domingo, 24 de junho de 2012

As cinco décadas do Estado do Acre (IV- final)

Hoje concluímos a série de artigos sobre a criação do Estado do Acre. Nesta semana a tramitação do projeto de lei no Congresso Nacional com suas muitas idas e vindas e uma breve reflexão sobre os últimos 50 anos da história política acreana.

No Congresso

Segundo a Professora Maria José Bezerra, a maior pesquisadora da atuação de Guiomard Santos desde o período em que foi governador do Território Federal do Acre, originalmente o Deputado Federal Guiomard Santos, eleito pelo Acre, quis apresentar o projeto de transformação do território em Estado ainda no início da legislatura, em 1954. Entretanto, só o fez efetivamente em 1957.

E, como normalmente acontece até hoje no Congresso Nacional, a tramitação do projeto não foi rápida. Certamente contribuiu muito para essa lentidão o fato de que nesta época já haviam outros territórios federais no Brasil. E o que acontecesse ao Acre, certamente iria acontecer também com os outros. Além disso, havia a forte oposição do PTB de Oscar Passos e grandes interesses corporativos em jogo, especialmente de certos setores do funcionalismo público que não queria de nenhuma forma deixar de ser federal para se tornar estadual. Bem como outras questões delicadas como a propriedade das terras públicas acreanas e uma nova repartição orcamentária para prover o novo estado com condições para se manter.

Aliás este último assunto foi, de longe, o mais intensamente debatido tanto aqui no Acre, quanto no Congresso. Como poderia se manter o novo Estado do Acre se sua arrecadação não era suficiente? Pesou muito para a solução desta questão a realidade de outros estados brasileiros, como o gigante e importante Estado de Minas Gerais, que também era deficitário na época.

O certo é que entre uma comissão e outra, e as discussões de plenário, foram cinco anos de grandes debates e várias mudancas do projeto original. E, cabe ressaltar, que essa verdadeira batalha legislativa ocorreu sobretudo no âmbito da Câmara dos Deputados onde se digladiavam Guiomard Santos e Oscar Passos, com a participação de vários outros deputados, entre os quais Océlio de Medeiros que era acreano de nascimento, mas havia sido eleito pelo Estado do Pará, já que cumpria um certo “exílio branco“ do Acre. Já no Senado Federal tudo foi bem tranquilo e célere.

Assinatura da Lei 4.070

Por outro lado, havia também a própria crise política e institucional enfrentada pelo país. Não custa lembrar que a lei 4.070 que criou o Estado do Acre teve que ser sancionada, além do Presidente da República Joao Goulart, pelo Primeiro Ministro Tancredo Neves, já que o Brasil vivia então sob um regime parlamentarista provisório. Uma crise que em 1964 iria desaguar no malfadado golpe militar. E, o que pouca gente costuma lembrar, apesar da lei ter sido sancionada em 15 de junho de 1962, foi preciso ainda resolver a questão de alguns vetos que o Presidente Jango fez à Lei 4.070, que só foram definitivamente sanados pelo Congresso em novembro.

No Acre

Enquanto isso tudo acontecia no Congresso, aqui no Acre a animação era grande. Os pessedistas criaram nos sete municípios acreanos os chamados Cômites Pró-Autonomia que se encarregavam de disseminar as possíveis vantagens do projeto do Acre Estado, tirar as dúvidas que eram suscitadas e rebater os boatos e versões negativas disseminadas pelos petebistas. E como os acreanos quase não gostam de política... é fácil de imaginar que tempos de comícios e manifestações intensas foram aqueles. Especialmente se considerarmos, segundo o que contam muitos dos participantes, que as mulheres tiveram uma atuação muito forte e incisiva durante essa etapa final do movimento autonomista.

Uma festa política que logo foi seguida por uma festa democrática ainda maior, até porque muito aguardada. As primeiras eleições para governador de toda a história do Acre. Um momento que, depois de longos 58 anos, marcou a transição quase definitiva do velho Território Federal do Acre para um novo estado pleno de direitos politicos para os acreanos.

Eu disse que foi uma transição quase definitiva porque pouco mais de um ano após essas primeiras eleições, o golpe militar restituiu no Acre a prática da nomeação dos governadores. E foram mais 18 anos sem direito à democracia. Uma trágica ironia que só não foi completamente similar aquela da época do Território Federal porque o Governo Militar teve a “gentileza“ de nomear em sequencia quatro governadores acreanos, enquanto que no Território isso nunca acontecia.

O processo de redemocratizacao promovido lentamente pela Ditadura só permitiu a volta das eleições diretas para governadores no país em 1982. Assim, neste ano em que, pelo menos em tese, o Acre completa cinquenta anos de Estado se completa, na verdade, apenas trinta anos de democracia desde que o Acre foi anexado ao Brasil, em 1903. Um tempo, certamente, breve demais para se exigir maior maturidade da democracia acreana.

Campanha de 1990

Talvez por isso mesmo não seja tão estranho constatar uma certa instabilidade política pós-ditadura no que diz respeito à definição de um projeto de Acre pelo proprio povo acreano. Afinal, entre 1982 e 1990, a esquerda conseguiu ocupar o governo estadual por dois mandatos seguidos, oito anos. Mas, a falta de solução para os conflitos sociais que assolavam o Acre desde os anos 70, e a esse respeito não custa lembrar que o assassinato de Chico Mendes se deu em 1988, bem como escândalos que envolviam a malversação de recursos públicos parece ter sido decisiva para a volta da direita ao poder em 1990 com Edmundo Pinto. Direita que se manteve no poder também por dois mandados consecutivos até 1998, caracterizando um dos períodos mais problemáticos da história do Acre devido ao crescimento e a institucionalização do crime organizado e a desestruturação completa das instituições públicas.

Só a partir de 1999, com a volta de setores mais progressistas ao poder, devido à eleição de Jorge Viana e a chegada da Frente Popular ao governo do estado, a sociedade acreana passou a dispor de um projeto politico consistente e organizado que evidentemente proporcionou, nos últimos 14 anos, maior estabilidade politica e econômica à jovem democracia acreana.

sábado, 16 de junho de 2012

As cinco décadas do Estado do Acre (III)

Na sexta-feira o Acre completou cinquenta anos desde que tornou Estado. Resultado de um longo processo histórico que teve muitos altos e baixos. No artigo de hoje, o que aconteceu com o movimento autonomista durante os duros anos da crise da borracha, quando tudo parecia perdido...


Com e sem borracha

Nas semanas anteriores vimos como e porque foi criado o Território Federal do Acre. E também que esse regime estranho e autoritário deu origem à uma intensa fase de revoltas e lutas armadas pela autonomia politica e desenvolvimento econômico do Acre. Afinal, como nos conta Craveiro Costa na "Conquista do Deserto Ocidental", só com os impostos federais sobre sua borracha, em cerca de cinco anos, o Acre já havia pago ao governo brasileiro todas as despezas decorrentes da anexação ao Brasil.

Assim, depois das intensas lutas autonomistas ocorridas entre 1904 e 1920, a grave crise da borracha, iniciada em 1913, quando, pela primeira vez, toda a produção de borracha amazônica foi superada pela borracha de cultivo do sudoeste asiático derrubando o preço desta matéria prima, começava a deixar muito poucos motivos para que o Acre continuasse reivindicando sua autonomia. Pensando bem, talvez fosse melhor mesmo ser Território Federal porque isso ao menos garantia que as despesas continuariam sendo pagas pela República.

Na verdade, nos anos 20 e 30 do século passado, com a crise da borracha o Acre havia se tornado aquilo que Océlio de Medeiros chamou, em seu livro "A Represa", de "Um igapó de almas, rios que perderam seus destinos para se tornar como que um pântano de águas putrefatas..." De fato, os seringais faliam um atrás do outro e se esvaziavam de trabalhadores que, sem a motivação do enriquecimento rapido proporcionado pelo corte da seringa iam embora aos milhares, invertendo o fluxo migratório que anos antes havia povoado essas florestas.

Ainda assim, em varias cidades acreanas, continuavam circulando jornais que mantinham vivas as ideias autonomistas, mesmo que sem grande ressonância numa sociedade combalida pela decadência econômica pronunciada.


Corocas e Urucubacas

A situação política só comecou a mudar mesmo com a Revolução de 30 que abalou as estruturas da República Velha. Até então a questão da autonomia do Território Federal do Acre só havia sido debatida no Congresso Nacional gracas à atuação de parlamentares de outros estados, notadamente Ceará e Rio Grande do Sul, já que o Acre não dispunha de representação no legislativo nacional.

Com a constituição de 1934, o Acre passou a ter direito de eleger dois deputados federais para defender seus interesses no Congresso. Mas, para tanto, seria necessário antes organizar partidos politicos já que com a falta de democracia no Território, só havia clubes e agremiações politicas sem caráter legal.

Assim, os diversos grupos autonomistas se agruparam em um partido chamado de Legião Autonomista e os segmentos contrários à transformação do Acre em Estado reuniram-se no Partido Construtor, pela idéia de que primeiro seria necessário construir o Acre para só depois torna-lo um Estado de fato e de direito. E foram esse dois partidos políticos que passaram a disputar eleições a cada quatro anos para eleger deputados federais.

Mas, como aqui no Acre, eleições, apesar de sempre muito aciradas, acabam invariavelmente desaguando em ironia e galhofa. Os integrantes dos dois partidos políticos acabavam denominando seus adversarios por jocosos apelidos. Uns eram os "Corocas" (os velhos de idéias caquéticas) e outros os "Urucubacas" (azarados pra quem nada dava certo). Ou seja, a partir de 1934 o movimento autonomista entrou numa nova fase. Um período de organização político-partidária que logo teria uma mudança de configuração.


Petebistas e Pessedistas

Esta situação permaneceu até 1945 quando o fim da Ditadura Vargas e da Segunda Guerra Mundial, que havia promovido no Acre a "Batalha da Borracha" e a recuperação da economia seringalista, deu lugar a uma nova constituição federal. E, por conta deste novo arranjo politico em que se estabeleceram partidos nacionais, no Acre a Legião Autonomista se tornou o PTB, e o Partido Construtor se transformou no PSD. Criaram-se também a UDN, o PCB, entre outros, mas estes nunca conseguiram adquirir grande expressão local.

A partir de 1946, portanto, a representação do movimento autonomista passou a ser abrigada no interior do PTB, pelo menos em tese, já que o carater nacional destes partidos parece ter diluido os ideiais autonomistas nesta fase da história acreana. Tanto assim que, em 1957, quem apresenta no Congresso Nacional um polêmico projeto de lei de transformação do Território em Estado foi o Deputado Federal Guiomard Santos, então lider do PSD acreano.

A julgar por sua origem historica, quem deveria ter apresentado esse projeto era o PTB. Mas, como Guiomard Santos e o PSD tomaram pra si essa bandeira, não restou outra alternativa aos petebistas liderados por Oscar Passos senão ficar contra o projeto do Acre Estado. Porque essa era a lógica política acreana então... se o PSD era a favor, o PTB tinha que ser contra, e vice versa, fosse qual fosse o tema em questão. Começava assim, sob o signo de uma inerente contradição histórica, a ultima fase do movimento autonomista acreano.

domingo, 10 de junho de 2012

As cinco décadas do Estado do Acre (II)

Neste mês em que o Acre completa cinquenta anos desde que tornou Estado essa coluna está trazendo uma série de artigos dedicados aos processos históricos associados a este acontecimento que marcaram profundas transformações na sociedade acreana.


O difícil reinício...

Com a criação do Território Federal do Acre os maiores prejudicados foram os acreanos. Este estranho regime não previa nenhuma forma de participação da sociedade acreana na gestão do poder político e administrativo regional. Os Prefeitos dos três Departamentos (Alto-Acre, Alto-Purus e Alto-Juruá) em que foi dividido o Território eram nomeados diretamente pelo Presidente da Republica. Além disso, não foi criado nenhum tipo de poder legislativo, já que as leis que regiam o Acre eram federais, e o poder judiciário estava situado em Manaus, à milhares de quilômetros de distância das terras acreanas.

Mas, como se isso tudo não bastasse, a verba destinada ao governo do Território Federal do Acre era irrisória e infinitamente menor que as rendas obtidas dos impostos sobre a borracha. Esse foi o preço que o Acre teve que pagar por sua determinação e ousadia em se tornar parte do Brasil.

Não demorou muito para que os Prefeitos Departamentais nomeados para governar o Acre revelassem todo o autoritarismo desse esdrúxulo regime político. Estes eram militares e/ou políticos de outras regiões do país que não possuíam o menor conhecimento da realidade regional e nenhum traço de representatividade social, com honrosas excessões (como Thaumaturgo de Azevedo, por exemplo) que não faziam mais do que confirmar a regra.

Entre 1904, quando foi criado o Território Federal, e 1908 todas as tentativas feitas no Congresso Nacional para promover mudanças neste regime político administrativo foram abafadas pelo governo federal. Enquanto isso, o alto preço da borracha no mercado internacional proporcionava grandes rendas para o Rio de Janeiro (que era então a capital da Republica) através da cobrança de impostos escorchantes, ao mesmo tempo em que começavam a circular preocupantes notícias sobre o início da produção de borracha de cultivo pelos ingleses no sudoeste asiático.

Não demorou para que as vozes da revolta voltassem a se espalhar pelos rios acreanos. Contra o Acre, além da falta de sensibilidade do governo federal, pesava muito a enorme dificuldade de comunicação entre os principais vales do Território. Eram necessários meses para levar notícias do rio Acre ao rio Juruá. Era praticamente impossível, então, propor uma ação conjunta e coordenada de toda a sociedade acreana.

Cruzeiro do Sul - 1910

A volta das revoltas

Foi nesse contexto que, em 1909, uma das maiores lideranças do Acre na época, o Coronel Plácido de Castro, que havia fundado em Xapuri o Club Político 24 de Janeiro para lutar pela autonomia acreana, foi traiçoeiramente assassinado numa emboscada. Uma ação tramada, segundo a voz popular, pelo próprio Prefeito Departamental do Alto-Acre, o engenheiro militar Gabino Besouro. Parecia não haver mais espaço para uma solução negociada.

Logo em seguida Cruzeiro do Sul, sede do Departamento do Alto-Juruá, tomou a vanguarda das manifestações autonomistas e realizou um movimento sedicioso cujo objetivo era pôr fim aos desmandos de mais um governante autoritário e demonstrar claramente ao governo brasileiro a injustiça que se estava cometendo contra o povo acreano. Porque, de fato, os acreanos se tornaram cidadãos de segunda categoria em seu próprio país. Esta era, no início do século XX, uma das regiões mais ricas do Brasil e paradoxalmente era também uma das pobres, já que não arrecadava impostos sobre o que produzia e vivia das esmolas de um governo que não reconhecia suas necessidades mínimas.

Assim, em 1910, os autonomistas cruzeirenses depuseram o Prefeito Departamental João Cordeiro e declararam criado o Estado do Acre e formaram uma Junta Governativa. Como essa revolta pretendia ser de todo o território e não apenas do Juruá, os revoltosos proclamaram como governador do Estado do Acre o cel. Antonio Antunes de Alencar, acreano histórico que havia lutado no rio Acre e indicaram o Purus como a sede do novo governo. Estava desenhada a proposta capaz de unir toda sociedade acreana em torno do objetivo comum da autonomia politica.

Até que, inesperadamente, numa noite de setembro de 1910, as tropas da força federal em Cruzeiro do Sul comandadas pelo Capitão Guapindaia atacaram a pequena guarda revolucionária composta por 30 homens. Os combates duraram toda a noite e pela manhã se deu a capitulação da tropa revolucionária com o saldo de um homem morto e dois feridos. Novas vítimas da indiferença nacional e dos interesses do mercado internacional da borracha. Estava encerrada a revolta que durante cem dias tornou real o sonho acreano de governar a si próprio.

Sena Madureira - 1912

Mas, menos de um ano depois, o Juruá voltaria a depor outro Prefeito Departamental nomeado pelo governo federal, do mesmo modo como fariam os habitantes do Purus ainda em 1912, na revolta autonomista de Sena Madureira que também foi duramente reprimida pelo governo brasileiro.

Isso, sem mencionar ainda, que na cidade de Rio Branco também se realizaria um arremedo de revolta autonomista, em 1918. Mas, então, já era tarde demais. A crise da borracha amazônica foi avassaladora para o Acre e a crise econômica abafou os anseios autonomistas até a década de 30, quando renasceriam através da organização de novas agremiações políticas para disputar as primeiras eleições legislativas para o Congresso Nacional na história acreana...

domingo, 3 de junho de 2012

Cinco décadas de Estado do Acre (I)

Neste mes de junho o Acre completa cinquenta anos desde que deixou de ser Território Federal e se tornou um estado autonomo da federação. Por isso, ao longo de todo o mes, essa coluna trará uma serie de artigos dedicados ao tema.

Porque...

Nas esquinas da história acreana já se tornou antológica a bem humorada e contundente crítica feita ao governo por ocasião do cinquentenário da Revolução Acreana, em 1952. Diante da total inação governamental um jornal acreano publicou uma primeira página totalmente preta com letras brancas que diziam "Ficam adiadas para o centenário as comemorações do cinquentenário!"

Muitos historiadores se especializaram em criticar, nos últimos anos, a atuação do governo que vem se empenhando em não deixar que essa história se repita e tem desenvolvido diversas e intensas atividades comemorativas de alguns dos principais acontecimentos da história acreana que, diga-se de passagem, é tão cara para a sociedade em geral. Até porque esta é, inclusive, uma das obrigações constitucionais do estado brasileiro em seus diversos níveis.

Aliás, não devemos ignorar o fato de que a adoção de novos parametros curriculares transversais no sistema educacional, bem como a substituição do vestibular pelo Enem como forma de avaliação para o ingresso na universidade pública no Acre, vem trazendo um enorme prejuízo para as novas gerações de acreanos que crescem sem ter o minimo conhecimento da história local. Mas parece que isso não integra o rol de principais preocupações daqueles historiadores especialistas em criticar as ações governamentais de valorização e difusão da historia acreana.

Ouso até dizer que se dependessemos apenas da produção academica e não fosse o notório interesse dos acreanos, a atuação do governo e, ainda mais recentemente, de alguns jornalistas e blogs independentes que se dedicam a divulgar a história acreana, estaríamos diante da eminencia de algum jornal local ter que publicar uma primeira página totalmente em branco, porque não haveria sequer o que dizer diante de tamanha inércia... Mas, deixemos de conversar miolo de pote e passemos ao que de fato interessa...


Como...

Não seria possível compreender a importancia deste momento em que o Acre completa cinquenta anos desde que se tornou estado se antes não entendermos como isso afetava a vida dos acreanos nos sessenta anos anteriores a essa conquista. Aliás, de maneira geral, o processo histórico que resultou na criação do estado do Acre deve necessariamente ser analisado a partir de tres diferentes processos.

O primeiro diz respeito ao período em que o Acre permaneceu na condição de Território Federal e que durou 58 anos, de 1904 a 1962. O segundo trata da batalha legislativa que aconteceu no Congresso Nacional, entre 1957 e 1962, e que resultou numa intensa batalha politica aqui no Acre, na qual se digladiaram os mais diversos segmentos sociais acreanos, através do PSD e do PTB. E o terceiro que é constituido pelos ultimos cinquenta anos propriamente ditos em que o Acre já tornado um Estado autônomo da República brasileira precisou encarar o desafio de decidir e buscar seu proprio caminho.

Mas mesmo antes de dar início à análise destes tres diferentes processos não podemos prescindir de tratar, ainda que brevemente dos antecedentes da criação do Territorio Federal do Acre.


Antes...

São amplamente conhecidas as histórias da Revolução Acreana, que se estendeu de 1899 a 1905, período no qual se lutou contra a dominação boliviana no vale do rio Acre e peruana no Purus e no Juruá. Porém, poucos refletem sobre o fato de que a assinatura do Tratado de Petrópolis (1903) com a Bolívia e do Tratado do Rio de Janeiro (1909) com o Peru não encerrou a luta dos acreanos para conquistar seu direito à cidadania brasileira, pelo contrário.

Até o final da Questão do Acre não havia no Brasil o sistema de territórios federais. O país tinha acabado de concluir uma enorme mudança política com o fim da Monarquia e o início da República (1889) e passou a ser constituído por uma federação de estados autônomos. Isso vinha de encontro ao desejo republicano de descentralização em oposição ao forte papel desempenhado pelo governo central no período monarquico.

Mas, com a vitória dos revolucionários acreanos contra a dominação estrangeira de imediato puseram-se em confronto os interesses do Amazonas, que queria que as terras acreanas lhe fossem anexadas; do Pará, que não queria o aumento da participação amazonense no mercado internacional da borracha; e dos próprios acreanos que esperavam ver o Acre transformado no mais novo estado da Republica brasileira.

Ao vitorioso nesse confronto caberiam as ricas rendas da alfandega do Acre, maior produtor da borracha de melhor qualidade (a famosa Acre fina) de toda a Amazônia. Contrariando e surpreendendo a todos o Governo Federal decidiu, então, criar o exdruxulo sistema de Território Federal, a ser administrado diretamente pelo poder central. Matava-se, com isso, vários coelhos com uma só cajadada! Evitava-se acirrar ainda mais a disputa entre o Amazonas e o Pará, impedia-se também o aumento do poder dos seringalistas acreanos que passaram a ser temidos depois de vencer um conflito internacional às suas próprias custas e, não menos importante, passava-se a engordar o Tesouro Nacional com a ambicionada renda da borracha acreana.

domingo, 27 de maio de 2012

De livros e amores

Na terça-feira, 5 de junho, vai ao ar, pelo Canal Futura, mais um episódio da série de programas chamada “Livros que amei”. Desta vez quem vai estar lá falando de três livros que marcaram sua vida será o escriba desta coluna... Ah meu Deus...! Já to nervoso! Afinal, também não assisti ainda o programa depois de pronto.



Se não me engano, por diversas vezes escrevi aqui nesta coluna sobre a importancia dos livros em minha vida. Mas, se não falei deveria tê-lo feito. Porque, não consigo sequer imaginar o que seria viver sem eles. Gracas aos livros, desde muito cedo, viajei por mundos estranhos, exóticos. Vivi aventuras de tirar o folego. Conheci pessoas tristes, belas, violentas, sagazes, sedutoras, comuns. Me deparei com situações e sentidos que sequer seria capaz de supor serem possiveis.

E por uma questão de gratidão devo confessar que devo tudo isso a minha mãe. Foi Dona Wilma foi quem me ensinou a amar os livros e fazer deles parte indissociável de meus dias. Mesmo sabendo que muitas vezes ela deve ter se arrependido, ainda que docemente, quando eu deixava de estudar matemática pra acompanhar as aventuras de Tom Saywer, ou de estudar português pra mergulhar 20.000 léguas submarinas atrás da imaginacão alucinante de Julio Verne.

Por isso mesmo, um dos três livros que escolhi para falar durante o programa é um daqueles que li quando menino. A bela adaptação que Origenes Lessa fez de alguns mitos gregos que me encantaram e fizeram sonhar com hidras, centauros e deuses do Olimpo. Ah como eram emocionantes aquelas noites de sono perdidas\ganhas lendo até o dia amanhecer!

Assim como tambem não poderia deixar de falar no programa sobre essa minha outra paixão chamada história do Acre. E para tanto, nada melhor do que recorrer a outro apaixonado pela mesma perdição (porque paixão é sempre encontro e perdição, né não?), um cara chamado Euclides da Cunha. Só que dessa vez, tive que tratar de um livro que, apesar de intensamente planejado, por uma sutil ironia do destino, nem sequer chegou a ser escrito.

Estou falando, é claro, do “Paraiso Perdido”. Aquele que seria seu segundo livro vingador, como declarou o proprio Euclides, depois do retumbante sucesso de “Os Sertoes”. Afinal, como todos sabem, ele morreu depois de vir ao Acre e antes de ter tido tempo de escrever seu sonhado livro. Assim o “Paraiso Perdido” que nos chegou é na verdade um esboço do que poderia ter sido, gracas a reunião de textos diversos que ele escreveu sobre o Acre, mas que nem por isso são menos importantes ou belos do que poderiam ter sido aqueles que não chegaram a ser escritos... O que talvez sirva pra provar que mais do que de tinta e papel os livros são feitos de sonhos e desejos e muitas vezes é o que basta.

E pra terminar... Já que são apenas três livros a serem comentados em cada programa. Falei sobre um livro muito especial que me acompanha a décadas. Um livro muito diferente dos anteriores porque é milenar e tambem porque não foi escrito por uma só pessoa, mas vem sendo escrito e reescrito por muitas mãos ao longo de todo esse tempo.

Estou falando do “I Ching, o Livro da Mutações”, que os chineses inventaram há cerca de 5.000 anos. Ou melhor, que um personagem mítico, por alguns chamado como Fou Hsi, teria criado a partir da observação direta da natureza e do espírito humano. Um livro que muitas vezes é minimizado por também poder ser usado como oráculo, mas que é muito mais que isso. É, na verdade, um livro de historia, um tratado sobre ética e comportamento, uma obra admirável para a compreensão e condução de uma vida espiritual plena.

E o que é melhor. Um livro que, diferente dos livros sagrados ocidentais, não tenta individualizar modelos a serem seguidos através deste ou daquele personagem histórico e nem se apoia no surrado maniqueismo de nossa sociedade que hipocritamente se orienta pela lógica do bem em permanente luta contra o mal. Que até pode ser muito util na hora de escrever roteiros de cinema, convenhamos. Mas que vive a nos induzir a erros de avaliação e de reação diante dos desafios da vida.

O “I Ching”, pelo contrário, trata bem e mal, masculino e feminino, claro e escuro, quente e frio, etc. como meras manifestações da unidade de todos os seres e simultaneamente da pluralidade através da qual a vida se manifesta.

Enfim... Foi isso, em síntese, o que conversei durante a gravação desse programa que me deu muito prazer de participar. Até porque, alem do formato original e interessante, com a participação de comentadores além dos convidados, como voces poderão ver por si mesmos na terca-feira, 05 de junho, às 21:30, foi feito por uma equipe muito bacana, dirigida por Suzana Macedo e Izabel Jaguaribe. A quem agradeço demais a gentileza e carinho com que fui tratado. Assim como não posso deixar de agradecer à Bia Lessa que indicou meu nome para participar de um trabalho tão legal como esse. Espero voces por lá...

Obs - Pra quem quiser mais informações sobre esse interessante projeto sugiro ir ao site do Canal Futura, no link http://www.futura.org.br/livros-que-amei-nova-serie-mostra-as-obras-favoritas-de-convidados-especiais, ou no Face no endereço http://www.facebook.com/pages/Livros-Que-Amei

Aviso - Não vi o jornal impresso ainda, mas no site do jornal Página 20 a informação sobre o dia do programa está incorreta... lá consta que será na proxima terça-feira. Mas, como dito acima, será mesmo no dia 5 de junho.

domingo, 20 de maio de 2012

Que verdades? Que história?

Não deixa de ser uma interessante coincidência o fato de ter sido instalada a polêmica e aguardada Comissão da Verdade no mesmo ano em que o Acre completa 50 anos como Estado. Mas o que isso significará na prática? Eis o que teremos que descobrir...

O ano era 1962 e o Acre vivia um momento muito especial da sua história. Depois de uma longuíssima espera, 58 anos para ser preciso, os acreanos pela primeira vez poderiam eleger seu governador e deputados estaduais. Era o velho sonho da autonomia política que enfim se tornava realidade.

Aconteceu então uma épica e surpreendente campanha política que resultou na eleição do jovem acreano de Cruzeiro do Sul, José Augusto de Araujo que derrotou um dos maiores líderes políticos da história acreana: Guiomard Santos, exatamente o autor da lei que transformou o Território em Estado. Um episódio que ainda não foi devidamente compreendido pela história e que precisa, um dia desses, ser objeto de profunda pesquisa, já que sobre ele circulam diversas versões contraditórias.

O certo é que o mês de março de 1963 assistiu a posse do governador José Augusto e dos deputados constituintes que teriam a missão de escrever e aprovar a primeira constituição estadual no prazo de cem dias, sob pena de o Acre ser obrigado a adotar a Constituição do Amazonas.

Governador José Augusto discursando para a população,
em frente ao palácio Rio Branco, no dia de sua posse, 01 de março de 1963.


Entretanto, pouco mais de um ano depois do início desta nova etapa da história acreana, no malfadado dia 1º de abril (travestido de 31 de março), foi instituída no Brasil a Ditadura Militar. Era o início do fim da tão sonhada autonomia acreana novamente.

Pouco tempo depois a cena que se viu nas ruas do centro de Rio Branco era quase inacreditável. As tropas do Exército, comandadas pelo Capitão Edgar Cerqueira, cercaram o Palácio Rio Branco, então protegido pela mal armada e pouco treinada Guarda Territorial, para exigir a renuncia do Governador José Augusto.

Segundo contou meu grande amigo Rivaldo Guimarães para a Dra. Nazaré Araujo, filha de José Augusto, ele era então um dos soldados que participavam do cerco ao Palácio já que estava, na época, cumprindo o serviço militar obrigatório. E tremia mais que vara verde diante da possibilidade de ser obrigado a atacar o palácio e ter que atirar em pessoas que eram suas amigas, acreanos como ele, que não tinham nada a ver com aquela história toda. E quanto mais passava o tempo sem que surgisse uma solução negociada, mais a tensão e o medo de que o pior pudesse acontecer aumentava.

Segundo me contou D. Maria Lucia de Araujo, dentro do Palácio a situação não era menos dramática. Ela, pessoalmente, era contra a assinatura da carta de renuncia naquelas condições, o Bispo aconselhava que seria melhor assinar do que provocar um banho de sangue. Os assessores do governador também se dividiam em suas opiniões. Até que, sob intensa pressão, o Governador José Augusto aceitou assinar a carta renunciando ao Governo do Acre para evitar que sangue inocente fosse derramado inutilmente, porque não haveria mesmo como resistir às tropas federais indefinidamente. E José Augusto de Araujo, que sempre assinava seu nome por extenso em todos os documentos, desta vez assinou J.A., como quem diz: eu assino, mas esse na verdade não sou eu...

No dia seguinte, a Assembléia Legislativa, também sitiada, aprovava o nome do capitão Cerqueira como novo Governador do Acre. E até hoje ninguém sabe ao certo o que motivou mesmo todos estes acontecimentos. O fato de José Augusto ser do mesmo partido do Presidente João Goulart recém deposto e com ele compartilhar idéias progressistas? O fato de sofrer forte oposição no interior de seu próprio partido, o PTB? Ninguém sabe nem mesmo se foi a Ditadura que ordenou aquela renuncia forçada, ou se foi uma iniciativa do próprio Capitão Cerqueira, estimulado por políticos que eram contrários à José Augusto, numa trama sórdida e obscura até hoje velada por todos os que dela participaram.

O que se sabe com certeza é que ao invés deste ter sido o fim de um dos mais tristes episódios da historia acreana, significou na verdade o inicio do suplício à que o ex-governador foi submetido.

Foram longos seis anos de perseguição de José Augusto e seus familiares, de internações forçadas, num tipo de cárcere disfarçado, em hospitais que não ofereciam a menor condição de atender os sérios problemas cardíacos que ele tinha e que haviam sido muito agravados desde os duros episódios de 1964. Até que em 1971, em meio à profunda depressão e dificuldades de toda sorte, seu coração não mais aguentou tanto sofrimento e deixou de bater definitivamente...

Trágica ironia... Justamente o primeiro governador do Acre, que incorporou toda a esperança e anseios democráticos de uma sociedade secularmente renegada por seu país, foi sem ter sido. Porque aparentemente nada sofreu por parte da Ditadura. Ele não foi cassado oficialmente, renunciou. Ele não foi assassinado diretamente... foi sendo morto aos poucos... até não mais suportar e morrer de causa natural!

Este é o tipo de verdade com que a Comissão da Verdade terá que lidar... Aquelas verdades que não constam de documentos, que foi escamoteada, disfarçada, distorcida até parecer ser o que não foi... Entretanto, são essas verdades, ainda mais subterrâneas e obscuras que os malfadados porões da Ditadura, que ainda vivem dentro de milhares de vitimas diretas e indiretas dos anos de chumbo e que estão a clamar por justiça histórica... ao menos.

domingo, 6 de maio de 2012

O homem que venceu o tempo


O que um homem acumula ao longo de sua vida? Rancores e ressentimentos? Boas lembranças e conhecimento? Observar o que um homem deixa como herança e legado aos que vem depois dele, pode ser uma boa maneira de encontrarmos a resposta para essa essencial pergunta.

Abrir a porta daquele armario me provocou ao mesmo tempo enorme desespero e imensa animação. A pilha de pastas e envelopes recobertos por grossa camada do pó dos tempos de imediato revelava que os proximos dias seriam muito, muito, trabalhosos mas profundamente recompensadores.

Não é todo dia que um pesquisador tem a oportunidade de se debruçar sobre o conjunto de materiais acumulados em décadas de trabalho de um outro pesquisador. Ainda mais se levarmos em consideração que este conjunto de documentos, cartas, recortes de jornais, manuscritos originais, fotografias, entre muitas outras coisas, nunca haviam sido pesquisados antes. E, principalmente, que foram o produto de toda uma vida de trabalho e dedicação de um dos mais extraordinários e importantes pesquisadores da história do Acre: Leandro Tocantins.

Mas, antes mesmo de continuar a descrever o que foram esses ultimos dias em minha vida, é fundamental explicar que essa rara janela de oportunidades extraordinárias foi aberta pelo diretor da Biblioteca da Floresta, o filósofo e amante do conhecimento, Marcos Afonso.

Foi ele que fez contato com a viuva de Leandro Tocantins, a simpática e atenciosa D. Léa Tocantins, e sua filha, a animada e irrequieta Rosane. O objetivo inicial seria o de trazer para o Acre a biblioteca de Leandro, em especial aquela parte dedicada a Amazonia, já que este era com justica tratado por Gilberto Freire como um Amazonófilo. Infelizmente essa biblioteca já havia sido doada e está motivando uma série de contatos e tratativas que continuam sendo conduzidas por Marcos Afonso, que não costuma se deter no primeiro obstáculo.


Por outro lado, durante a primeira visita que a equipe formada por Marcos Afonso (e que incluiu outras tres pessoas alem de mim e dele) fez a Dona Léa - um assunto que logo será devidamente tratado em artigo escrito por ele mesmo - nos deparamos com um grande volume de documentos e textos originais deixados por Leandro Tocantins. A alegria foi então inevitável e generalizada. Ainda mais depois que Dona Léa e Rosane deixaram clara sua disposição de doar esse acervo documental para a Biblioteca da Floresta, que mesmo num primeiro e superficial olhar se mostrava evidentemente muito rico, para que os acreanos possam dele desfrutar.

E foi assim e por isso que eu e Libério, Chefe do Departamento de Patriomnio Historico da FEM, desembarcamos no Rio de Janeiro, no ultimo domingo, com a missão de identificar, selecionar, encaixotar e trazer para o Acre o acervo documental deixado por Leandro Tocantins.

Muito dificil é pra mim, descrever com propriedade o que senti nos dias subsequentes. A emoção de abrir dezenas de envelopes e pastas acumuladas ao longo de uma vida inteira para nelas descobrir verdadeiras preciosidades é unica na vida de um pesquisador. Assim passamos dias inteiros, encontrando fotografias amareladas de uma Belém e de um Acre que não mais existem; telegramas e cartas trocadas com autoridades e intelectuais do calibre de Raquel de Queiróz, Gilberto Freire e Arthur César Ferreira Reis; poesias e textos manuscritos ou datilografados, muitos deles ineditos, incluindo os fichamentos e ensaios que deram origem à fundamental e clássica obra de Leandro Tocantins: Formação Histórica do Acre; entre muitos outros documentos e objetos impossíveis de relacionar aqui neste artigo.

Um prazeroso trabalho que contou com a luxuosa orientação e auxílio de Dona Léa e Rosane que o tempo todo nos acompanharam identificando lugares e pessoas, esclarecendo duvidas sobre o período em que Leandro trabalhou na Embrafilme, na Embratur, na embaixada brasileira em Lisboa e nos mais diversos acontecimentos da vida desse extraordinário memorialista e historiador.


Um homem que, mesmo tendo deixado Tarauacá aos doze anos e Belém aos dezoito, nunca deixou de ter uma alma amazônica, tanto que suas principais obras permaneceram ligadas umbilicalmente à floresta e ao seu povo simples. Um homem que, apesar de formado em direito, amou a história como poucos.

Mas, além de emocionantes e cansativos, preciso dizer que esses foram também dias muito alegres. A sensação que tive foi que enquanto esvaziávamos os armários das pastas e envelopes tão longamente acumulados por Leandro Tocantins, tirávamos um peso dos ombros de Dona Léa e Rosane que alternavam risos e choros ao verem suas vidas de novo repassadas diante de seus olhos. Afinal, este fantástico acervo agora voltará a vida e passará a estar disponivel para todos que por ele se interessarem.

Mas, quando já estávamos perto de terminar o trabalho, uma coisa, um detalhe simples e despretencioso, me chamou a atenção. Em nenhuma das pastas ou papeis encontramos uma traça sequer. Muita poeira, fungos, ácaros, mas traça nenhuma. Pareceu-me, então, que Leandro Tocantins foi e é como aquelas árvores de madeira de lei amazônicas que os cupins nao róem porque não conseguem, são duras demais para isso. Tal como a obra de Tocantins, rija, consistente e permanente demais para ser devorada. Sem duvida um homem que por sua vida e trabalho venceu a voragem do tempo.

domingo, 29 de abril de 2012

Mestre Irineu e a Esfinge Amazonica (II)

Depois de um longo intervalo alheio à minha vontade, hoje trazemos a segunda parte do resumo de um texto que me foi pedido e publicado, à guisa de introdução, no extraordinario livro de Paulo Moreira e Edward MacRae: “Eu venho de longe - Mestre Irineu e seus companheiros”


O movimento espiritual, cultural e social criado por Raimundo Irineu Serra - junto com outros homens como Daniel Mattos e Gabriel Costa - se espalhou desde sua genese por áreas da política, das instituições publicas e privadas, pelo campo artístico, simbólico e estéticos integrantes do Acre do século XX, e, por conseguinte, também do nosso próprio mundo pós-moderno.
Por isso, em certas passagens deste livro, seus autores se confrontam com questões relacionadas ao contexto político acreano. Momentos sobre os quais a aplicação de parâmetros gerais da história política brasileira ao caso do Acre e à atuação de Irineu junto às lideranças políticas locais, pode parecer extraordinariamente tentadora. Porém, no Acre não existe direita, centro, esquerda; neo-liberais, democratas ou socialistas da forma como nos acostumamos a pensar em relação ao Brasil.
Por força de seu contexto político diferenciado, como Território Federal desde 1904, os acreanos não tinham direitos políticos que os possibilitassem ter partidos e disputas eleitorais que consolidassem espectros ideológicos claramente definidos.
Daí, por exemplo, porque a Legião Autonomista que originou o PTB local e que teoricamente representava setores mais populares e “autonomistas” da sociedade, foi contra o projeto que transformava o Território Federal em Estado Autônomo, ao final dos anos 50. Ao passo, que o PSD, originado do antigo Partido Construtor e, portanto, pelo menos teoricamente, mais conservador, elitista e favorável às políticas do governo federal, foi quem levantou e defendeu o movimento que resultou na tardia criação do Estado do Acre, em 1962.
Da mesma forma não se pode transformar a amizade de Mestre Irineu com o Cel. Fontenele de Castro e com o Governador Guiomard Santos, lideres maiores do PSD acreano, que após 1964 seria transformado na Arena, em um possível apoio político à Ditadura Militar. Esta tentativa pode não ser mais do que uma extrapolação de inexistentes composições políticas e sociais do contexto acreano. Ao passo que se constitui num dos temas mais importantes do trabalho desenvolvido neste livro.


Na verdade, as relações de Mestre Irineu com Fontenele e Guiomard eram muito mais pessoais, corporativas e até mesmo afetivas, do que propriamente políticas. O apoio político de Fontenele e Guiomard, com toda a força de representantes da elite governante, foi o que possibilitou certa distensão de muitos dos preconceitos da sociedade acreana em geral ao uso religioso do Daíme. Daí que um apoio eleitoral de Irineu a eles era também natural, permanente e independente de qualquer mudança conjuntural no longínquo Brasil.
Até porque os vinte anos de Ditadura Militar foram, aqui no Acre, em grande medida, simples continuidade do autoritarismo e do regime de exceção até então vigente. Aqui no Acre a democracia ainda não havia chegado, a não ser pelo breve período de 1962-64. Importante não esquecer, portanto, que não podemos interpretar a história política do Acre no período militar sob os mesmos parâmetros que aplicamos para o restante do país. Apenas mais uma das inúmeras armadilhas da esfinge acreana.
Daí o desafio imenso a que se propuseram Paulo e Edward ao pretender, e conseguir, reunir documentos, depoimentos e eventos significativos na trajetória deste personagem histórico tão singular que foi Mestre Irineu. Por que esse trabalho tem o potencial de ressignificar não só a formação do Acre, mas de imensas áreas até então invisíveis da própria história brasileira.
Afinal, em que outro lugar do Brasil, índios, negros, caboclos, brasileiros e estrangeiros conseguiram interagir a ponto de dar origem a uma nova manifestação religiosa, totalmente original? O advento do Santo Daíme já é, por si só, um acontecimento extraordinário. Surgiu da floresta, de uma cultura gestada a partir do conhecimento e da vivencia na floresta e seguiu expressando suas sínteses mesmo quando transportada para o meio urbano sem, em grande medida, ceder às manipulações e forças de mercado.
Talvez por isso o Acre tenha sido ao longo de sua breve história e, ainda seja, terreno fértil para tantos homens e mulheres diferenciados. Quem poderia dizer que neste pedaço esquecido, desprezado, ignorado de floresta um dia iria surgir um líder espiritual da estatura de Mestre Irineu? Da mesma forma que ninguém poderia imaginar que daqui, das distantes florestas acreanas, surgiria também um líder popular e mundialmente significativo como Chico Mendes. Ambos coincidentemente nascidos em 15 de dezembro, ainda que com meio século de diferença entre eles.
O que há, enfim, de tão diferente no Acre? Não sei dizer. Posso adiantar somente que Paulo e Edward com sua importante pesquisa, agora materializada neste belo e instigante livro, dão uma enorme e inequívoca contribuição para qualquer um que se proponha a, ao menos tentar, desvendar a fascinante esfinge acreana.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Dignidade Acreana

Aqui existe algo extraordinário. Uma coisa simples, mas muito rara de se encontrar e que faz toda a diferença: a dedicação que os acreanos de verdade tem por essa terra. Talvez esse seja mesmo o maior de todos os bens conquistados de que fala nosso hino. E, algumas vezes, esse bem se realiza plenamente através da vida de homens muito especiais.

Quinta-feira, pela manhã, estava meio angustiado. Mesmo sem saber muito bem porque. Então, num impulso, fiz algo que havia se tornado muito comum pra mim nos últimos tempos: peguei o telefone e liguei pro Rivaldo Guimarães. Ele bem poderia me ajudar a encontrar algumas boas histórias e antigos autonomistas pra dar entrevista pro documentário que a TV Senado irá produzir, por iniciativa do Senador Jorge Viana, sobre os cinqüenta anos da transformação do Acre em Estado.

Mas, pra minha surpresa, não foi ele que atendeu e sim sua filha. E as noticias que ela me deu não eram boas. Ele estava naquele momento em São Paulo, na UTI do hospital, e seu estado de saúde era muito, muito, grave. Não preciso nem dizer que fiquei arrasado, tentando apenas não perder as esperanças de que ele conseguisse se recuperar que era tudo o que podia fazer neste momento. Porém, nem bem passava de uma hora da tarde quando recebi a noticia que Seu Rivaldo, como eu costumava chamá-lo, havia nos deixado.

* * *

Não faz muito tempo, desde que começou a ser veiculado o programa Papo ou História na Aldeia FM, me acostumei a falar com Seu Rivaldo praticamente toda semana. Na verdade, ele sempre foi um grande e disponível colaborador quando o assunto eram as coisas do Acre e de sua história. Mas agora com o programa de rádio ele me ligava constantemente, corrigindo minhas ratadas com tal arte e amabilidade que a conversa sobre este ou aquele detalhe das histórias contadas no rádio derivava por mil e um assuntos, cada qual mais fascinante e esclarecedor que o outro. Nunca menos que 30 ou 40 minutos de boa prosa, coisa de acreano.

E nem era pra menos. Seu Rivaldo, irmão de outro grande e saudoso amigo, Jorge Nazaré, transpirava alegria enquanto falava. Não havia lugar para coisas ruins ou maledicência contra quem quer que fosse em nossas longas conversas. Como quando me contou as hilárias histórias do Tomé Manteiga, enquanto eu bolava de rir do outro lado da linha. Ou como quando, animado, me contou da nova fase de seu clube do coração: o Juventus. Ele sempre via o lado luminoso das pessoas e dos acontecimentos. Sem dúvida nenhuma, reflexo do estado de espírito luminoso que ele manteve ao longo de toda a vida.

Só uma vez senti em sua voz certo pesar. Foi quando, no auge da animação de uma dessas nossas conversas, o chamei para sentarmos numa mesa de bar para podermos falar ainda mais longamente. Ele me disse, então: Podemos sim meu filho, apesar de minha situação de saúde ultimamente não me permitir nem mais tomar água direito. Ali entendi que aquele homem que amava intensamente a vida estava com sérios problemas de saúde que o machucavam muito. Mas, ele logo puxou outro assunto e nossa conversa retomou o ritmo e a animação costumeiras.

* * *

Não vou aqui cometer o pecado de tentar falar da biografia do Seu Rivaldo. Até porque se eu não fosse preciso nas informações ele certamente ficaria brabo comigo. Mas não posso me furtar de lembrar que esse homem extraordinário aqui desenvolveu as mais diversas atividades. Desde aluno brilhante do Colégio Acreano - a ponto de despertar a admiração dos que haviam ali entrado depois dele, como lembrou neste sabado o Senador Jorge Viana em emocionado discurso no momento de seu enterro - a plantador e vendedor de hortaliças que produzia no Bairro da Capoeira quando este nem era ainda conhecido como bairro, passando pela função de importante jornalista e influente formador de opinião e chegando ao posto de Juiz depois de se formar na primeira turma de direito da UFAC, quando esta ainda nem era chamada de UFAC.

Mas pra além de tudo, Rivaldo sempre foi um homem de bem, defensor do Acre e dos acreanos nas mais diversas circunstancias. Sua esposa Arnete Guimarães, num esforço sobre humano para conter a avassaladora tristeza que sentia, lembrou do amor que um dos muitos jovens acreanos que tiveram suas vidas recuperadas pela mão amiga do Juiz Rivaldo Guimarães declarou por aquele que considerava seu verdadeiro pai. Um momento de enorme emoção na despedida desse grande homem.

Na verdade, nesta semana eu deveria estar escrevendo a continuação do artigo iniciado semana passada, mas não poderia deixar de prestar hoje uma homenagem a esse acreano que, apesar de ter nascido na Paraíba, amava essa terra com todas as fibras de seu ser. Até porque ninguém vai me convencer que não foi ele mesmo quem estava me avisando de sua partida quando me vi ligando, aparentemente por acaso, para ele na quinta-feira, coisa de amigo.

Assim como não posso deixar de considerar absoluta verdade o que ouvi hoje em meio as homenagens a ele prestadas. Que Rivaldo Guimarães era exatamente como a água pura e boa de beber que existe no miolo do pote... essa água cristalina do generoso pote acreano que Seu Rivaldo, honrando nossas mais profundas raízes, passou a vida servindo aos que tinham sede.

Obrigado meu amigo, apenas desejo que sua nova jornada seja luminosa e cheia de amor como foi sua vida terrena. E tenha certeza que não haveremos de esquecê-lo.