sábado, 25 de junho de 2011

Papo ou História (II)

Sempre tive dificuldade de escrever pouco. Por isso nunca me meti no Twiter. Acho quase impossível escrever ou falar algo que preste em apenas 140 caracteres ou sessenta segundos. Assim, fazer o “Papo ou História” se tornou um enorme desafio, pois não dá pra contar nada que demore mais que um minuto e pouco. E é pra tentar exercitar a necessidade de ser breve que o artigo de hoje foi feito assim: aos pedaços...


Juro que nunca havia imaginado fazer qualquer coisa no rádio. Minha paixão sempre foram os livros. Mas, não há como deixar de reconhecer que, por mais extraordinário que seja, ler ou escrever é sempre um ato solitário. Já o rádio é um veiculo coletivo. Ou a gente esta junto com alguém no momento em que escuta, ou outras pessoas escutam a mesma coisa que a gente ao mesmo tempo, o que tem efeitos maravilhosos sobre o ato de contar histórias. Vejamos...

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O rádio é muito rápido. Já no segundo dia depois que o programa “Papo ou História” entrou no ar começaram os comentários. Engraçado, neste mundo informatizado em que se diz que tudo é em tempo real, on line, o rádio já faz isso há muito tempo e a gente nem se dá conta. Eu falo aqui, tu escuta ali. Como se esquece também que aonde não chegam os jornais, a TV, o celular, a internet, chega o rádio.


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O telefone toca. É Seu Rivaldo Guimarães, mais um dos bons conversadores/contadores de histórias do Acre que tenho a felicidade de conhecer. Ligou pra dizer que gostou muito do programa. Obrigado, digo eu, sem disfarçar a satisfação. E continua: É, mas aquela história do tiro de canhão esta errada. Como assim? É isso mesmo, eu tava lá na hora do tiro e não foi na praça entre o Palácio e o Memorial, mas da Praça da Biblioteca. Me repito, diante da surpresa: Como assim, o tiro partiu lá de cima? E rapidinho tento calcular mentalmente o ângulo em que o tiro de canhão teria partido daquela praça lá de longe pra acertar justo na janela do governador. E só consigo exclamar: Caraca! Então o tal soldado era bom de mira mesmo. E emendo: Mil perdões Seu Rivaldo, na próxima gravação vou corrigir a história, mas olha, vou dizer que foi tu que contou. Ao que, como bom acreano, em um tom entre desafiador e brincalhão, completa: pode falar!


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Continuo amando os livros, mas desde esse “Papo ou História” passei a ver o rádio de forma diferente. O rádio chega a muita gente simultaneamente. Muita gente falou comigo nos últimos dias, gente de todos os tipos, tamanhos, formas, cores, níveis sociais. Impressionante o poder do rádio.


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“Atenção Sr. Antonio José, na colocação Vai-quem-quer, seringal Sapopemba. Aviso-lhe que o Manuel foi atropelado e está internado no Hospital de Base com fratura craniana, três costelas quebradas, perna direita amputada e fraturas expostas nos dois braços. Peço que não se preocupe, pois ele passa bem. Abraços do Raimundo.” Muitas mensagens da Difusora Acreana, nossa velha e boa “Voz das Selvas”, se tornaram antológicas. Mas impressionante mesmo é a atualidade desta forma de comunicação no Acre em pleno século XXI. É que normalmente costumamos tomar a nossa realidade imediata como se fosse toda a realidade. Muita gente não percebe que o Acre de Rio Branco é a exceção. A regra é o interior onde muitas famílias moram a horas, as vezes dias, de qualquer outro lugar habitado e se não fosse o bom e velho programa de mensagens, ainda seria necessário transmitir notícias pelo tiro do papo amarelo ou através da batidas na sapupema...


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Adoraria dizer aqui que dez entre dez pessoas gostaram do programa, mas desde que descobri que Nelson Rodrigues sentenciou que: “Toda unanimidade é burra”, passei a achar que é melhor prestar atenção em quem não gosta do que fazemos. Assim a gente aprende a fazer melhor, se formos capazes, é claro. Entretanto, na segunda semana do programa na rádio, teve uma pessoa que publicou, num dos blogs da cidade um comentário, daqueles rasos e ferinos, que só visava desqualificar o outro de forma gratuita, o que nem é nenhuma surpresa. Afinal, como já disse Caetano: “Narciso acha feio o que não é espelho”. Ainda assim, quero agradecer à maledicente de plantão por me salvar da possível ilusão de uma pretensa unanimidade... já que de outras manifestações da maldade humana ninguém nos salva... porque é assim mesmo a nossa contraditória natureza.


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Há muito tempo a história deixou de ser pra mim apenas uma tarefa profissional. Uma técnica que se aprende e se aplica em salas de aula, em palestras, em artigos, em livros. História é cotidiano, é encantamento, é tragédia, é vida de pessoas. Não há motivo pra reduzir a história a uma mera formalidade que só precisamos saber pra passar no vestibular... Com o tempo passei a acreditar que enquanto houver alguém que conte sua história com dor e prazer, haverá histórias que valem a pena contar.


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Tenho ouvido muitas histórias nestes meus tempos acreanos. Algumas tenho contado, outras não. E não por temer ou dever a quem quer que seja, mas por respeito. Aliás, mais que apenas respeito, mas pela profunda admiração que sinto em relação à força e à dignidade que emanam da história acreana.


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Aprendi muito sobre história na Faculdade. Aprendi a necessidade da crítica e da consciência política graças ao materialismo dialético de Marx. Aprendi a desconstruir o positivismo com a história combate de Bloch. Aprendi a reconhecer o que permanece graças à Longa Duração de Braudel. Aprendi a perceber o micro na história nova. Como aprendi a misturar muitos campos científicos (graças à Freud, Yung, Sartre, Gramsci, Foucault, Shalins, entre muitos outros. Mas foi na vida real, nas ruas, que aprendi o fundamental: a história é comunicação e arte ou não é nada... Todo o resto é jeito de fazer. E desse projeto de história não mais me afastei, desde então...


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Nesta noite de sexta pra sábado, enquanto tentava escrever este artigo, uma absoluta falta de inspiração pedia (exigia) uma cerveja pra molhar a palavra e torná-la mais fluente. O jeito foi descer pra comprar. Eis que, inesperadamente, na rua me chamam, mãe e filha. Chega tomei um susto. “Tá vendo Mel”, disse a mãe pra menina. “É esse aqui que conta aquelas histórias no rádio, eu não disse que conhecia ele! É que ela adora esse programa!” E o terno sorriso da menina, mesmo impregnado da timidez característica de seus oito? anos, salvou minha noite e esse artigo... Obrigado Mel!!!!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Sobre o que é secreto na coisa pública

(Res publica)

Há pouco mais de um mês atrás publiquei nesta coluna o artigo chamado “O poder do pequeno (ou segredos de polichinelo...)” sobre a liberação dos chamados documentos secretos que são guardados pelo governo brasileiro em “sigilo eterno”. Infelizmente, no momento em que tudo parecia estar resolvido, novo retrocesso mantém o tema na ordem do dia.

Já que os jornais, sites e TVs desse país divulgaram massivamente, durante toda a semana, o imbróglio armado em relação aos tais documentos secretos, não vou explicar nada, vou direto ao que interessa agora:
Se documentos - sobre a Guerra do Paraguai, sobre a Questão do Acre, sobre os porões da ditadura, entre outros momentos mais ou menos obscuros de nossa história - são secretos, sempre foram, não há como saber se há, de fato, razão para mantê-los secretos. Por isso a primeira pergunta deve ser. Quem é que diz o que deve continuar secreto ou não na República? O Presidente, o Congresso, o Supremo, diplomatas, generais, um conselho de estado formado por tais e tais instituições “guardiãs da pátria”? Quem decide, afinal, o que é vexatório ou perigoso e não deve ser conhecido sobre a memória nacional e as relações com os países vizinhos?
Acho que vai ser difícil divulgarem algo ainda mais vergonhoso do que tudo que já é sabido, tido e havido como vergonhoso por todo mundo, há muito tempo. Afinal o Brasil já foi tratado durante muito tempo como uma Republica de Bananas, ou, no caso do Acre, como uma Republica de Borracha, lembram?


Só não se pode esconder que manter documentos secretos eternamente, como eles querem é, depois de tê-lo feito com as gerações anteriores, condenar a atual geração de historiadores, cientistas sociais e cidadãos brasileiros a impossibilidade de conhecer o que, de uma forma ou outra, nos fez ser quem somos e estar onde estamos. E ainda querem nos convencer que é um burocrata sem nome, identidade ou responsabilidade coletiva que vai continuar decidindo o que posso e o que não se posso saber sobre meu próprio país? Isso não é só uma ofensa, mas um crime de lesa-pátria de mim, de ti, de nós e de todo mundo. Só ele sabe a verdade, só ele deve continuar sabendo. Mas, desculpa se não consigo entender, a troco de que mesmo?
O certo é que diante de tanta disposição em esconder o que ninguém sabe, acabei ficando mais curioso ainda. A negociação do Acre pelo Barão do Rio Branco deve ter sido muito vergonhosa mesmo pra estarem tão preocupados assim. Deve ter tido coisa grossa por ai... O que será, que será ??!! Diria Chico (o Buarque) diante de tal dilema.
Mas como, infelizmente, não temos acesso aos tais documentos secretos é difícil avaliar, só nos resta imaginar, então. Será que foi pior do que aquilo que fizeram com o Loco Melgarejo, em 1867? Difícil hem!!! Se for o famoso Mapa da Linha verde que o Barão do Rio Branco fez sumir durante as negociações de 1903, não há problema, todo mundo sabe que ele reapareceu depois. Será que é a confirmação do suposto suborno do Presidente Campos Sales pela Casa Rotschield para que ele não se metesse na “Questão do Acre”? Teria o Barão também subornado a quantas e quais autoridades? Ou usado que outros expedientes sujos? Teríamos tido episódios de espionagem, traições e mortes estrategicamente escolhidas e executadas? Rapaz!!! Se parar pra pensar bem, chegamos à conclusão que só imaginar pode ser até mais perigoso.


Vivemos no Acre. Compartilhamos essa fronteira com bolivianos e peruanos todos os dias. Ou já se esqueceram que o presidente boliviano Evo Morales não pensou duas vezes antes de ganhar dinheiro legalizando os carros roubados do Brasil, na semana passada?
Os problemas que afetam nossas fronteiras são atuais e bem conhecidos: trafico de drogas, contrabando, criminalidade, prostituição, exploração indiscriminada de madeira, invasão de áreas de conservação, expropriação de terras e direitos indígenas, migração clandestina, garimpo predatório, etc., etc., etc.
Feridas históricas são apenas isso mesmo, feridas cicatrizadas pelo tempo. A Bolívia perdeu seu litoral para o Chile, todo mundo sabe como aconteceu, e isso não muda nada. O que os bolivianos nos dizem todos os dias aqui na fronteira é que um governante meio louco que tiveram há muito tempo trocou o Acre por um cavalo e duas medalhas de latão. Ou, então, que eles não perderam, mas venderam o Acre para o Brasil. Ou, ainda, que o Acre foi roubado deles porque nós demos calote na indenização que havia sido combinada. Nada que possa estar nos tais documentos secretos vai mudar ou piorar isso.
Alguém teria por aí o contato do Assange do Wikileaks (que eles tanto temem) pra me arrumar e acabar com essa besteira toda?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Papo ou História?! (I)

(Ou, como se dizia antigamente, “Nas Ondas do Rádio”)

Faz pouco mais de um mês que estreou na Fm Aldeia uma série de interprogramas sobre a historia acreana. Durante este tempo recebi, com satisfação, muitos e variados comentários e observações. Nada mais justo, portanto, que esta coluna conte um pouco desta história enquanto ela ainda está em pleno curso.


Nestes tempos de internet e mundos virtuais confesso que sempre cultivei o desejo de fazer alguma coisa no rádio. Sem nem mesmo saber exatamente o que. Afinal, são muitas as histórias sobre a rádio no Acre. Desde a antiga e evidente importância (recheada de impressionante atualidade) do programa de mensagens da Rádio Difusora Acreana, até a imensa saudade que muitos sentem da antiga rádio-novela “O egípcio”, que marcou a vida de tantos acreanos. Mas, uma oportunidade concreta nunca havia aparecido de fato. Até que, numa confluência inesperada, a coisa aconteceu, coletivamente, como sempre acontece comigo, a partir de uma conversa com Aarão Prado e Alexandre Nunes.

Minha proposta básica era contar histórias diversas do Acre no rádio, mas de forma leve e estimulante, sem aquele tom maçante que muitas vezes reveste o ensino formal da história. Mas como? Eu só tinha, então, a proposta de um bordão pra concluir todas as histórias, dando certa unidade entre elas. “Eu não tava lá, mas me lembro!” Que era uma maneira de dizer que não é porque uma história aconteceu há muito tempo que não podemos nos lembrar dela como algo vivo e presente.
E coube ao Aarão encontrar a resposta: “Vamos fazer uma conversa sobre causos e histórias. Eu pergunto e você responde, que acha? Ai eu fiquei mais preocupado ainda. “Mas, Aarão, as histórias tem que ficar curtas, porque senão ninguém agüenta ouvir. Só se, depois de gravar, a gente editar as gravações pra tirar os gaguejos, diminuir os intervalos da fala e assim por diante.” Ao que o Alexandre retrucou: “Que nada. De repente a gente nem precisa editar pra ficar o mais natural possível, acho boa idéia esse formato de conversa, vamos testar pra ver como é que fica”. Confesso que comecei a gravação, assim, meio desconfiado. Mas, rapidamente, gravamos mais de dez histórias. É importante ressaltar que o Aarão é muito criativo e bom de improviso e assim, além das perguntas iniciais, começou a fazer todo tipo de comentário gaiato. O que me deu liberdade pra, algumas vezes, gozar com ele também. Nem preciso dizer que, num instante, a coisa toda virou uma gostosa brincadeira e até o Risley, que estava fazendo a gravação, começou a intervir na escolha das histórias e no rumo delas.




Beleza! Agora já temos mais de vinte e cinco gravações, mas como vamos chamar esse programinha? E novamente foi Aarão que deu a resposta. “Papo ou História”. E antes mesmo que eu pudesse protestar contra o tom excessivamente informal do nome, o Alexandre decidiu. É isso aí! Papo ou História.
Não tinha mais jeito. O tom geral do programa, entre a brincadeira e o sério, estava definido. Mas, depois que o Marcio Blainer gravou a vinheta de abertura e o Risley colocou nela um “BG” musical com um tom quase galhofeiro, eu voltei a ficar muito preocupado. E ainda tentei argumentar. “Ei moçada, com essa abertura parece até que a gente tá fazendo comédia ao invés de estar contando histórias... Isso não vai dar certo.” Nem preciso dizer que meu protesto, a essa altura, não adiantou mais nada.





Assim, quando o programa entrou no ar, eu estava muito apreensivo se ia funcionar ou não. Mas, logo, comecei a gostar da proposta geral. O tom brincalhão da abertura do programa, mais a conversa descontraída e o bordão final, que se repete com pequenas variações, fizeram um bom conjunto. Com uma vantagem adicional totalmente inesperada. Com esse formato, o programa deixa claro que - apesar da história ser algo sério que precisa a ser encarada com responsabilidade, já que mexe com a vida das pessoas que, de uma forma ou de outra, são tocadas por ela – a história não precisa necessariamente ser encarada de forma sisuda ou matéria exclusiva de especialistas, podendo ser tão leve, sem deixar de ser reveladora, quanto uma boa história contada entre amigos na varanda de casa.
Ou seja, se eu fosse dado àqueles jargões clássicos da academia, poderia dizer que: uma das propostas do programa, portanto, é “dessacralizar” a história tradicional - ou oficial, como muitos gostam de chamar - aproximando-a do cotidiano e da normalidade da vida real. Mas, independente de qualquer argumento, não tem mais jeito... nosso “Papo ou História” já está circulando por ai, “nas ondas do rádio”, e só me resta, então, aguardar a opinião das pessoas pra ver o que acontece...

domingo, 5 de junho de 2011

Sinal dos tempos

No mês passado recebi da Bia Labate, antropóloga e ativa divulgadora de questões relacionadas à ayahuasca, a encomenda de um texto que atualizasse os acontecimentos relativos ao processo de registro da Ayahuasca como patrimônio imaterial brasileiro. Depois de muitas idas e vindas o texto ficou pronto e já está circulando na net. Não poderia deixar, portanto, de trazer pra cá este novo artigo.

Desde que as comunidades tradicionais da ayahuasca (Alto Santo, Barquinha e União do Vegetal) entregaram ao Ministro da Cultura Gilberto Gil, em 2008, pedido para que seja registrado como patrimônio imaterial brasileiro o “Uso Ritual da Ayahuasca”, as discussões e articulações acerca deste tema tem sido intensas. E nem poderia ser diferente, dado o ineditismo da proposta e o enorme grau de complexidade de uma questão que obrigatoriamente deve considerar e envolver centenas de comunidades religiosas ou indígenas com grandes diferenças entre si.
Em consonância com isso, a Câmara Temática do Patrimônio Imaterial - que tem a função de elaborar parecer prévio antes do pedido ser submetido ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural (instância do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional que delibera pelo registro, ou não, do bem cultural em apreciação) – indicou a necessidade de realizar um Inventário que possibilite a análise dos contornos, limites e características de um possível registro, uma vez que o farto material bibliográfico que foi entregue junto com o pedido era assistemático.

Atualmente, as instituições culturais públicas envolvidas neste processo – Fundação Elias Mansour (Estado do Acre), Fundação Garibaldi Brasil (Município de Rio Branco) e IPHAN/AC - estão elaborando projeto para captação de recursos e realização do inventário (que pode utilizar as metodologias definidas pelo Inventario Nacional de Referências Culturais) cujo eixo norteador deverá ser uma ampla e profunda participação das comunidades ayahuasqueiras, levando em consideração a extraordinária diversidade de raízes e de manifestações culturais destas.
Por isso, tem havido, nos últimos meses, intensas articulações entre as comunidades ayahuasqueiras que entregaram o pedido ao IPHAN, as instituições públicas acreanas envolvidas neste processo e diferentes representantes indígenas e líderes de centros religiosos ecléticos de forma a pactuar e efetivar a participação de representantes dos três campos ayahuasqueiros (originários, tradicionais e ecléticos) no inventário e, consequentemente, no possível registro de bens culturais a serem definidos.
Como evidentes sinais da oportunidade e importância desse registro devemos levar em consideração os muitos avanços que as comunidades ayahuasqueiras tradicionais acreanas tem conquistado nos últimos tempos. Entre eles, a elaboração e execução de projetos de valorização e preservação da memória em vários centros diferentes; a realização de um grande seminário para debater políticas públicas voltadas para as comunidades ayahuasqueiras (“Seminário das Comunidades Tradicionais da Ayahuasca: Construindo Políticas Públicas para o Acre”, realizado entre 12 e 14 de abril de 2010); a regulamentação pelo estado do Acre, através do diálogo com as comunidades tradicionais acreanas, da extração e transporte de cipó e folha (Resolução Conjunta CEMAC/CFE Nº 004, de 20 de dezembro de 2010), depois de três longos anos de discussão e trabalho.
Além disso, é preciso lembrar que, ainda em 2007, foi criada, no âmbito do Conselho Municipal de Políticas Culturais da Fundação Garibaldi Brasil (Rio Branco), a Câmara Temática das Culturas Ayahuasqueiras. Os integrantes desta Câmara não só participaram ativamente do fértil processo de construção do Sistema Municipal de Cultura de Rio Branco, como a tornaram uma das mais ativas do conselho. Com movimentadas reuniões mensais onde são debatidos problemas e encaminhadas soluções, em articulação com diferentes órgãos públicos ou organizações sociais, para a área da cultura, saúde, educação e meio-ambiente.
No momento está sendo organizado um encontro com lideranças indígenas do Acre, ainda sem data precisa, para que estas possam participar da construção do inventário desde sua concepção, se assim decidirem. Sem esquecer que a questão da ayahuasca entre os povos indígenas é muito mais ampla - panamazônica e plurinacional – e não está restrita aos grupos indígenas da Amazônia brasileira. Assim, a inserção dos índios neste processo de inventário, sem dúvida, aumentou muito sua complexidade, extensão e implicações.


Ao mesmo tempo, vem acontecendo conversas com representantes de grupos ecléticos para tentar afinar o princípio norteador desse trabalho que sempre foi, e continua sendo, o do respeito e claro reconhecimento das diferenças entre os envolvidos, em prol de um objetivo comum. E, devo esclarecer, isso não é pouco, pelo contrário, vem dando um trabalho danado. Mas, mesmo longo, este trabalho tem se revelado um importante e enriquecedor processo de construção coletiva.
Entretanto, é preciso alertar: erra quem acha que estamos tratando aqui apenas da busca de um reconhecimento formal e inócuo. O objetivo final deste processo, bem definido para todos os participantes, é fazer o inventário sugerido pelo IPHAN, se possível definir que referências culturais constituem o cerne comum entre as diferentes matrizes ayahuasqueiras, registrar estes bens culturais como patrimônio imaterial brasileiro e estabelecer salvaguardas que sirvam ao fortalecimento das comunidades e a preservação destas manifestações culturais.
Porque, afinal, entendemos que as práticas ayahuasqueiras não podem ser consideradas simplesmente como questões a serem reguladas pela política nacional antidrogas, ou definidas apenas pelos parâmetros da biomedicina, e sim tratadas como parte fundamental e indissociável de muitas culturas amazônicas e de nossa identidade nacional. E esta outra forma de compreensão pode resultar em uma grande mudança de paradigmas no nosso país, na Amazônia, e também no mundo. Sinal de novos tempos que começam a se delinear.

Obs: Para quem quiser saber mais sobre este tema recomendo uma visita ao blog, recém criado, da Câmara Temática de Culturas Ayahuasqueiras do Conselho de Cultura de Rio Branco (camaratematicaayahuasca.blogspot.com).

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Tantos Chicos, Quantos Zés...

Acredito em coincidências. Mas admito, pro bem e pro mal, aquilo que chamamos de coincidência, que outros chamam de sincronicidade, e outros, ainda, de azar ou sorte, pode ser apenas o que parece ser, acaso... Mas não custa acreditar... no mínimo nos faz pensar no que acontece em seus porquês... Portanto, não custa nada... mesmo.


Tem uma coisa que sempre me incomodou na história do Acre. Uma desconfiança, quase certeza, que nunca consegui apagar de todo. E permanece dentro de mim, como um incômodo, uma palavra presa na garganta, que aqui e acolá luta de novo pra se libertar. Talvez nem seja a hora ainda, mas queria hoje me dar o direito de, ao menos, duvidar.
O assassinato de Zé Claudio e Maria do Espírito Santo esta semana me fez lembrar do tanto que já escrevi sobre Chico Mendes, Wilson Pinheiro e outros. Não me foi possível evitar o sentimento de que estas mortes foram iguais aquelas, ainda. Como não foi possível deixar de perguntar: O que, de verdade, mudou no Brasil desde 1988? 1980? Ou mais além?
Um país que mata líderes que ousam se contrapor aos interesses hegemônicos não será um país, nunca. No máximo, um mal disfarçado apêndice de outros países mais poderosos. Assim é a história. Ou como já disseram: Assim caminha a humanidade... Mas o pior não é isso... O pior é a desconfiança de que isso não é nada. O pior é o que não vemos, nunca.
Lembro de certa ocasião, em uma mesa redonda de historiadores em Brasiléia, na época do centenário da Revolução Acreana, onde falei sobre o desconhecimento sobre o real numero de mortos (que também poderiam ser chamadas de “vítimas”) daquela guerra do fim de mundo. O que bastou pra me tornar alvo de uma saraivada de argumentos dos doutos senhores da Academia sobre a desimportância disso, porque o que interessava não eram nomes e nem quantidades, mas unicamente que a Revolução havia sido feita por conta dos interesses capitalistas internacionais, punto e basta... Fórmula mágica da generalização que tanto empobrece nossa consciência histórica. Para delírio de uma claque bem adestrada em salas de aula improdutivas...


Talvez seja por isso, que não existam, ainda, histórias sobre os tantos mortos das florestas acreanas naquelas décadas trágicas de 70 a 90. Sempre que leio, ou escrevo, ou falo, sobre o tempo e os eventos que levaram à morte de Wilson Pinheiro, João Eduardo, Ivair Higino, Chico Mendes, tenho uma incontida sensação de que estou falando da morte de uma multidão infinitamente maior do que essa limitada lista de nomes e rostos conhecidos.
Quando me ponho a imaginar o tanto de famílias expulsas dos seringais pelos grileiros e madeireiros do Acre de então, me vem a desconfiança do tanto de gente que morreu nas muitas colocações perdidas no meio da mata profunda, sem que ninguém no mundo cá de fora ficasse sabendo. Eu já ouvi falar de algumas dessas mortes silenciosas e anônimas aqui perto. Num seringal das cercanias de Porto Acre. Fazendeiro, recém chegado e valente, que roubava na castanha que o povo tirava da mata, roubava nas escrituras do cartório, roubava no direito àquelas terras há décadas ocupadas, roubava a vida dos que não abaixavam a vista.
Pois ainda hoje o povo conta... Entredentes, mas conta. Quase nem se escuta o que ele fala, é preciso apurar os ouvidos para entender o que não é, sequer, dito, mas revelado por olhos desconfiados, daqueles que lembram os tempos de medo e de morte.
Por isso acredito que para cada nome conhecido entre os assassinatos de homens como Chico, João, Wilson, existem outros, muitos, dezenas, talvez centenas, desconhecidos, sem fotos, sem manchetes que lhes desvelem. Mas essa é uma história que ainda resta ser contada...
Disso tudo eu lembrei essa semana, com a notícia sobre a morte do Zé Claudio e da Maria do Espírito Santo. O que não deixa de ser ao mesmo tempo curioso e assustador.
Já que ainda dá de lembrar que, na semana passada, no dia em que iam votar e já dava pra ver que iam aprovar o novo código, saiu a noticia do absurdo aumento no desmatamento brasileiro, reflexo imediato do que ainda nem havia acontecido. Um aviso que não quiseram escutar. Pois, nesta semana, quando finalmente conseguiram o que queriam, aprovar o código do agro-capital ao invés do florestal, nos chega a notícia amarga de mais duas mortes pelos mesmos velhos motivos daquelas outras de três décadas passadas, ainda. Apenas coincidência... talvez. Mas, há que se admitir, mesmo que assim seja, um mau sinal.
E, como que pra nos lembrar que não há mesmo nada de novo a ser contado, na sexta-feira ultima, mais um assassinato. Dessa vez, de um homem chamado Dinho, aqui do lado, em Rondônia. Mais um, de quem se conhece o nome, do qual temos fotos pra publicar, apenas mais um mero acontecimento banal...


Nenhuma coincidência há, então. Apenas mais alguns Wilsons, Joões, Chicos, Zés, Marias, Dinhos, como tantos quantos aqueles que nos esquecemos de contar... Porque assim também não nos poderá incomodar a falta de alguma possível consciência...

terça-feira, 24 de maio de 2011

Excepcionalmente

Dessa vez vou burlar minhas próprias regras e vou postar algo que não foi (nem vai) pro jornal... Devido ao comentário do Thiago no post anterior, mas também porque fez parte do texto publicado no jornal, só que mais tarde... (e ainda teve mais, só que ai já seria transgressão demais)




“Me sabe o sopro do dragão” (Legião)



Lutar por destino
Acreditar no que sinto

Compreender o martírio
Aceitar a dor

Seguir em frente
Digna idade

A cada dia da vida
Jogos de vida e morte.
De tempos em tempos
Pequenas mortes
Pra não esquecer
Da finitude
Da evasão da alma
E da fragilidade
Que nos ata a cada dia
O próximo...

Perdas e ganhos
Vitórias e danos
Dor e amor
Sentidos e destinos
Possíveis...
Passiveis de substancia
E realidade

Jogos de vida e morte
Não são guiados
Por azar ou sorte
São decididos
Pelo espírito de cada um
A cada dia da vida

E já que a poucos
É dado conhecer o fim
Só me resta
Escrever histórias e poesias
Minha sina
E meu amor...

Arquiteto de mim...
rio acima...

domingo, 22 de maio de 2011

A solidão por condição

Esta semana uma imagem publicada na net, se juntou com um filme que assisti há pouco tempo e “pirou meu cabeção”, como diria Dona Luci. A Nasa divulgou que existem planetas que não orbitam nenhuma estrela, apenas vagam pelo espaço, sem destino, sem direção...

A surpreendente noticia de planetas solitários, vagando incertos pelo espaço sideral (nunca mais tinha ouvido ou escrito essa coisa de “sideral”, parece que saiu de moda, porque hem?), me fez lembrar de uma poesia que li, há muitos anos, na abertura de um dos livros de Castañeda e que recentemente foi citada por Toinho Alves em seu blog, que anda há tempos parado exatamente neste ponto.

“Cinco são as condições do pássaro solitário:
A primeira, que ele voe ao ponto mais alto;
A segunda, que não anseie por companhia - nem de sua própria espécie;
A terceira, que dirija seu bico para o céu;
A quarta, que não tenha uma cor definida e
A quinta, que tenha um canto muito suave.”
(San Juan de la Cruz)


Lembro que, certa vez, tive uma discussão acirrada com um dos meus gurus revolucionários da época de faculdade, por conta do verso desta poesia que diz que o pássaro solitário não deve ter uma cor definida. Ele se pegou nesta frase para desqualificar todo o resto. Naquela ocasião me pareceu que ele não havia refletido direito sobre a incoerência inerente a qualquer ato ou desejo de solidão. Perdi então grande parte da admiração que tinha por ele.
Mas, em compensação, fiquei mais apaixonado ainda pelos livros de Castañeda, cujo mestre Dom Juan Matos não cansava de explicar que todo e qualquer ser vivente sobre a terra está irremediavelmente só em sua caminhada rumo ao desconhecido, ao infinito.
No máximo, a única companhia que verdadeiramente desfrutamos ao longo de toda a vida é de nossa própria morte. Ter consciência que ela está sempre ao nosso lado e que pode nos tocar a qualquer momento é o preço a ser pago para conquistarmos a sobriedade e a possibilidade de superação da auto-piedade (tantas vezes travestida como vaidade, egoísmo e outros vícios equivalentes).
Ai, pra completar, passou na TV (e tem na locadora pra assistir, o que recomendo) um filme surpreendente chamado “Na natureza selvagem” que conta a história de um jovem homem que busca intensamente a liberdade que só a solidão por vezes parece ser capaz de nos conferir... até que ao final descobre que...
Não. Não vou contar o fim do filme, senão é sacanagem... assistam...
Mas, cuidado, há coisas que: se nos tocam, nos transformam irremediavelmente. E elas podem, a qualquer momento, nos alcançar de muitas maneiras distintas, através de um livro, um filme, uma poesia, uma imagem, uma palavra amiga, um acontecimento inesperado, um gesto de carinho. Vai saber...




O certo é que ninguém sabe ao certo porque existem esses planetas solitários, e nem o que os faz ser assim... eles são assim e ponto final...

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Negra Amazônia

Quando eu era menino o dia 13 de maio era dia de festa em todos os terreiros de Umbanda e Candomblé. Mais recentemente o movimento negro brasileiro trocou o dia da abolição da escravidão pelo dia 20 de novembro, que passou a ser chamado de Dia da Consciência negra. Ainda assim, quero aproveitar a passagem desta data, na última sexta-feira, para lembrar a participação africana na formação amazônica e na Cabanagem, um dos maiores movimentos políticos e sociais já ocorridos na história do Brasil.



Os africanos
Pela dificuldade de aprisionamento e pela vulnerabilidade às doenças, os índios amazônicos (também chamados de negros da terra) não se adaptavam a muitas atividades econômicas necessárias ao colonialismo. A partir da segunda metade do século XVIII, assim como em outras regiões da colônia, a carência da mão-de-obra foi suprida, ou pelo menos amenizada, com a chegada dos negros trazidos da África na condição de escravos. No Baixo Amazonas, os negros foram empregados nas construções, cada vez mais numerosas, nas plantações de cacau, na agricultura de subsistência e na pecuária. Mas também, como no Nordeste, o negro incorporou-se ao ambiente das casas senhoriais e nas atividades domésticas. Poucos subiam o Amazonas. A colonização portuguesa que os transportava ainda se concentrava nas proximidades da foz do rio. Assim, a presença dos negros na população amazônica ficou concentrada no Pará e no Amapá. Os escravos negros que conseguiam fugir se embrenhavam pela floresta e criavam pequenas comunidades conhecidas como quilombos.


Amazônia Portuguesa
O estabelecimento do Tratado de Madri e o início da administração de Marquês de Pombal em Portugal, ambos ocorridos em 1750, marcaram uma nova fase na qual a Amazônia brasileira foi, em linhas gerais, definida.
Vale lembrar que, nessa época, o conhecimento que se possuía do interior do continente americano ainda era muito impreciso. O Mapa das Cortes, elaborado a pedido do rei de Portugal, serviu de base para as negociações do Tratado de Madri e possuía forte distorção do curso dos rios que cortam as terras a oeste do Brasil. Essas distorções eram propositais, puxando o traçado dos rios para leste, diminuindo artificialmente a área pretendida pelos portugueses – e cumpriram perfeitamente o objetivo de desorientar os negociadores espanhóis.
Não menos importante do que o Tratado de Madri para a inauguração de uma nova fase da história amazônica foi a administração empreendida pelo Marquês de Pombal. Tão logo subiu ao poder, ainda em 1750, Pombal pretendia tirar Portugal da situação de atraso que experimentava frente às demais potências européias e da dependência da Inglaterra, país do qual recebia proteção contra a França e a Espanha.
Pombal criou a Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão que deveria oferecer preços atraentes para as mercadorias ali produzidas a serem consumidas na Europa, tais como cacau, canela, cravo, algodão e arroz. Começou também a introduzir na Amazônia a mão-de-obra escrava de origem africana.
Em 1759, Pombal determinou a expulsão dos jesuítas de Portugal e seus domínios, com o confisco de todos os seus bens. Os missionários, e em especial a Companhia de Jesus, eram acusados de tentar criar um estado próprio dentro do reino português.
Pombal pretendia também consolidar o domínio português nas fronteiras do Norte e do Sul do Brasil através da integração dos índios à civilização portuguesa. Essa jogada política garantiria o aumento das terras portuguesas de acordo com o Tratado de Madri. Por isso, proibiu a escravidão indígena, transformou aldeias amazônicas em vilas sob administração civil e implantou uma legislação que estimulava o casamento entre brancos e índios. Consolidava-se assim a presença portuguesa no imenso território que hoje constitui o Brasil.




Amazônia brasileira
Na metade do século XIX, findo o período das “drogas do sertão” e iniciada uma ocupação mais sistemática da Amazônia, temos uma nova base cultural estabelecida. A fronteira do território da Amazônia brasileira permaneceria móvel até o início do século XX, quando os contornos políticos do Brasil seriam definidos com a conquista dos territórios do Amapá e de Roraima, ao Norte, e do Acre, no extremo Oeste.
Estes extremos, especialmente as regiões dos altos rios, na parte mais ocidental da floresta, permaneciam como área de refúgio dos primeiros habitantes, os povos indígenas mais arredios que não foram incorporados aos empreendimentos colonialistas, nem de Portugal nem da Espanha. Esta Amazônia profunda retinha suas riquezas em segredo e realimentava o mito do “inferno verde”.



A Cabanagem e a crise da economia colonial
A adesão do Pará à independência do Brasil, em 1823, provocou forte frustração nacionalista da parte da elite amazônica, que se ressentia de ter sido afastada das decisões políticas e econômicas do país. O poder, no Império brasileiro, continuaria concentrado nas mãos dos conservadores que exploravam o Pará desde o tempo da colônia.
Em 1835, irrompia no Pará a Cabanagem, marcada por ataques e a tomada de Belém, onde foi proclamada a independência do Pará em relação ao Brasil. A Cabanagem não foi simplesmente uma revolta popular, era uma frente ampla que congregava burgueses nacionalistas insatisfeitos, militares que desejavam alcançar mais altos postos, políticos que queriam maior fatia de poder, escravos que ansiavam pela liberdade, índios e mestiços movidos por séculos de dominação e opressão portuguesa.
As lutas prosseguiram até 1840. No final, o saldo foi de 30 mil mortos entre rebeldes e legalistas. Belém foi quase totalmente destruída e sua economia devastada.
A Amazônia brasileira permaneceria ainda por muitos anos mergulhada em uma situação de grave decadência econômica e social. Somente com a criação da Província do Amazonas, em 1850, por desmembramento do Grão-Pará, e os primeiros movimentos de valorização da borracha extraída da seringueira, a região experimentaria um novo alento.


* Trecho de artigo que escrevi para o Projeto “Tom da Amazônia”, da Fundação Roberto Marinho e parceiros.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Ventre nosso de cada dia




Desvendar uma mulher
Talvez seja a mais insana e vã tarefa
que um homem é capaz de se impor.


Ainda assim, não há como não intentá-lo...




Quantos livros serão necessários, então, pra contar nossa história???

Se não bastasse a memória, ainda haveria a saudade...

Se não fosse o amor, só poderia haver descrença...

Se não fosse o sentido oculto, não poderia haver consciência...

Se não fossem as canções, não veria sua beleza completamente...

Se não fosse coincidência, não haveria magia...

Se não fosse encontro, seria só partida...

Se não fosse muito, pouco também não haveria de ser...

Se não fosse tanto senão, seria não...

Só por isso é, sim...
Inicio, meio e fim...







Para a mãe primordial e sagrada que habita e fertiliza o ventre

de todas as mães e, em especial, da grande mãe daqui de casa.


Assinado: Os quatro homens de sua vida.




sábado, 30 de abril de 2011

O Joca Escangota

(ou Entre a fome e a vontade de saber)

Quando a gente pensa que já viu de tudo nessa vida, sempre surge alguém revelando algo que foge de nossa compreensão. Há alguns dias passei por Mâncio Lima e a história que ouvi por lá, a respeito de um misterioso peixinho que só pode ser encontrado nos igarapés dessa região e que possui extraordinários efeitos afrodisíacos, me deixou de boca aberta e vazia...

Quando a fome aperta é difícil pensar em outra coisa, senão em comer. E este dia já andava pelo meio da tarde e nada de comida. Como eu já vinha, nos dois dias anteriores, comendo pouco e de forma irregular, estava particularmente faminto. Por esse motivo quando a bóia finalmente saiu, naquela bela chácara construída às margens do Igarapé Branco, eu tinha muito pouco interesse em qualquer outra coisa senão no lindo e cheio prato que estava diante de mim.
Assim, quando o senhor que estava ao meu lado começou a contar uma curiosa história, eu nem quis prestar atenção de início, mas aos poucos a história que ouvia se revelava tão surpreendente que não consegui mais manter a atenção exclusiva em matar aquilo que me matava e comecei a me concentrar, e o que é ainda pior: comecei a perguntar mais e mais sobre o tal estranho e misterioso peixe chamado JOCA.




Segundo ele, as autoridades locais começaram a perceber que poderia haver algo diferente em Mâncio Lima, quando, mesmo sabendo que o povo dali é tradicionalmente filhento, se percebeu que a maioria dos nascimentos de crianças nas famílias de baixa renda se dava de forma concentrada em uma determinada época do ano (fevereiro e março). Exatamente nove meses depois do período (maio e junho) em que se costumava pescar o tal peixinho chamado Joca.
Foram atrás de investigar se isso era apenas coincidência e descobriram aquilo que o povo que vive à margem dos muitos igarapés de Mâncio Lima já sabia há muito tempo. O tal peixe Joca é um poderoso afrodisíaco, talvez o mais poderoso e efetivo de que já se tenha tido noticia na história da humanidade.
Neste ponto da narrativa, contada com um irônico e curioso sorriso nos lábios, é bom que se diga, eu já tinha quase esquecido do prato que ainda estava pela metade diante de mim. E me pus a perguntar: E esse peixinho é fácil de pegar? Tem muito dele por aqui? Ao que recebi uma desconsoladora resposta: Mais ou menos. Acontece que o Joca tem hábitos estranhos. Passa a maior parte do ano sumido pra dentro das locas, mas depois da época da cheia ele vem pros poços que se formam em quase todas as curvas dos igarapés para se reproduzir. Mas, é preciso atenção! Ele não tem paradeiro certo. De repente ele aparece em algum poço, mas é preciso aproveitar na hora, se você voltar no dia seguinte, já não tem mais nenhum pra contar história, eles somem tão rapidamente quanto aparecem.
Por outro lado, tem uma vantagem no Joca. Se você acertar o lugar onde ele está, pega o bando todinho. Um atrás do outro, vão mordendo a isca e você vai pegando tudinho, até não restar mais nenhum. Ou o Joca é muito guloso, ou é muito burro. Pode até ser que seja excesso de confiança já que ele é muito difícil de morrer. Passa o dia todinho no fundo da canoa se debatendo, correndo de um lado pra outro, mas não morre. Enquanto tu não põe ele pra fritar na panela, fica lá vivo.
Além disso, o bicho é tão poderoso que, quando a gente frita, ele vai aos poucos ficando cada vez mais ereto, chegando a escangotar o corpo assim pra cima (e neste ponto nosso narrador faz um gesto com o braço pra mostrar como o Joca vai torcendo o corpo pra cima até ficar totalmente ereto). Acho que nem preciso falar que neste ponto da conversa de meu parceiro de mesa, eu já tinha esquecido totalmente o prato ainda cheio e mesmo a fome que me corroia as entranhas. A curiosidade humana é realmente uma força extraordinariamente poderosa.
Mas ainda tinha mais e sorrindo, agora escancaradamente, diante de meu olhar de desconfiança, o vizinho evocou o testemunho do cidadão que estava na outra ponta da longa mesa, montada ao ar livre, em que nós almoçávamos. Ei fulano, conta pra ele do Joca Escangota! Ao que o outro respondeu sem titubear. É verdade, o Joca é fantástico, funciona mesmo. Mas só se você comer a cabeça dele. Nem adianta comer só a carne do corpo porque não dá nada. Todo o poder afrodisíaco do Joca está num óleo que ele tem só na cabeça.
Neste ponto eu já estava decidido a questionar aquela história, pela absoluta desconfiança de que eles estavam tirando uma onda com a minha cara. Mas, ignorando solenemente minha descrença, ele prosseguiram. Rapaz é verdade. Teve aqui um pessoal da Unicamp que levou alguns Jocas pra analisar no laboratório e confirmaram que o óleo da cabeça dele é mesmo afrodisíaco. O mais potente tipo de afrodisíaco já encontrado e estudado. Ao que eu respondi: então este peixe é uma mina de ouro!
Pois é. Concordaram comigo meus interlocutores. O problema é que não adianta criar ele em cativeiro que não dá nada. Não foi possível disfarçar, então, meu completo espanto. Ué??? Mas, como assim???



E do alto de um, agora, grande e largo sorriso meus interlocutores prosseguiram em sua explicação. Estamos falando porque nós já tentamos. Pegamos algumas matrizes e jogamos num açude. Eles até se criaram bem, mas quando comemos, não tinha nenhum efeito, era só mais um peixinho comum. E prosseguiram.
É que parece que o segredo não está no Joca em si, mas no que ele come na mata. O pessoal da Unicamp não soube explicar, mas o povo que vive nessas beiras daqui nos contou o mistério deste peixinho. É que na época da cheia as águas invadem boa parte da floresta. Durante este período o Joca se espalha na mata alagada e come as frutas que caem na água. E é de uma dessas frutinhas o óleo, que se concentra na cabeça do Joca, que possui um imenso poder afrodisíaco. Portanto, quando o criamos no açude, ele não come da fruta e não tem poder nenhum.
E que fruta é essa, afinal??? (perguntei desconcertado) E eles, já gargalhando, me concederam ainda essa ultima resposta: Isso é o que ninguém sabe!!! E é provável que nunca fiquemos sabendo, faz parte dos mistérios do Joca Escangota que só nós de Mâncio Lima temos.
Neste ponto eu tinha chegado à fatídica conclusão. Eles estavam mesmo me enganando. Mas a história toda tinha sido tão bem construída e tão cheia de detalhes e respostas já prontas, que eu mesmo tentava me convencer que havia algum fundo de verdade em tudo isso. Assim, quando duvidei abertamente de meus interlocutores, eles sabiam que eu já tinha mordido a isca (faminto com o tal Joca). Rapaz! Isso é mentira!!! Vocês estão me enganando!!! Mas era tarde. Eles juraram que era tudo verdade e que bastava perguntar pro Deputado tal, pro Governador, pro Bispo, enfim, pra quem eu quisesse, porque todos eles sabiam da extraordinária história do Joca Escangota.
Só me restou então, engolir minha descrença (e, de quebra, minha fome de um almoço não totalmente concluído) e me render, no mínimo, às maravilhas da criatividade humana. Pois ainda que essa história toda seja mentira, não deixa de ser uma história muito da sua boa e, além disso, muito bem contada por meus simpáticos companheiros de quase-almoço. Era hora de, com ou sem fome, prosseguir viagem.