segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

História política recente da Ayahuasca (II)

Qual a imagem que o uso da Ayahuasca tem para o povo brasileiro? Não apenas a imagem superficial, aquela imediatamente acessível a todos os olhos, todas as bocas, mas também a que ocupa um lugar muito mais profundo em nosso imaginário.

Eis o calendário...

Inesperadamente, a oportunidade. Já estávamos no meio de 2008, mas o aviso de que o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, viria visitar mais uma vez o Acre, a última como dublê de Ministro e Músico, provocou nova reunião, na mesma Assembléia Legislativa, com a mesma composição que um ano antes.




Autoridades religiosas e políticas presentes no Alto Santo durante a cerimônia de entrega ao Ministro do pedido de registro da Ayahuasca como patrimônio cultural brasileiro. (fonte: blog do Altino).





E a luz se fez... O consenso aconteceu espontaneamente em torno de um novo arranjo, tão surpreendente quanto longamente cultivado. O pedido de reconhecimento do uso ritual da Ayahuasca como Patrimônio Cultural Brasileiro implicava, e todos tinham consciência disso, que ninguém poderia ser impedido de participar do processo.
Ou seja, provavelmente poderia, novamente, ocorrer uma mistura indistinta de grupos muito desiguais sob o imenso guarda-chuva da “Ayahuasca”, como já havia acontecido em outros fóruns e deliberações do estado brasileiro, como certas conflituosas reuniões do CONFEN. Em alguns casos, isso soava como inaceitável para os centros “tradicionais” do Acre.
Seria necessário, portanto, propor um processo de registro que, ao tratar dos fenômenos e manifestações sociais e culturais das comunidades ayahuasqueiras, tratasse e compreendesse, de forma distinta, os diferentes. E fazer isso sem se afastar do objetivo central, que é ver as culturas ayahuasqueiras reconhecidas como parte indissociável do tecido social do país, conquistando, assim, o deslocamento da questão da Ayahuasca do Gabinete da Presidência da República/CONFEN, para o Ministério da Cultura.
Sabendo, de antemão, que o reconhecimento da dimensão sócio-cultural do uso ritual da Ayahuasca não responderá, automaticamente, a todas as questões relacionadas ao uso recreativo da ayahuasca, ou as suas possíveis aplicações terapêuticas, ou a sua exploração turística e comercial, ou às possíveis abordagens jurídicas, etc. Por conseguinte, trata-se de estabelecer um novo e importante parâmetro de análise para que essas questões possam ser respondidas com mais coerência. Sem resultar, como acontece em tantos casos, em mais preconceito, intolerância ou discriminação de milhares de cidadãos brasileiros que fazem da Ayahuasca um sacramento religioso secular, milenar, amazônico, muito anterior, inclusive, ao próprio estado brasileiro.
Aproveitar a presença do Ministro da Cultura, Gilberto Gil, histórico representante artístico de nossa cultura tropical, florestal, tupiniquim, passou a ser, então, a possibilidade concreta de promover um acontecimento chave, e estabelecer um novo marco na história das comunidades ayahuasqueiras.




Ministro Gilberto Gil recebe o pedido de reconhecimento da Ayahuasca como patrimônio cultural brasileiro (fonte: blog do Altino).






Essa insuspeita conspiração do tempo possibilitou, assim, que fosse realizada uma singela solenidade (extra à “agenda oficial”) de entrega, ao Sr. Ministro, de um documento assinado por boa parte dos mais tradicionais centros daimistas e do vegetal (já que a UDV também participou de todo o processo), ligados aos três “mestres fundadores”: Irineu, Daniel e Gabriel.
Naquela noite especial, ali no antigo Alto Santo, de Mestre Irineu e Madrinha Peregrina, o nosso Gil (desculpando-me pela intimidade com o então Ministro, mas guiado pela força do costume de fã), recebeu mais que um pedido de abertura de um processo burocrático pelo paquidérmico estado brasileiro. Ele recebeu um documento que atesta o acordo/pacto celebrado pelas “Comunidades tradicionais da Ayahuasca” para, junto com os outros campos ayahuasqueiros da sociedade brasileira, lutar pelo pleno reconhecimento de seus legítimos direitos culturais e religiosos.




Ministro da Cultura Gilberto Gil cumprimentando a Dignatária do Alto Santo Madrinha Peregrina Gomes Serra em 30 de abril de 2008 (fonte: blog do Altino).






Um movimento em direção ao estado brasileiro, iniciado em 1991, com a elaboração da primeira carta de princípios das comunidades ayahuasqueiras ou, antes ainda, quando, em meados dos anos 70, chegou, por vias transversas, a certos novos baianos tropicalistas, uma garrafa do Daime de Mestre Irineu. Vai saber?!?! Um momento apenas, mas longo e profundo, como a própria noite dos tempos. Uma ocasião pra não esquecer.

(continua semana que vem).

Obs: Esta série de artigos integra o texto que será publicado, muito em breve, no livro do Seminário das Comunidades Tradicionais da Ayahuasca, realizado em 2010.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

História política recente da Ayahuasca (I)

A Ayahuasca não existe na natureza, ela é um produto da cultura. Diferente do Peyote, do Tabaco, da folha de Coca e de outras tantas plantas que se tornaram sagradas e parte da elaboração de diversas e importantes formações sociais ao longo da história da humanidade.



A Ayahuasca, Daime, Vegetal, Huni, Kamarãpi - a “liana das almas” de tantas culturas e tantos diferentes nomes - é feita com a mistura de duas plantas diferentes: o cipó Jagube e a folha Chacrona, o que pressupõe, não apenas o conhecimento das propriedades de cada uma, como também a percepção da interação entre ambas. É, pois, marca cultural da Amazônia, impressa no tecido do mundo. Conhecimento antigo, engendrado durante milhares de anos... Presente da floresta à humanidade...
Ainda que assim seja, é imprescindível perguntar: qual a imagem que o uso da Ayahuasca tem para o povo brasileiro? Não apenas a imagem superficial, aquela imediatamente acessível a todos os olhos, todas as bocas, mas também a que ocupa um lugar muito mais profundo em nosso imaginário.
Uma possível resposta não pode ser obtida de forma breve ou superficial. Só a compreensão da história cultural e política, que tem sido construída pelas comunidades ayahuasqueiras na Amazônia e no Brasil, no último século, pode ser capaz de nos dar uma explicação minimamente confiável.

Eis o Breviário...
Foram muitas reuniões, mas não conseguimos construir um consenso válido e satisfatório, mesmo havendo boa vontade de todos ali reunidos e tendo um objetivo comum, esse sim, consensual.
Estávamos em 2007. As reuniões aconteciam na Assembléia Legislativa do Estado do Acre, com a presença de várias das principais lideranças “políticas” das maiores e mais antigas comunidades ayahuasqueiras do Acre, alguns gestores públicos e a coordenação da Deputada Federal Perpétua Almeida.
Discutíamos uma nova tomada de posição em relação à postura do estado brasileiro, que ainda insiste em discutir as questões relativas à Ayahuasca, sob a ótica de uma política nacional antidrogas. Parecia óbvia, então, para todos, a incapacidade do governo em encontrar um eixo de discussão que contemplasse, de forma integral, as necessidades das comunidades ayahuasqueiras, tendo em vista os aspectos históricos peculiares do Acre e a liberdade religiosa garantida na constituição brasileira.
O fato é que, nos últimos cinco anos, tanto o Governo do Estado do Acre quanto a Prefeitura de Rio Branco, impelidos pelas comunidades, têm buscado desenvolver uma nova abordagem, com caráter prioritariamente cultural e ambiental. Por conta disso, por exemplo, foram abertos diversos processos de tombamento no Alto Santo e no sítio histórico de Rio Branco, foi criada a APA Irineu Serra, foram realizadas ações de fortalecimento do Centro de Memória Daniel Mattos - criado por iniciativa da própria comunidade herdeira da doutrina desse Mestre Fundador - além da criação de outros centros e salas-memória.
Ainda assim, foi muito difícil encontrar uma ação consensual que servisse para estender este novo eixo de diálogo também ao Governo Federal. Embora a possível solução já parecesse bastante evidente: propor o reconhecimento do uso da Ayahuasca como patrimônio cultural amazônico e brasileiro, simplesmente ainda não estávamos prontos e, além disso, não tínhamos respostas satisfatórias para as diversas perguntas e questões que se colocavam.


Irmandade do Alto Santo - Ao centro Mestre Irineu e à esquerda (o 5º) Daniel Mattos – década de 30

Eis o plenário...
Nesse meio tempo, teve início o fértil processo de construção do Sistema Municipal de Cultura de Rio Branco. Pela primeira vez, pessoas das comunidades ayahuasqueiras participavam diretamente do movimento cultural acreano, da mesma forma que muitos outros segmentos que, até então estavam excluídos, se auto-excluíam ou, simplesmente, não participavam mesmo, também se integraram.
Foi muito interessante ver daimistas, artistas, líderes comunitários, filhos e mães de santo, militantes, esportistas, turismólogos, roqueiros, metaleiros e forrozeiros, juntos, discutindo um mesmo princípio. Assim nasceu a diversidade, que é mãe desse conselho de cultura municipal de tantos pais e de configuração tão particular.
O funcionamento de trinta e cinco câmaras temáticas, somado ao seu diferenciado modelo de auto-representação, possibilitou que as diferenças, apenas recentemente afloradas, se aprofundassem. Sob esse signo, começou a funcionar a Câmara Temática de Culturas Ayahuasqueiras, experiência que pode ser conhecida, com maiores detalhes, em muitos dos textos do livro do Seminário realizado no ano passado e que está em vias de imediata publicação.
É importante explicitar que as discussões ocorridas, desde então, nesta Câmara, não só proporcionaram um aprofundamento de temas, conteúdos e conceitos da área cultural, como se tornaram uma referência avançada para outras câmaras menos articuladas ou ativas. Uma surpresa. Afinal, não havia como prever, durante a construção do Sistema de Cultura de Rio Branco, quais das Câmaras Temáticas iriam avançar, quais iriam ter dificuldades, e quais nem chegariam a funcionar plenamente.
Logo, a partir de diversos trabalhos coletivos - não sem muita discussão, divergências e contratempos - a Câmara de Culturas Ayahuasqueiras se tornou uma das mais inovadoras e consistentes desse nosso instigante Conselho de Cultura.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Na carreira...

Nesta semana estamos reabrindo os trabalhos anuais da coluna Miolo de Pote. E, mesmo sabendo que fazer esse tipo de coisa não é lá muito comum, quero, já no primeiro artigo do ano, confessar de público um dos meus mais antigos e arraigados vícios: corridas de Fórmula 1.


Abrindo o verbo

Parece que foi ontem, mas o tempo passa cada vez mais ligeiro e avexado. Assim estamos iniciando hoje o quinto ano da coluna Miolo de Pote. Uma coluna semanal que não tem nenhum compromisso estrito com temas ou formatos. Apenas a vã tentativa de, a cada ano, encontrar novos caminhos para manter alguma motivação para esse que vos escreve e para quem, por ventura, venha a ler os, normalmente, muito longos artigos desta coluna.
E, talvez seja bom ressaltar já neste ponto, que desde o ano passado tenho procurado atender à solicitações e sugestões de leitores enviadas através de e-mail, da área de comentários do jornal, ou, ainda, através do blog-espelho da coluna (colunamiolodepote.blogspot.com). O que pretendo continuar fazendo esse ano.
A idéia inicial é continuar trazendo para cá textos sobre aspectos diversos da história e da cultura acreana, arqueologia, questões indígenas e amazônicas, etc. Novidade mesmo, pelo menos por enquanto, é a nova “arte” da coluna, generosamente criada e doada por Ulisses Lima, grande parceiro que pode ser encontrado no blog da Confraria dos Últimos Românticos (confrur.blogspot.com).
Além disso, estou propondo ter uma pequena coluneta sobre Fórmula 1, sem periodicidade definida, agregada à coluna. Uma vez que conheço alguns poucos, mas bons, viciados como eu, que não tem nenhum espaço nos jornais locais pra poder jogar conversa fora. Ou, dito de outra forma, conversar “miolo de pote” sobre esse esporte completamente irrelevante do ponto de vista social, mas imensamente fascinante no que diz respeito à necessidade humana de desafiar continuamente seus próprios limites físicos, tecnológicos, etc...
E, já de saída, convido a todos aqueles que gostam de corridas a enviar artigos, comentários ou críticas que poderão ser aqui publicados na medida do possível.
Por isso esse primeiro artigo é dedicado às ultimas novidades da temporada 2011 da fórmula 1. Imagino que com isso, estarei decepcionando alguns dos leitores usuais da coluna, aos quais peço desculpas, mas, vícios são vícios, e costumam ter razões que a própria razão desconhece.


Carreras son Carreras

É triste, mas é verdade. Sou totalmente viciado em Fórmula 1. A ponto de dar nó em pingo d’água pra não perder uma corrida, ou ficar acordado a madrugada inteira só pra assistir os treinos de classificação que antecedem as corridas, afinal de contas, na atual Fórmula 1, usualmente são os treinos que definem quem vai vencer a corrida.
Na verdade, esse é um vicio antigo... Começou há muito com Fittipaldi e se estendeu pelos últimos trinta anos de minha vida. Mas sobre o vício em si e as motivações que me levam a não ingressar no VCA (viciados em corridas anônimos), conversaremos outro dia. Hoje não resisti à tentação de dar meus palpites sobre a temporada que apenas iniciou seus trabalhos, nesta semana, em Valência.
Começando pelo lançamento, ocorrido ontem, do novo modelo da Mclaren. Foi com grande surpresa, que li a declaração de Jenson Button de que o estranhíssimo carro desse ano foi feito sob medida para o seu estilo de pilotagem. Será que Jenson está dizendo que a Mclaren dará prioridade a ele ao invés de Hamilton - que, sabidamente, sempre foi o queridinho da equipe de Wocking a ponto de obrigar o mimado Fernando Alonso a ter que sair da equipe inglesa, para um ano quase sabático na sofrível Renault, enquanto esperava uma vaga pra correr na Ferrari?
Porque, ou eu sou muito burro, ou está subentendido que se a Mclaren priorizou o estilo de Button, o fez em detrimento do estilo bem mais agressivo de Hamilton. E se assim foi feito, porque Hamilton até aqui não falou nada sobre esse improvável favorecimento de Button no projeto do novo carro? Prefiro achar que isso é conversa fiada do Button e o novo carro será muito mais eficiente para o estilo de Hamilton do que o contrário, quem viver verá...
Aliás, esse tem sido um dos principais argumentos para o discurso pré-temporada de vários pilotos. Começando pelo heptacampeão Schumacher, cujo retorno foi uma das maiores decepções do ano passado. Enquanto todo mundo esperava que ele fosse rivalizar com Vettel, Alonso, Hamilton, Kubica, etc. se limitou a comer poeira de seu jovem companheiro de equipe Niko Rosberg. E, é claro, a culpa pelo desempenho pífio de Schumacher foi atribuída ao carro, que não favorecia o “estilo” de pilotagem do alemão. Da mesma forma que a culpa pelos pobres resultados de Felipe Massa foram dos pneus que não favoreciam o “estilo” do brasileiro.


E como se essa fosse a fórmula mágica da nova Fórmula 1 (repaginada por uma série de mudanças no regulamento) muitos foram os pilotos que - justificando suas fracas atuações na temporada passada ou plantando novas e grandes expectativas para a atual temporada - fizeram suas análises baseados na relação entre as características dos carros, seus pneus, especificações de certos componentes (como o renascido Kers), e seus “estilos” de pilotagem. Acho engraçado porque não me lembro de Piquet, Prost, Senna, Mansell e tantos outros mitos do automobilismo, justificando seus fracassos em razão de uma pretensa incompatibilidade entre modelo do carro e seu “estilo” de pilotagem. Ainda assim alguém pode argumentar que era outra Fórmula 1 e os tempos são outros. Mas é assim mesmo, na pré-temporada todos os argumentos são válidos e incontestáveis.
E, pra finalizar esta coluna de reestréia, não posso deixar de falar da apresentação de quase todos os novos carros de 2011. Como primeiras impressões gerais (já que dos testes de Valência em si é quase impossível tirar qualquer conclusão porque ninguém sabe qual programa foi executado por cada equipe e/ou piloto) posso, ao menos, observar que: a Ferrari, de novo teve medo de inovar em qualquer coisa e continuou sendo conservadora como no ano passado, o que fez com que só passasse a disputar vitórias a partir da segunda metade da temporada com a evolução do modelo; a Williams é a equipe com o carro mais bonito (com sua pintura retro), já que a nova Lotus Renault nem de longe lembra a mitológica lótus preta guiada por Fittipaldi e Senna e acabou ficando meio brega e exagerada; a Redbull parece bem na fita ao lançar um carro que é uma evolução do vitorioso carro do ano passado; mas a surpresa do ano, pelo menos até aqui, é mesmo o novo carro da Mclaren que ainda não foi pra pista, mas já foi revelado ao publico causando espanto geral por suas formas inovadoras, que eu, particularmente, achei muito do seu feio... ao contrário de boa parte da crônica especializada que está se derramando em elogios à ousadia dos ingleses e à beleza do novo carro (argh!!), eu só quero é ver se essa joça anda mesmo.. Vamos esperar... Afinal, como já dizia o lendário Juan Manuel Fangio: “Carreras, son carreras, y terminan cuando se baja la bandera de cuadros”.
Mas que a temporada 2011 promete... isso promete. E lá vamos nós, madrugada a dentro, de novo...





segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Ainda em tempo

Como os improvaveis leitores deste blog já devem ter percebido a coluna do jornal está em férias. Como consequencia, já que este blog é um espelho da coluna, o blog também está em recesso. A principio, volto no final de janeiro, ou a qualquer momento, em edição extraordinária (como se dizia antigamente).
Mas já vou adiantar que, graças a um "raff" (ou algo do tipo) generosamente criado por Ulisses, um dos ultimos romanticos do planeta terra (já que sabe-se que ainda há muitos na Galáxia Y32), vamos voltar com novo visual... (talvez até com outro nome, quem sabe... aceitamos sugestões).

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um certo Chico...*


Semana passada lembramos aqui o aniversário de nascimento de Mestre Irineu. Hoje devemos lembrar que outro homem especial, também nascido no dia 15 de dezembro, nos deixou há 22 anos.

Quando ele nasceu, no dia 15 de dezembro de 1944, o seringal Porto Rico situado nas matas do Xapuri, era mesmo um lugar rico, pois era tempo de Batalha da Borracha. O mundo em guerra precisava do látex acreano e graças a isso os seringais haviam novamente se enchido de gente e de prosperidade.
Aquele menino, nascido dez dias antes do natal, recebeu o nome do seu pai: Francisco Alves Mendes Filho. Mas, como todo menino chamado Francisco, desde cedo virou Chico.
E o menino Chico cresceu no seringal vendo seu pai sair ao amanhecer para entrar na floresta e dela trazer o sustento de sua família. Mais do que o leite de sua mãe, Chico logo percebeu que era o leite colhido das arvores da floresta que alimentava a ele e a todos os seus. Por isso ele era fascinado pelo trabalho de seu pai e sempre que podia o acompanhava pelos varadouros da mata. Chico começou assim a aprender aquele oficio: Caminhar ligeiro pela mata escura usando uma poronga na cabeça pra “alumiar” a estrada estreita e tortuosa, usar uma faca esquisita para rasgar a casca das seringueiras de onde escorria um sangue estranho, branco e viscoso e deixar em cada arvore uma tijelinha de metal pra aparar o látex que escorria generoso.
O menino Chico não conseguia disfarçar o encanto que sentia pela floresta. Toda vez que entrava nela lhe invadia uma sensação de segurança, de conforto, de familiaridade. Assim, nem bem o menino Chico completou dez anos já ia cortar seringa sozinho para ajudar na produção de seu pai. Mas não tinha medo. Sentia que aquela floresta que lhe sustentava nunca lhe faria nenhum mal.
Logo o menino Chico cresceu e quis aprender mais coisas do que lhe podia ensinar seu pai. Descobriu que perto de sua casa morava um homem muito sabido, mas que vivia sozinho e isolado de todos. Seu nome era Euclides Távora e ele era um exilado político que havia fugido para o meio da floresta no tempo da Intentona Comunista.E esse homem tão sabido e sofrido aceitou lhe ensinar a ler e escrever. Mas, na verdade, ensinou muito mais que isso. Juntos ouviam a BBC de Londres e a Rádio Central de Moscou. Conversavam sobre a ganância capitalista, sobre as utopias socialistas e sobre a exploração dos seringueiros pelos patrões. Por isso quando estourou o golpe militar de 64, Chico, agora um rapaz feito, entendeu direitinho o que estava acontecendo no Brasil. E entendeu que seu povo ainda havia de sofrer muito.

Chico começou então a ajudar seu povo. Fazia reuniões, explicava a realidade das coisas e tentava organizar os homens e mulheres da floresta para acabar com a exploração dos patrões. Foi ameaçado e perseguido por causa disso. Pela primeira vez Chico soube o que era sentir medo, o que era ter que se esconder dos jagunços, o que era ter que andar sempre acompanhado de outros companheiros para se proteger. Mas nada, nem ninguém, seria capaz de fazê-lo desistir daquela luta que estava só começando.
Logo outros seringueiros perceberam que sem organização e união não iam conseguir nada. Decidiram então criar em Brasiléia o primeiro Sindicato de Trabalhadores Rurais do Acre e Chico se tornou seu primeiro Secretario Geral. Mas os tempos estavam ficando mais e mais difíceis. A terra estava sendo invadida por fazendeiros que vinham do sul do país para “derribar” a floresta e substitui-la pelo gado. Os novos donos da terra não queriam saber de reconhecer os direitos dos seringueiros. Famílias inteiras foram expulsas das colocações onde moravam há décadas.
Trocar a floresta pelo boi eis a nova idéia de desenvolvimento que iludia a muitos. Mas sem floresta aqueles homens e mulheres não sabiam viver. Os que não queriam lutar por seus direitos e partiam para as cidades só encontravam miséria e descaso. Era preciso defender a floresta como quem defende a própria vida, então. E pela primeira vez, os seringueiros organizados conseguiram empatar a derrubada da mata e impedir que outro seringal virasse pasto.
Logo, a idéia se espalhou. Outros sindicatos surgiram, a igreja se juntou à luta dos seringueiros em defesa da floresta e nas cidades muitos jovens começaram a perceber que alguma coisa diferente estava acontecendo nas matas acreanas. Chico foi eleito vereador e como resultado do seu trabalho foi preso e torturado, em segredo, sem que ninguém pudesse ajuda-lo.
A luta dos trabalhadores crescia e com ela crescia também a violência dos novos donos da terra. Wilson Pinheiro, o corajoso Presidente do STR de Brasiléia foi assassinado covardemente. Ivair Higino e muitos outros seringueiros também tombaram sob a sanha dos jagunços e pistoleiros. Mas nada, nem ninguém, seria capaz de fazer Chico desistir da defesa de seu povo.
As populações indígenas do Acre, que conheciam como ninguém a opressão, se juntaram aos seringueiros fortalecendo a resistência. Chico ajudou então a fundar no Acre o Partido dos Trabalhadores e a CUT. Além de liderar a organização do 1º Encontro Nacional dos Seringueiros onde propôs a formação da Aliança dos Povos da Floresta para impedir a extinção de seus modos de vida tradicionais.
E tanto fizeram que, finalmente, o mundo “civilizado”, começou a prestar atenção àquela luta de homens simples em defesa da floresta. E Chico se tornou o porta-voz de seu povo. Foi ao estrangeiro, falou aos ambientalistas, capitalistas e banqueiros e recebeu diversos prêmios, entre eles o “Global 500” da ONU.
Começavam a se tornar possíveis os sonhos de Chico e de seus companheiros. Em lugar de fazendas ou seringais, reservas extrativistas. Em lugar de um desenvolvimento que transformava a floresta em terra arrasada, desenvolvimento sustentável. Ao mesmo tempo, porém, cresciam as ameaças de morte contra Chico. Mas nada, nem ninguém, seria capaz de fazê-lo desistir...
É que o Chico, agora homem do mundo, não esquecia do menino Chico que sentia tanta segurança e tranqüilidade quando percorria os varadouros da floresta sozinho ou com seu pai. E com essa certeza no coração Chico prosseguiu...
Mas seus inimigos eram muitos ... e poderosos ...
E assim... Ao entardecer do dia 22 de dezembro de 1988, dois dias antes do natal, Chico foi baleado e morto na porta dos fundos de sua casa ... e os povos da floresta choraram ...
Mataram Chico, o homem, mas não conseguiram matar seu espírito e sua luta...
Os inimigos de Chico foram derrotados por sua morte. As idéias que Chico defendeu impregnaram os corações dos homens de bem desse mundo e sua voz se fez ainda mais forte. Hoje são muitos Chicos. Seu espírito nos guia e haverá de nos proteger quando nos varadouros mais escuros sentirmos medo. É que o espírito de Chico ali estará nos lembrando que a floresta é nossa casa, nossa vida, nossa mãe e assim será para sempre...

* Texto originalmente escrito para as homenagens dos 15 anos da morte de Chico Mendes.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Das nascentes... Alumiar.



Durante a semana passada tivemos as comemorações do dia de Nossa Senhora da Conceição, a Rainha da Floresta, primeira padroeira e protetora de Rio Branco. Por isso tivemos festas em todos os centros daimistas do Acre. Nesta semana, no dia 15 de dezembro comemora-se mais um aniversário de Mestre Irineu. Vai ter mais festa.



Quando Raimundo Irineu Serra criou a doutrina do Daime imprimiu na sociedade acreana uma marca, um novo traço, cultural. Marca que sintetizou contribuições indígenas, amazônicas, afro-brasileiras, européias, ocidentais, orientais, numa só corrente de pensamento.
Estavam atados, então, os laços de uma nova expressão cultural brasileira. Uma síntese nova, mas, ao mesmo tempo, antiga, milenarmente arraigada nas consciências nativas e caboclas do Acre. Isso tudo, parecendo que foi anteontem, em pleno alvorecer do século XX.
Raimundo Irineu Serra, apenas mais um jovem negro nordestino-maranhense a tentar a sorte no Eldorado Amazônico, como tantos outros, teve um encontro (ou foi encontrado), com (por) um destino excepcional. Através desse homem - ainda quase um menino, mas grande e forte o suficiente para chamar a atenção à primeira vista - foram reunidos conhecimentos culturais e espirituais das três grandes raízes brasileiras. Formou-se assim uma identidade comunitária, ética, religiosa e social única, totalmente original, que, a partir do mais interior da vasta e profunda floresta amazônica, ganhou o Brasil e o mundo. E espalhou em seu caminho um novo ponto de vista, uma explicação da realidade diversa, uma radical mudança de perspectiva. O olhar de quem olha de dentro da floresta, a partir das nascentes, pros rios que se dirigem ao mar distante.Mestre Irineu possibilitou assim que uma comunidade, negra, cabocla, trabalhadora, variada, se constituísse em torno de um novo fundamento espiritual, ousada e surpreendentemente, de forma independente e autônoma. Uma comunidade que cresceu, se diversificou e se disseminou ainda mais com o surgimento de dois outros mestres da Ayahuasca amazônica, Daniel Mattos e Gabriel Costa, nesta mesma região do Acre-Rondônia-Bolívia-Peru, entre as décadas de 40 e 70.

Foi um longo processo, mas, aos poucos, a doutrina do Daíme, Santo Daíme, ou Vegetal, dependendo de quem fala, foi vencendo os preconceitos e sendo compreendida e aceita pela sociedade regional. Mas não foi fácil, muito pelo contrário, a elaboração de um corpo doutrinário, com procedimentos, fardas, instrumentos musicais e princípios éticos se configurou, em grande medida, como um processo de resistência cultural frente a uma sociedade fortemente conservadora e católica.
Surgia assim um conjunto de novas referências, símbolos e histórias que são extremamente diversificadas desde suas origens. Dos ritos indígenas foram colhidos cantos, o toque do maracá, usos espirituais (divinatórios e curativos), modos de colher o cipó e a folha, de preparar o chá, uma forma de se relacionar com a floresta que transcende o amor e alcança a mais pura fé. Do mesmo modo como ainda se faz em muitas tradições indígenas amazônicas e andinas que há milhares de anos conhecem o uso a Ayahuasca.
Dos ritos afro-brasileiros emergiram os trabalhos com entidades espirituais, incluindo a possibilidade, mas não a necessidade, de incorporação. Ao lado de um forte sincretismo, realizado já no nordeste escravista, com símbolos e santos católicos.
Dos ritos católicos se integraram a iconografia, o simbolismo, as santidades centrais dos trabalhos, a tradição histórica e espiritual característica de toda nossa sociedade cristã ocidental. Bem como, numa outra extremidade ainda, integrando caminhos, conceitos e preceitos do espiritismo kardecista. Vemos assim se formar um imenso e sofisticado circulo de influencias, referências, origens, simbologias, fórmulas mágicas, num fenômeno sócio-cultural semelhante àqueles que ocorreram em outras regiões do Brasil, tais como: a Umbanda, o Candomblé, as Casas das Minas, as Juremas, que retraduziram comportamentos ancestrais em segmentos sociais historicamente excluídos da riqueza do país. Entretanto, evidentemente, no caso das doutrinas caboclas da Ayahuasca há uma predominância amazônica, florestal, indígena, que não existe em nenhuma outra manifestação religiosa brasileira. As doutrinas da Ayahuasca - com toda a força estética, ética e espiritual, que lhe são próprias e específicas - configuraram-se a partir de um longo processo de resistência e de afirmação social, e se consolidaram como fenômeno sócio-cultural característico da Amazônia Ocidental brasileira no ultimo século.
Estava assim criado o cenário a partir do qual - nos anos 70 e 80, depois da partida terrena de Mestre Irineu - o Daime se tornou conhecido no Brasil inteiro, passando a se estabelecer em diversos grandes centros urbanos e a disseminar algumas das características culturais reunidas pelo Mestre Irineu em sua original doutrina cabocla, amazônica, florestal.

Foi apenas uma questão de tempo para que, ainda nos anos 90, os centros do Daime/Vegetal (ou simplesmente da Ayahuasca) - originados das doutrinas dos três mestres fundadores: Irineu, Daniel e Gabriel - se espalhassem por vários países, dos Estados Unidos à Europa, e passassem a influenciar milhares de pessoas mundo a fora, a partir de seus singelos princípios, fundamentalmente ligados à nossa floresta e seus modos de vida originais.
E foi assim que, desde os anos 20, os novos códigos culturais sintetizados e revelados através de Mestre Irineu, passaram a influenciar, de uma ou de outra maneira, comportamentos e significados da sociedade amazônica, mas também do Brasil e do mundo inteiro.
Música, simbologia, ética, conhecimento, espiritualidade, elementos de nossa vida cotidiana que hoje possuem fortes marcas impressas por essa manifestação cultural originalmente amazônica, caracteristicamente brasileira. É preciso reconhecer: Há muitos e importantes motivos para festejarmos e reverenciarmos a luz que nos foi trazida e legada pelo Mestre desde a infinita profundidade da floresta, onde nasce.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sobre a Beleza e o Caos


“Rio 40 graus.
Cidade Maravilha,
Purgatório da Beleza e do Caos”
(Fernanda Abreu)


Poucas cidades do planeta têm o privilégio de serem conhecidas mundo a fora por sua beleza. Este é o caso do Rio de Janeiro. A cidade maravilhosa que tem o privilégio de reunir a beleza das montanhas - que recortam o horizonte de forma inusitada - com o encanto do mar, numa sucessão extraordinária de praias, cada uma mais bonita do que a outra. Para qualquer leitor mais distraído pode até parecer que o destino de um lugar como esse só pode ser o de se tornar o paraíso na terra.
Mas, como todos vimos na semana passada, através dos jornais e TVs, não é bem isso que acontece. E assistimos assustados às imagens de uma violenta guerra urbana que, ainda por cima, apresenta reais possibilidades de se espalhar para outros estados e cidades brasileiras. Mas como as coisas chegaram a esse ponto? Eis uma resposta que não pode ser obtida de forma breve, só um olhar mais profundo poderá ser capaz de nos dar pistas sólidas sobre este intrigante paradoxo.
Afinal, não podemos esquecer que o Rio de Janeiro sempre foi um território de grandes e aberrantes contrastes. Enquanto a Corte Real portuguesa e todos os seus agregados ocuparam os melhores espaços disponíveis na cidade, sobrou para os escravos e trabalhadores livres ocupar as áreas das encostas dos morros. Assim se configurou uma cidade em que a “periferia”, entendida como o espaço ocupado pelas camadas mais pobres, não estava longe e nem apartada, mas no interior mesmo dos bairros das classes médias e elites.

No Rio de Janeiro, sempre houve uma clara distinção entre o asfalto e a favela. Uma distinção que não resultou numa segregação radical. Pelo contrário, afinal, os moradores das favelas trabalhavam nas casas dos ricos, ao mesmo tempo em que a burguesia consumia o samba, o jogo do bicho e os modos e gírias da malandragem carioca que era produzida no fértil espaço popular dos morros. Com mais uma característica adicional que não deve ser desprezada. Existe no Rio um espaço em que todos se encontram e convivem: a praia.
Por exemplo, lembro de certa ocasião em que estava junto com alguns amigos da faculdade aproveitando o fim da tarde na praia, que é o esporte predileto dos cariocas, quando se aproximaram uns três ou quatro meninos (não lembro mais ao certo) entre 7 e 12 anos. O normal seria então que a própria diferença de idade impedisse qualquer tipo de relacionamento entre a gente. Mas a conversa daqueles meninos era diferente. Eles já estavam envolvidos com o tráfico e o mais velho deles, que era o líder do pequeno bando, nos contou, depois de algum tempo de conversa, que já tinha matado um homem e participado de diversos roubos e assaltos. O que lhe fazia ter consciência de que sua vida seria muito breve. Mas isso não lhe importava, já que ele só queria viver intensamente o tanto que pudesse. Ficamos assim, durante algumas horas, nós universitários, ouvindo aqueles meninos que já eram muito mais vividos e maduros que nós, nos ensinando sobre a beleza e o caos da vida. E é assim que, naturalmente, crescem juntos os cariocas, independente de classes sociais, cor ou credo.


Ou seja, o problema do Rio não é a proximidade do morro e do asfalto, nem a mistura entre os moradores de ambos. Diria mesmo que a situação só não é pior graças a essa característica tão própria da cidade maravilhosa. Os problemas enfrentados pelos cariocas estão muito mais relacionados à omissão e corrupção dos governos do que a qualquer outra coisa. E é essa a principal reflexão que precisa ser feita sobre os recentes acontecimentos da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão.
Qualquer pessoa que conheça minimamente o Rio de Janeiro sabe que há muito tempo toda a estrutura governamental está falida e corrompida. A polícia do Rio se tornou uma das mais corruptas do mundo. Não há ocasião em que a polícia aborde um cidadão para fazer cumprir a lei, mas sim para lhe tomar dinheiro a qualquer custo. A situação chegou a tal ponto que a população passou a ter mais medo da polícia do que da bandidagem.
E a mesma condição submete os mais diversos gestores públicos e agentes políticos. Afinal, já faz tempo que a contravenção (jogo do bicho, maquinas caça níqueis, etc.), o tráfico de drogas e as milícias abastecem políticos com gordas propinas que bancam e/ou turbinam candidaturas e gestões governamentais e tornam a sociedade refém de uma situação, pelo menos aparentemente, sem retorno.

Entretanto, já faz tempo também que a sociedade carioca resiste e reage. O Movimento pela Paz, a nova política das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e a mobilização da opinião pública são evidentes sinais de que finalmente as coisas estão mudando. Mas tenho a sensação de que só isso não basta. Está passando da hora da sociedade brasileira ter uma profunda discussão sobre a questão das drogas. Está mais do que provado que só proibição, repressão e criminalização não constituem soluções verdadeiras.
Nunca deu certo simplesmente proibir o consumo desta ou daquela substancia. Seria muito mais coerente tratar o problema das drogas em nossa sociedade como um caso de saúde pública, como é feito com o consumo de tabaco, que vem diminuindo sensivelmente nos últimos anos graças a uma política de esclarecimento e sensibilização. Mas neste ponto, parece que ainda não estamos prontos e nem maduros o suficiente para abrir mão da enorme carga de preconceito que trazemos em nossas consciências de maneira a regularizar a situação dos consumidores de drogas e tira-los do submundo do crime. Enquanto isso não acontece vamos seguir assistindo a uma sangrenta guerra nas ruas da mais linda cidade do mundo e vendo nossos meninos matando e morrendo por nada.





domingo, 14 de novembro de 2010

Bolívia: A Balada de Bruno e Bernardino *

(2ª Parte)
Em 11 de setembro de 2008, um terrível massacre aconteceu na cidade de Porvenir. Curiosamente, esta história, aparentemente tão distante, tem muitos vínculos com a história do Acre, apesar de nosso tradicional desprezo em relação ao que acontece logo ali.



A propósito do massacre de Porvenir,
uma homenagem ao Povo Takana.
por Pablo Cingolani
Os Takana eram os senhores da selva. (...) Elcuai, o líder do povo, os guiava sempre em busca de Caquiawaca, a montanha encantada, a qual “Se vê, mas nunca se pode chegar”. (...)

Os Incas de Cuzco respeitaram a cultura dos Takana. Moradores da selva baixa que cobre os vales dos grandes rios que desembocam no maior de todos (o rio Beni) foram intermediários entre os recém chegados desde as terras altas e outras nações e povos das terras baixas. Os Takana viviam na porta de entrada de um grande Reino. Os Moxo eram um estado exemplar que se estendia pelas planícies de inundação. (...) uma relação bastante harmônica entre os povos das terras altas e seus pares das terras baixas. A palavra guerra recém apareceu nas crônicas quando quem as escreveu, chegou desde a outra margem do Oceano para invadir este lugar do mundo.
* * *
Foi uma noite com fogo, com coca e bebida em Ixiamas. Noite negra na Amazônia, noite de fim do mundo, (...) Até que alguém empunhou (...) um violão, e começou a tocar e, sobretudo, a cantar. (...) Jamais havia escutado algo tão triste, porém, ao mesmo tempo, tão altivo, tão orgulhoso e tão sentido.
Quando encarei o homem para perguntar-lhe o que estava tocando, me respondeu: musica Takana. Quando quis averiguar seu nome, proclamou, como uma flecha cortando o vento da história e do esquecimento, que se chamava Racua e que um antepassado seu estava enterrado no cemitério do povoado.
* * *
Os espanhóis tiveram que enfrentar os Takana que estavam confederados para impedir que se apoderassem de seu território. (...) Vencidos pelas armas, mandaram os religiosos. (...) porém, sobretudo, morriam com as doenças que lhes inoculavam os estrangeiros.
Assim passaram anos, décadas, séculos, até que a selva mudou, dessa vez para sempre: (...) Como parte do devastador efeito do mercado mundial(...) a febre pela extração do caucho levou milhares de forasteiros para a floresta.
* * *
“(...) Como a mão de obra era tão preciosa, se buscava prender aos trabalhadores através do sistema de dividas... As construíam de tal maneira que os índios sempre tinham grandes dívidas, de modo que na realidade eram escravos. Os trabalhadores se vendiam transferindo suas dividas para outras pessoas. Como sabiam que não podiam pagar as dividas por si mesmos, ao serem comprados recebiam alguma compensação. Tanto nas heranças, como nos caso de falência, os trabalhadores eram então contabilizados como bens.” Erland Nordenskiöld: Explorações e Aventuras na América do Sul. APCOB-Plural, La Paz, 2001, págs. APCOB-Plural, La Paz, 2001, pp 340-341 340-341.
“Se é uma triste verdade que os selvagens receberam muitas ofensas anteriores, até ver seus filhos arrebatados pelos cristãos, também é fato que este ultimo escândalo acontecerá com frequência (se refere a ataques de índios aos barracões de seringais) se não se pensar em corrigir a ferocidade dos selvagens (...) O selvagem é uma fera que quando está incomodada ataca sem limite. E uma fera tem que ser caçada...” Editorial de La Gaceta del Norte, 1889, n º 19. Tomado de Pilar Gamarra: Orígenes históricos de la goma elástica en Bolivia en Historia, N° La Paz, 1990, pág. Extraído de Pilar Gamarra: origens históricas da banda de borracha na Bolívia em História, n º La Paz, 1990, pg. 553.
* * *
O caucho fez essa Bolívia nascida em 1825 recordar que seus territórios só terminavam no rio Purus. Bruno Racua, Takana de Ixiamas, como seu parente cantor que me levou a visitar-lhe no cemitério, foi um dos recrutados que foi levado a força para os seringais.. Alguns dizem que havia nascido em 1870 e que foi por sua própria vontade para a Guerra do Acre, a guerra que foi feita contra os brasileiros pelo território onde cresciam as arvores de caucho.
A história pessoal dos “invisíveis” sempre se perde nos meandros do passado. Se hoje recordamos de Bruno Racua é porque ele se transformou em herói nesta luta, apesar, inclusive, da maioria dos historiadores republicanos, que não citam seu nome. O filho de Nicolas Suarez – que os poderosos de ontem e de hoje chamam de “O Rei do Caucho” e promotor da “Civilização” e do “Progresso”, quando não foi mais do que um invasor dos territórios ancestrais dos povos indígenas, aos quais massacrou e explorou sem misericórdia – narrou assim ao desenlace do estratégico Combate do Bahia, em 11 de outubro de 1902: “Então se chamou a um índio ixiameño, cujo nome não me recordo, lhe entregamos um arco e uma flecha provida de uma mecha impregnada de querosene; e esta foi lançada sobre os tetos de folhas de palmeiras ressecadas pela ação do sol, dois minutos depois as chamas obrigavam a desalojar edifícios e trincheiras tomadas pelas chamas, obrigando à derrota aos apavorados que dias antes haviam ultrajado a soberania nacional...”. Filho de Nicolas Suarez: A Campanha do Acre, 1928. Tomado de Saavedra, Carlos P.: Pando, el último paraíso. Tirado de Saavedra, Carlos P., Pando, o último paraíso. Ed. Franz Tamayo, Cobija, 2001, pág. Ed Franz Tamayo, Cobija, 2001, pg.169 169.
Graças ao “índio cujo nome não recordo”, Nicolas Suarez pode conservar seus seringais e seguir explorando aos irmãos de Racua. Bolivia pode conservar algo mais importante: a soberania até o rio Acre, em cujas margens se acha hoje a cidade de Cobija (a antiga barraca chamada Bahia), capital do Departamento de Pando, desde onde partiram os assassinos que faz alguns dias assassinaram ao outro parente de Dom Bruno, o dirigente campesino Bernardino Racua.
Se a história foi suficientemente ingrata ao esquecer a Bruno Racua, um herói nacional indígena (agradeço o esclarecimento de Wilson García Mérida, em comunicação pessoal); hoje a história não só se repete como drama para os novos condenados da selva, mas se encena uma absurda prova de desprezo com o destino do assassinato de Bernardino Racua.
* * *



“Mataram Bernardino Racua. Lembra dele? Estava no I Fórum Amazônico, era o bisneto de Bruno Racua. Me sinto impotente, triste e cheia de raiva” – uma companheira me escreveu e alertou angustiada – “Mataram os feridos no hospital e há mais feridos do outro lado do rio... foi um massacre.”Já começam a aparecer os testemunhos das execuções do que já é conhecido como o “Massacre de Porvenir” e que gente tão criminosa como os que empunharam as armas, porém utilizando teclados ou microfones, que pretendem encobrir o que aconteceu como se tivesse sido apenas um “enfrentamento”, as mesmas canalhadas que se utilizaram sob o império e o terror da Doutrina de Segurança Nacional. Pois, lhes dizemos: foi a continuidade do genocídio contra os povos indígenas e os camponeses amazônicos que começou no século XVI, chegou ao seu auge assassino nos anos do caucho e se perpetua até os dias de hoje.
Os executores das matanças mudam, porém os mortos seguem sendo os mesmos. Todos os que não perderam a sensibilidade frente aos dramas humanos, as atrocidades que tem que sofrer sempre os pobres e os humildes, devemos exigir que se esclareçam estes fatos e que os responsáveis materiais e intelectuais recebam julgamento e o castigo que são merecidos.
É muito duro escrever sobre isto, sobre uma nova dezena de mártires, que se somam a essa lista anônima e interminável das vitimas da opressão e da injustiça. Porém, nesta terrível hecatombe, porque talvez seja um símbolo, deveríamos recordar a Bernardino, o bisneto de Bruno, aquele que legou a todos os bolivianos este canto da pátria e, malditos paradoxos, aos assassinos de seu bisneto, aquilo que eles consideram sua fazenda e seu prestigioso poder. Deveríamos recordá-lo como o que foi, como o que eram também seus companheiros baleados: indígenas e camponeses amazônicos, trabalhadores de toda a vida, extrativistas que se internavam na floresta para colher castanha, amantes da floresta e seus protetores porque ela lhes deu, cada ano, o pão para seus filhos, gente humilde, gente boa, gente digna.


Se algo mudou na Bolívia nestes últimos anos é que a consciência social já não suporta estes atos violentos de absoluto desprezo pela vida dos mais desprotegidos e até mesmo à condição humana e que, por isso, não podem ficar impunes porque foi um genocídio, crime contra a humanidade, algo impossível de esquecer e de perdoar.
Entretanto, apesar do choro e da dor, oxalá a justiça encontre seu curso. Bernardino haverá de ter chegado junto a Bruno e, desde o cume do Caquiawaca, seguirão nos ensinando e amparando com sua memória.

* Publicado em 13 de setembro de 2008 em www.bolpres.com

domingo, 7 de novembro de 2010

Bolívia: A Balada de Bruno e Bernardino

(1ª Parte)*

Há algum tempo publiquei aqui nesta coluna uma das mais importantes passagens da história acreana. O Combate do Igarapé Bahia - vencido pelos bolivianos, teve como resultado a fixação da fronteira onde hoje estão Brasiléia e Cobija - cujo personagem central foi um índio Ixiameño chamado Bruno Racua, aquele mesmo da escultura em bronze que até hoje parece atirar flechas incendiárias sobre nós brasileiros.Entretanto, enquanto procurava imagens na internet para ilustrar o artigo, achei um texto que contava a história de um outro líder morto no massacre ocorrido em Porvenir, em 2008, entre os partidários de Evo Morales e o Governador de Pando Leopoldo Fernandez. A história de Bernardino Racua, bisneto de Bruno, tampouco deve ser ignorada ou esquecida, por isso peço licença ao seu autor para trazer este belo texto para cá, em livre tradução do espanhol.

A propósito do massacre de Porvenir,
uma homenagem ao Povo Takana.
por Pablo Cingolani

Os Takana eram os senhores da selva. Há muitos estudos etnohistóricos que provam sua gravitação e influencia. Elcuai, o líder do povo, os guiava sempre em busca de Caquiawaca, a montanha encantada, a qual “Se vê, mas nunca se pode chegar”. Jawaway é o dono dos animais, especialmente dos que andam em bando e servem como alimento: é necessário sempre pedir sua permissão e honrá-lo, já que, de outra maneira, as cutias e os porcos desapareceriam e se poderia passar fome.


Os Incas de Cuzco respeitaram a cultura dos Takana. Moradores da selva baixa que cobre os vales dos grandes rios que desembocam no maior de todos (o rio Béni) foram intermediários entre os recém chegados desde as terras altas e outras nações e povos das terras baixas. Os Takana viviam na porta de entrada de um grande Reino. Os Moxo eram um estado exemplar que se estendia pelas planícies de inundação. Viviam ali centenas de milhares de pessoas que haviam desenvolvido um singular complexo de manejo das águas, que permitiu o surgimento de uma potente economia agrícola, que se traduziu em prosperidade para toda a gente. E uma fama que se estendeu, para além dos pântanos e das montanhas.
Guamán Poma, conta como o Inca Uturunco - o Rei Jaguar – não só trouxe a folha de coca das selvas para disponibilizá-la nos Andes, mas também que se casou com uma princesa Takana, ou Moxeña, quem sabe. O certo é que, nesses tempos, havia algo que agora não há, ou se esqueceu ou se perdeu entra a confusão e o horror que chegavam: uma relação bastante harmônica, uma comunidade respeitável, entre os povos das terras altas e seus pares das terras baixas. A palavra guerra recém apareceu nas crônicas quando quem as escreveu, chegaram desde a outra margem do Oceano para invadir este lugar do mundo.

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Foi uma noite com fogo, com coca e bebida em Ixiamas. Noite negra na Amazônia, noite de fim do mundo, faz anos, quando se chegar a Ixiamas se fazia distante, difícil. A conversa fluía, o companheirismo também, no compasso dos grilos e das rãs. Até que alguém empunhou um violino, ou um violão, e começou a tocar e, sobretudo, a cantar. Conhecia os “buris” de Apolo, de santa Cruz do Vale Ameno, desses lados do Machariapu e do Tuichi. Porem estes cantos, ou essa musica, o metal da voz, seu tom, eram outra coisa, de outra dimensão, outra profundidade. Jamais havia escutado algo tão triste, porém, ao mesmo tempo, tão altivo, tão orgulhoso e tão sentido.
Quando encarei o homem para perguntar-lhe o que estava tocando, me respondeu: musica Takana. Quando quis averiguar seu nome, proclamou, como uma flecha cortando o vento da história e do esquecimento, que se chamava Racua e que um antepassado seu estava enterrado no cemitério do povoado.

* * *

Os espanhóis tiveram que enfrentar os Takana que estavam confederados para impedir que se apoderassem de seu território. A guerra cruel, como a chamou o próprio Adelantado Alvarez de Maldonado, que fizeram os nativos aos usurpadores durante a segunda metade do século XVI, foi um brilhante exemplo de resistência anti-colonial bem sucedida. Ali surgiram os primeiros nomes dos heróis que a história oficial sempre negou: Tarano, o Cacique dos Toromonas; Arapo, o Cacique dos Uchupiamonas. Todos eram Takana e tão valentes e ardorosos no combate que impediram que os invasores se assentassem no sul da Amazônia por muito tempo. Na realidade, nunca conseguiram.
Vencidos pelas armas, mandaram os religiosos. Os frades exploraram o lado sensível e bondoso dos habitantes da selva e os seduziram, começando um trabalho de “zapa”, que persiste até hoje, para abolir sua cultura, para que esqueçam sua Caquiawaca e seu Jawaway, para que deixem de ser eles mesmos. Fundaram missões – em 1721, a de Ixiamas – para reduzir-los, civilizar-los e controlar-los. Os Takana não foram dóceis como pretendiam os missionários e se refugiavam nos montes, porém, sobretudo, morriam com as doenças que lhes inoculavam os estrangeiros.



Assim passaram anos, décadas, séculos, até que a selva mudou, dessa vez de verdade e para sempre: ao norte do mundo, uma árvore da Amazônia havia adquirido um valor inusitado para seu uso e para fabricar diversas coisas para os povoadores desses países que se situavam a milhares de quilômetros da selva. Como parte do devastador efeito do mercado mundial, que sempre esteve de uma ou outra maneira globalizado pelos impérios da vez, a febre pela extração do caucho conduziu milhares de forasteiros para a floresta. Esta ação se traduziu em pesadelo que até hoje segue ocultado e silenciado e pior, persiste, como demonstram os fatos vividos em Porvenir faz alguns dias: o primeiro grande momento de genocídio dos povos indígenas amazônicos. Os Takana não escaparam a essa fúria e ambição capitalista que “resultou em perseguição (correrias) aos indígenas, que praticamente foram exterminados por matanças, trabalho escravo e mudança de famílias inteiras aos seringais do norte” (Díez Astete, Álvaro e Murillo, David: Pueblos indígenas de Tierras Bajas. Caracteristicas principales. MDSP-VAIPO-PNUD, La Paz, 1998, pág.201).
(Continua...)





* Publicado em 13 de setembro de 2008 em www.bolpres.com

“Chove lá fora e aqui...”

Tem dias em que nossa alma está tal qual o mundo lá fora. O Toinho Alves tem razão quando diz que os dias e noites de junho-julho são os mais belos do ano. Mas tenho que confessar: amo esses dias de início do inverno. Quando a chuva volta a encharcar a terra sedenta e ressecada. Nesses dias a melancolia do céu reflete, à perfeição, a melancolia que sempre morou em meu coração e, aqui e acolá, volta a transbordar.Em dias assim, só os amigos podem nos salvar. Por isso, hoje, pedi socorro à Galeano, intérprete de tantas vozes silenciosas em nossas veias abertas...

Mundo
Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus.
Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
- O Mundo é isso – revelou. – Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.


Celebração da voz humana/1
Os índios Shuar, chamados de Jíbaros, cortam a cabeça do vencido. Cortam e reduzem, até que caiba, encolhida, na mão do vencedor, para que o vencido não ressuscite. Mas o vencido não está totalmente vencido até que fechem sua boca. Por isso os índios costuram seus lábios com uma fibra que não apodrece jamais.

Crônica da cidade do Rio de Janeiro.
No alto da noite do Rio de Janeiro, luminoso, generoso, o Cristo Redentor estende os braços. Debaixo desses braços os netos dos escravos encontram amparo.
Uma mulher descalça olha o Cristo, lá de baixo, e apontando seu fulgor, diz, muito tristemente.
- Daqui a pouco, já não estará mais aí. Ouvi dizer que vão tirar Ele daí.
- Não se preocupe – tranqüiliza uma vizinha. – Não se preocupe: ele volta.
A polícia mata muitos, e mais ainda mata a economia. Na cidade violenta soam tiros e também tambores: os atabaques, ansiosos de consolo e de vingança, chamam os deuses africanos. Cristo sozinho não basta.
Dizem as paredes/2
Em Buenos Aires, na ponte da Boca:
Todos prometem e ninguém cumpre. Vote em ninguém.
Em Caracas, em tempos de crise, na entrada de um dos bairros mais pobres:
Bem vinda, classe média.
Em Bogotá, pertinho da Universidade nacional:
Deus vive.
Embaixo, com outra letra:
Só por milagre.
E também em Bogotá:
Proletários de todos os países, uni-vos!
Embaixo, com outra letra:
(Último aviso)
A noite/3
Eu adormeço às margens e uma mulher: eu adormeço às margens de um abismo.



Celebração das contradições/2
Desamarrar as vozes, dessonhar os sonhos: escrevo querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no exato centro do real horroroso da América.
Nestas terras, a cabeça do Deus Elegguá leva a morte na nuca e a vida na cara. Cada promessa é uma ameaça; cada perda, um encontro. Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível, e os delírios, outra razão.
Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia.
Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louco aventura de viver no mundo.

A paixão de dizer/2
Esse homem, ou mulher, está grávido de muita gente. Gente que sai por seus poros. Assim mostram, em figuras de barro, os índios do Novo México: o narrador, o que conta a memória coletiva, está todo brotado de pessoinhas.

A uva e o vinho
Um homem dos vinhedos falou, em agonia, junto ao ouvido de Marcela. Antes de morrer, revelou a ela o segredo:
- A uva – sussurrou – é feita de vinho.Marcela Pérez-Silva me contou isso, e eu pensei: se a uva é feita de vinho, talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.
Trechos de “O livro dos abraços”, Eduardo Galeano, 2005. Ilustrações de Danilo de S´Acre.