domingo, 29 de abril de 2012

Mestre Irineu e a Esfinge Amazonica (II)

Depois de um longo intervalo alheio à minha vontade, hoje trazemos a segunda parte do resumo de um texto que me foi pedido e publicado, à guisa de introdução, no extraordinario livro de Paulo Moreira e Edward MacRae: “Eu venho de longe - Mestre Irineu e seus companheiros”


O movimento espiritual, cultural e social criado por Raimundo Irineu Serra - junto com outros homens como Daniel Mattos e Gabriel Costa - se espalhou desde sua genese por áreas da política, das instituições publicas e privadas, pelo campo artístico, simbólico e estéticos integrantes do Acre do século XX, e, por conseguinte, também do nosso próprio mundo pós-moderno.
Por isso, em certas passagens deste livro, seus autores se confrontam com questões relacionadas ao contexto político acreano. Momentos sobre os quais a aplicação de parâmetros gerais da história política brasileira ao caso do Acre e à atuação de Irineu junto às lideranças políticas locais, pode parecer extraordinariamente tentadora. Porém, no Acre não existe direita, centro, esquerda; neo-liberais, democratas ou socialistas da forma como nos acostumamos a pensar em relação ao Brasil.
Por força de seu contexto político diferenciado, como Território Federal desde 1904, os acreanos não tinham direitos políticos que os possibilitassem ter partidos e disputas eleitorais que consolidassem espectros ideológicos claramente definidos.
Daí, por exemplo, porque a Legião Autonomista que originou o PTB local e que teoricamente representava setores mais populares e “autonomistas” da sociedade, foi contra o projeto que transformava o Território Federal em Estado Autônomo, ao final dos anos 50. Ao passo, que o PSD, originado do antigo Partido Construtor e, portanto, pelo menos teoricamente, mais conservador, elitista e favorável às políticas do governo federal, foi quem levantou e defendeu o movimento que resultou na tardia criação do Estado do Acre, em 1962.
Da mesma forma não se pode transformar a amizade de Mestre Irineu com o Cel. Fontenele de Castro e com o Governador Guiomard Santos, lideres maiores do PSD acreano, que após 1964 seria transformado na Arena, em um possível apoio político à Ditadura Militar. Esta tentativa pode não ser mais do que uma extrapolação de inexistentes composições políticas e sociais do contexto acreano. Ao passo que se constitui num dos temas mais importantes do trabalho desenvolvido neste livro.


Na verdade, as relações de Mestre Irineu com Fontenele e Guiomard eram muito mais pessoais, corporativas e até mesmo afetivas, do que propriamente políticas. O apoio político de Fontenele e Guiomard, com toda a força de representantes da elite governante, foi o que possibilitou certa distensão de muitos dos preconceitos da sociedade acreana em geral ao uso religioso do Daíme. Daí que um apoio eleitoral de Irineu a eles era também natural, permanente e independente de qualquer mudança conjuntural no longínquo Brasil.
Até porque os vinte anos de Ditadura Militar foram, aqui no Acre, em grande medida, simples continuidade do autoritarismo e do regime de exceção até então vigente. Aqui no Acre a democracia ainda não havia chegado, a não ser pelo breve período de 1962-64. Importante não esquecer, portanto, que não podemos interpretar a história política do Acre no período militar sob os mesmos parâmetros que aplicamos para o restante do país. Apenas mais uma das inúmeras armadilhas da esfinge acreana.
Daí o desafio imenso a que se propuseram Paulo e Edward ao pretender, e conseguir, reunir documentos, depoimentos e eventos significativos na trajetória deste personagem histórico tão singular que foi Mestre Irineu. Por que esse trabalho tem o potencial de ressignificar não só a formação do Acre, mas de imensas áreas até então invisíveis da própria história brasileira.
Afinal, em que outro lugar do Brasil, índios, negros, caboclos, brasileiros e estrangeiros conseguiram interagir a ponto de dar origem a uma nova manifestação religiosa, totalmente original? O advento do Santo Daíme já é, por si só, um acontecimento extraordinário. Surgiu da floresta, de uma cultura gestada a partir do conhecimento e da vivencia na floresta e seguiu expressando suas sínteses mesmo quando transportada para o meio urbano sem, em grande medida, ceder às manipulações e forças de mercado.
Talvez por isso o Acre tenha sido ao longo de sua breve história e, ainda seja, terreno fértil para tantos homens e mulheres diferenciados. Quem poderia dizer que neste pedaço esquecido, desprezado, ignorado de floresta um dia iria surgir um líder espiritual da estatura de Mestre Irineu? Da mesma forma que ninguém poderia imaginar que daqui, das distantes florestas acreanas, surgiria também um líder popular e mundialmente significativo como Chico Mendes. Ambos coincidentemente nascidos em 15 de dezembro, ainda que com meio século de diferença entre eles.
O que há, enfim, de tão diferente no Acre? Não sei dizer. Posso adiantar somente que Paulo e Edward com sua importante pesquisa, agora materializada neste belo e instigante livro, dão uma enorme e inequívoca contribuição para qualquer um que se proponha a, ao menos tentar, desvendar a fascinante esfinge acreana.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Dignidade Acreana

Aqui existe algo extraordinário. Uma coisa simples, mas muito rara de se encontrar e que faz toda a diferença: a dedicação que os acreanos de verdade tem por essa terra. Talvez esse seja mesmo o maior de todos os bens conquistados de que fala nosso hino. E, algumas vezes, esse bem se realiza plenamente através da vida de homens muito especiais.

Quinta-feira, pela manhã, estava meio angustiado. Mesmo sem saber muito bem porque. Então, num impulso, fiz algo que havia se tornado muito comum pra mim nos últimos tempos: peguei o telefone e liguei pro Rivaldo Guimarães. Ele bem poderia me ajudar a encontrar algumas boas histórias e antigos autonomistas pra dar entrevista pro documentário que a TV Senado irá produzir, por iniciativa do Senador Jorge Viana, sobre os cinqüenta anos da transformação do Acre em Estado.

Mas, pra minha surpresa, não foi ele que atendeu e sim sua filha. E as noticias que ela me deu não eram boas. Ele estava naquele momento em São Paulo, na UTI do hospital, e seu estado de saúde era muito, muito, grave. Não preciso nem dizer que fiquei arrasado, tentando apenas não perder as esperanças de que ele conseguisse se recuperar que era tudo o que podia fazer neste momento. Porém, nem bem passava de uma hora da tarde quando recebi a noticia que Seu Rivaldo, como eu costumava chamá-lo, havia nos deixado.

* * *

Não faz muito tempo, desde que começou a ser veiculado o programa Papo ou História na Aldeia FM, me acostumei a falar com Seu Rivaldo praticamente toda semana. Na verdade, ele sempre foi um grande e disponível colaborador quando o assunto eram as coisas do Acre e de sua história. Mas agora com o programa de rádio ele me ligava constantemente, corrigindo minhas ratadas com tal arte e amabilidade que a conversa sobre este ou aquele detalhe das histórias contadas no rádio derivava por mil e um assuntos, cada qual mais fascinante e esclarecedor que o outro. Nunca menos que 30 ou 40 minutos de boa prosa, coisa de acreano.

E nem era pra menos. Seu Rivaldo, irmão de outro grande e saudoso amigo, Jorge Nazaré, transpirava alegria enquanto falava. Não havia lugar para coisas ruins ou maledicência contra quem quer que fosse em nossas longas conversas. Como quando me contou as hilárias histórias do Tomé Manteiga, enquanto eu bolava de rir do outro lado da linha. Ou como quando, animado, me contou da nova fase de seu clube do coração: o Juventus. Ele sempre via o lado luminoso das pessoas e dos acontecimentos. Sem dúvida nenhuma, reflexo do estado de espírito luminoso que ele manteve ao longo de toda a vida.

Só uma vez senti em sua voz certo pesar. Foi quando, no auge da animação de uma dessas nossas conversas, o chamei para sentarmos numa mesa de bar para podermos falar ainda mais longamente. Ele me disse, então: Podemos sim meu filho, apesar de minha situação de saúde ultimamente não me permitir nem mais tomar água direito. Ali entendi que aquele homem que amava intensamente a vida estava com sérios problemas de saúde que o machucavam muito. Mas, ele logo puxou outro assunto e nossa conversa retomou o ritmo e a animação costumeiras.

* * *

Não vou aqui cometer o pecado de tentar falar da biografia do Seu Rivaldo. Até porque se eu não fosse preciso nas informações ele certamente ficaria brabo comigo. Mas não posso me furtar de lembrar que esse homem extraordinário aqui desenvolveu as mais diversas atividades. Desde aluno brilhante do Colégio Acreano - a ponto de despertar a admiração dos que haviam ali entrado depois dele, como lembrou neste sabado o Senador Jorge Viana em emocionado discurso no momento de seu enterro - a plantador e vendedor de hortaliças que produzia no Bairro da Capoeira quando este nem era ainda conhecido como bairro, passando pela função de importante jornalista e influente formador de opinião e chegando ao posto de Juiz depois de se formar na primeira turma de direito da UFAC, quando esta ainda nem era chamada de UFAC.

Mas pra além de tudo, Rivaldo sempre foi um homem de bem, defensor do Acre e dos acreanos nas mais diversas circunstancias. Sua esposa Arnete Guimarães, num esforço sobre humano para conter a avassaladora tristeza que sentia, lembrou do amor que um dos muitos jovens acreanos que tiveram suas vidas recuperadas pela mão amiga do Juiz Rivaldo Guimarães declarou por aquele que considerava seu verdadeiro pai. Um momento de enorme emoção na despedida desse grande homem.

Na verdade, nesta semana eu deveria estar escrevendo a continuação do artigo iniciado semana passada, mas não poderia deixar de prestar hoje uma homenagem a esse acreano que, apesar de ter nascido na Paraíba, amava essa terra com todas as fibras de seu ser. Até porque ninguém vai me convencer que não foi ele mesmo quem estava me avisando de sua partida quando me vi ligando, aparentemente por acaso, para ele na quinta-feira, coisa de amigo.

Assim como não posso deixar de considerar absoluta verdade o que ouvi hoje em meio as homenagens a ele prestadas. Que Rivaldo Guimarães era exatamente como a água pura e boa de beber que existe no miolo do pote... essa água cristalina do generoso pote acreano que Seu Rivaldo, honrando nossas mais profundas raízes, passou a vida servindo aos que tinham sede.

Obrigado meu amigo, apenas desejo que sua nova jornada seja luminosa e cheia de amor como foi sua vida terrena. E tenha certeza que não haveremos de esquecê-lo.

sábado, 31 de março de 2012

Mestre Irineu e a Esfinge Amazônica

Tem algum tempo que tenho vontade de escrever sobre os cem anos da chegada de Raimundo Irineu Serra ao Acre. Mas, enquanto recolho mais informações sobre o tema, trago para a coluna, a partir de hoje, um resumo do texto de apresentação que escrevi ano passado para o importante livro de Paulo Moreira e Edward MacRae: “Eu venho de longe - Mestre Irineu e seus companheiros”.



Recebi o convite de Paulo e Edward para escrever esta apresentação como um imenso desafio. Afinal, como veremos adiante, a tarefa a que se impuseram estes excepcionais pesquisadores é das mais complexas e difíceis de realizar.
Dizer que o Acre, como de resto a própria Amazônia, é muito pouco conhecido ou compreendido pelos brasileiros em geral, seria apenas repetir uma idéia que já se tornou lugar comum no imaginário nacional. Uma idéia que está na origem das muitas brincadeiras e piadas como aquela que afirmava categoricamente que: “O Acre não existe”.
Mas o que diferenciaria o Acre tanto assim? Não deixa de ser curioso constatar que essas mesmas brincadeiras não são tão recorrentes em relação à outras regiões ainda mais distantes dos grandes centros do país. Isso nos faz refletir sobre o fato de que talvez o Acre possa ser realmente mais difícil de ser conhecido e/ou compreendido do que outras regiões da Amazônia.
Sem dúvida foi algo diferente, inusitado, singular, o que atraiu irresistivelmente ao Acre um de nossos maiores escritores, Euclides da Cunha, logo após o estrondoso sucesso do grandiloquente “Os Sertões”, sobre a Guerra de Canudos. Uma marcante experiência que o levou a afirmar, há mais de um século, que o Acre ainda estava “À Margem da História” brasileira.
Olhando sob essa perspectiva, não seriam, então, as piadas e as brincadeiras sobre o Acre, apenas reflexos de temores inconscientes despertados por um lugar que não só é distante e desconhecido, mas que, sobretudo, possui uma aura misteriosa, quase indecifrável e, por isso mesmo, pode parecer, de alguma forma, temível?
Para o leitor que pode estar achando isso tudo certo exagero de minha parte, talvez seja esclarecedor saber que, no início do século XX, este sentido se tornou tão comum e corrente que deu origem a uma expressão popular que usava o termo “Ir para o Acre” como sinônimo de “morrer”.
Mas, fiz toda essa digressão apenas para explicar porque, no dia em que conheci os autores do livro “Eu venho de longe” fiquei muito preocupado ao saber que o tema que os havia trazido até o Acre era a vida de uma das mais significativas e complexas personagens da trajetória acreana: o Mestre Irineu. Não consegui, então, evitar o pensamento: Isso não vai dar certo!


Afinal, se tentar compreender o Acre é um desafio colossal. O que dizer então sobre a tentativa de sistematizar a história de vida de um homem que foi capaz de criar uma nova e original religião, surpreendentemente originada nos mais profundos confins da floresta amazônica para se espalhar por todo o mundo, mobilizando milhares de pessoas das mais diferentes origens e culturas. Ou seja, Paulo e Edward, tinham, a meu ver, enormes chances de serem devorados por nossa particular esfinge amazônica.
É certo que, por aqui, muita coisa se conta sobre o Santo Daime. Ou sobre o enorme negro maranhense que comandava uma comunidade lá pras bandas da Colônia Custódio Freire e tinha fama de curador. Mas, escrito mesmo, em relação à vida do homem que promoveu uma verdadeira revolução espiritual neste pedaço perdido de floresta, sem que quase ninguém percebesse, muito pouca coisa.
Existe, isso sim, uma vasta bibliografia desenvolvida a partir do novo contexto que envolveu o Santo Daime desde que este começou a se expandir por outras regiões fora do Acre e da Amazônia. O que só aconteceu efetivamente após a morte de Irineu. Mas não custa ressaltar que são publicações e abordagens que não são aceitas ou difundidas, sendo muitas vezes repudiadas, pelos tradicionais seguidores de Mestre Irineu.
Por isso, quando, há cerca de dez anos, estive no Maranhão, participando de um encontro promovido pela Fundação Palmares. Fui tomado pelo impulso avassalador de procurar os caminhos por onde Raimundo Irineu Serra teria passado antes de vir para o Acre. Logo após o término do encontro do qual estava participando, visitei a Casa das Minas, as ruas do velho centro histórico de São Luis, com suas fontes públicas e túneis subterrâneos, nas quais tive encontros totalmente inesperados. Mas, como o instinto do pesquisador, às vezes, é irresistível, consegui ir até São Vicente de Ferre, cidade natal de Irineu.



Lá conheci o lugar vazio onde antes havia existido uma tapera de adobe e palha, na qual, segundo os moradores locais, teria nascido Irineu. Pouco depois, encontrei com um sobrinho de Irineu que conhecia bem a história do jovem que partiu pra ganhar o mundo e voltou, décadas depois, como um homem feito e dono de seu mundo, já que havia se tornado importante líder de uma comunidade. E, finalmente, fui ao pequeno e improvisado arquivo da paróquia da cidade onde encontrei o livro de registro de batismos no qual me deparei com uma informação nova. Ao invés de nascido em 1892, como difundido no Alto Santo e por todos seus demais seguidores, constava que Irineu havia nascido em 1890.
Esta, portanto, deveria ser uma informação importante para toda a comunidade daimista. Trouxe, então, a fotografia do registro onde constavam os nomes do pai e da mãe de Irineu, ou seja, sem margem a duvida de que se tratava dele mesmo. E, assim que cheguei, fui ao Alto Santo dar conta à Madrinha Peregrina do que havia encontrado. Ao que ouvi surpreso. “Que Bom! Você encontrou um documento sobre ‘Meu Velho’. Mas, se ele disse pra nós que nasceu em 1892, então nasceu em 1892 mesmo. Obrigada!”
Desde então a breve história acima descrita encerra para mim o inquestionável paradigma, ou paradoxo, da comunidade originalmente fundada por Mestre Irineu.


Obs: Sobre o processo de registro da Ayahuasca como Patrimônio Imaterial da Cultura Brasileira que está em curso, e é correlato ao tema que estou tratando neste artigo, recomendo a leitura do excelente artigo de Edson Lodi publicado neste mesmo jornal ontem, sábado.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Não dividam meu coração na curva do rio*

Ninguém duvida que esta alagação foi uma das maiores de todos os tempos. Como ninguém duvida também que Brasiléia foi uma das cidades que mais sofreu com ela. O que eu não esperava era encontrar nesta cidade uma situação tão inusitada quanto surpreendente.


Todo mundo sabe que Brasiléia é uma cidade de fronteira. Afinal, poucos são os acreanos que nunca visitaram Cobija, do outro lado do rio, e seu comércio de mil e uma utilidades. Como quase todo mundo sabe também que ambas as cidades (Brasiléia e Cobija) surgiram de um acontecimento que marcou nossa história comum.

Mas pra quem não se lembra bem, não custa esclarecer que estou falando do famoso combate do Igarapé Bahia em que, nos idos de 1902, revolucionários brasileiros tomaram o barracão do seringal situado à margem desse igarapé. Com isso provocaram a reação de campesinos e gomales organizados na Coluna Porvenir que, a mando de Nicolas Suarez, promoveram a maior vitória dos bolivianos e o maior massacre de brasileiros ocorrido durante toda a "Guerra do Acre".

Pois foi esse combate que delimitou definitivamente que a fronteira "real" (e não apenas a "legal" dos Tratados) entre brasileiros e bolivianos estava demarcada nesta região pelas margens do Rio Acre. Do lado de lá do rio Bolívia, do lado de cá Brasil. Assim surgiria a premente necessidade de ocupar essa área, fazendo com que o General Pando ali fundasse a cidade de Cobija, ainda em 1906, e provocasse, em contrapartida, a fundação da Vila Brasília, em 1910, posteriormente renomeada Brasiléia.

E foi esta origem histórica - aparentemente tão antiga quanto pouco importante para nós outros que aqui vivemos, 110 anos depois, em 2012 - que deu origem a um problema concreto que atualmente está afligindo os moradores de parte de Brasiléia, apesar de ser ainda desconhecido pela maioria dos acreanos.

Eu mesmo não tinha a menor noção deste novo problema de fronteira até participar de uma missão de trabalho, organizada pelo Senador Jorge Viana, com o objetivo de documentar os estragos causados pela recente alagação, que praticamente destruiu o centro e outros bairros de Brasiléia, e assim auxiliar na captação de recursos para sua reconstrução.

Acontece que uma das áreas mais atingidas na cidade foi o bairro Leonardo Barbosa que, por estar totalmente situado na beira do rio, ficou 100% alagado. E, o pior, viu se agravar o desbarrancamento que há tempos provoca grande temor de seus moradores pelo risco de repentinamente ver suas casas deixarem de fazer parte do Acre e do dia pra noite se tornarem novamente território boliviano!

É isso mesmo. Uma parte de Brasiléia, do Acre, que poderia voltar a ser da Bolivia. O que seria de seus moradores então? Na hora tomei um susto e achei que era brincadeira. Mas, não é. Então fiz a unica pergunta óbvia e cabível nesta situação: mas como assim? Vamos até lá, que voce mesmo vai ver. Respondeu-me o funcionário que participava do atendimento dos alagados.

Acontece que o rio Acre é reconhecidamente um rio jovem e por isso seu leito definitivo ainda não está consolidado. Dai ele fazer tantas curvas ao longo de todo o seu percurso. Com o tempo essas curvas vão sendo desgastadas pela correnteza do rio até serem cortadas. Formam-se assim lagos, conhecidos por alguns como "sacados", que se tornam ótimos locais de pesca até serem recobertos pela vegetação e o tempo se encarregar de aterrá-los.

E não é que parte do bairro Leonardo Barbosa é constituida exatamente por uma dessas pronunciadas curvas do rio? E que o alto barranco onde foi construída a rua asfaltada que dá acesso a essa área do bairro está quebrando rapidamente, estando prestes a apartar? Dai a dúvida que assola seus moradores. Caso o rio aparte essa área, suas casas ficarão do lado de lá do rio e, portanto, passarão a fazer parte das terras bolivianas. Afinal, o que está do lado de lá do rio não é Bolívia?

O que fazer neste caso? Sinceramente... sei não! Só sei que se trata de um problema real, palpável, que deve ser encarado com seriedade porque poderá afetar dezenas de casas e centenas de moradores... Seria importante cuidar disso de forma preventiva para depois do problema efetivado não ter que agir emergencialmente. Porque, certamente o rio continuará a seguir seu curso e sua natureza, como acabou de nos mostrar inequívocamente.

Vai que de repente, surge um outro Galvez para de novo proclamar: Já que nossa pátria não nos quer e estrangeiros não queremos ser, criamos outra! E assistimos ao surgimento de um novo micropaís encravado entre o lado de lá e o de cá de nossa fronteira que, ninguem duvide, é viva.

Obs: Desculpem-me por esta conclusão/brincadeira final, não estou de nenhuma forma fazendo pouco da situação, mas simplesmente não resisti...

Obs 2: Só no momento em que estava diagramando essa página na redação do jornal, é que fui avisado que o professor Evandro Ferreira, também tratou deste assunto em seu blog Ambiente Acreano. Conhecendo a qualidade de seu trabalho, sugiro que interessados no tema o leiam.

* O título deste artigo é vagamente inspirado em um dos titulos de livros mais lindos que já vi: "Enterrem meu coração na curva do rio"

sábado, 17 de março de 2012

A história nos tempos do breve*

(Um calendário aos pedaços)

Mesmo nestes tempos de informação rápida e superficial, não podemos deixar de parar um pouco e olhar melhor pr'aquilo que passou. Quando não fosse por outro motivo, porque continua passando.


Varias pessoas ultimamente andam me cobrando textos mais curtos, sob pena de ser pouco lido. Não consigo deixar de achar que isso é sintoma dos Twiteres, Faces, Gtalks, etc. que nos assolam atualmente. Entretanto, vou fingir que não é nada disso e tentar seguir as lições de Eduardo Galeano (do qual falamos nessa coluna bem recentemente) mestre em contar histórias breves, mas com sentido.

Era uma vez um seringal (que não chegou a ser)
Há 130 anos surgia à beira do rio Acre um seringal com destino de cidade. Na verdade o que deveria ser mais um seringal, como tantos outros que surgiam do dia pra noite naquele distante ano de 1882, logo se tornou um porto pra vender, aviar, comprar, trocar, negociar um pouco de tudo, inclusive amores fugidios com que escapar da solidão das florestas, colocações e seringais.
E foram tantas as casas comerciais, os hotéis, os restaurantes, os cassinos e todos os demais tipos de serviços que se possa imaginar, que não teve alternativa. O porto cresceu, criou ruas, ganhou casas, esquinas, moradores, praças, gentes e jeitos de cidade, até se tornar a maior de todo esse lugar. Mas nunca deixou de ser meio seringal, meio porto, meio floresta, meio cidade, meio rua, meio rio... E é por isso que, em certas ocasiões, tudo se mistura de novo, como neste ano de 2012.



Os ossos do Barão
Há 100 anos morria o Barão do Rio Branco, em cuja homenagem se nomeou essa cidade - que não tem nenhum rio "branco", mas sim um rio "acre" - porque não foi por questão de cor, mas de gosto que as pessoas fizeram questão de aqui permanecer, mesmo contra todas as evidencias e consequencias.
O que me lembra aquela musica: "Quem parte, quem fica! O que significa". Porque neste mesmo ano de 1912 em que partiu o Barão, chegava às terras acreanas outro homem que haveria de também mudar boa parte de nossa história: Mestre Raimundo Irineu Serra.

Cidadãos, enfim!
Há 50 anos os cidadãos acreanos deixavam de ser apenas aqueles que moravam nas cidades e seringais para se tornarem seres políticos de fato, como deveriam ter sido por direito desde sempre. Assim, em 15 de junho de 1962 terminava a maldição do Território Federal do Acre.
Uma praga bem rogada que, desde 1904, não permitiu que os acreanos comandassem seu próprio destino, forçando-os a engolir governantes desconhecidos, autoritariamente impostos pelo governo federal. E o pior é que nem o fato da maioria destes governantes não demonstrar nenhum outro compromisso com o Acre a não ser o de enricar o máximo possivel no menor tempo possível, fez com que o governo brasileiro reconhecesse o absurdo da situação.
Foi necessária uma longa batalha no Congresso Nacional - que se arrastou por cinco anos, entre 1957-1962 - e uma intensa mobilização (através dos comitês Pró-autonomia) para que os acreanos pudessem enfim desfrutar de uma cidadania plena. Nada demais, enfim, apenas os mesmos direitos básicos de todos os outros brasileiros.




O que alguns não querem lembrar
Há 35 anos, em 1977, tinham início as primeiras pesquisas arqueologicas a serem feitas no Acre. Um trabalho extraordinário realizado pela equipe do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) que - mesmo sem as facilidades tecnológicas com que contamos atualmente, tipo: gps, google earth, etc. - conseguiu revelar dezenas de sítios arqueológicos. De barco, de jipe, de pés, a partir das informações generosamente dadas pelo moradores destas terras e florestas, começava a se descortinar nosso passado profundo nas margens do Purus, do Iaco, do Iquiri, do Acre, do Juruá, do Tarauacá, do Muru.
Não podemos esquecer que, até então, a história do Acre começava em meados do século XIX e que, desde então, passou a ser contada em milhares de anos. Um grande salto para o conhecimento da trajetória humana nos altos rios desta Amazônia ainda incompreendida.

O que alguns querem que se esqueça
Há 20 anos, tão generosamente quanto havia recebido quinze anos antes, o Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) deu à Célinha, uma acreana do pé rachado, a oportunidade de realizar a primeira escavação arqueológica sistemática no Acre.
Financiado pelo Smithsonian Institution, graças aos esforços de Ondemar Dias e Betty Meggers, o trabalho realizado no extraordinário Sítio Los Angeles, que atualmente seria genérica e pobremente reduzido à condição de "geoglífo", foi um marco na pesquisa arqueológica no Acre porque nos forneceu inéditas e fundamentais informações deste sítio que é um dos principais e mais ricos já descobertos na Amazônia Ocidental.
Pena que aqueles que praticam uma propaganda sensacionalista de sí próprios, mal disfarçando seus evidentes interesses financeiros, insistam em querer apagar esse pioneiro e importante trabalho. Só mais um exemplo daquela velha história já cantada por Caetano: "Narciso acha feio o que não é espelho". Mas não adianta, porque há verdades que nunca poderão ser apagadas, quando não fosse por mais nada, apenas porque são simples e incorruptíveis verdades e assim, quando menos se espera, sempre haverão de voltar à tona.


Geografia de nós
Há apenas tres dias nos deixou esse grande brasileiro chamado Aziz Ab'Saber. Um homem que fez da ciencia e do Brasil as causas de sua vida. Este geógrafo que amava sua profissão, como poucos atualmente, nos fez ver e pensar a Floresta Amazônica, a Caatinga, a Mata Atlantica, o Cerrado, como nenhum outro antes. O Brasil perde assim um intransigente defensor e uma referencia, não só científica, mas principalmente ética. Enfim, deixamos de contar com a presença deste homem íntegro que carregava o "saber" em seu próprio nome, mas não com seu exemplo. E este haverá de permanecer como motivação para todos os que não aceitam as iniquidades cometidas em nome da vaidade ou de uma falsa idéia de "ciência" em nosso país.

Obs: Como muitos devem ter percebido, este artigo é, na verdade, introdução e roteiro de alguns dos temas que iremos tratar na coluna "Miolo de Pote" deste ano. Além do que, sob a desculpa de escrever pouco, acabei, como sempre, escrevendo demais. Tenho jeito mesmo não!

* O título deste artigo é vagamente inspirado no titulo do celebre romance de Gabriel Garcia Marques: "O amor nos tempos do cólera."

sábado, 10 de março de 2012

O Mundo é dela!

Em homenagem ao dia da Mulher, tenho o prazer de anunciar que, depois de uma acirrada votação popular (aqui em casa), por unanimidade foi eleita a mulher do ano de 2012.



Ela chega assim, dia 06 de março, sem avisar. Tres dias antes da lua cheia, quando eu tinha certeza que haveria de vir. Dois dias antes do dia internacional da mulher, quando era de se desejar que viesse. Mas são assim mesmo as pessoas, ainda que seja apenas uma pessoinha ainda, não costumam obedecer as regras ou as convenções sociais, sejam elas da natureza, sejam humanas.
Ainda bem. Nem ouso imaginar o que seria da humanidade sem essa infinita capacidade de desobedecer. Talvez ainda estivéssemos vivendo em cavernas fazendo as mesmas coisas todos os dias: caçando, pescando, colhendo frutas e sementes, incapazes de desafiar o medo do escuro da noite, o pavor do calor do fogo, o terror do abismo oculto pra lá do horizonte.
Não tenho duvida. A capacidade humana de criar é a filha primeira da desobediencia. Mas, além disso, eu seria capaz de jurar que a desobediencia é uma criação feminina. Uma qualidade forjada e fortalecida ao longo de milenios de opressão masculina, pela força bruta em estado bruto, uma qualidade indubitavelmente inata dos homens.
Pois foi assim que ela chegou, desobedecendo. Mas, ao mesmo tempo preenchendo nossas maiores e melhores expectativas de que ela pudesse vir linda e perfeita. E é assim que é: perfeitamente linda. Apesar de ser só bochechas. Enormes, fofas e rosadas bochechas.



Ainda não fala, mal abre os olhos, mas imediatamente se tornou o centro e o motivo maior da vida de todos aqui em casa. A mãe parida e lenta, o pai atento e avexado, as avós derretidas e ligadas, as tias prestativas, os primos divertidos e barulhentos (como sempre, aliás), as amigas observadoras e animadas e faladeiras. Todos girando em torno desse pedacinho de sol em figura de pedacinho de gente.
E eu cá assim, me limito a olhar e gostar. Afinal, o que posso eu desastrado, desajeitado, agoniado pelo menor choro ou gemido, só atrapalhar. Dai que me limito a olhar e amar. Aliás, como é bom olhar ela dormindo com toda essa paz que transborda e contagia. Uma paz que eu também devo ter sentido um dia, há muitos anos atrás, mas havia esquecido completamente, até tornar a lembrar que existia quando nasceram os meninos.
De tanto olhar, não consigo evitar a pergunta: será que ela sonha? Ou melhor ainda, com que será que ela sonha? Não conhece nada da vida. Ainda não viu a luz, o mar, as flores, o céu, as montanhas, as cores. Mas, de algum modo que não sei explicar, sei que sim: ela sonha. Talvez sonhe ainda com o calor da barriga de onde veio, com as vozes que escutava abafadas lá dentro e que agora estão mais fortes, talvez sonhe com a própria vida que sente pulsando dentro dela cada vez mais intensa. Pode até ser que já tenha começado a sonhar com esse mundo estranho, recem-descoberto e que já lhe provoca dores, medos, desconfortos, fome, frio e um monte de coisas que desconhecia.



Mas não precisa ter medo menininha. Sonhe também com o amor que todos nós, que estamos a sua volta, sentimos. E saiba... Pra voce só sonhamos com o melhor da vida... Siga desobedecendo (acho que sua mãe não vai gostar muito dessa parte) e sonhando pois sua luz já é tanta que inundou por inteiro nossas vidas... e que o espirito feminino que rege o mundo (felizmente) lhe guie e proteja. Seja muito bem vinda Maria Isabel!

Obs: E assim a Sociedade secreta das irmãs Araujo ganha mais uma integrante. O que explica ela ter sido a premiada do ano: ainda não teve tempo de revelar o forte genio que deu origem à Assomau - Associação dos sofredores maridos das Araujo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sem Palavras

Porque imagens falam mais que mil...















Obs: Só pra quem não é do Acre ou está longe... talvez seja bom dizer que o Acre está passando pela maior alagação de sua história... Mas na verdade não há nada de novo nisso...


domingo, 12 de fevereiro de 2012

Da natureza dos espelhos

O que é a história, senão mera manifestação dessa estranha capacidade do espírito humano de se encantar com o que é belo e se indignar com o injusto... Historiadores há que dedicam toda sua vida a corroborar essa simples constatação.

Eu ainda estava na Faculdade quando o conheci. Desde então, a visão que eu tinha do mundo e dos processos históricos mudou completamente. Mais do que os professores-doutores na sala de aula, foi o livro “Veias abertas da América Latina” que me revelou a verdadeira dimensão de nossa tragédia histórica, graças a qual padecemos de grande parte dos problemas e da miséria social que ainda existem neste continente que já foi considerado, um dia, o paraíso na terra.
Anos mais tarde descobri que o uruguaio Eduardo Galeano havia nos retratado por inteiro na maravilhosa Trilogia “Memórias do Fogo”. E, há cerca de três ou quatro anos, recebi da Dani como presente por meu aniversário, o extraordinário “Livro dos Abraços”, onde dezenas de ignoradas, mas fundamentais, pequenas histórias fluem saborosamente misturando poesia, mitos, lendas, tradições orais e histórias clássicas. Foi quando definitivamente decidi: quando eu crescer quero ser igual a ele.


Pois bem, recentemente, transitando em uma livraria, encontrei, ou fui encontrado, por mais um livro de Galeano: “Espelhos – Uma história quase universal” que tem preenchido meus dias com prazer, espanto e encanto. Assim não pude resistir à vontade de compartilhar nesta coluna pelo menos um pouquinho do profundo e ético conhecimento desse que é, pra mim, o maior historiador vivo de nosso tempo.

De desejo somos
A vida, sem nome, sem memória, estava sozinha. Tinha mãos, mas não tinha em quem tocar. Tinha boca, mas não tinha com quem falar. A vida era uma, e sendo uma era nenhuma.
Então o desejo disparou sua flecha. E a flecha do desejo partiu a vida pela metade, e a vida tornou-se duas.
As duas metades se encontraram e riram. Ao se ver, riam; e ao se tocar, também.


Avós
Para muitos povos da África negra, os antepassados são os espíritos que estão vivos na arvore que cresce ao lado de sua casa ou na vaca que pasta no campo. O bisavô do seu tataravô é agora aquele arroio que serpenteia na montanha. E também seu ancestral pode ser qualquer espírito que queira acompanhar você na sua viagem pelo mundo, mesmo que nunca tenha sido seu parente, nem conhecido.
A família não tem fronteiras, explica Soboufu Somé, do povo Dagara:
- Nossas crianças têm muitas mães e muitos pais. Tem tantos quantos quiserem.
E os espíritos ancestrais, os que nos ajudam a caminhar, são os muitos avós que cada um tem. Tantos quanto quisermos.

Fundação da contaminação
Os pigmeus, que são de corpo curto e memória longa, recordam os tempos de antes do tempo, quando a terra estava em cima do céu.
Da terra caía sobre o céu uma chuva incessante de pó e de lixo, que sujava a casa dos deuses e envenenava sua comida.
Os deuses estavam há uma eternidade suportando aquela carga uimunda, quando de repente perderam a paciência.
Enviaram um raio que partiu a terra em dois. E através da terra aberta lançaram o sol para o alto, e a lua e as estrelas, e por esse mesmo caminho eles também subiram. E lá em cima, longe de nós a salvo de nós, os deuses fundaram seu novo reino.
Desde aquela época, estamos cá embaixo.


Servos e senhores
O cacau não precisa do sol, porque o traz por dentro.
Do sol de dentro nascem o prazer e a euforia que o chocolate dá.
Os deuses tinham o monopólio do espesso elixir, lá nas alturas, e nós, os humanos, estávamos condenados a ignorá-lo.
Quetzacóatl roubou-o para os toltecas. Enquanto os outros deuses dormiam, ele pegou umas sementes de cacau e as escondeu em sua barba e por um longo fio de aranha desceu até a terra e as deu de presente à cidade de Tula.
A oferenda de Quetzalcóatl foi usurpada pelos príncipes, pelos sacerdotes e pelos chefes guerreiros.
Apenas os seus paladares foram dignos de recebê-la.
Os deuses do céu tinham proibido o chocolate aos mortais, e os donos da terra o proibiram para as pessoas comuns e correntes.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Da descoberta do amor

Aproveitando que dois de fevereiro foi dia de homenagearmos Iemanjá e que acabei de voltar da beira mar...

Lembro-me bem, apesar de já estar chegando aos cinquenta, dos primeiros amores de minha vida. Afinal, amor de menino é assim: puro, inocente, ingênuo, mas intenso e definitivo. E, o melhor, agora eu sei, provoca na gente um tipo de lembrança que faz juz ao sentido do termo “recordar”: do latim re cordis, voltar ao coração. Memórias tão profundas e entranhadas em mim que ao sair de algum canto recôndito de meu ser e voltar ao coração fazem a respiração falhar, o corpo estremecer e a mente sorrir. Como é bom ser menino e crescer com coisas boas pra lembrar.
Pois bem, toda essa onda de explicita nostalgia foi só pra introduzir o assunto do artigo de hoje. É que, neste inicio de ano, finalmente, levei meus pequenos pra conhecer o mar... E tenho que confessar que a simples expectativa de fazer isso me encheu de lembranças. Porque, como nasci em Copacabana e cresci no Flamengo, ambos bairros com praias, vivi muitas histórias boas ou terríveis no mar.




Assim, como numa preparação ao que iria acontecer me pus a lembrar de como era bom passar o dia inteiro na praia numa época em que sequer existia essa coisa de filtro solar e as meninas cultivavam a lenda de que passar coca-cola melhorava o bronzeado. Lembrei de quantos castelos de areia construí e de como catava os “Tatuís” enterrados para povoar meus magníficos castelos destinados a desaparecer na primeira onda mais forte que viesse lamber as areias onde eu brincava. E de como era bom ter o corpo inteiro coberto pela areia quentinha de sol e depois sair rolando todo “enfarofado” até alcançar a água. É que, em nossa inocência, não sabíamos ainda das famigeradas micoses que certamente estariam escondidas naquela areia aparentemente tão branquinha e limpinha. Assim como podíamos realizar intermináveis guerras de nossas temíveis “bombas de areia”, feitas com areia molhada recoberta por areia seca e que tornávamos bolas perfeitamente esféricas graças à sutil arte de menino, sem que nenhum adulto brigasse com a gente já que no fim da tarde a praia ficava vazia e era toda nossa.


Mas, nenhuma outra lembrança voltou com tanta força, nestes dias pré-viagem, que a sensação, impregnada de absoluta certeza, de que era o mar que gostava de mim e brincava comigo mandando pequenas ondas nas quais me jogava pra que elas me levassem até a areia, só pra voltar pulando, correndo e rindo pra mergulhar de novo “furando” a próxima onda. Rapaz!!! Olhando hoje pra essas imagens, que vejo quando fecho os olhos, tenho novamente a sensação, impregnada de absoluta certeza, de que o mar foi meu primeiro grande amor de menino. Afinal, naquela época eu não me interessava ainda por meninas, a não ser como companheiras ou rivais de brincadeiras. Além do que é óbvio que não to contando com o amor de/pela mãe, porque esse não está fora, já nasce com a gente, existe desde sempre, ou se preferir, desde o ventre.
Por isso, não é difícil imaginar como eu estava ansioso por ver meus meninos na praia. Como reagiriam? Conseguiriam superar o medo natural dessa entidade tão grande e poderosa que é o mar? Saberia eu conduzir seus primeiros passos mar adentro como meu próprio pai havia feito comigo?
Mas minhas preocupações logo se revelaram uma grande besteira. Foi lindo ver a surpresa nos olhos deles já ao pisar na areia quente. Então é assim que é a praia pai? Começa com essa longa travessia, driblando gente, quarda-sóis, barcos de pesca e vendedores ambulantes? E o que dizer da água gelada, então? Pai!!! A água é salgada, olha só! Diziam os dois quase ao mesmo tempo enquanto passavam a língua pelos lábios e descobriam por eles mesmos aquelas coisas que não pode ser explicadas ou contadas, devem ser vividas pra se tornarem verdadeiras. Menino! Não faz isso que essa água é suja!!!


Não demorou muito pra que o Yago, do alto de seus sete anos, se jogasse na primeira ondinha que ousou desafiá-lo. Enquanto Vinicius, com toda a “cautela” que Deus houve por bem lhe dar, graças a Deus, experimentava entrar só até a canela pra então voltar pra areia. E, desconfiadamente, bem de acordo com seus cinco anos de forte personalidade, entrar de novo na água pra ir até o joelho e voltar pra areia. E repetir o mesmo processo até que a água chegasse à sua cintura, sua barriga, seu peito, onde decidiu: aqui já tá bom. Chega!


Daí pra frente foi presenciar, satisfeito, as mesmas cenas que meu coração de menino guardava já faz tanto tempo. Os meninos bolando na areia, o prazer das ondas que vem e vão jogando a gente pro raso e pro fundo numa interminável brincadeira, a construção de novos e efêmeros castelos de areia, os barcos chegando repletos de peixes de cores e formatos ao mesmo tempo atraentes e estranhos. Até que o por do sol, pr’além do fim do mar, definisse chegada a hora de ir pra casa, em meio a infinitos e invencíveis protestos de meus meninos felizes.



Pois foi assim que foi. E isso tudo não passaria de pequenas lembranças de férias, não tivesse o Yago, nesta semana, me perguntado: Pai a gente pode ir pra praia de novo no mês que vem? Foi quando não pude deixar de sorrir de sua inocência e ficar feliz por perceber que meu menino havia encontrado um dos primeiros amores de sua vida.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Humanas raízes de uma certa Gameleira


Diz o ditado popular que santo de casa não faz milagre. Uma homenagem como a que aconteceu na terça-feira no histórico Cine-teatro Recreio desmente essa “verdade” ao valorizar o que o Acre tem de melhor: pessoas que fizeram das dificuldades da vida um infinito universo de possibilidades. A seguir o texto de abertura da cerimônia.

Eurilinda Figueiredo interpretando o texto de abertura da cerimonia - foto Val Fernandes


Senhoras e Senhores..., Sejam todos bem vindos esta noite...

Talvez não exista no mundo outra terra
mais misteriosa ou surpreendente que o Acre.
Quando menos se espera é daí mesmo que sai
o que ninguém seria capaz de supor...
Pois nossa história de hoje é bem assim mesmo...
Surpreendente e, de certa forma, talvez, mágica...

Voltemos então no tempo... até os idos de 1930...
só pra lembrar como tudo se deu...

Eram anos tristes aqueles...
A borracha não tinha mais preço. Muitos seringais fecharam... outros se apequenaram pra sobreviver. Muita gente foi embora pra nunca mais voltar... outros ficaram de teimosos que eram...
O governo brasileiro não queria nem saber do Acre. Se havia sido assim antes, quando o Acre ainda dava dinheiro, imagina agora que só dava prejuízo pra Capital, o longínquo Rio de Janeiro...
Mas..., como se diz nas mais velhas histórias... É no lodo apodrecido dos pântanos, dos igapós, que surgem as mais belas flores... sejam elas flores de Lótus, sejam Vitórias Régias... É assim que é... sabedoria antiga...

O personagem Raimundo Doido que anunciava os filmes do Cine Recreio (aqui interpretado por Ivan de Castela) - foto Val fernandes

Pois foi assim que, em 1934, surgiu uma pequena alegria no horizonte acreano... Os novos ares da Revolução de Getúlio finalmente chegavam por aqui e os acreanos pela primeira vez experimentariam o doce sabor da democracia elegendo deputados para falar por nós lá na distante capital... E... neste mesmo ano nasceria por aqui um menino que tantas alegrias ainda nos daria...
Mais um ano, 35, e seria a vez da menina que estamos homenageando hoje chegar a esse mundo acreano, lá no antigo seringal São Luiz do Remanso... pra logo vir pra cá, pra cidade, pro Quinze, pra crescer e frutificar...
E nem bem o mundo mudava, em plena convulsão da nova grande guerra que chegava, numa quarta feira de dezembro de 39, vinha a um Acre, novamente rico por sua borracha, o terceiro de nossos ilustres homenageados, o ultimo a chegar, mas justamente aquele que seria encarregado de nos contar o que viu desde então...
Portanto, Senhoras e Senhores, sem mais delongas... quero dizer que esta noite aqui estamos pra falar de três personagens... três filhos diletos da cidade que amamos...

Uma mulher que aprendeu e... por bem saber... vive a ensinar...
Um homem que sabia escrever e... com que arte e alegria nos descreveu...
Outro homem que traz a musica dentro de si e... por isso toca... e como nos toca...


Os tres homenageados - João Donato, Guajarina Margarido e Artur Leite, representando seu pai Zé Leite - foto Adonay Melo

E por falar em musica... não sabemos, na verdade, se estes três personagens se conheceram de fato... Mas certamente estiveram juntos muitas vezes, ainda que não soubessem uns dos outros. Afinal, não havia muita coisa pra se fazer em Rio Branco naqueles idos dos anos quarenta em que cresceram e se tornaram gente...
É que aos domingos, na praça, sempre havia uma retreta bem executada pela Banda da Guarda Territorial e sou capaz de jurar que por lá eles se encontraram... num dia qualquer de suas vidas... e como estamos aqui pra lembrar... pedimos que a Banda da Policia Militar, descendente direta daquela outra da Banda da Guarda..., nos lembrem... quem sempre fomos e... orgulhosamente, com nossos pés rachados, ainda somos...
(Neste momento a Banda da PM executou o Dobrado Capitão João Donato e, logo em seguida o Hino Acreano)

OBS: Ah sim! E para quem não pôde ir à cerimônia, mas gostaria de ter ido, aviso que a TV Aldeia, que transmitiu o evento ao vivo para todo o Estado do Acre, promete exibir uma reprise na próxima terça-feira (17/01), às 21 horas.