “estilos” de pilotagem. Acho engraçado porque não me lembro de Piquet, Prost, Senna, Mansell e tantos outros mitos do automobilismo, justificando seus fracassos em razão de uma pretensa incompatibilidade entre modelo do carro e seu “estilo” de pilotagem. Ainda assim alguém pode argumentar que era outra Fórmula 1 e os tempos são outros. Mas é assim mesmo, na pré-temporada todos os argumentos são válidos e incontestáveis.
E, pra finalizar esta coluna de reestréia, não posso deixar de falar da apresentação de quase todos os novos carros de 2011. Como primeiras impressões gerais (já que dos testes de Valência em si é quase impossível tirar qualquer conclusão porque ninguém sabe qual programa foi executado por cada equipe e/ou piloto) posso, ao menos, observar que: a Ferrari, de novo teve medo de inovar em qualquer coisa e continuou sendo conservadora como no ano passado, o que fez com que só passasse a disputar vitórias a partir da segunda metade da temporada com a evolução do modelo; a Williams é a equipe com o carro mais bonito (com sua pintura retro), já que a nova Lotus Renault nem de longe lembra a mitológica lótus preta guiada por Fittipaldi e Senna e acabou ficando meio brega e exagerada; a Redbull parece bem na fita ao lançar um carro que é uma evolução do vitorioso carro do ano passado; mas a surpresa do ano, pelo menos até aqui, é mesmo o novo carro da Mclaren que ainda não foi pra pista, mas já foi revelado ao publico causando espanto geral por suas formas inovadoras, que eu, particularmente, achei muito do seu feio... ao contrário de boa parte da crônica especializada que está se derramando em elogios à ousadia dos ingleses e à beleza do novo carro (argh!!), eu só quero é ver se essa joça anda mesmo.. Vamos esperar... Afinal, como já dizia o lendário Juan Manuel Fangio: “Carreras, son carreras, y terminan cuando se baja la bandera de cuadros”.
Mas que a temporada 2011 promete... isso promete. E lá vamos nós, madrugada a dentro, de novo...





segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Ainda em tempo

Como os improvaveis leitores deste blog já devem ter percebido a coluna do jornal está em férias. Como consequencia, já que este blog é um espelho da coluna, o blog também está em recesso. A principio, volto no final de janeiro, ou a qualquer momento, em edição extraordinária (como se dizia antigamente).
Mas já vou adiantar que, graças a um "raff" (ou algo do tipo) generosamente criado por Ulisses, um dos ultimos romanticos do planeta terra (já que sabe-se que ainda há muitos na Galáxia Y32), vamos voltar com novo visual... (talvez até com outro nome, quem sabe... aceitamos sugestões).

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um certo Chico...*


Semana passada lembramos aqui o aniversário de nascimento de Mestre Irineu. Hoje devemos lembrar que outro homem especial, também nascido no dia 15 de dezembro, nos deixou há 22 anos.

Quando ele nasceu, no dia 15 de dezembro de 1944, o seringal Porto Rico situado nas matas do Xapuri, era mesmo um lugar rico, pois era tempo de Batalha da Borracha. O mundo em guerra precisava do látex acreano e graças a isso os seringais haviam novamente se enchido de gente e de prosperidade.
Aquele menino, nascido dez dias antes do natal, recebeu o nome do seu pai: Francisco Alves Mendes Filho. Mas, como todo menino chamado Francisco, desde cedo virou Chico.
E o menino Chico cresceu no seringal vendo seu pai sair ao amanhecer para entrar na floresta e dela trazer o sustento de sua família. Mais do que o leite de sua mãe, Chico logo percebeu que era o leite colhido das arvores da floresta que alimentava a ele e a todos os seus. Por isso ele era fascinado pelo trabalho de seu pai e sempre que podia o acompanhava pelos varadouros da mata. Chico começou assim a aprender aquele oficio: Caminhar ligeiro pela mata escura usando uma poronga na cabeça pra “alumiar” a estrada estreita e tortuosa, usar uma faca esquisita para rasgar a casca das seringueiras de onde escorria um sangue estranho, branco e viscoso e deixar em cada arvore uma tijelinha de metal pra aparar o látex que escorria generoso.
O menino Chico não conseguia disfarçar o encanto que sentia pela floresta. Toda vez que entrava nela lhe invadia uma sensação de segurança, de conforto, de familiaridade. Assim, nem bem o menino Chico completou dez anos já ia cortar seringa sozinho para ajudar na produção de seu pai. Mas não tinha medo. Sentia que aquela floresta que lhe sustentava nunca lhe faria nenhum mal.
Logo o menino Chico cresceu e quis aprender mais coisas do que lhe podia ensinar seu pai. Descobriu que perto de sua casa morava um homem muito sabido, mas que vivia sozinho e isolado de todos. Seu nome era Euclides Távora e ele era um exilado político que havia fugido para o meio da floresta no tempo da Intentona Comunista.E esse homem tão sabido e sofrido aceitou lhe ensinar a ler e escrever. Mas, na verdade, ensinou muito mais que isso. Juntos ouviam a BBC de Londres e a Rádio Central de Moscou. Conversavam sobre a ganância capitalista, sobre as utopias socialistas e sobre a exploração dos seringueiros pelos patrões. Por isso quando estourou o golpe militar de 64, Chico, agora um rapaz feito, entendeu direitinho o que estava acontecendo no Brasil. E entendeu que seu povo ainda havia de sofrer muito.

Chico começou então a ajudar seu povo. Fazia reuniões, explicava a realidade das coisas e tentava organizar os homens e mulheres da floresta para acabar com a exploração dos patrões. Foi ameaçado e perseguido por causa disso. Pela primeira vez Chico soube o que era sentir medo, o que era ter que se esconder dos jagunços, o que era ter que andar sempre acompanhado de outros companheiros para se proteger. Mas nada, nem ninguém, seria capaz de fazê-lo desistir daquela luta que estava só começando.
Logo outros seringueiros perceberam que sem organização e união não iam conseguir nada. Decidiram então criar em Brasiléia o primeiro Sindicato de Trabalhadores Rurais do Acre e Chico se tornou seu primeiro Secretario Geral. Mas os tempos estavam ficando mais e mais difíceis. A terra estava sendo invadida por fazendeiros que vinham do sul do país para “derribar” a floresta e substitui-la pelo gado. Os novos donos da terra não queriam saber de reconhecer os direitos dos seringueiros. Famílias inteiras foram expulsas das colocações onde moravam há décadas.
Trocar a floresta pelo boi eis a nova idéia de desenvolvimento que iludia a muitos. Mas sem floresta aqueles homens e mulheres não sabiam viver. Os que não queriam lutar por seus direitos e partiam para as cidades só encontravam miséria e descaso. Era preciso defender a floresta como quem defende a própria vida, então. E pela primeira vez, os seringueiros organizados conseguiram empatar a derrubada da mata e impedir que outro seringal virasse pasto.
Logo, a idéia se espalhou. Outros sindicatos surgiram, a igreja se juntou à luta dos seringueiros em defesa da floresta e nas cidades muitos jovens começaram a perceber que alguma coisa diferente estava acontecendo nas matas acreanas. Chico foi eleito vereador e como resultado do seu trabalho foi preso e torturado, em segredo, sem que ninguém pudesse ajuda-lo.
A luta dos trabalhadores crescia e com ela crescia também a violência dos novos donos da terra. Wilson Pinheiro, o corajoso Presidente do STR de Brasiléia foi assassinado covardemente. Ivair Higino e muitos outros seringueiros também tombaram sob a sanha dos jagunços e pistoleiros. Mas nada, nem ninguém, seria capaz de fazer Chico desistir da defesa de seu povo.
As populações indígenas do Acre, que conheciam como ninguém a opressão, se juntaram aos seringueiros fortalecendo a resistência. Chico ajudou então a fundar no Acre o Partido dos Trabalhadores e a CUT. Além de liderar a organização do 1º Encontro Nacional dos Seringueiros onde propôs a formação da Aliança dos Povos da Floresta para impedir a extinção de seus modos de vida tradicionais.
E tanto fizeram que, finalmente, o mundo “civilizado”, começou a prestar atenção àquela luta de homens simples em defesa da floresta. E Chico se tornou o porta-voz de seu povo. Foi ao estrangeiro, falou aos ambientalistas, capitalistas e banqueiros e recebeu diversos prêmios, entre eles o “Global 500” da ONU.
Começavam a se tornar possíveis os sonhos de Chico e de seus companheiros. Em lugar de fazendas ou seringais, reservas extrativistas. Em lugar de um desenvolvimento que transformava a floresta em terra arrasada, desenvolvimento sustentável. Ao mesmo tempo, porém, cresciam as ameaças de morte contra Chico. Mas nada, nem ninguém, seria capaz de fazê-lo desistir...
É que o Chico, agora homem do mundo, não esquecia do menino Chico que sentia tanta segurança e tranqüilidade quando percorria os varadouros da floresta sozinho ou com seu pai. E com essa certeza no coração Chico prosseguiu...
Mas seus inimigos eram muitos ... e poderosos ...
E assim... Ao entardecer do dia 22 de dezembro de 1988, dois dias antes do natal, Chico foi baleado e morto na porta dos fundos de sua casa ... e os povos da floresta choraram ...
Mataram Chico, o homem, mas não conseguiram matar seu espírito e sua luta...
Os inimigos de Chico foram derrotados por sua morte. As idéias que Chico defendeu impregnaram os corações dos homens de bem desse mundo e sua voz se fez ainda mais forte. Hoje são muitos Chicos. Seu espírito nos guia e haverá de nos proteger quando nos varadouros mais escuros sentirmos medo. É que o espírito de Chico ali estará nos lembrando que a floresta é nossa casa, nossa vida, nossa mãe e assim será para sempre...

* Texto originalmente escrito para as homenagens dos 15 anos da morte de Chico Mendes.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Das nascentes... Alumiar.



Durante a semana passada tivemos as comemorações do dia de Nossa Senhora da Conceição, a Rainha da Floresta, primeira padroeira e protetora de Rio Branco. Por isso tivemos festas em todos os centros daimistas do Acre. Nesta semana, no dia 15 de dezembro comemora-se mais um aniversário de Mestre Irineu. Vai ter mais festa.



Quando Raimundo Irineu Serra criou a doutrina do Daime imprimiu na sociedade acreana uma marca, um novo traço, cultural. Marca que sintetizou contribuições indígenas, amazônicas, afro-brasileiras, européias, ocidentais, orientais, numa só corrente de pensamento.
Estavam atados, então, os laços de uma nova expressão cultural brasileira. Uma síntese nova, mas, ao mesmo tempo, antiga, milenarmente arraigada nas consciências nativas e caboclas do Acre. Isso tudo, parecendo que foi anteontem, em pleno alvorecer do século XX.
Raimundo Irineu Serra, apenas mais um jovem negro nordestino-maranhense a tentar a sorte no Eldorado Amazônico, como tantos outros, teve um encontro (ou foi encontrado), com (por) um destino excepcional. Através desse homem - ainda quase um menino, mas grande e forte o suficiente para chamar a atenção à primeira vista - foram reunidos conhecimentos culturais e espirituais das três grandes raízes brasileiras. Formou-se assim uma identidade comunitária, ética, religiosa e social única, totalmente original, que, a partir do mais interior da vasta e profunda floresta amazônica, ganhou o Brasil e o mundo. E espalhou em seu caminho um novo ponto de vista, uma explicação da realidade diversa, uma radical mudança de perspectiva. O olhar de quem olha de dentro da floresta, a partir das nascentes, pros rios que se dirigem ao mar distante.Mestre Irineu possibilitou assim que uma comunidade, negra, cabocla, trabalhadora, variada, se constituísse em torno de um novo fundamento espiritual, ousada e surpreendentemente, de forma independente e autônoma. Uma comunidade que cresceu, se diversificou e se disseminou ainda mais com o surgimento de dois outros mestres da Ayahuasca amazônica, Daniel Mattos e Gabriel Costa, nesta mesma região do Acre-Rondônia-Bolívia-Peru, entre as décadas de 40 e 70.

Foi um longo processo, mas, aos poucos, a doutrina do Daíme, Santo Daíme, ou Vegetal, dependendo de quem fala, foi vencendo os preconceitos e sendo compreendida e aceita pela sociedade regional. Mas não foi fácil, muito pelo contrário, a elaboração de um corpo doutrinário, com procedimentos, fardas, instrumentos musicais e princípios éticos se configurou, em grande medida, como um processo de resistência cultural frente a uma sociedade fortemente conservadora e católica.
Surgia assim um conjunto de novas referências, símbolos e histórias que são extremamente diversificadas desde suas origens. Dos ritos indígenas foram colhidos cantos, o toque do maracá, usos espirituais (divinatórios e curativos), modos de colher o cipó e a folha, de preparar o chá, uma forma de se relacionar com a floresta que transcende o amor e alcança a mais pura fé. Do mesmo modo como ainda se faz em muitas tradições indígenas amazônicas e andinas que há milhares de anos conhecem o uso a Ayahuasca.
Dos ritos afro-brasileiros emergiram os trabalhos com entidades espirituais, incluindo a possibilidade, mas não a necessidade, de incorporação. Ao lado de um forte sincretismo, realizado já no nordeste escravista, com símbolos e santos católicos.
Dos ritos católicos se integraram a iconografia, o simbolismo, as santidades centrais dos trabalhos, a tradição histórica e espiritual característica de toda nossa sociedade cristã ocidental. Bem como, numa outra extremidade ainda, integrando caminhos, conceitos e preceitos do espiritismo kardecista. Vemos assim se formar um imenso e sofisticado circulo de influencias, referências, origens, simbologias, fórmulas mágicas, num fenômeno sócio-cultural semelhante àqueles que ocorreram em outras regiões do Brasil, tais como: a Umbanda, o Candomblé, as Casas das Minas, as Juremas, que retraduziram comportamentos ancestrais em segmentos sociais historicamente excluídos da riqueza do país. Entretanto, evidentemente, no caso das doutrinas caboclas da Ayahuasca há uma predominância amazônica, florestal, indígena, que não existe em nenhuma outra manifestação religiosa brasileira. As doutrinas da Ayahuasca - com toda a força estética, ética e espiritual, que lhe são próprias e específicas - configuraram-se a partir de um longo processo de resistência e de afirmação social, e se consolidaram como fenômeno sócio-cultural característico da Amazônia Ocidental brasileira no ultimo século.
Estava assim criado o cenário a partir do qual - nos anos 70 e 80, depois da partida terrena de Mestre Irineu - o Daime se tornou conhecido no Brasil inteiro, passando a se estabelecer em diversos grandes centros urbanos e a disseminar algumas das características culturais reunidas pelo Mestre Irineu em sua original doutrina cabocla, amazônica, florestal.

Foi apenas uma questão de tempo para que, ainda nos anos 90, os centros do Daime/Vegetal (ou simplesmente da Ayahuasca) - originados das doutrinas dos três mestres fundadores: Irineu, Daniel e Gabriel - se espalhassem por vários países, dos Estados Unidos à Europa, e passassem a influenciar milhares de pessoas mundo a fora, a partir de seus singelos princípios, fundamentalmente ligados à nossa floresta e seus modos de vida originais.
E foi assim que, desde os anos 20, os novos códigos culturais sintetizados e revelados através de Mestre Irineu, passaram a influenciar, de uma ou de outra maneira, comportamentos e significados da sociedade amazônica, mas também do Brasil e do mundo inteiro.
Música, simbologia, ética, conhecimento, espiritualidade, elementos de nossa vida cotidiana que hoje possuem fortes marcas impressas por essa manifestação cultural originalmente amazônica, caracteristicamente brasileira. É preciso reconhecer: Há muitos e importantes motivos para festejarmos e reverenciarmos a luz que nos foi trazida e legada pelo Mestre desde a infinita profundidade da floresta, onde nasce.