segunda-feira, 26 de março de 2012

Não dividam meu coração na curva do rio*

Ninguém duvida que esta alagação foi uma das maiores de todos os tempos. Como ninguém duvida também que Brasiléia foi uma das cidades que mais sofreu com ela. O que eu não esperava era encontrar nesta cidade uma situação tão inusitada quanto surpreendente.


Todo mundo sabe que Brasiléia é uma cidade de fronteira. Afinal, poucos são os acreanos que nunca visitaram Cobija, do outro lado do rio, e seu comércio de mil e uma utilidades. Como quase todo mundo sabe também que ambas as cidades (Brasiléia e Cobija) surgiram de um acontecimento que marcou nossa história comum.

Mas pra quem não se lembra bem, não custa esclarecer que estou falando do famoso combate do Igarapé Bahia em que, nos idos de 1902, revolucionários brasileiros tomaram o barracão do seringal situado à margem desse igarapé. Com isso provocaram a reação de campesinos e gomales organizados na Coluna Porvenir que, a mando de Nicolas Suarez, promoveram a maior vitória dos bolivianos e o maior massacre de brasileiros ocorrido durante toda a "Guerra do Acre".

Pois foi esse combate que delimitou definitivamente que a fronteira "real" (e não apenas a "legal" dos Tratados) entre brasileiros e bolivianos estava demarcada nesta região pelas margens do Rio Acre. Do lado de lá do rio Bolívia, do lado de cá Brasil. Assim surgiria a premente necessidade de ocupar essa área, fazendo com que o General Pando ali fundasse a cidade de Cobija, ainda em 1906, e provocasse, em contrapartida, a fundação da Vila Brasília, em 1910, posteriormente renomeada Brasiléia.

E foi esta origem histórica - aparentemente tão antiga quanto pouco importante para nós outros que aqui vivemos, 110 anos depois, em 2012 - que deu origem a um problema concreto que atualmente está afligindo os moradores de parte de Brasiléia, apesar de ser ainda desconhecido pela maioria dos acreanos.

Eu mesmo não tinha a menor noção deste novo problema de fronteira até participar de uma missão de trabalho, organizada pelo Senador Jorge Viana, com o objetivo de documentar os estragos causados pela recente alagação, que praticamente destruiu o centro e outros bairros de Brasiléia, e assim auxiliar na captação de recursos para sua reconstrução.

Acontece que uma das áreas mais atingidas na cidade foi o bairro Leonardo Barbosa que, por estar totalmente situado na beira do rio, ficou 100% alagado. E, o pior, viu se agravar o desbarrancamento que há tempos provoca grande temor de seus moradores pelo risco de repentinamente ver suas casas deixarem de fazer parte do Acre e do dia pra noite se tornarem novamente território boliviano!

É isso mesmo. Uma parte de Brasiléia, do Acre, que poderia voltar a ser da Bolivia. O que seria de seus moradores então? Na hora tomei um susto e achei que era brincadeira. Mas, não é. Então fiz a unica pergunta óbvia e cabível nesta situação: mas como assim? Vamos até lá, que voce mesmo vai ver. Respondeu-me o funcionário que participava do atendimento dos alagados.

Acontece que o rio Acre é reconhecidamente um rio jovem e por isso seu leito definitivo ainda não está consolidado. Dai ele fazer tantas curvas ao longo de todo o seu percurso. Com o tempo essas curvas vão sendo desgastadas pela correnteza do rio até serem cortadas. Formam-se assim lagos, conhecidos por alguns como "sacados", que se tornam ótimos locais de pesca até serem recobertos pela vegetação e o tempo se encarregar de aterrá-los.

E não é que parte do bairro Leonardo Barbosa é constituida exatamente por uma dessas pronunciadas curvas do rio? E que o alto barranco onde foi construída a rua asfaltada que dá acesso a essa área do bairro está quebrando rapidamente, estando prestes a apartar? Dai a dúvida que assola seus moradores. Caso o rio aparte essa área, suas casas ficarão do lado de lá do rio e, portanto, passarão a fazer parte das terras bolivianas. Afinal, o que está do lado de lá do rio não é Bolívia?

O que fazer neste caso? Sinceramente... sei não! Só sei que se trata de um problema real, palpável, que deve ser encarado com seriedade porque poderá afetar dezenas de casas e centenas de moradores... Seria importante cuidar disso de forma preventiva para depois do problema efetivado não ter que agir emergencialmente. Porque, certamente o rio continuará a seguir seu curso e sua natureza, como acabou de nos mostrar inequívocamente.

Vai que de repente, surge um outro Galvez para de novo proclamar: Já que nossa pátria não nos quer e estrangeiros não queremos ser, criamos outra! E assistimos ao surgimento de um novo micropaís encravado entre o lado de lá e o de cá de nossa fronteira que, ninguem duvide, é viva.

Obs: Desculpem-me por esta conclusão/brincadeira final, não estou de nenhuma forma fazendo pouco da situação, mas simplesmente não resisti...

Obs 2: Só no momento em que estava diagramando essa página na redação do jornal, é que fui avisado que o professor Evandro Ferreira, também tratou deste assunto em seu blog Ambiente Acreano. Conhecendo a qualidade de seu trabalho, sugiro que interessados no tema o leiam.

* O título deste artigo é vagamente inspirado em um dos titulos de livros mais lindos que já vi: "Enterrem meu coração na curva do rio"

sábado, 17 de março de 2012

A história nos tempos do breve*

(Um calendário aos pedaços)

Mesmo nestes tempos de informação rápida e superficial, não podemos deixar de parar um pouco e olhar melhor pr'aquilo que passou. Quando não fosse por outro motivo, porque continua passando.


Varias pessoas ultimamente andam me cobrando textos mais curtos, sob pena de ser pouco lido. Não consigo deixar de achar que isso é sintoma dos Twiteres, Faces, Gtalks, etc. que nos assolam atualmente. Entretanto, vou fingir que não é nada disso e tentar seguir as lições de Eduardo Galeano (do qual falamos nessa coluna bem recentemente) mestre em contar histórias breves, mas com sentido.

Era uma vez um seringal (que não chegou a ser)
Há 130 anos surgia à beira do rio Acre um seringal com destino de cidade. Na verdade o que deveria ser mais um seringal, como tantos outros que surgiam do dia pra noite naquele distante ano de 1882, logo se tornou um porto pra vender, aviar, comprar, trocar, negociar um pouco de tudo, inclusive amores fugidios com que escapar da solidão das florestas, colocações e seringais.
E foram tantas as casas comerciais, os hotéis, os restaurantes, os cassinos e todos os demais tipos de serviços que se possa imaginar, que não teve alternativa. O porto cresceu, criou ruas, ganhou casas, esquinas, moradores, praças, gentes e jeitos de cidade, até se tornar a maior de todo esse lugar. Mas nunca deixou de ser meio seringal, meio porto, meio floresta, meio cidade, meio rua, meio rio... E é por isso que, em certas ocasiões, tudo se mistura de novo, como neste ano de 2012.



Os ossos do Barão
Há 100 anos morria o Barão do Rio Branco, em cuja homenagem se nomeou essa cidade - que não tem nenhum rio "branco", mas sim um rio "acre" - porque não foi por questão de cor, mas de gosto que as pessoas fizeram questão de aqui permanecer, mesmo contra todas as evidencias e consequencias.
O que me lembra aquela musica: "Quem parte, quem fica! O que significa". Porque neste mesmo ano de 1912 em que partiu o Barão, chegava às terras acreanas outro homem que haveria de também mudar boa parte de nossa história: Mestre Raimundo Irineu Serra.

Cidadãos, enfim!
Há 50 anos os cidadãos acreanos deixavam de ser apenas aqueles que moravam nas cidades e seringais para se tornarem seres políticos de fato, como deveriam ter sido por direito desde sempre. Assim, em 15 de junho de 1962 terminava a maldição do Território Federal do Acre.
Uma praga bem rogada que, desde 1904, não permitiu que os acreanos comandassem seu próprio destino, forçando-os a engolir governantes desconhecidos, autoritariamente impostos pelo governo federal. E o pior é que nem o fato da maioria destes governantes não demonstrar nenhum outro compromisso com o Acre a não ser o de enricar o máximo possivel no menor tempo possível, fez com que o governo brasileiro reconhecesse o absurdo da situação.
Foi necessária uma longa batalha no Congresso Nacional - que se arrastou por cinco anos, entre 1957-1962 - e uma intensa mobilização (através dos comitês Pró-autonomia) para que os acreanos pudessem enfim desfrutar de uma cidadania plena. Nada demais, enfim, apenas os mesmos direitos básicos de todos os outros brasileiros.




O que alguns não querem lembrar
Há 35 anos, em 1977, tinham início as primeiras pesquisas arqueologicas a serem feitas no Acre. Um trabalho extraordinário realizado pela equipe do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) que - mesmo sem as facilidades tecnológicas com que contamos atualmente, tipo: gps, google earth, etc. - conseguiu revelar dezenas de sítios arqueológicos. De barco, de jipe, de pés, a partir das informações generosamente dadas pelo moradores destas terras e florestas, começava a se descortinar nosso passado profundo nas margens do Purus, do Iaco, do Iquiri, do Acre, do Juruá, do Tarauacá, do Muru.
Não podemos esquecer que, até então, a história do Acre começava em meados do século XIX e que, desde então, passou a ser contada em milhares de anos. Um grande salto para o conhecimento da trajetória humana nos altos rios desta Amazônia ainda incompreendida.

O que alguns querem que se esqueça
Há 20 anos, tão generosamente quanto havia recebido quinze anos antes, o Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) deu à Célinha, uma acreana do pé rachado, a oportunidade de realizar a primeira escavação arqueológica sistemática no Acre.
Financiado pelo Smithsonian Institution, graças aos esforços de Ondemar Dias e Betty Meggers, o trabalho realizado no extraordinário Sítio Los Angeles, que atualmente seria genérica e pobremente reduzido à condição de "geoglífo", foi um marco na pesquisa arqueológica no Acre porque nos forneceu inéditas e fundamentais informações deste sítio que é um dos principais e mais ricos já descobertos na Amazônia Ocidental.
Pena que aqueles que praticam uma propaganda sensacionalista de sí próprios, mal disfarçando seus evidentes interesses financeiros, insistam em querer apagar esse pioneiro e importante trabalho. Só mais um exemplo daquela velha história já cantada por Caetano: "Narciso acha feio o que não é espelho". Mas não adianta, porque há verdades que nunca poderão ser apagadas, quando não fosse por mais nada, apenas porque são simples e incorruptíveis verdades e assim, quando menos se espera, sempre haverão de voltar à tona.


Geografia de nós
Há apenas tres dias nos deixou esse grande brasileiro chamado Aziz Ab'Saber. Um homem que fez da ciencia e do Brasil as causas de sua vida. Este geógrafo que amava sua profissão, como poucos atualmente, nos fez ver e pensar a Floresta Amazônica, a Caatinga, a Mata Atlantica, o Cerrado, como nenhum outro antes. O Brasil perde assim um intransigente defensor e uma referencia, não só científica, mas principalmente ética. Enfim, deixamos de contar com a presença deste homem íntegro que carregava o "saber" em seu próprio nome, mas não com seu exemplo. E este haverá de permanecer como motivação para todos os que não aceitam as iniquidades cometidas em nome da vaidade ou de uma falsa idéia de "ciência" em nosso país.

Obs: Como muitos devem ter percebido, este artigo é, na verdade, introdução e roteiro de alguns dos temas que iremos tratar na coluna "Miolo de Pote" deste ano. Além do que, sob a desculpa de escrever pouco, acabei, como sempre, escrevendo demais. Tenho jeito mesmo não!

* O título deste artigo é vagamente inspirado no titulo do celebre romance de Gabriel Garcia Marques: "O amor nos tempos do cólera."

sábado, 10 de março de 2012

O Mundo é dela!

Em homenagem ao dia da Mulher, tenho o prazer de anunciar que, depois de uma acirrada votação popular (aqui em casa), por unanimidade foi eleita a mulher do ano de 2012.



Ela chega assim, dia 06 de março, sem avisar. Tres dias antes da lua cheia, quando eu tinha certeza que haveria de vir. Dois dias antes do dia internacional da mulher, quando era de se desejar que viesse. Mas são assim mesmo as pessoas, ainda que seja apenas uma pessoinha ainda, não costumam obedecer as regras ou as convenções sociais, sejam elas da natureza, sejam humanas.
Ainda bem. Nem ouso imaginar o que seria da humanidade sem essa infinita capacidade de desobedecer. Talvez ainda estivéssemos vivendo em cavernas fazendo as mesmas coisas todos os dias: caçando, pescando, colhendo frutas e sementes, incapazes de desafiar o medo do escuro da noite, o pavor do calor do fogo, o terror do abismo oculto pra lá do horizonte.
Não tenho duvida. A capacidade humana de criar é a filha primeira da desobediencia. Mas, além disso, eu seria capaz de jurar que a desobediencia é uma criação feminina. Uma qualidade forjada e fortalecida ao longo de milenios de opressão masculina, pela força bruta em estado bruto, uma qualidade indubitavelmente inata dos homens.
Pois foi assim que ela chegou, desobedecendo. Mas, ao mesmo tempo preenchendo nossas maiores e melhores expectativas de que ela pudesse vir linda e perfeita. E é assim que é: perfeitamente linda. Apesar de ser só bochechas. Enormes, fofas e rosadas bochechas.



Ainda não fala, mal abre os olhos, mas imediatamente se tornou o centro e o motivo maior da vida de todos aqui em casa. A mãe parida e lenta, o pai atento e avexado, as avós derretidas e ligadas, as tias prestativas, os primos divertidos e barulhentos (como sempre, aliás), as amigas observadoras e animadas e faladeiras. Todos girando em torno desse pedacinho de sol em figura de pedacinho de gente.
E eu cá assim, me limito a olhar e gostar. Afinal, o que posso eu desastrado, desajeitado, agoniado pelo menor choro ou gemido, só atrapalhar. Dai que me limito a olhar e amar. Aliás, como é bom olhar ela dormindo com toda essa paz que transborda e contagia. Uma paz que eu também devo ter sentido um dia, há muitos anos atrás, mas havia esquecido completamente, até tornar a lembrar que existia quando nasceram os meninos.
De tanto olhar, não consigo evitar a pergunta: será que ela sonha? Ou melhor ainda, com que será que ela sonha? Não conhece nada da vida. Ainda não viu a luz, o mar, as flores, o céu, as montanhas, as cores. Mas, de algum modo que não sei explicar, sei que sim: ela sonha. Talvez sonhe ainda com o calor da barriga de onde veio, com as vozes que escutava abafadas lá dentro e que agora estão mais fortes, talvez sonhe com a própria vida que sente pulsando dentro dela cada vez mais intensa. Pode até ser que já tenha começado a sonhar com esse mundo estranho, recem-descoberto e que já lhe provoca dores, medos, desconfortos, fome, frio e um monte de coisas que desconhecia.



Mas não precisa ter medo menininha. Sonhe também com o amor que todos nós, que estamos a sua volta, sentimos. E saiba... Pra voce só sonhamos com o melhor da vida... Siga desobedecendo (acho que sua mãe não vai gostar muito dessa parte) e sonhando pois sua luz já é tanta que inundou por inteiro nossas vidas... e que o espirito feminino que rege o mundo (felizmente) lhe guie e proteja. Seja muito bem vinda Maria Isabel!

Obs: E assim a Sociedade secreta das irmãs Araujo ganha mais uma integrante. O que explica ela ter sido a premiada do ano: ainda não teve tempo de revelar o forte genio que deu origem à Assomau - Associação dos sofredores maridos das Araujo.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sem Palavras

Porque imagens falam mais que mil...















Obs: Só pra quem não é do Acre ou está longe... talvez seja bom dizer que o Acre está passando pela maior alagação de sua história... Mas na verdade não há nada de novo nisso...


domingo, 12 de fevereiro de 2012

Da natureza dos espelhos

O que é a história, senão mera manifestação dessa estranha capacidade do espírito humano de se encantar com o que é belo e se indignar com o injusto... Historiadores há que dedicam toda sua vida a corroborar essa simples constatação.

Eu ainda estava na Faculdade quando o conheci. Desde então, a visão que eu tinha do mundo e dos processos históricos mudou completamente. Mais do que os professores-doutores na sala de aula, foi o livro “Veias abertas da América Latina” que me revelou a verdadeira dimensão de nossa tragédia histórica, graças a qual padecemos de grande parte dos problemas e da miséria social que ainda existem neste continente que já foi considerado, um dia, o paraíso na terra.
Anos mais tarde descobri que o uruguaio Eduardo Galeano havia nos retratado por inteiro na maravilhosa Trilogia “Memórias do Fogo”. E, há cerca de três ou quatro anos, recebi da Dani como presente por meu aniversário, o extraordinário “Livro dos Abraços”, onde dezenas de ignoradas, mas fundamentais, pequenas histórias fluem saborosamente misturando poesia, mitos, lendas, tradições orais e histórias clássicas. Foi quando definitivamente decidi: quando eu crescer quero ser igual a ele.


Pois bem, recentemente, transitando em uma livraria, encontrei, ou fui encontrado, por mais um livro de Galeano: “Espelhos – Uma história quase universal” que tem preenchido meus dias com prazer, espanto e encanto. Assim não pude resistir à vontade de compartilhar nesta coluna pelo menos um pouquinho do profundo e ético conhecimento desse que é, pra mim, o maior historiador vivo de nosso tempo.

De desejo somos
A vida, sem nome, sem memória, estava sozinha. Tinha mãos, mas não tinha em quem tocar. Tinha boca, mas não tinha com quem falar. A vida era uma, e sendo uma era nenhuma.
Então o desejo disparou sua flecha. E a flecha do desejo partiu a vida pela metade, e a vida tornou-se duas.
As duas metades se encontraram e riram. Ao se ver, riam; e ao se tocar, também.


Avós
Para muitos povos da África negra, os antepassados são os espíritos que estão vivos na arvore que cresce ao lado de sua casa ou na vaca que pasta no campo. O bisavô do seu tataravô é agora aquele arroio que serpenteia na montanha. E também seu ancestral pode ser qualquer espírito que queira acompanhar você na sua viagem pelo mundo, mesmo que nunca tenha sido seu parente, nem conhecido.
A família não tem fronteiras, explica Soboufu Somé, do povo Dagara:
- Nossas crianças têm muitas mães e muitos pais. Tem tantos quantos quiserem.
E os espíritos ancestrais, os que nos ajudam a caminhar, são os muitos avós que cada um tem. Tantos quanto quisermos.

Fundação da contaminação
Os pigmeus, que são de corpo curto e memória longa, recordam os tempos de antes do tempo, quando a terra estava em cima do céu.
Da terra caía sobre o céu uma chuva incessante de pó e de lixo, que sujava a casa dos deuses e envenenava sua comida.
Os deuses estavam há uma eternidade suportando aquela carga uimunda, quando de repente perderam a paciência.
Enviaram um raio que partiu a terra em dois. E através da terra aberta lançaram o sol para o alto, e a lua e as estrelas, e por esse mesmo caminho eles também subiram. E lá em cima, longe de nós a salvo de nós, os deuses fundaram seu novo reino.
Desde aquela época, estamos cá embaixo.


Servos e senhores
O cacau não precisa do sol, porque o traz por dentro.
Do sol de dentro nascem o prazer e a euforia que o chocolate dá.
Os deuses tinham o monopólio do espesso elixir, lá nas alturas, e nós, os humanos, estávamos condenados a ignorá-lo.
Quetzacóatl roubou-o para os toltecas. Enquanto os outros deuses dormiam, ele pegou umas sementes de cacau e as escondeu em sua barba e por um longo fio de aranha desceu até a terra e as deu de presente à cidade de Tula.
A oferenda de Quetzalcóatl foi usurpada pelos príncipes, pelos sacerdotes e pelos chefes guerreiros.
Apenas os seus paladares foram dignos de recebê-la.
Os deuses do céu tinham proibido o chocolate aos mortais, e os donos da terra o proibiram para as pessoas comuns e correntes.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Da descoberta do amor

Aproveitando que dois de fevereiro foi dia de homenagearmos Iemanjá e que acabei de voltar da beira mar...

Lembro-me bem, apesar de já estar chegando aos cinquenta, dos primeiros amores de minha vida. Afinal, amor de menino é assim: puro, inocente, ingênuo, mas intenso e definitivo. E, o melhor, agora eu sei, provoca na gente um tipo de lembrança que faz juz ao sentido do termo “recordar”: do latim re cordis, voltar ao coração. Memórias tão profundas e entranhadas em mim que ao sair de algum canto recôndito de meu ser e voltar ao coração fazem a respiração falhar, o corpo estremecer e a mente sorrir. Como é bom ser menino e crescer com coisas boas pra lembrar.
Pois bem, toda essa onda de explicita nostalgia foi só pra introduzir o assunto do artigo de hoje. É que, neste inicio de ano, finalmente, levei meus pequenos pra conhecer o mar... E tenho que confessar que a simples expectativa de fazer isso me encheu de lembranças. Porque, como nasci em Copacabana e cresci no Flamengo, ambos bairros com praias, vivi muitas histórias boas ou terríveis no mar.




Assim, como numa preparação ao que iria acontecer me pus a lembrar de como era bom passar o dia inteiro na praia numa época em que sequer existia essa coisa de filtro solar e as meninas cultivavam a lenda de que passar coca-cola melhorava o bronzeado. Lembrei de quantos castelos de areia construí e de como catava os “Tatuís” enterrados para povoar meus magníficos castelos destinados a desaparecer na primeira onda mais forte que viesse lamber as areias onde eu brincava. E de como era bom ter o corpo inteiro coberto pela areia quentinha de sol e depois sair rolando todo “enfarofado” até alcançar a água. É que, em nossa inocência, não sabíamos ainda das famigeradas micoses que certamente estariam escondidas naquela areia aparentemente tão branquinha e limpinha. Assim como podíamos realizar intermináveis guerras de nossas temíveis “bombas de areia”, feitas com areia molhada recoberta por areia seca e que tornávamos bolas perfeitamente esféricas graças à sutil arte de menino, sem que nenhum adulto brigasse com a gente já que no fim da tarde a praia ficava vazia e era toda nossa.


Mas, nenhuma outra lembrança voltou com tanta força, nestes dias pré-viagem, que a sensação, impregnada de absoluta certeza, de que era o mar que gostava de mim e brincava comigo mandando pequenas ondas nas quais me jogava pra que elas me levassem até a areia, só pra voltar pulando, correndo e rindo pra mergulhar de novo “furando” a próxima onda. Rapaz!!! Olhando hoje pra essas imagens, que vejo quando fecho os olhos, tenho novamente a sensação, impregnada de absoluta certeza, de que o mar foi meu primeiro grande amor de menino. Afinal, naquela época eu não me interessava ainda por meninas, a não ser como companheiras ou rivais de brincadeiras. Além do que é óbvio que não to contando com o amor de/pela mãe, porque esse não está fora, já nasce com a gente, existe desde sempre, ou se preferir, desde o ventre.
Por isso, não é difícil imaginar como eu estava ansioso por ver meus meninos na praia. Como reagiriam? Conseguiriam superar o medo natural dessa entidade tão grande e poderosa que é o mar? Saberia eu conduzir seus primeiros passos mar adentro como meu próprio pai havia feito comigo?
Mas minhas preocupações logo se revelaram uma grande besteira. Foi lindo ver a surpresa nos olhos deles já ao pisar na areia quente. Então é assim que é a praia pai? Começa com essa longa travessia, driblando gente, quarda-sóis, barcos de pesca e vendedores ambulantes? E o que dizer da água gelada, então? Pai!!! A água é salgada, olha só! Diziam os dois quase ao mesmo tempo enquanto passavam a língua pelos lábios e descobriam por eles mesmos aquelas coisas que não pode ser explicadas ou contadas, devem ser vividas pra se tornarem verdadeiras. Menino! Não faz isso que essa água é suja!!!


Não demorou muito pra que o Yago, do alto de seus sete anos, se jogasse na primeira ondinha que ousou desafiá-lo. Enquanto Vinicius, com toda a “cautela” que Deus houve por bem lhe dar, graças a Deus, experimentava entrar só até a canela pra então voltar pra areia. E, desconfiadamente, bem de acordo com seus cinco anos de forte personalidade, entrar de novo na água pra ir até o joelho e voltar pra areia. E repetir o mesmo processo até que a água chegasse à sua cintura, sua barriga, seu peito, onde decidiu: aqui já tá bom. Chega!


Daí pra frente foi presenciar, satisfeito, as mesmas cenas que meu coração de menino guardava já faz tanto tempo. Os meninos bolando na areia, o prazer das ondas que vem e vão jogando a gente pro raso e pro fundo numa interminável brincadeira, a construção de novos e efêmeros castelos de areia, os barcos chegando repletos de peixes de cores e formatos ao mesmo tempo atraentes e estranhos. Até que o por do sol, pr’além do fim do mar, definisse chegada a hora de ir pra casa, em meio a infinitos e invencíveis protestos de meus meninos felizes.



Pois foi assim que foi. E isso tudo não passaria de pequenas lembranças de férias, não tivesse o Yago, nesta semana, me perguntado: Pai a gente pode ir pra praia de novo no mês que vem? Foi quando não pude deixar de sorrir de sua inocência e ficar feliz por perceber que meu menino havia encontrado um dos primeiros amores de sua vida.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Humanas raízes de uma certa Gameleira


Diz o ditado popular que santo de casa não faz milagre. Uma homenagem como a que aconteceu na terça-feira no histórico Cine-teatro Recreio desmente essa “verdade” ao valorizar o que o Acre tem de melhor: pessoas que fizeram das dificuldades da vida um infinito universo de possibilidades. A seguir o texto de abertura da cerimônia.

Eurilinda Figueiredo interpretando o texto de abertura da cerimonia - foto Val Fernandes


Senhoras e Senhores..., Sejam todos bem vindos esta noite...

Talvez não exista no mundo outra terra
mais misteriosa ou surpreendente que o Acre.
Quando menos se espera é daí mesmo que sai
o que ninguém seria capaz de supor...
Pois nossa história de hoje é bem assim mesmo...
Surpreendente e, de certa forma, talvez, mágica...

Voltemos então no tempo... até os idos de 1930...
só pra lembrar como tudo se deu...

Eram anos tristes aqueles...
A borracha não tinha mais preço. Muitos seringais fecharam... outros se apequenaram pra sobreviver. Muita gente foi embora pra nunca mais voltar... outros ficaram de teimosos que eram...
O governo brasileiro não queria nem saber do Acre. Se havia sido assim antes, quando o Acre ainda dava dinheiro, imagina agora que só dava prejuízo pra Capital, o longínquo Rio de Janeiro...
Mas..., como se diz nas mais velhas histórias... É no lodo apodrecido dos pântanos, dos igapós, que surgem as mais belas flores... sejam elas flores de Lótus, sejam Vitórias Régias... É assim que é... sabedoria antiga...

O personagem Raimundo Doido que anunciava os filmes do Cine Recreio (aqui interpretado por Ivan de Castela) - foto Val fernandes

Pois foi assim que, em 1934, surgiu uma pequena alegria no horizonte acreano... Os novos ares da Revolução de Getúlio finalmente chegavam por aqui e os acreanos pela primeira vez experimentariam o doce sabor da democracia elegendo deputados para falar por nós lá na distante capital... E... neste mesmo ano nasceria por aqui um menino que tantas alegrias ainda nos daria...
Mais um ano, 35, e seria a vez da menina que estamos homenageando hoje chegar a esse mundo acreano, lá no antigo seringal São Luiz do Remanso... pra logo vir pra cá, pra cidade, pro Quinze, pra crescer e frutificar...
E nem bem o mundo mudava, em plena convulsão da nova grande guerra que chegava, numa quarta feira de dezembro de 39, vinha a um Acre, novamente rico por sua borracha, o terceiro de nossos ilustres homenageados, o ultimo a chegar, mas justamente aquele que seria encarregado de nos contar o que viu desde então...
Portanto, Senhoras e Senhores, sem mais delongas... quero dizer que esta noite aqui estamos pra falar de três personagens... três filhos diletos da cidade que amamos...

Uma mulher que aprendeu e... por bem saber... vive a ensinar...
Um homem que sabia escrever e... com que arte e alegria nos descreveu...
Outro homem que traz a musica dentro de si e... por isso toca... e como nos toca...


Os tres homenageados - João Donato, Guajarina Margarido e Artur Leite, representando seu pai Zé Leite - foto Adonay Melo

E por falar em musica... não sabemos, na verdade, se estes três personagens se conheceram de fato... Mas certamente estiveram juntos muitas vezes, ainda que não soubessem uns dos outros. Afinal, não havia muita coisa pra se fazer em Rio Branco naqueles idos dos anos quarenta em que cresceram e se tornaram gente...
É que aos domingos, na praça, sempre havia uma retreta bem executada pela Banda da Guarda Territorial e sou capaz de jurar que por lá eles se encontraram... num dia qualquer de suas vidas... e como estamos aqui pra lembrar... pedimos que a Banda da Policia Militar, descendente direta daquela outra da Banda da Guarda..., nos lembrem... quem sempre fomos e... orgulhosamente, com nossos pés rachados, ainda somos...
(Neste momento a Banda da PM executou o Dobrado Capitão João Donato e, logo em seguida o Hino Acreano)

OBS: Ah sim! E para quem não pôde ir à cerimônia, mas gostaria de ter ido, aviso que a TV Aldeia, que transmitiu o evento ao vivo para todo o Estado do Acre, promete exibir uma reprise na próxima terça-feira (17/01), às 21 horas.

sábado, 7 de janeiro de 2012

O mundo todo é aqui

(Entre o Paraná dos Mouras e Porto Walter)

Neste ano viajei por boa parte do interior do Acre. Agora já conheço todos os municípios acreanos. Isso me levou a tentar escrever uma série de artigos para outra coluna de jornal que estava planejando. A tal coluna aconteceu, a série que iria se chamar “Viagem ao interior do Acre” não. Assim, pra abrir o ano da coluna Miolo de Pote, hoje trago o artigo que deveria ter inaugurado aquela série.

“Acreditar em Mil Acres,
Na força dos fracos,
Ficar por aqui...”
(Beto Brasiliense)

Assim que chegamos ao lugar da reunião vimos um tranquilo senhor que aguardava na porta do auditório. Um rápido olhar era capaz de denunciar que aquele homem, que atendia pelo original nome de Javan, já havia vivido muito e que nem sempre as coisas lhe tinham sido fáceis. Um olho castigado, quase fechado, dava uma estranha assimetria ao seu rosto repleto de rugas e marcas do tempo e contrastava com o corpo bem ereto, sem sinais aparentes de fragilidade. Ainda assim possuía tal brilho no olhar e no inacreditável sorriso que não dava margem a duvida quanto à dimensão de sua dignidade. O que logo foi confirmado quando lhe perguntamos sua idade: 94 anos.
A conversa iniciada na porta se estendeu até o interior do auditório, enquanto as pessoas chegavam e se acomodavam para o programado encontro com os dois senadores. E mesmo sentados distantes um do outro o Senador Jorge Viana e Seu Javan continuavam conversando, quase sem perceber a grande movimentação de pessoas que acontecia ao redor. Até que o Senador não resistiu e se levantou para ficar novamente junto dele.
E, em poucos minutos, Seu Javan contou uma parte de sua longa trajetória.
- Seus pais vieram de onde?
- Vieram do Pará.
- É mesmo? Não é fácil encontrar pessoas do Pará aqui pelo Acre. Eles vieram quando?
- Em 1895. Vieram para o Paraná dos Mouras e por lá se estabeleceram.



- E como o senhor veio parar aqui em Porto Walter?
- Bem, eu tinha vinte anos, lá onde a gente morava não tinha mulher e eu queria ganhar a vida. Por isso vim pra cá, trabalhar com seringa que naquele tempo dava muito.
- É mesmo? Era movimentado, então?
- Rapaz era bom demais, só de vapores grandes vinham cinco todos os anos...
E, enquanto Seu Javan recitava de memória, sem titubear, os nomes dos tais vapores grandes, o povo espalhado na sala, agora cheia, começava a ficar impaciente com a extensão daquela conversa que parecia não ter fim. Refletindo o momento, o Prefeito decidiu então ir começando as falas no microfone. Mas nem isso foi capaz de interromper a conversa dos dois.
- E o senhor já foi a Rio Branco Seu Javan?
- Que nada menino. A cidade maior que conheço é Cruzeiro do Sul.
Neste momento, nem o som dos alto falantes que se sobrepunham as todas as outras vozes, foi capaz de apagar a surpresa do rosto do Senador que já teve a oportunidade de viajar por meio mundo.
- Quer dizer que o senhor nunca saiu daqui?
- Não meu filho.
- Mas... O senhor quer ir a Rio Branco? Eu o levo...
- Quero não meu amigo. Tô feliz por aqui mesmo...
Neste ponto se tornou totalmente impossível continuar a conversa. Primeiro porque todos no auditório estavam pra lá de ansiosos com tanta espera e depois porque o impacto da convicção com que Seu Javan via o mundo era avassalador e não deixava espaço para outras considerações. Ele acabara de revelar, com imensa simplicidade, o mesmo tipo de conhecimento profundo que já foi expresso há milhares de anos atrás, por outro grande sábio, lá no distante oriente: “A noção de que cada ser no mundo é um mundo em si.” (Confúcio).


Também pudera. Como é imenso o mundo de Seu Javan! Tem o tamanho da grandeza do Juruá e de suas florestas que se estendem pra muito alem de onde alcança a vista. Um mundo tão incomensurável que poucos devem ser capazes de efetivamente conhecê-lo no espaço de uma vida...
Era fim de tarde quando deixamos Porto Walter. Nos meus ouvidos ainda ecoava o olhar, o sorriso e as palavras de Seu Javan que, generosamente, acabara de ensinar o sentido de ter uma boa vida. Impossível não entender, então, que pra ser feliz não precisamos de nada daquilo que nos acostumamos a desejar em nossa tragicômica sociedade de consumo desenfreado, mas apenas amar nosso lugar e dar valor a cada pequena conquista da vida.
Grande Seu Javan!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Rosalina (3ª Parte)*

Qual seria o segredo das histórias que ficam e das que desaparecem? Eu não sei! Só sei que esta é uma daquelas histórias que se contam em voz baixa e grave, mas que nunca consegui esquecer...

“Não existiria som se não houvesse o silêncio.
Não haveria luz se não fosse a escuridão.
Silenciosamente eu te falo com paixão.
Eu te amo calado (...)”
Lulu Santos

(...)Nesses tempos felizes, Rosalina freqüentava os filmes que eram exibidos no Cine-teatro Recreio e suspirava como todas as suas amigas pelos galãs de cinema. (...)Bem poderia aspirar a um ótimo casamento. Principalmente se fosse com um desses moços bonitos e bem vestidos que não paravam de chegar e que faziam mocinhas reunidas para um sorvete nas mesas do Pavilhão Acreano, rir e corar nervosamente.

Não demorou muito para que finalmente o coração de Rosalina balançasse por um desses interessantes homens desconhecidos. Coube a um piloto de avião que vinha regularmente ao Acre a sorte de despertar o amor de Rosalina e dela se enamorar tão profundamente que não tardaria a lhe propor casamento. Quando Praxedes soube da notícia do eminente casamento de Rosalina se desesperou. Até aqui o acaso lhe beneficiara e nunca mais Lázaro tinha encontrado Rosalina na rua enquanto prestava serviços forçados na limpeza das vias públicos. Por isso Praxedes havia conseguido manter sua farsa de falsas cartas trocadas. Lázaro, com sua rude inocência, acreditava quando a falsa Rosalina lhe escrevia dizendo que também simpatizava com ele, mas que não poderia lhe falar, ou sequer lhe dirigir o olhar, porque sua mãe nunca permitiria tal coisa.
Mas ela não disse que não gosta de mim, pensava Lázaro, sem desconfiar que tudo não passava de uma mentira de seu igualmente apaixonado amigo jornalista. Por isso, tão logo soube da notícia do casamento de Rosalina, que segundo alguns já tinha até comprado o vestido de noiva, Praxedes decidiu escrever aquela que seria sua última carta falsamente assinada por Rosalina. Nela contou para Lázaro que um súbito amor teria arrebatado seu coração e que por isso não poderia mais escrever para aquele que agora julgava ser seu melhor amigo. Pedia ainda ao Lázaro que àquele amor tão belamente confessado nas cartas anteriores se voltasse para sua recuperação, já que um dia ele sairia da prisão e teria então uma nova chance de encontrar alguém que o merecesse mais que ela.


Lázaro ficou transtornado ao ler a carta de despedida daquela que havia se tornado a razão de sua vida. Gritou com toda força de seus pulmões que a mataria e que nunca poderia permitir que ela pertencesse a outro homem. Praxedes, assustado, tentou acalmar a fúria cega que havia aflorado de Lázaro e temeu pelo pior. Mas era tarde, o mal estava feito e agora era rezar para que o tempo cuidasse de aplacar as dores de seus corações partidos.
Porém, mais uma vez o destino foi ingrato e levou a um encontro que nunca deveria ter acontecido. Exatamente no dia seguinte da malfadada carta de despedida da falsa Rosalina, Lázaro foi posto junto com outros presos para roçar o capim da rua onde ficava a casa da mãe da simpática professora. Lázaro chegou a pensar que era uma coisa de Deus aquela oportunidade de se vingar da mulher que parecia tão meiga e fraternal, mas que na verdade o havia usado e agora estava jogando-o fora como se fosse um brinquedo velho e quebrado. Lázaro estava tão cego pelo ódio que quase não percebeu quando Rosalina saiu da casa de sua mãe para ir à escola, como fazia todos os dias. Ao vê-la tão serena depois de ter escrito aquelas monstruosidades na carta do dia anterior, Lázaro sentiu seu ódio aumentar a um ponto insuportável e apertou com força o cabo do terçado com que cortava o capim da rua.

Todos os outros presos que trabalhavam junto com Lázaro sentiram o peso que pairava no ar e interromperam automaticamente seu trabalho ao ver aquele homem que transpirava ódio no meio do pó da rua. Rosalina também sentiu que havia alguma coisa errada e olhando para a frente viu aquele homem estranho vindo em sua direção. Sorrindo como sempre, apesar de se sentir inexplicavelmente nervosa Rosalina ainda tentou perguntar o que afligia aquele homem evidentemente tão abalado, mas não conseguiu articular a frase que lhe escapava dos lábios. Só teve tempo de ver o brilho da lâmina do terçado que cortou violentamente o ar para se cravar em seu coração.
A sombra que emanava dos olhos daquele homem mergulhado em raiva e rancor tomou conta do corpo de Rosalina que caiu inerte no chão. Imediatamente todos os outros presos pularam sobre Lázaro e impediram-no de se matar, consumando o que ele mais desejava então, morrer junto com sua amada Rosa1ina.
O que aconteceu com o Praxedes, depois desse dia terrível, não se sabe ao certo. Mesmo o fim de Lázaro é desconhecido. Enquanto alguns dizem que ele se matou, outros contam que ele apareceu morto exatamente no dia em que teria chegado uma ordem do Supremo Tribunal para soltá-lo. Não são poucos os que contam ter visto espíritos atormentados vagando no meio da noite pelos corredores do prédio da Prefeitura de Rio Branco, a antiga penitenciária.
O certo é que o túmulo da professora Rosalina sempre foi um dos mais visitados do cemitério São João Batista e muitas são as pessoas que lhe fazem promessas e dizem ter recebido dela as graças pedidas.

* Texto publicado na revista Outras Palavras, n. 17, julho de 2002.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Rosalina (2ª Parte)*

Existem acontecimentos que se perdem no pó dos tempos. Outros ficam pra sempre gravados na memória de homens e mulheres. Surgem assim, nas ruas e esquinas das cidades, vozes que não se calam, anônimas, coletivas, fugidias, longínquas. Qual seria o segredo das histórias que permanecem?

“A vida é mesmo assim,
dia e noite, não e sim.
Cada voz que canta o amor,
não diz tudo que quer dizer.”
Lulu Santos


(...)Foi uma longa noite de insone de sonhos. Logo pela manhã, por uma estranha armadilha do destino, Lázaro recebeu a visita de Praxedes, o único que lhe procurava prisão já que ele não tinha mais ninguém neste Acre de meu Deus. Não suportando mais tantos desejos e sonhos lhe sufocando o coração, Lázaro contou para Praxedes sobre seu amor por Rosalina, que a tudo ouvia atordoado e incrédulo.

Nunca antes Praxedes, um jornalista que havia coberto o crime cometido por Lázaro e desde então se aproximara dele, havia visto seu contido amigo tão animado, tão vivo e feliz. Pelo contrário, mesmo sendo Praxedes o único que parecia perceber o homem que havia por trás da rudeza aparente de Lázaro, durante as poucas conversas dos dois, havia sempre um bloqueio, uma parede imposta por Lázaro, que impedia o jornalista de compreender os verdadeiros motivos daquele homem embrutecido e condenado pela sociedade.
Mesmo ao tentar chamar Lázaro à realidade mostrando-lhe que Rosalina nunca poderia ser sua, Praxedes foi de certa forma contagiado por aquela fervorosa paixão e vislumbrou por um breve momento a possibilidade de ver seu amigo voltar a vida. E num momento de absoluta insensatez prometeu a Lázaro que escreveria uma carta para Rosalina em seu nome. Se por acaso houvesse qualquer chance de correspondência de seu amor essa seria a melhor e mais correta forma de saber.
A partir desse dia foi como se Praxedes tivesse descoberto, também ele, um motivo para esperar cada novo dia. O hábil jornalista procurou se informar sobre a Professorinha Rosalina, seus hábitos, suas ocupações, seus gostos e preferências. Passou então a procurar vê-la na praça e a esperar a hora em que ela costumava sair da escola para subir a poeirenta Avenida Getulio Vargas até a casa de sua mãe. Logo percebeu, ele também, o encanto extraordinário de seu inocente sorriso.


Vista da Avenida Getúlio Vargas, início da década de 40, Relatório do governador Luís Silvestre G. Coelho

Ao sentar para cumprir sua promessa Praxedes viu frases cheias de amor e apaixonada poesia se sucederem rápidas e fluidas pelas folhas de papel. A imagem de Rosalina não saía de suas retinas e lhe perturbavam a alma. Num sobressalto, Praxedes viu que, ele também, estava sucumbindo à força daquela, aparentemente, frágil e doce menina e pôs-se a chorar. Sentiu o peso de sua vida perdida entre ruas sujas e manchetes de jornal e suas lágrimas molharam o papel da carta que ele escrevia por Lázaro.
Mas ele nunca havia pensado realmente em mandar carta nenhuma para Rosalina. Por isso, depois de mostrá-la para Lázaro, Praxedes a guardou com carinho, apesar de garantir a seu amigo que a enviaria. Conforme se passavam os dias sem resposta de Rosalina, Lázaro entristecia e se apagava cada vez mais. Os dias nublados do inverno chuvoso pareciam colaborar com a tristeza do prisioneiro que ansioso esperava ver através do alambrado da Penitenciária um rápido vislumbre que fosse de sua amada.
O jornalista começou a ficar preocupado com o que Lázaro poderia fazer. Talvez até decidisse por fim à própria vida diante de tamanha desilusão. Foi quando Praxedes cometeu seu segundo e pior erro. Em parte por causa da tristeza de Lázaro e em parte por causa de sua própria paixão por Rosalina. Decidiu responder em nome da professorinha a carta que, na verdade, nunca havia enviado. Assim ele iria animar Lázaro e, ao mesmo tempo, poderia escrever outras cartas de amor para sua terna Rosalina, antes de fechá-las num envelope e guardá-las para sempre na gaveta. Esse deveria ser um segredo só deles.
Assim, rapidamente se passaram as semanas enquanto aqueles dois homens apaixonados mandavam e recebiam cartas de uma Rosalina que só existia em seus sonhos...
Indiferente a isso tudo, a Rosalina de verdade, dona daquela peculiar beleza cabocla das mulheres acreanas, tocava sua vida como qualquer outra moça de sua idade. Ainda mais porque os anos 40, que estavam só começando, se revelavam como tempos extremamente movimentados. A Grande Guerra estourou na Europa e as rádios e pessoas não comentavam outro assunto. A borracha subiu rapidamente de preço e trouxe uma súbita e bem-vinda prosperidade como há muito não se via. Os entendidos nas coisas dos mercados internacionais diziam que isso era só o começo e a borracha ainda iria subir muito mais até o fim da Segunda Guerra Mundial. Bons ventos sopravam no Acre que parecia novamente renascer graças ao velho e bom ouro negro de outrora.

Grupo Escolar Sete de Setembro onde a Profª. Rosalina trrabalhava (no local do atual Palácio das Secretarias), Relatório de Hugo Carneiro, 1929.


Nesses tempos felizes, Rosalina freqüentava os filmes que eram exibidos no Cine-teatro Recreio e suspirava como todas as suas amigas pelos galãs de cinema. Nova, boa professora e simpática como só ela sabia ser, Rosalina bem poderia aspirar a um ótimo casamento. Principalmente se fosse com um desses moços bonitos e bem vestidos que não paravam de chegar e que faziam as mocinhas reunidas para um sorvete nas mesas do Pavilhão Acreano, rir e corar nervosamente.

*Texto publicado originalmente na coluna “Histórias das Margens”, Revista “Outras Palavras”, n. 17, julho de 2002.