sábado, 13 de agosto de 2011

Histórias d'alem fronteira

Os poderes constituídos não conseguem compreender o espírito da fronteira. Para os governos em geral a fronteira é um problema, é o limite e com ele a sempre presente possibilidade da transgressão dos limites. Limite da Pátria, limite da moeda, da língua, da cor, do gesto, do jeito, limite da alma, enfim. É preciso, portanto, cuidar (o que na maioria das vezes significa apenas proibir).
Em geral, não vemos o que está lá e cá ao mesmo tempo, o que transpira de um lado ao outro, o que une, o que liga, o caminho que leva e traz, o limite do outro, do novo, do distinto, o limiar que junta o início e o fim, o que transcende tudo aquilo que não pode ser limitado. Neste sentido, a fronteira é a alma dessa terra limite.
Hoje ouvi uma nova história sobre a fronteira. Uma boa história que preciso dividir com vocês. Adianto que se trata de uma história prosaica, simples, em alguns momentos até mesmo de palavreado impróprio, pelo que já peço perdão antecipadamente. Mas, também garanto que se trata de uma daquelas histórias singulares, que revela a complexidade oculta por trás dos cartões postais, ou no nosso caso, o que esta para além das lojas coloridas que nos vendem importados piratas da China, dessa derradeira relíquia comunista que anda travestida em grande e universal consumista. Síntese perfeita de nosso louco tempo, pré-apocalipse.
Mas... Sem mais enrolação, com vocês a história que me encantou e me fez sorrir, hoy dia.


A Triste e Trepidante Balada de Tio Ivo

Ele era mais um dos milhares de bolivianos(as) nascidos de mistura com brasileiros(as) que passaram toda a vida do lado de lá da fronteira. Um bom homem era Tio Ivo, trabalhador, íntegro, sincero, um bom boliviano. A única coisa que ainda se permitia era tomar uns tragos de vez em quando.
Na verdade, de vez em sempre. Todo fim de semana bebia até ficar borracho. Depois sossegava Tio Ivo, que era um bom homem. Não chegava a ser alcoólatra, apenas bebia nos fins de semana.
Na verdade, era mesmo alcoólatra, porque bebia pra valer, todo fim de semana. Mas era um bom boliviano e disso ninguém duvidava.
Mas, naquele dia, ficou bravo Tio Ivo. Outro golpe de estado estava bagunçando tudo na Bolívia. De novo, novamente, outra vez, pensava revoltado. Todo ano golpe militar, golpe, golpe atrás de golpe. Não teria fim nunca essa triste história de seu país sofrido?
Neste dia então, depois dos tantos tragos regulamentares, inesperadamente, se embrabeceu Tio Ivo, resolveu sair às ruas e declarar toda sua indignação pra quem quisesse escutar. Bradava assim:
- Me cago em Bolívia!!!!!! Carajo!!!!
Quem via aquela cena, nem podia acreditar no que via. Não era apenas um grito, um protesto qualquer. Tio Ivo falava do fundo de sua alma. Estava cansado de ver seu país desse jeito, maltratado por autoridades que se sucediam no poder através da força e da sempre renovada tragédia de seu povo. Andava, com os passos incertos de todo e qualquer bêbado, Tio Ivo, e de repente parava pra tornar a bradar...
- Me cago em Bolívia!!!!!! Carajo!!!!
Estava cansado. Definitivamente cansado de ver seus conterrâneos ter que atravessar as águas do rio Acre a nado, fugindo para o Brasil, a cada novo golpe. Todo ano, golpe de novo e a mesma coisa, lá se vão a nadar pro outro lado meus amigos. Ano que vem, de novo, golpe e lá sem vão os inimigos de meus amigos a nadar pro outro lado desse rio chamado Acre. Outra dor, outra indignação, outra vez:
- Me cago em Bolívia!!!!!! Carajo!!!!
Tanto fez Tio Ivo que, como não podia deixar de ser, chamou a atenção dos soldados em patrulha pelas ruas em razão do estado de sítio em que se encontrava a Bolívia naquela tarde de Cobija. E não deu outra. Vieram os soldados, truculentos, a interrogar: Mas! Que passa, Hombre! Que Passa!!! Ao que não teve duvidas Tio Ivo que, duplicando o tom e o volume de sua voz, redobrou a força e a dor de seu brado de protesto.
- Me caaaaaago em Bolívia!!!!!! Caraaajoooooo!!!!
Os militares - nitidamente collas, filhos do altiplano, ao ver aquele homem grande que, de muito branco, estava em vermelho de fogo, indignado, sob o sol escaldante da tarde de Cobija, legítimo filho dessa mistura que a floresta produziu ao longo dos séculos últimos - não também não tiveram duvidas. Prenderam Tio Ivo. Onde já se viu tamanha ofensa à Pátria. Ainda mais em pleno Golpe de Estado...


Quase tão rápida quanto aquela prisão, percorreu as ruas quentes da tarde de Cobija, a notícia, que, como era de se esperar, logo foi bater no ouvido de Tia Vitória. A mulher de Tio Ivo. Como és?!!!? Preso mi Ivo? Eso no puede ser, me voy a ver eso ahora, ahorita!
Um metro e meio de pura valentia Tia Vitória. Pense numa mulher braba. Decidida - um metro e meio pleno, bem cheio e medido, de autoridade - partiu para o quartel Tia Vitória. Já na porta, o soldado bem que tentou lhe barrar, ao que ouviu assustado: Quiero hablar con el Comandante! E era tanta firmeza que o soldado não lhe pôde impedir de prosseguir. Logo acudiu o Oficial do dia tentando por ordem na casa. Mas de nada resultou. Me llame el Comandante! Mas, Señora... No me importa, quiero hablar con el Comandante y solo con el Comandante, ahora!
Não demorou pra se convencerem que não havia outro jeito de acalmar Tia Vitória e logo apareceu El Comandante de la tropa. Atônito, talvez até mesmo intimidado, por tamanha autoridade em tão reduzido espaço de gente, indagou a seus comandados: Más que sucedió??? E coube ao Tenente explicar o motivo de tão justificada prisão. El señor Ivo estava en la calle del ciudad a gritar insultos contra nuestra pátria. El dijo, con su pérdon mi Comandante: Me cago em Bolívia!!!!!! Carajo!!!!
Mas antes mesmo que o Comandante pudesse olhar para baixo, no rumo da pequena mulher, com reprovação. Tia Vitória desancou a comandar... Más hombre. Ivo és un buen hombre. Aquí vive, aquí trabaja de sol a sol, y usted, ahora, desea que Ivo vaya a la orilla del rio, coja una catraia, cruce el rio y vaya a cagar em Brasiléia? No, no, no. Ivo vive aquí em Bolívia, tiene que cagar aquí mismo en Cobija. Suelte mi Ivo ahora, ahorita. VAMOS!
Ao que o comandante, olhando firme, com indisfarçável ar de reprovação, para o Tenente, não demorou em decretar... Andelante hombre, lo que está esperando, suelte Dom Ivo. AHORA!
E lá se foi... com a moleza típica dos borrachos, naquela tarde quente de Cobija, Tio Ivo, seguindo, capisbaixo, aquele metro e meio de pura valentia e autoridade, chamado Tia Vitória.

Obs: Ganha um exemplar deste jornal o primeiro que souber dizer quem me contou, há pouco, essa história... e ainda dou pistas: Dom Ivo é tio deste nuestro amigo, meio cholo, meio Acre que tantos de nós conhecemos e gostamos por demais... e que, há algum tempo atrás, nasceu de novo, para nossa felicidade (agora ficou fácil!!!)

domingo, 31 de julho de 2011

Machu Picchu – Um século (I)


(ou: Mistérios da alma humana)

No dia 24 de julho de 1911 Hiram Bingham chegava a Machu Picchu. Um acontecimento que, sem que o explorador pudesse desconfiar, determinaria boa parte de minha vida, como deve ter feito com muitos outros antes e, ainda fará, depois de mim.

Se chamava “Cidadelas Perdidas”, se não me falha a memória, aquele livro em dois volumes que encontrei num sebo. Dentro de um deles uma narrativa, em especial, me encheu de sonhos e desejos. Eu era mais que um menino e menos que um rapaz então. Ainda podia passar noites inteiras lendo livros extraordinários que me faziam viajar por todas as partes do mundo e por todos os tempos possíveis entre o passado e o futuro.
Aquele capítulo que nunca consegui esquecer tratava da descoberta de Machu Picchu pelo norte-americano Hiram Bingham, em 1911. A narrativa daquela tensa subida por altas montanhas que roubava o fôlego dos exploradores, das dificuldades que a densa floresta das escarpadas encostas impunha, das dúvidas que assaltavam a expedição a cada dificuldade do longo e improvável caminho, fazia minha imaginação ver tudo como se estivesse acontecendo diante de meus olhos.
Mas nada nesta fantástica história era superior ao exato momento em que Hiram Bingham finalmente viu diante de si a mítica e lendária cidade perdida encravada entre dois cumes da “montanha velha” (tradução de Machu Picchu, em Quechua). Senti, como ele, naquele momento meu coração disparar e ser invadido por uma forte vertigem, coisa extremamente perigosa pra quem está “atrepado” naquelas alturas de mais de 2.400 metros.


Até hoje não consigo saber o que era maior então. A paisagem impressionantemente monumental, com o rio Urubamba serpenteando aos pés daqueles altos picos que ousavam desafiar o céu. A sensação de ter realizado uma extraordinária descoberta que iria rápida e permanentemente maravilhar todo o mundo, estabelecendo uma nova série de mistérios a serem desvendados. Ou a absurda consciência de que nada que Hiram Bingham fizesse depois seria maior ou mais importante do que aquela descoberta, aquele exato momento em que a vida de um homem deixa de ser ameaçada pela iminente possibilidade do fim e se torna eterna como as próprias montanhas que o cercavam então.
Acho muito difícil que, mesmo considerando o notório pragmatismo norte-americano, Hiram não tenha compreendido naquele instante porque os Incas consideravam as montanhas, não apenas sagradas, mas como os próprios deuses em si.
Lembro nitidamente que foi neste momento da leitura que decidi duas coisas definitivas para a minha própria vida: um dia eu iria a Machu Picchu e, não tinha jeito, eu ainda seria arqueólogo. Hoje, escrevendo esse artigo, fico muito feliz por já ter feito ambas as coisas (não exatamente da forma como imaginei naquela época), mas essas são outras histórias que vão ter que ficar pros próximos artigos.



Entretanto, não posso deixar de ressaltar aqui que, um século depois daquele momento extraordinário, ainda não se sabe exatamente o que foi Machu Picchu. Já se disse que era uma fortaleza secreta, um retirado e restrito templo para as escolhidas do Inca, o mausoléu de Pachacutec (o maior dos Incas e hipotético construtor da cidade) cuja múmia teria sido retirada dali pouco depois da chegada dos espanhóis à Cuzco, o refúgio do último Inca depois da fulminante destruição do Império pelos espanhóis, estratégico local de supervisão da produção de diferentes povos submetidos ao Império Inca, importante centro religioso, político, etc.
A mais recente teoria em discussão dá conta de que Machu Picchu teria sido um centro de peregrinação. A extremidade de um caminho sagrado que se iniciava na Ilha do Sol no meio do Lago Titicaca e terminava em seu famoso templo central. Vai saber. Mais que sua infinita beleza, talvez a principal característica de Machu Picchu seja mesmo essa propriedade de, através de seus inesgotáveis e indecifráveis mistérios, continuar desafiando o que há de mais profundo em nossa alma.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O PODER DO SILENCIO*


31 anos desde que a morte de um homem mudou o curso da história. Seu nome: Wilson Pinheiro. Um homem alto, determinado, de fala mansa e rara, mas de olhar poderoso.

Por um mês procuramos, em vão, sinais de sua voz. Nada.
Nenhum papel de pão manuscrito, nenhum documento do Sindicato, nenhuma entrevista nos jornais, nenhuma frase solta e memorizada pela multidão que seguia os passos daquele homem de evidente coragem.
Foi por vozes alheias que começamos a conhecer a história de Wilson. Sobram relatos do dia 21 de julho de 1980, quando três balas desferidas pelas costas puseram fim a sua vida. O primeiro dos líderes da floresta a morrer sem razão, por uma causa. Mas não o ultimo a pagar com a vida para que outros pudessem continuar vivendo de acordo com suas tradições culturais. Foram esses relatos da morte, da comoção popular, do enterro, da indignação, da dor e das juras de vingança, publicadas nos jornais acreanos e repetidas nas entrevistas feitas com as pessoas que participaram dessa história, que nos fizeram começar a ouvir o som da voz daquele homem calado.
Não pudemos evitar um calafrio na espinha ao conhecer a história do homem enterrado com uma moeda na boca para evitar a fuga de seus assassinos. Os signos populares são poderosos. Às vezes a sina de um homem pode ser sintetizada em um único gesto.
Não pudemos, tão pouco, evitar um enjôo desagradável ao ler matérias do jornal oficial que diziam que a culpa da malfadada “tensão social” vivida pela população acreana naqueles anos terríveis era dos agitadores, dos subversivos, dos comunistas que só queriam conflagrar a multidão para destruir a ordem vigente.
Se bem entendemos essa história, era o povo que estava tentando manter a ordem das coisas de um Acre invadido por pessoas que pouco sabiam da gente que vivia do que a floresta tinha pra oferecer, que só se interessavam por tirar o máximo possível no menor tempo possível. Quem subvertera a ordem natural das coisas havia sido o então chamado “Capitalismo Selvagem”, o Governo Militar, o Governo Biônico Estadual, para os quais só contavam índices econômicos favoráveis e um povo manso que obedecesse prontamente o que lhe era determinado. Era preciso progredir, desenvolver nosso país subdesenvolvido (outra palavra da moda na época). Afinal de contas “Esse é um país que vai pra frente” e “O Brasil, (é) o país do futuro”.
Naquela época eram eles que falavam, Wilson calava, mas agia. Usava sua enorme força vital para conduzir o povo em uma marcha pacífica pelo “empate” com o progresso. Talvez até soubesse que não podia vencê-los. Eles possuíam a polícia, as forças armadas, o capital, a justiça, tudo ao seu lado. E o povo o que tinha? Somente determinação e coragem frente à força bruta. Mas, se não se podia vencer os opressores, se pudesse ao menos “empatar” eles. E lá iam, mulheres e crianças à frente, impedir mais uma derrubada. Centenas de Wilsons, anônimos, calados, transformando suas ações em uma voz que gritava.


E, da culminância da dor, a vingança. Morte trocada. Para um Wilson morto, uma outra morte, um Nilão, culpado ou não, um deles. Era tudo que ainda podiam fazer se quisessem sobreviver. Aceitar de braços cruzados a morte de Wilson significaria a derrota e a condenação à morte de muitos outros homens de um povo submetido ao terror instituído. Existe razão possível na guerra?
As versões estão lá, para todos verem. Quem perder algum tempo lendo as matérias publicadas no “Varadouro”, no “Nós Irmãos”, na “Gazeta do Acre”, no “O Rio Branco” e no “O Jornal” poderão constatar a mobilização popular que se espalhava por todos os vales - de Boca do Acre até Assis Brasil, de Sena Madureira até Cruzeiro - contra a invasão dos “paulistas”. Quem se der ao trabalho ler as páginas daqueles jornais conhecerá o descaso oficial para a captura dos assassinos de Wilson e depois a fúria com que os assassinos de Nilão foram perseguidos, presos e torturados. Manchetes que não precisariam ter sido publicadas, se nossos governantes fossem sensatos e esse um país justo.
Anos se passaram desde então. A luta continuou e as manchetes dos jornais seguiram estampando notícias de crimes de encomenda, de conflitos eminentes, de empates vitoriosos e de ações públicas insuficientes. Outros homens tombaram antes que a floresta acreana e os modos de se viver dela pudessem ser salvos. Poucos culpados foram presos por seus crimes. Mas o povo venceu. No que era possível, mas venceu. Reservas extrativistas foram demarcadas, o povo da floresta fez uma aliança que mostrou a todos a existência de uma população que só queria tranquilidade e justiça pra tocar sua vida. A voz de Wilson e de seu povo havia sido forte o suficiente para se fazer ouvir longe.
O Acre nunca mais seria o mesmo então. O povo das cidades também havia assistido à chegada de milhares de famílias expulsas de suas casas, presenciado a miséria que explodia em suas invasões periféricas e ouvido as vozes que se levantaram de dentro da floresta. Os educados filhos da cidade também tiveram que ver tudo o que acontecia em Xapuri, Brasiléia, Boca do Acre, Quinari, Tarauacá.
Mais uma vez a voz que vinha do interior seria expressa por vozes estranhas ao povo que falava. Era a vez das monografias acadêmicas, das dissertações de mestrado, das teses de doutorado. O que era coragem e sabedoria popular foi promovido à ciência, multiplicando títulos, abordagens, recortes epistemológicos - economia, história, sociologia, antropologia - expressões e palavras estranhas ao povo que de sujeito havia sido transformado em objeto.
Diferente das manchetes de jornais que não deveriam ter sido escritas, alguns dos novos títulos revelavam o aprendizado da sociedade com o que havia de mais antigo e inovador nela mesma, a voz do povo. “Ocupação recente das terras do Acre” (1982); O sertanejo, o brabo e o posseiro” (1985); “Conflitos pela terra no Acre” (1987); “Os ‘Imperadores do Acre’ – uma análise da recente expansão capitalista na Amazônia” (1988); “Seringueiros e Sindicato: Um povo da floresta em busca de liberdade” (1991); “Capital e trabalho na Amazônia Ocidental” (1992); entre tantos outros publicados nos corredores das UNBs, UFACs, UFMGs, PUCs.
Isso sem falar nas livrarias dos shopping-centers repletas de livros sobre a devastação da Amazônia, sobre a vida e a morte de Chico Mendes, sobre ecologia. Será possível que a sociedade de consumo rápido e desenfreado tenha realmente ouvido aquela voz que silenciou na boca de Wilson Pioneiro? Talvez nunca saibamos ao certo.
O que parece certo é que o Acre continuou seu caminho, tentando construir um destino próprio. Porque aqui existiu uma voz que nunca foi escrita, da qual não se registrou o timbre e nem restou nenhuma frase, mas que não deixou de ser repetida e ouvida por florestas e cidades dessa Amazônia Ocidental desde então. A voz de um homem alto e determinado, de fala mansa e rara, dono de um olhar e um silêncio poderosos.

* Adaptado de texto publicado na Revista Wilson Pinheiro – 20 anos depois; Rio Branco, FEM, julho de 2000.

sábado, 16 de julho de 2011

A Porta do Acre

(ou: Que correntes nos prendem ao passado? – III)

Esta semana completaram-se 112 anos desde que Galvez proclamou a criação do Estado Independente do Acre. Por isso fecho hoje o ciclo de republicação de artigos que tratam de Porto Acre, ou “Cidade do Acre” como lhe chamou o então Presidente da Republica acreana, sobre o exato local em que tudo aconteceu num ensolarado e memorável 14 de julho.

O atual visitante de Porto Acre pode até não perceber a enorme importância desta cidade para a história acreana. Aos olhos do viajante, Porto Acre deve parecer apenas mais uma vila de poucos moradores. Pacata e lenta como só as cidades do interior sabem ser. Mas, sob as aparências que se apresentam aos olhos de quem acaba de chegar, aqui existe um lugar que resistiu ao tempo, como seus fundadores resistiram através de uma guerra para ficar neste lugar. Afinal de contas, foi aqui que a história do Acre começou.
É verdade que existem no Acre outros povoados ainda mais antigos, como Rio Branco e Xapuri, mas quando eles foram criados às margens do rio “Aquiri”, território dos índios Apurinã, sequer existia um lugar que pudesse ser chamado de “Acre”. Por isso o patrimônio histórico de Porto Acre é um dos mais significativos do nosso Estado, apesar de toda a destruição causada pelo tempo e pelos homens.
Só pouquíssimas casas de arquitetura mais tradicional, resistem nas ruas de Porto Acre. E, ainda por cima, essas duas ou três residências são evidentemente bem mais recentes que toda aquela história que fez a fama, o nome e a existência dessa cidade.
Do mesmo modo, poucos habitantes dali guardam a memória de tudo que se passou entre aqueles barrancos altos. Afinal, já lá se vai muito tempo desde que tudo aconteceu. Os revolucionários que não morreram de bala durante a guerra, morreram depois de morte morrida. Seus filhos, também já se foram e seus netos não ficaram por aqui e estão por ai, espalhados pelo mundo. Nada que não seja completamente normal nesse país de solene e notória falta de memória.



Mas nada disso importa. O patrimônio de Porto Acre é de uma natureza diferente da maioria dos lugares que se tornaram conhecidos por seus conjuntos arquitetônicos raros, singulares e ricos. Ele está ali, diante dos que não sabem vê-lo. Porque o patrimônio histórico e cultural de Porto Acre está inscrito em sua própria paisagem.
Naquele lugar, o alto do barranco está ali, a curva e o estirão do rio estão ali. Olhando com bastante atenção quase se pode ver ainda a grossa corrente atravessada de uma margem à outra impedindo a passagem dos revolucionários acreanos.
Mas não só. O patrimônio de Porto Acre ainda está oculto também no interior das casas e da terra, sob a forma de objetos, garrafas, “cascas” de balas, pequenas letras de chumbo do jornal “El Acre” já encontradas ou por encontrar.
Todos os meninos dessa cidade, de quando em vez, acham os tesouros de um passado distante que sabem já passou há muito, mesmo sem saber avaliar quanto. Sabem também os meninos que aqueles tesouros não valem dinheiro. Quando muito valem um cupom na rifa de Seu Artur, ou uma história bem contada que os encha de imagens e orgulhos momentâneos. Sentem os meninos que apesar de não ter valor em dinheiro, os tesouros de Porto Acre valem muito e ainda podem brincar com eles, indiferentes ao passar do tempo.




Não, Porto Acre, não está esquecida. Por menos evidente que seja, Porto Acre não esqueceu de si mesma. Pode-se dizer, talvez, que está adormecida num sono longo e profundo, mas desperta um pouco cada vez que revela suas paisagens e/ou pequenos pedaços de história ocultos.
Não! Porto Acre, não é uma cidade fácil de ser conhecida. É preciso, porém, conhece-la. Não apenas como a conhecem os velhos de memória antiga, ou os livros de história, mas como a conhecem os meninos que pulam do barranco em facadas primorosas rumo às águas barrentas e que, no final da tarde, vêem o curso do rio desde o alto do barranco e se lembram que aqui começamos a ser quem somos.
Porque, ao subir o rio, uma vez passado o porto, uma porta se abre e se sabe, chegamos ao Acre.

*Adaptado de artigo publicado na Revista “Galvez e a Republica do Acre”, pela Fundação Elias Mansour, em 1999, por ocasião do centenário do Estado Independente do Acre.


OBS: Já que o artigo de hoje trata mesmo de aniversário, quero aproveitar para, mesmo muito atrasado, dar Parabéns!!!! ao Ronaldo “Spock”, diagramador do Página 20 que toda semana fica esperando meu costumeiro atraso em enviar o material da coluna, por seu aniversário na semana passada.
Sem ele, não existiria Miolo de Pote. Por isso, é importante ressaltar que ele, como poucos hoje em dia, tem a grandeza de, mesmo permanecendo invisível para quem lê a coluna, nunca deixou de se empenhar para que nossos artigos saiam bem nos jornais de domingo. Assim, por uma questão de justiça e de gratidão quero aproveitar o artigo de hoje para homenagear esse amigo e fundamental “sócio” da coluna.

PARABÉNS!!!!!!! E SAUDAÇÕES RUBRO-NEGRAS (pra não perder o costume)!!!!

domingo, 10 de julho de 2011

Que correntes nos prendem ao passado? (II)

(ou As muitas correntes de Porto Acre)

Recentemente um amigo me questionou sobre a veracidade do famoso episódio do corte da corrente durante o combate de Porto Acre. Por isso, hoje, vamos ver o que dizem, e/ou contradizem, algumas fontes históricas sobre esse acontecimento.

O ultimo grande combate da Revolução Acreana ocorreu em Porto Acre, entre os dias 15 e 24 de janeiro de 1903, e configurou-se na historiografia acreana como decisivo uma vez que Puerto Alonso (nome boliviano daquele povoado) era o centro das ações do exército boliviano no Acre.
Segundo as descrições que nos chegaram daquele episódio, os bolivianos estavam aquartelados em uma praça fortificada com alambrados de arame e trincheiras na parte alta do povoado. E, como medida complementar de defesa, atravessaram uma longa e grossa corrente de ferro de uma margem à outra do rio Acre para impedir a passagem de vapores brasileiros pela cidadela fortificada, evitando o abastecimento do exército revolucionário acreano. Para possibilitar a vitória sobre os bolivianos era imprescindível cortá-la e livrar a passagem dos vapores.
O próprio comandante das tropas insurgentes, Cel. Plácido de Castro, em suas memórias denominadas “Apontamentos sobre a Revolução Acreana” narrou assim o episódio: “Urgia que fizéssemos descer o navio ‘Independência’, a cujo bordo tínhamos borracha, com a qual devíamos comprar munições... Os bolivianos, plagiando Humaytá, tinham collocado uma corrente para vedar a passagem. Uma das extremidades dessa corrente, porém, estava em terreno que já havíamos conquistado. Entretanto, foi difficilimo cortar essa corrente... Ás seis horas da manhã, collocados todos nos seus postos, verificado o entricheiramento da casa de machinas, feito com 30.000 Kilos de borracha, mandei suspender ferro...A passagem foi feita garbosamente, debaixo de uma estrondosa salva de balas.”



O que chama a atenção nessa descrição de Plácido de Castro é o caráter secundário que ele deu ao corte da corrente em si, remetendo a ação principal à passagem do vapor Independência feito sob fogo cerrado, inclusive de um pequeno canhão d os bolivianos.
Vejamos agora o que o Coronel Azcui, boliviano que documentou e descreveu as campanhas do Acre, nos conta sobre o mesmo caso. “El 18 de enero a merced de una densa niebla el Affuá pudo burlar la vigilancia de los que lo aguardaban y pasar a Caquetá apitando fuertemente. Las gruesas cadenas que hiciera poner el delegado para impedirle el paso habían sido cortadas en los dias anteriores.”
Cabe ressaltar que Affuá era o nome que os bolivianos davam ao vapor que lhes foi tomado pelos acreanos e rebatizado como vapor Independência. Mas, curiosamente, também Azcui não se dedicou a descrever o corte da corrente em si, concentrando-se em citar a passagem do vapor pelo porto como um dos lances decisivos do combate.
De onde veio então a épica descrição do corte da corrente de Porto Acre ? É preciso considerar que se trata de uma das histórias mais populares dentre os que gostam e contam a história das revoluções acreanas. Só nos resta então recorrer ao clássico e principal historiador da Revolução Acreana, Leandro Tocantins, que tratou a questão da seguinte maneira: “Os bolivianos, repetindo a tática de Humaitá, na Guerra do Paraguai, colocaram uma grossa corrente, de lado a lado do caudal. Os homens do Batalhão franco-atiradores ficaram incumbidos de serrá-la, quase inteiramente mergulhados, para livrarem-se dos projetis. O primeiro grupo não conseguiu realizar a tarefa, e só uma segunda tentativa, às ordens do italiano Ernesto Aosta, engajado às forças de Plácido, logrou o sucesso desejável: a corrente partiu-se meio a meio, desaparecendo nas abundantes águas do repiquete e sob contínuo fuzilar do inimigo.”
O curioso dessa descrição feita por Tocantins é que não constam outras fontes de onde ele teria encontrado essas informações sobre o corte da corrente, até porque as fontes que ele utilizou para descrever o combate de Porto Acre são aquelas que já citamos acima, que não descrevem o corte em si.



Daí serem necessárias algumas perguntas, tais como: porque aqueles que estiveram presentes ao combate não descreveram o corte da corrente, apesar de afirmarem ambos que ela foi cortada com muita dificuldade? Porque, como afirma Tocantins, a corrente teria sido cortada no meio do rio Acre cheio pelo repiquete se os acreanos dominavam a margem onde estava presa a tal corrente e seria muito mais fácil simplesmente soltar sua extremidade durante a noite? Se o corte da corrente foi tão repleto de lances heróicos por parte de acreanos e bolivianos não deveria ter sido tratado com mais relevo por parte daqueles que testemunharam os acontecimentos? Como Tocantins soube de detalhes não contados pelos protagonistas do episódio? Essas perguntas só poderiam ser respondidas imediatamente com especulações pouco fundamentadas.
Entretanto, não podemos desconhecer que existem diversos livros que trataram a Revolução Acreana de forma ficcional que propositalmente exageraram certos episódios para realçar o caráter épico da conquista do Acre. Além do que, não devemos ignorar tão pouco que, desde o fim da revolução acreana passaram a circular inúmeros relatos orais daqueles que lutaram efetivamente na guerra do Acre, ou por parte de seus descentes que ouviram contar sobre, e que nos legaram versões variadas sobre passagens que nunca foram registradas pela historiografia tradicional (lembrando, ainda, que alguns desse relatos chegaram a ser publicados em jornais acreanos dos anos 10 e 20 do século passado).
De onde surgiu, então, a lenda sobre o heróico corte da corrente no meio do rio Acre por um grupo de voluntários que tinham consciência que se tratava de uma missão suicida é, ainda hoje, um mistério que talvez nunca seja efetivamente confirmado ou negado. Porque assim é a natureza da história: imprecisa, contraditória e, por isso mesmo, fascinante.

* Adaptado de artigo publicado no Jornal “O Acre”, em dezembro de 1997.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Que correntes nos prendem ao passado? (I)

(ou, As muitas correntes de Porto Acre)*

Por estes dias, em razão do que ando contando no programa de rádio “Papo ou História?!”, um amigo me perguntou por que dizem que a corrente de Porto Acre foi serrada dentro do rio Acre durante a Revolução Acreana, se teria sido muito mais prático tê-la serrado na margem do rio. Como também já tive a mesma duvida lembrei que escrevi sobre isso antes...

Há alguns anos a imprensa noticiou a surpreendente descoberta de uma grande e pesada corrente de ferro às margens do Rio Acre, na altura do Novo Andirá, já em território do Amazonas. Essa corrente de mais de setenta metros de comprimento jazia soterrada, desde sabe-se lá quando, nas barrancas do Rio Acre, sendo revelada pela alagação.
De imediato levantou-se a possibilidade de ser a famosa corrente que foi serrada em Porto Acre, durante o combate que selou definitivamente o domínio brasileiro do Acre, nos idos de janeiro de 1903. A essa noticia seguiu-se uma intensa movimentação no sentido de trazer a tal corrente para Porto Acre, independente de ser a original ou não. Até que, depois de várias tentativas e muita burocracia, uma parte dela foi entregue à prefeitura de Porto Acre e passou a integrar o acervo da Sala-Memória. E qual não foi nossa surpresa, na ocasião, ao nos depararmos, ali em Porto Acre, não com uma, mas com duas correntes que nos levaram a refletir sobre os caminhos que a história percorre durante sua construção.
A primeira era aquela corrente de ferro que concretamente jazia enrolada na porta da Sala-Memória, como que desafiando nossa capacidade de decifrar sua autenticidade. A outra, mais sutil, era uma corrente formada de opiniões, sentimentos e recordações que continuam nos chegado do passado, distante ou não, e que muitas vezes não percebemos, como se esta outra corrente também estivesse enterrada no barranco da memória e só após uma grande alagação pudesse ser reconhecida, num desafio à nossa capacidade de romper o cerrado véu do presente.


Quando chegamos a Porto Acre, para a solenidade de recebimento da corrente recém encontrada, era consenso de que não se tratava daquela famosa corrente de 1903. Segundo as informações dos antigos moradores de Porto Acre, especialmente de Seu Vicente, a corrente original tinha ficado muitos anos guardada no salão principal da Mesa de Rendas. Até que, em 1929, o governador Hugo Carneiro mandou desmontarem aquele prédio e trouxe para Rio Branco tudo o que estava lá: o piano, as telhas portuguesas que cobriam o prédio e até hoje cobrem o Palácio Rio Branco e, é claro, a histórica corrente da revolução. Dai por diante o destino da corrente original se perdeu. Dizem que uma parte dela hoje adorna a piscina de abastado senhor residente em Porto Velho, enquanto que outra parte estaria em Manaus. O certo é que não se sabe o paradeiro da corrente histórica.
Quanto à segunda corrente que mencionamos no inicio, importa saber que ela não é de ferro, mas que seus elos são formados pela própria paisagem atual de Porto Acre e pelos sentimentos de seus moradores. Qualquer pessoa que, hoje, chegue à nossa pequena cidade histórica descobre que ela ainda guarda algumas das características que possuía no início do século XX.
Se algo significativo mudou é que, em 1903, Puerto Alonso, Cidade do Acre ou Porto Acre, era uma das principais cidades da Amazônia Ocidental – era o olho do furacão onde se decidiria o destino de nosso estado - e hoje é, apenas, uma pacata cidade do interior onde os dias escorrem lentos como as águas rasas do rio Acre no verão.
Se, por um lado, isso pode causar certa tristeza naqueles que vivem de esperar um desenvolvimento que demora a chegar, por outro, nos traz a esperança de podermos ver ali preservados da sanha destruidora dos espaços urbanos, os recantos que guardam nossa história. Ou seja, Porto Acre, deveria ser hoje uma linda cidade turística que serviria, quando pouco, para nos lembrar e aos nossos filhos de tudo o que já passamos pra chegar até aqui.
Foi essa exata sensação, elo da corrente, que nos passou Seu Artur, o responsável pelo funcionamento da Sala-Memória de Porto Acre. Cuja vida é dedicada a cuidar de cápsulas de balas oxidadas, garrafas coloridas, velhos e carcomidos fragmentos de rifles usados nos combates da Revolução Acreana, sem nenhuma recompensa além da satisfação de preservar o pouco que sobrou daqueles tempos. E foi essa também a lição (outro elo) que nos deu Seu Vicente que, forçando a memória já quase apagada pelos problemas de saúde próprios de sua idade avançada, nos contou que morreram tantos homens no corte da corrente, quanto nas trincheiras do combate principal de Porto Acre. Sem conseguir conter as lágrimas e o nó na garganta que lhe assaltaram assim que começou a lembrar.



Da mesma matéria, ainda, foi forjada a indignação do jovem Veridiano que, durante a solenidade, lembrou a irresponsabilidade de alguns políticos que estiveram à frente da administração municipal que, além de demolirem os antigos prédios, foram capazes de passar o trator no local onde ainda podiam ser vistas as trincheiras onde lutaram e morreram tantos homens.
Ao final, me vi obrigado a reconhecer que ali realmente existe (resiste) uma outra corrente original, com elos mais duradouros do que ferro e que só podem ser vistos por aqueles que olham a cidade invisível que existe sob a Porto Acre atual. Uma cidade imaginária onde ainda estão intactos o Palácio de Galvez, o Chalet do Bom Destino, a Igrejinha de Ferro, o varadouro revolucionário, a corrente que um dia foi atravessada e cortada no rio Acre, as trincheiras e as muitas outras marcas de uma revolução ainda inacabada.
Talvez, ainda chegue um dia em que a corrente de ferro desaparecida e a corrente imaterial da memória estejam novamente reunidas em Porto Acre. Pois, não consigo esquecer que, existem tantos lugares - como Machu Pichu, Ouro Preto e São Miguel das Missões, por exemplo - que encontraram o desenvolvimento econômico e social na preservação de sua originalidade, que se torna impossível evitar a pergunta: Porque, afinal, Porto Acre não pode também?
Enquanto isso não acontece, só nos resta lutar pela preservação dessa outra corrente formada pelas lágrimas de seu Vicente, pela indignação do Veridiano e pela paixão do Seu Artur, por compreender que nem mesmo a passagem dos séculos é capaz de destruir a identidade íntima de um povo.

* Adaptado de artigo publicado no Jornal “O Acre”, em dezembro de 1997.

sábado, 25 de junho de 2011

Papo ou História (II)

Sempre tive dificuldade de escrever pouco. Por isso nunca me meti no Twiter. Acho quase impossível escrever ou falar algo que preste em apenas 140 caracteres ou sessenta segundos. Assim, fazer o “Papo ou História” se tornou um enorme desafio, pois não dá pra contar nada que demore mais que um minuto e pouco. E é pra tentar exercitar a necessidade de ser breve que o artigo de hoje foi feito assim: aos pedaços...


Juro que nunca havia imaginado fazer qualquer coisa no rádio. Minha paixão sempre foram os livros. Mas, não há como deixar de reconhecer que, por mais extraordinário que seja, ler ou escrever é sempre um ato solitário. Já o rádio é um veiculo coletivo. Ou a gente esta junto com alguém no momento em que escuta, ou outras pessoas escutam a mesma coisa que a gente ao mesmo tempo, o que tem efeitos maravilhosos sobre o ato de contar histórias. Vejamos...

* * *


O rádio é muito rápido. Já no segundo dia depois que o programa “Papo ou História” entrou no ar começaram os comentários. Engraçado, neste mundo informatizado em que se diz que tudo é em tempo real, on line, o rádio já faz isso há muito tempo e a gente nem se dá conta. Eu falo aqui, tu escuta ali. Como se esquece também que aonde não chegam os jornais, a TV, o celular, a internet, chega o rádio.


* * *



O telefone toca. É Seu Rivaldo Guimarães, mais um dos bons conversadores/contadores de histórias do Acre que tenho a felicidade de conhecer. Ligou pra dizer que gostou muito do programa. Obrigado, digo eu, sem disfarçar a satisfação. E continua: É, mas aquela história do tiro de canhão esta errada. Como assim? É isso mesmo, eu tava lá na hora do tiro e não foi na praça entre o Palácio e o Memorial, mas da Praça da Biblioteca. Me repito, diante da surpresa: Como assim, o tiro partiu lá de cima? E rapidinho tento calcular mentalmente o ângulo em que o tiro de canhão teria partido daquela praça lá de longe pra acertar justo na janela do governador. E só consigo exclamar: Caraca! Então o tal soldado era bom de mira mesmo. E emendo: Mil perdões Seu Rivaldo, na próxima gravação vou corrigir a história, mas olha, vou dizer que foi tu que contou. Ao que, como bom acreano, em um tom entre desafiador e brincalhão, completa: pode falar!


* * *


Continuo amando os livros, mas desde esse “Papo ou História” passei a ver o rádio de forma diferente. O rádio chega a muita gente simultaneamente. Muita gente falou comigo nos últimos dias, gente de todos os tipos, tamanhos, formas, cores, níveis sociais. Impressionante o poder do rádio.


* * *


“Atenção Sr. Antonio José, na colocação Vai-quem-quer, seringal Sapopemba. Aviso-lhe que o Manuel foi atropelado e está internado no Hospital de Base com fratura craniana, três costelas quebradas, perna direita amputada e fraturas expostas nos dois braços. Peço que não se preocupe, pois ele passa bem. Abraços do Raimundo.” Muitas mensagens da Difusora Acreana, nossa velha e boa “Voz das Selvas”, se tornaram antológicas. Mas impressionante mesmo é a atualidade desta forma de comunicação no Acre em pleno século XXI. É que normalmente costumamos tomar a nossa realidade imediata como se fosse toda a realidade. Muita gente não percebe que o Acre de Rio Branco é a exceção. A regra é o interior onde muitas famílias moram a horas, as vezes dias, de qualquer outro lugar habitado e se não fosse o bom e velho programa de mensagens, ainda seria necessário transmitir notícias pelo tiro do papo amarelo ou através da batidas na sapupema...


* * *



Adoraria dizer aqui que dez entre dez pessoas gostaram do programa, mas desde que descobri que Nelson Rodrigues sentenciou que: “Toda unanimidade é burra”, passei a achar que é melhor prestar atenção em quem não gosta do que fazemos. Assim a gente aprende a fazer melhor, se formos capazes, é claro. Entretanto, na segunda semana do programa na rádio, teve uma pessoa que publicou, num dos blogs da cidade um comentário, daqueles rasos e ferinos, que só visava desqualificar o outro de forma gratuita, o que nem é nenhuma surpresa. Afinal, como já disse Caetano: “Narciso acha feio o que não é espelho”. Ainda assim, quero agradecer à maledicente de plantão por me salvar da possível ilusão de uma pretensa unanimidade... já que de outras manifestações da maldade humana ninguém nos salva... porque é assim mesmo a nossa contraditória natureza.


* * *


Há muito tempo a história deixou de ser pra mim apenas uma tarefa profissional. Uma técnica que se aprende e se aplica em salas de aula, em palestras, em artigos, em livros. História é cotidiano, é encantamento, é tragédia, é vida de pessoas. Não há motivo pra reduzir a história a uma mera formalidade que só precisamos saber pra passar no vestibular... Com o tempo passei a acreditar que enquanto houver alguém que conte sua história com dor e prazer, haverá histórias que valem a pena contar.


* * *


Tenho ouvido muitas histórias nestes meus tempos acreanos. Algumas tenho contado, outras não. E não por temer ou dever a quem quer que seja, mas por respeito. Aliás, mais que apenas respeito, mas pela profunda admiração que sinto em relação à força e à dignidade que emanam da história acreana.


* * *



Aprendi muito sobre história na Faculdade. Aprendi a necessidade da crítica e da consciência política graças ao materialismo dialético de Marx. Aprendi a desconstruir o positivismo com a história combate de Bloch. Aprendi a reconhecer o que permanece graças à Longa Duração de Braudel. Aprendi a perceber o micro na história nova. Como aprendi a misturar muitos campos científicos (graças à Freud, Yung, Sartre, Gramsci, Foucault, Shalins, entre muitos outros. Mas foi na vida real, nas ruas, que aprendi o fundamental: a história é comunicação e arte ou não é nada... Todo o resto é jeito de fazer. E desse projeto de história não mais me afastei, desde então...


* * *


Nesta noite de sexta pra sábado, enquanto tentava escrever este artigo, uma absoluta falta de inspiração pedia (exigia) uma cerveja pra molhar a palavra e torná-la mais fluente. O jeito foi descer pra comprar. Eis que, inesperadamente, na rua me chamam, mãe e filha. Chega tomei um susto. “Tá vendo Mel”, disse a mãe pra menina. “É esse aqui que conta aquelas histórias no rádio, eu não disse que conhecia ele! É que ela adora esse programa!” E o terno sorriso da menina, mesmo impregnado da timidez característica de seus oito? anos, salvou minha noite e esse artigo... Obrigado Mel!!!!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Sobre o que é secreto na coisa pública

(Res publica)

Há pouco mais de um mês atrás publiquei nesta coluna o artigo chamado “O poder do pequeno (ou segredos de polichinelo...)” sobre a liberação dos chamados documentos secretos que são guardados pelo governo brasileiro em “sigilo eterno”. Infelizmente, no momento em que tudo parecia estar resolvido, novo retrocesso mantém o tema na ordem do dia.

Já que os jornais, sites e TVs desse país divulgaram massivamente, durante toda a semana, o imbróglio armado em relação aos tais documentos secretos, não vou explicar nada, vou direto ao que interessa agora:
Se documentos - sobre a Guerra do Paraguai, sobre a Questão do Acre, sobre os porões da ditadura, entre outros momentos mais ou menos obscuros de nossa história - são secretos, sempre foram, não há como saber se há, de fato, razão para mantê-los secretos. Por isso a primeira pergunta deve ser. Quem é que diz o que deve continuar secreto ou não na República? O Presidente, o Congresso, o Supremo, diplomatas, generais, um conselho de estado formado por tais e tais instituições “guardiãs da pátria”? Quem decide, afinal, o que é vexatório ou perigoso e não deve ser conhecido sobre a memória nacional e as relações com os países vizinhos?
Acho que vai ser difícil divulgarem algo ainda mais vergonhoso do que tudo que já é sabido, tido e havido como vergonhoso por todo mundo, há muito tempo. Afinal o Brasil já foi tratado durante muito tempo como uma Republica de Bananas, ou, no caso do Acre, como uma Republica de Borracha, lembram?


Só não se pode esconder que manter documentos secretos eternamente, como eles querem é, depois de tê-lo feito com as gerações anteriores, condenar a atual geração de historiadores, cientistas sociais e cidadãos brasileiros a impossibilidade de conhecer o que, de uma forma ou outra, nos fez ser quem somos e estar onde estamos. E ainda querem nos convencer que é um burocrata sem nome, identidade ou responsabilidade coletiva que vai continuar decidindo o que posso e o que não se posso saber sobre meu próprio país? Isso não é só uma ofensa, mas um crime de lesa-pátria de mim, de ti, de nós e de todo mundo. Só ele sabe a verdade, só ele deve continuar sabendo. Mas, desculpa se não consigo entender, a troco de que mesmo?
O certo é que diante de tanta disposição em esconder o que ninguém sabe, acabei ficando mais curioso ainda. A negociação do Acre pelo Barão do Rio Branco deve ter sido muito vergonhosa mesmo pra estarem tão preocupados assim. Deve ter tido coisa grossa por ai... O que será, que será ??!! Diria Chico (o Buarque) diante de tal dilema.
Mas como, infelizmente, não temos acesso aos tais documentos secretos é difícil avaliar, só nos resta imaginar, então. Será que foi pior do que aquilo que fizeram com o Loco Melgarejo, em 1867? Difícil hem!!! Se for o famoso Mapa da Linha verde que o Barão do Rio Branco fez sumir durante as negociações de 1903, não há problema, todo mundo sabe que ele reapareceu depois. Será que é a confirmação do suposto suborno do Presidente Campos Sales pela Casa Rotschield para que ele não se metesse na “Questão do Acre”? Teria o Barão também subornado a quantas e quais autoridades? Ou usado que outros expedientes sujos? Teríamos tido episódios de espionagem, traições e mortes estrategicamente escolhidas e executadas? Rapaz!!! Se parar pra pensar bem, chegamos à conclusão que só imaginar pode ser até mais perigoso.


Vivemos no Acre. Compartilhamos essa fronteira com bolivianos e peruanos todos os dias. Ou já se esqueceram que o presidente boliviano Evo Morales não pensou duas vezes antes de ganhar dinheiro legalizando os carros roubados do Brasil, na semana passada?
Os problemas que afetam nossas fronteiras são atuais e bem conhecidos: trafico de drogas, contrabando, criminalidade, prostituição, exploração indiscriminada de madeira, invasão de áreas de conservação, expropriação de terras e direitos indígenas, migração clandestina, garimpo predatório, etc., etc., etc.
Feridas históricas são apenas isso mesmo, feridas cicatrizadas pelo tempo. A Bolívia perdeu seu litoral para o Chile, todo mundo sabe como aconteceu, e isso não muda nada. O que os bolivianos nos dizem todos os dias aqui na fronteira é que um governante meio louco que tiveram há muito tempo trocou o Acre por um cavalo e duas medalhas de latão. Ou, então, que eles não perderam, mas venderam o Acre para o Brasil. Ou, ainda, que o Acre foi roubado deles porque nós demos calote na indenização que havia sido combinada. Nada que possa estar nos tais documentos secretos vai mudar ou piorar isso.
Alguém teria por aí o contato do Assange do Wikileaks (que eles tanto temem) pra me arrumar e acabar com essa besteira toda?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Papo ou História?! (I)

(Ou, como se dizia antigamente, “Nas Ondas do Rádio”)

Faz pouco mais de um mês que estreou na Fm Aldeia uma série de interprogramas sobre a historia acreana. Durante este tempo recebi, com satisfação, muitos e variados comentários e observações. Nada mais justo, portanto, que esta coluna conte um pouco desta história enquanto ela ainda está em pleno curso.


Nestes tempos de internet e mundos virtuais confesso que sempre cultivei o desejo de fazer alguma coisa no rádio. Sem nem mesmo saber exatamente o que. Afinal, são muitas as histórias sobre a rádio no Acre. Desde a antiga e evidente importância (recheada de impressionante atualidade) do programa de mensagens da Rádio Difusora Acreana, até a imensa saudade que muitos sentem da antiga rádio-novela “O egípcio”, que marcou a vida de tantos acreanos. Mas, uma oportunidade concreta nunca havia aparecido de fato. Até que, numa confluência inesperada, a coisa aconteceu, coletivamente, como sempre acontece comigo, a partir de uma conversa com Aarão Prado e Alexandre Nunes.

Minha proposta básica era contar histórias diversas do Acre no rádio, mas de forma leve e estimulante, sem aquele tom maçante que muitas vezes reveste o ensino formal da história. Mas como? Eu só tinha, então, a proposta de um bordão pra concluir todas as histórias, dando certa unidade entre elas. “Eu não tava lá, mas me lembro!” Que era uma maneira de dizer que não é porque uma história aconteceu há muito tempo que não podemos nos lembrar dela como algo vivo e presente.
E coube ao Aarão encontrar a resposta: “Vamos fazer uma conversa sobre causos e histórias. Eu pergunto e você responde, que acha? Ai eu fiquei mais preocupado ainda. “Mas, Aarão, as histórias tem que ficar curtas, porque senão ninguém agüenta ouvir. Só se, depois de gravar, a gente editar as gravações pra tirar os gaguejos, diminuir os intervalos da fala e assim por diante.” Ao que o Alexandre retrucou: “Que nada. De repente a gente nem precisa editar pra ficar o mais natural possível, acho boa idéia esse formato de conversa, vamos testar pra ver como é que fica”. Confesso que comecei a gravação, assim, meio desconfiado. Mas, rapidamente, gravamos mais de dez histórias. É importante ressaltar que o Aarão é muito criativo e bom de improviso e assim, além das perguntas iniciais, começou a fazer todo tipo de comentário gaiato. O que me deu liberdade pra, algumas vezes, gozar com ele também. Nem preciso dizer que, num instante, a coisa toda virou uma gostosa brincadeira e até o Risley, que estava fazendo a gravação, começou a intervir na escolha das histórias e no rumo delas.




Beleza! Agora já temos mais de vinte e cinco gravações, mas como vamos chamar esse programinha? E novamente foi Aarão que deu a resposta. “Papo ou História”. E antes mesmo que eu pudesse protestar contra o tom excessivamente informal do nome, o Alexandre decidiu. É isso aí! Papo ou História.
Não tinha mais jeito. O tom geral do programa, entre a brincadeira e o sério, estava definido. Mas, depois que o Marcio Blainer gravou a vinheta de abertura e o Risley colocou nela um “BG” musical com um tom quase galhofeiro, eu voltei a ficar muito preocupado. E ainda tentei argumentar. “Ei moçada, com essa abertura parece até que a gente tá fazendo comédia ao invés de estar contando histórias... Isso não vai dar certo.” Nem preciso dizer que meu protesto, a essa altura, não adiantou mais nada.





Assim, quando o programa entrou no ar, eu estava muito apreensivo se ia funcionar ou não. Mas, logo, comecei a gostar da proposta geral. O tom brincalhão da abertura do programa, mais a conversa descontraída e o bordão final, que se repete com pequenas variações, fizeram um bom conjunto. Com uma vantagem adicional totalmente inesperada. Com esse formato, o programa deixa claro que - apesar da história ser algo sério que precisa a ser encarada com responsabilidade, já que mexe com a vida das pessoas que, de uma forma ou de outra, são tocadas por ela – a história não precisa necessariamente ser encarada de forma sisuda ou matéria exclusiva de especialistas, podendo ser tão leve, sem deixar de ser reveladora, quanto uma boa história contada entre amigos na varanda de casa.
Ou seja, se eu fosse dado àqueles jargões clássicos da academia, poderia dizer que: uma das propostas do programa, portanto, é “dessacralizar” a história tradicional - ou oficial, como muitos gostam de chamar - aproximando-a do cotidiano e da normalidade da vida real. Mas, independente de qualquer argumento, não tem mais jeito... nosso “Papo ou História” já está circulando por ai, “nas ondas do rádio”, e só me resta, então, aguardar a opinião das pessoas pra ver o que acontece...

domingo, 5 de junho de 2011

Sinal dos tempos

No mês passado recebi da Bia Labate, antropóloga e ativa divulgadora de questões relacionadas à ayahuasca, a encomenda de um texto que atualizasse os acontecimentos relativos ao processo de registro da Ayahuasca como patrimônio imaterial brasileiro. Depois de muitas idas e vindas o texto ficou pronto e já está circulando na net. Não poderia deixar, portanto, de trazer pra cá este novo artigo.

Desde que as comunidades tradicionais da ayahuasca (Alto Santo, Barquinha e União do Vegetal) entregaram ao Ministro da Cultura Gilberto Gil, em 2008, pedido para que seja registrado como patrimônio imaterial brasileiro o “Uso Ritual da Ayahuasca”, as discussões e articulações acerca deste tema tem sido intensas. E nem poderia ser diferente, dado o ineditismo da proposta e o enorme grau de complexidade de uma questão que obrigatoriamente deve considerar e envolver centenas de comunidades religiosas ou indígenas com grandes diferenças entre si.
Em consonância com isso, a Câmara Temática do Patrimônio Imaterial - que tem a função de elaborar parecer prévio antes do pedido ser submetido ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural (instância do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional que delibera pelo registro, ou não, do bem cultural em apreciação) – indicou a necessidade de realizar um Inventário que possibilite a análise dos contornos, limites e características de um possível registro, uma vez que o farto material bibliográfico que foi entregue junto com o pedido era assistemático.

Atualmente, as instituições culturais públicas envolvidas neste processo – Fundação Elias Mansour (Estado do Acre), Fundação Garibaldi Brasil (Município de Rio Branco) e IPHAN/AC - estão elaborando projeto para captação de recursos e realização do inventário (que pode utilizar as metodologias definidas pelo Inventario Nacional de Referências Culturais) cujo eixo norteador deverá ser uma ampla e profunda participação das comunidades ayahuasqueiras, levando em consideração a extraordinária diversidade de raízes e de manifestações culturais destas.
Por isso, tem havido, nos últimos meses, intensas articulações entre as comunidades ayahuasqueiras que entregaram o pedido ao IPHAN, as instituições públicas acreanas envolvidas neste processo e diferentes representantes indígenas e líderes de centros religiosos ecléticos de forma a pactuar e efetivar a participação de representantes dos três campos ayahuasqueiros (originários, tradicionais e ecléticos) no inventário e, consequentemente, no possível registro de bens culturais a serem definidos.
Como evidentes sinais da oportunidade e importância desse registro devemos levar em consideração os muitos avanços que as comunidades ayahuasqueiras tradicionais acreanas tem conquistado nos últimos tempos. Entre eles, a elaboração e execução de projetos de valorização e preservação da memória em vários centros diferentes; a realização de um grande seminário para debater políticas públicas voltadas para as comunidades ayahuasqueiras (“Seminário das Comunidades Tradicionais da Ayahuasca: Construindo Políticas Públicas para o Acre”, realizado entre 12 e 14 de abril de 2010); a regulamentação pelo estado do Acre, através do diálogo com as comunidades tradicionais acreanas, da extração e transporte de cipó e folha (Resolução Conjunta CEMAC/CFE Nº 004, de 20 de dezembro de 2010), depois de três longos anos de discussão e trabalho.
Além disso, é preciso lembrar que, ainda em 2007, foi criada, no âmbito do Conselho Municipal de Políticas Culturais da Fundação Garibaldi Brasil (Rio Branco), a Câmara Temática das Culturas Ayahuasqueiras. Os integrantes desta Câmara não só participaram ativamente do fértil processo de construção do Sistema Municipal de Cultura de Rio Branco, como a tornaram uma das mais ativas do conselho. Com movimentadas reuniões mensais onde são debatidos problemas e encaminhadas soluções, em articulação com diferentes órgãos públicos ou organizações sociais, para a área da cultura, saúde, educação e meio-ambiente.
No momento está sendo organizado um encontro com lideranças indígenas do Acre, ainda sem data precisa, para que estas possam participar da construção do inventário desde sua concepção, se assim decidirem. Sem esquecer que a questão da ayahuasca entre os povos indígenas é muito mais ampla - panamazônica e plurinacional – e não está restrita aos grupos indígenas da Amazônia brasileira. Assim, a inserção dos índios neste processo de inventário, sem dúvida, aumentou muito sua complexidade, extensão e implicações.


Ao mesmo tempo, vem acontecendo conversas com representantes de grupos ecléticos para tentar afinar o princípio norteador desse trabalho que sempre foi, e continua sendo, o do respeito e claro reconhecimento das diferenças entre os envolvidos, em prol de um objetivo comum. E, devo esclarecer, isso não é pouco, pelo contrário, vem dando um trabalho danado. Mas, mesmo longo, este trabalho tem se revelado um importante e enriquecedor processo de construção coletiva.
Entretanto, é preciso alertar: erra quem acha que estamos tratando aqui apenas da busca de um reconhecimento formal e inócuo. O objetivo final deste processo, bem definido para todos os participantes, é fazer o inventário sugerido pelo IPHAN, se possível definir que referências culturais constituem o cerne comum entre as diferentes matrizes ayahuasqueiras, registrar estes bens culturais como patrimônio imaterial brasileiro e estabelecer salvaguardas que sirvam ao fortalecimento das comunidades e a preservação destas manifestações culturais.
Porque, afinal, entendemos que as práticas ayahuasqueiras não podem ser consideradas simplesmente como questões a serem reguladas pela política nacional antidrogas, ou definidas apenas pelos parâmetros da biomedicina, e sim tratadas como parte fundamental e indissociável de muitas culturas amazônicas e de nossa identidade nacional. E esta outra forma de compreensão pode resultar em uma grande mudança de paradigmas no nosso país, na Amazônia, e também no mundo. Sinal de novos tempos que começam a se delinear.

Obs: Para quem quiser saber mais sobre este tema recomendo uma visita ao blog, recém criado, da Câmara Temática de Culturas Ayahuasqueiras do Conselho de Cultura de Rio Branco (camaratematicaayahuasca.blogspot.com).