quarta-feira, 7 de julho de 2010

Brasília/Brasiléia

Um século de lembranças/esquecimentos*

É muito difícil explicar o que permanece na memória de um povo e aquilo que cai no esquecimento sem motivo evidente. Como é ainda mais difícil tentar explicar porque algumas histórias ficam enquanto outras tantas, às vezes muito importantes, desaparecem como se nunca houvessem existido. Eu mesmo não sei.



Ao procurar informações sobre a fundação da antiga vila Brasília, atual cidade de Brasiléia, nossa ilustre aniversariante centenária, tomei conhecimento de que ela teria surgido de uma certa briga que aconteceu em 1910 entre um juiz designado para aquele termo judiciário e um seringalista. Pelo menos é isso que consta da nossa “história oficial”, como gostam de dizer alguns historiadores.
Confesso que fiquei encafifado então, porque a história que conheço é outra, bem distinta dessa. Penso que Brasiléia surgiu de uma seqüência de acontecimentos, aparentemente desconexos, que ao fim resultaram na inevitável fundação de uma cidade exatamente neste local. Nem pra lá, nem pra cá, mas precisamente ali às margens do Igarapé Bahia.
Brasiléia começou a surgir, ainda em 1895, durante o trabalho da comissão demarcatória binacional. O trabalho desta comissão, que era chefiada pelo General Thaumaturgo de Azevedo representando o Brasil e pelo General Pando em nome da Bolívia, resultou, de certa forma, no surgimento da “Questão do Acre”.
Se, por um lado, foi nesta comissão que o Gen. Pando tomou conhecimento da ocupação das terras bolivianas do Purus e do Acre por milhares de brasileiros e a consequente perda de uma enorme fortuna em impostos sobre a borracha por parte de seu país, por outro lado, foi nessa ocasião também que o Gen. Thaumaturgo soube que se a demarcação da linha imaginária acertada no Tratado de Ayacucho (1867) fosse realmente efetivada milhares de brasileiros que habitavam o Acre seriam abandonados pelo governo brasileiro e estariam submetidos ao governo boliviano.
Diante disso o Gen. Thaumaturgo se negou a proceder a demarcação, denunciando o absurdo daquela situação ao governo. Entretanto, para sua surpresa, numa daquelas passagens da história brasileira que são difíceis de explicar, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, mandou ignorar a população que ali habitava e realizar a demarcação como prevista no tratado.
E, num gesto de grande ousadia, raro para um militar, o Gen. Thaumaturgo de Azevedo se recusou a cumprir aquelas ordens que trariam grandes ameaças à soberania nacional e, principalmente, aos brasileiros responsáveis por tudo o que havia sido construído no Acre até então, e se demitiu da comissão demarcatória.
Em seu lugar o governo brasileiro, contrariado, nomeou seu ajudante o Cel. Cunha Gomes que, junto com o Gen. Pando (agora consciente dos problemas ocasionados pelo abandono de suas fronteiras nacionais), concluiu a demarcação. Surgia assim a famosa “Linha Cunha Gomes”, resultado de um ato de covardia do governo brasileiro, como cansaram de denunciar os jornais da época, e que seria o estopim da Revolução Acreana, exatamente como havia previsto Thaumaturgo de Azevedo.
Pouco tempo depois, a partir de 1899, o Acre se tornou palco de uma série de conflitos e confrontos entre brasileiros e bolivianos. A noticia da assinatura do contrato de arrendamento do Acre entre a Bolívia e o Bolivian Syndicate precipitou os acontecimentos e fez com que se desencadeasse uma verdadeira guerra em 06 de agosto de 1902.
E, nem bem tinha começado a guerra, ainda restrita à Xapuri e à Volta da Empreza (atual Rio Branco), quando Nicolas Suarez, o poderoso proprietário dos maiores e mais ricos seringais bolivianos, decidiu armar seus homens e criou a famosa Coluna Porvenir para resistir contra os brasileiros já que o exército boliviano parecia incapaz de fazê-lo.
Assim, em 10 de outubro de 1902, aconteceu o inevitável. Brasileiros comandados por Manuel Nunes Tavares e bolivianos liderados por Maximiliano Paredes se enfrentaram às margens do Igarapé Bahia num dos maiores confrontos registrados pela história da Revolução.
Infelizmente, o resultado deste combate foi trágico para os brasileiros que foram massacrados nas trincheiras que cercavam o barracão do Bahia, incendiado pelas flechas do índio Ixiameño Bruno Racua (aquele mesmo da estátua que até hoje enfeita uma das praças de Cobija).


Mas, logo, os brasileiros se recuperariam desta derrota e avançariam de vitória em vitória até tomar Porto Acre, em janeiro de 1903, expulsando os bolivianos definitivamente das terras acreanas. Apesar da reação esboçada pelo Gen. Pando, agora Presidente da Bolívia, que assumiu pessoalmente o comando das tropas bolivianas para enfrentar o Cel. Plácido de Castro na frente de batalha do Tahuamanu.
Entretanto, nunca mais os brasileiros dominariam a outra margem do Igarapé Bahia, que desde o combate ali travado, se tornou a verdadeira e real fronteira entre os dois povos em luta.
Está claro, portanto, porque o Gel. Pando, pouco depois de terminada a Revolução Acreana, ainda em 1906, se preocupou em fundar ali, no local do combate de triste memória para os brasileiros, uma cidade que se chamou inicialmente Puerto Bahia e, mais tarde, a partir de 1908, Cobija. Ele tinha muito viva em sua memória, não só os acontecimentos do período da Revolução, mas também as dificuldades da demarcação da Linha Cunha Gomes. O que revelava ser imprescindível ocupar essa região, ou seria impossível evitar futuras perdas territoriais.
Parece claro, então, que seria inevitável também a fundação de uma cidade brasileira como contraparte à Cobija. Faz parte da dinâmica fronteiriça. A criação de uma cidade de um lado da fronteira sempre acaba levando à criação de outra cidade do outro lado da fronteira.
Esta característica pode ser lida nas entrelinhas daquela “história oficial” mencionada no principio. Quando dá conta de que, depois da expulsão do seringal Nazaré, o juiz e o escrivão “(...) dirigiram-se a Cobija (...) onde foram hospedados por patrícios ali residentes(...). Conduzindo às costas todo o material e arquivo do juizado, os dois funcionários causaram hilaridade às pessoas que os viram atravessar as ruas da cidade boliviana. Dizia-se (...) que a justiça do 3.° Termo andava num ‘jamaxi’, de seringal em seringal, esmolando hospedagem.
Vários brasileiros residentes em Cobija, feridos no seu amor pátrio não puderam ficar indiferentes a esse acontecimento (...). Organizou-se, então, uma comissão (...) com o fim de adquirir o local para fundação de uma vila(...).
Ultimados os preparativos no domingo de 3 de julho de 1910, às 7 horas, cerca de 100 pessoas, entre homens e mulheres, deram início à derrubada da mata sob ardoroso entusiasmo.” (in Enciclopédia dos Municipios Brasileiros, IBGE)
Ou seja, devemos reconhecer que, de certa forma, Brasília/Brasiléia foi resultado muito mais do Combate do Igarapé Bahia e da Fundação de Cobija do que propriamente da briga do juiz com o seringalista. Mas, convenhamos, não deixa de ser muito interessante o fato de que a história da fundação de Brasiléia que ficou na memória de seus moradores, tenha sido apenas a história brevemente descrita acima. Ao mesmo tempo em que foram completamente esquecidas todas as outras histórias que antecederam a criação da cidade e que, em ultima instância, a explicam. Até porque não podemos desconhecer que Brasiléia, por força desse destino de fronteira, demarcou em nossa história exatamente onde terminou a Bolívia e começou o Brasil.
De que são feitas, então, as cidades? De memórias ou de esquecimentos? Ainda não sei dizer. Só não consigo me esquecer que foi exatamente na Vila Brasília que aconteceram os primeiros trabalhos com o Santo Daíme pelos maranhenses Antonio e André Costa e Irineu Serra, ainda nas primeiras décadas do século passado, uma história que também parece ter sido esquecida na atual Brasiléia. Mas essa já é uma outra história. Vamos lembrar?
*Adaptação do texto escrito para a publicação comemorativa do centenário de Brasiléia.

A luta sem fim (2ª Parte)

Os 100 anos da Revolta Autonomista do Juruá

Apenas seis anos depois de encerrada a Revolução que conseguiu conquistar o Acre para o Brasil, as vozes da revolta popular voltaram a se espalhar pelos rios acreanos. Desde as margens do Abunã até o Moa, a indignação era geral e conduzia a sociedade a buscar soluções mais efetivas para o eminente conflito que se anunciava.

Com a criação do Território Federal os acreanos se tornaram cidadãos de segunda categoria em seu próprio país. Não possuíam o direito de escolher seus governantes, não tinham representatividade no Congresso Nacional e não votavam sequer para compor o poder legislativo (que ainda não existia) no Território. O direito do voto, base do sistema republicano, era totalmente vedado aos acreanos. Tratava-se de uma das regiões mais ricas do Brasil no início do século e paradoxalmente era uma das pobres, já que era impedida de arrecadar os impostos sobre a borracha e vivia das esmolas de um governo que não reconhecia suas necessidades mínimas. Assim, tudo o que os acreanos queriam era seu legítimo direito à autonomia política e econômica, pressuposto básico do federalismo republicano. O acreano era ainda um brasileiro renegado pelo Brasil, tal e qual à época em que ainda estava sob domínio da Bolívia.
Parodiando Euclides da Cunha que escreveu nessa mesma época que “o seringueiro era um homem que trabalhava para escravizar-se” poderíamos dizer que o acreano era um homem que lutava por uma nacionalidade que o negava.
Foram por isso formados em todo o Território Federal do Acre, de alto a baixo dos diversos vales, clubes e grupos políticos que tinham como bandeira a autonomia através da transformação do Acre em estado. Era preciso fazer valer a vontade soberana desse povo guerreiro que por suas próprias forças tornara-se parte do Brasil.
E a situação para deflagrar o movimento de revolta contra o governo federal surgiu com a nomeação e chegada em 1910 de um novo Prefeito Departamental no Alto Juruá. Entreguemos a palavra ao cronista-mor dessa história.
“A 1º de maio de 1910 chegava a Cruzeiro do Sul o Sr. João Cordeiro, nomeado prefeito do Departamento. Já então lavrara em todos os espíritos profundo descontentamento pela indiferença do Poder Legislativo para com o Acre. A chegada do novo prefeito e alguns atos seus, que a população recebeu com desagrado, acirraram os ânimos dispostos à insuflação de idéias subversivas.
Preparou-se abertamente, quase às escancaras, o movimento sedicioso, com a cumplicidade formal da força federal sob o comando do capitão Fernando Guapindaia, o apoio unânime de todos os proprietários, dirigidos pelo venerando Francisco Freire de Carvalho e, por fim, do próprio prefeito, que aderiu à sublevação na impossibilidade, talvez, de a ela resistir com sucesso, consentindo em retirar-se e até comprometendo-se a defender, no Rio, a revolução, perante o governo federal.” (Craveiro Costa, 1973, pág.164)
Foi com isso, no dia 1º de Junho, deposto o Sr. João Cordeiro, assumindo o governo do Departamento do Alto Juruá uma Junta Governativa composta por Mâncio Rodrigues Lima, João Bussons e Francisco Freire Carvalho integrantes do Partido Autonomista em nome do qual tomavam o poder.
A Junta Governativa divulgou então um manifesto a todo o povo do Acre, onde se revelava claramente que essa revolta pretendia ser de todo o Território Federal e não apenas do Juruá. Como maior demonstração desse objetivo, os revoltosos proclamaram como governador do estado do Acre o Cel. Antonio Antunes de Alencar, acreano histórico que havia lutado no rio Acre ao lado de Joaquim Vitor, Rodrigo de Carvalho e Plácido de Castro. Esperavam assim obter apoio dos seringais e núcleos urbanos do Alto Acre, o mais rico e desenvolvido dos três departamentos. Para completar sua articulação política, os revoltosos do Juruá indicaram o Purus (Sena Madureira) como a sede do novo governo do estado unificado do Acre. Estava desenhada a proposta de acordo imaginada pelo Juruá para unir toda sociedade acreana em torno do objetivo comum da autonomia estadual, que foi amplamente divulgada através de um documento endereçado a toda nação brasileira. O Juruá tornava-se notícia no cenário da política nacional do governo do Presidente Nilo Peçanha e ganhava as páginas da imprensa internacional.
Entretanto, a Junta Governativa, ao lado de outras medidas, tomou a decisão de proibir a exportação da borracha do Juruá enquanto não se chegasse a solução do conflito. É evidente que essa medida desagradou enormemente às praças de Manaus e Belém, grandes beneficiadas pela exportação da borracha amazônica, que passaram a articular uma contra-revolução.
Manaus tornou-se o principal palco dos acontecimentos e da decisão sobre os rumos da revolta autonomista. “O emissário do Juruá, Sr. João Bussons, fraternizou com o comércio, com o comércio fraternizou o governador aclamado, e o comércio passou a custear largamente as embaixadas de conciliação aos Departamentos. Era o primeiro golpe. Os panos mornos de um acordo foram estendidos sobre o movimento revolucionário”. (Craveiro Costa, 1973, pág.170)
Ao mesmo tempo em que tentava costurar com o governo federal um acordo que pusesse fim ao conflito que tanto desagradava aos poderosos aviadores e exportadores, Antonio Antunes de Alencar tratava de isolar o Juruá fornecendo informações desencontradas de resistência do Purus em aderir ao golpe e da inviabilidade de contarem com o Alto Acre. A traição infiltrara-se no movimento sem que disso se dessem conta os revoltosos.
Enquanto isso Cruzeiro do Sul convivia normal e pacificamente com o governo da Junta Governativa do Partido Autonomista. Afinal de contas, era verão e dificilmente o governo federal teria condições de enviar tropas para o Alto Juruá. A chegada do Sr. João Bussons trazendo uma proposta de conciliação costurada por Antonio Antunes foi atentamente analisada pela Junta Governativa que decidiu acata-la, apesar da discordância de alguns autonomistas de peso. Um acordo político parecia bastante provável então.
Até que, inesperadamente, na noite de sete de setembro de 1910 as tropas do quartel da força federal em Cruzeiro do Sul comandadas pelo Capitão Guapindaia atacaram a pequena guarda revolucionária composta por 30 homens. Os combates duraram toda a noite e às oito horas da manhã o tiroteio foi interrompido pelo armistício e capitulação da pequena força sediciosa. Um homem estava morto e havia dois feridos! Vítimas da indiferença nacional e dos interesses do mercado internacional da borracha.
Estava encerrada a revolta que, durante cem dias, tornou real o sonho acreano de poder se auto-governar. Não poderiam imaginar os autonomistas acreanos da época que a luta teria que prosseguir durante mais de cinquenta anos ainda antes que o Acre fosse transformado em estado e os acreanos pudessem enfim exercer a tão desejada autonomia.
Mas, menos de um ano depois o Juruá voltaria a depor o Prefeito Departamental indicado pelo governo federal, do mesmo modo como fariam os habitantes do Purus ainda em 1912. Ou seja, apesar das traições de que foi vítima, o sonho acreano de conquistar sua autonomia política continuaria a ser expresso em sua luta... através dos tempos...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A luta sem fim (1ª Parte)

Os 100 anos da Revolta Autonomista do Juruá

Nas semanas anteriores vimos textos sobre os cem anos de fundação da cidade de Brasiléia. Agora chegou a vez de vermos as histórias da Revolta Autonomista de 1910, a primeira ocorrida no Território Federal do Acre, em Cruzeiro do Sul. Apenas a primeira de uma série de revoltas que marcaram o início do movimento autonomista acreano.

São amplamente conhecidas as histórias da Revolução Acreana, que se estendeu de 1899 a 1903, período no qual se lutou contra a dominação boliviana do Acre. Porém, poucos refletem sobre o fato de que a assinatura do Tratado de Petrópolis (1903) com a Bolívia e do Tratado do Rio de Janeiro (1909) com o Peru não encerrou a luta acreana por seu direito à cidadania brasileira. Pelo contrário, a criação do Território Federal do Acre marcou o início de uma nova fase de lutas necessárias.
Até o final da Questão do Acre não havia no Brasil o sistema de territórios federais. O país recém saído da enorme mudança política que foi o fim da Monarquia e o início da República (1889), era constituído por uma federação de estados autônomos. Isso vinha de encontro ao desejo republicano de uma relativa descentralização oposta ao forte papel desempenhado pelo governo no período monárquico.
Com a vitória dos revolucionários acreanos contra a dominação estrangeira em 1903 puseram-se em confronto os interesses do Amazonas, que queria que as terras acreanas lhe fossem anexadas; do Pará, que não queria o aumento da participação amazonense no mercado internacional da borracha; e dos próprios acreanos que esperavam ver o Acre transformado no mais novo estado da Republica brasileira. Ao vitorioso desse confronto caberiam as ricas rendas da alfândega do Acre, maior produtor da borracha de melhor qualidade (a famosa Acre fina) de toda a Amazônia e, portanto, do mundo. Contrariando e surpreendendo a todos esses interesses o Governo Federal decidiu, então, criar a figura do Território Federal, a ser administrado diretamente pelo poder central. Matavam-se vários coelhos com uma só cajadada! Evitava-se com isso acirrar ainda mais a disputa entre o Amazonas e o Pará, evitava-se também o aumento do poder dos seringalistas acreanos que passaram a ser temidos ao vencer um conflito internacional às suas próprias custas e, não menos importante, passava-se a engordar o Tesouro Nacional com a ambicionada renda da borracha acreana.
Os mais prejudicados por essa decisão, sancionada pelo próprio Barão do Rio Branco, foram os acreanos. O regime criado para o Território Federal do Acre não previa nenhuma forma de participação da sociedade acreana na gestão do poder regional. Os Prefeitos dos três Departamentos (Alto-Acre, Alto-Purus e Alto-Juruá) em que foi dividido o Território eram nomeados diretamente pelo Presidente da Republica, não foi criado nenhum tipo de poder legislativo e o poder judiciário estava situado em Manaus, a milhares de quilômetros de distância das terras acreanas. Além disso tudo, a verba enviada para custeio do governo do Território Federal do Acre era insuficiente e infinitamente menor que as rendas obtidas dos impostos cobrados sobre a borracha.
Claro está que esse conjunto de medidas não poderia dar bons resultados. Logo os Prefeitos Departamentais (não todos, mas sem dúvida a maioria) revelaram todo o autoritarismo contido nesse esdrúxulo regime político. Com extrema falta de sensibilidade o governo federal nomeou sucessivamente militares e/ou políticos de outras regiões do país que não possuíam o menor conhecimento da realidade regional e nem o menor traço de representatividade social. Muitos desses Prefeitos Departamentais nomeados trouxeram quase todos os seus auxiliares de fora, outros tantos enriqueceram rapidamente através de práticas ilegais para logo em seguida dar o fora do Acre sob os mais variados pretextos.
O resultado foi uma ampla, irrestrita e justificada insatisfação dos diversos segmentos sociais acreanos. Todos - desde os seringueiros, passando pelos moradores dos povoados, pelos comerciantes e até os seringalistas - ficaram completamente atônitos diante de situação tão inesperada. Logo eles que haviam lutado tanto pelo direito de serem brasileiros eram tratados com tanto descaso pelo governo de seu próprio país. A única esperança possível para os acreanos era a de que essa fosse uma condição passageira e que logo o governo federal caísse em si do absurdo de tal situação.
Porém o tempo passava sem nada mudar. Entre 1904 - quando foi criado o Território Federal do Acre - e 1908 todas as tentativas feitas no Congresso Nacional para promover mudanças no regime político administrativo implantado no Acre foram abafadas pelo governo federal. Apesar dos enormes protestos dos acreanos as únicas ações efetivas do novo Presidente da República Afonso Pena foi o estabelecimento de um grande plano de obras que nunca chegou a ser verdadeiramente implementado e uma tímida reforma administrativa e judiciária que não alterava nada na prática. Enquanto isso, o alto preço da borracha no mercado internacional proporcionava grandes rendas para o Rio de Janeiro (então capital da Republica) através da cobrança de impostos escorchantes, ao mesmo tempo em que começavam a circular notícias alarmantes do início da produção de borracha de cultivo pelos ingleses na Ásia, que ameaçava seriamente a hegemonia da borracha amazônica.
As vozes da revolta popular voltaram a se espalhar pelos rios acreanos. Desde as margens do Abunã até o Moa, a indignação era geral e conduzia a sociedade a buscar as mais diversas soluções para o eminente conflito que se anunciava. Além da inflexibilidade do governo federal, contra o Acre pesava ainda as enormes dificuldades de comunicação entre os vales de seus principais rios. Eram necessários meses para fazer chegar notícias do rio Acre ao rio Juruá. Com muito mais dificuldade se poderia propor uma ação conjunta e coordenada de toda a sociedade acreana. Os homens de maior liderança na região eram instados a tomar atitudes práticas contra as injustiças cometidas pelos prefeitos departamentais nomeados pelo governo federal. Enquanto que outros influentes senhores do Acre eram cooptados por essas autoridades e consentiam com seu autoritarismo. A eminência de um conflito de grandes proporções era cada vez mais evidente.
Foi nesse contexto que, em 1909, uma das maiores lideranças da época no Acre, o Coronel Plácido de Castro, foi traiçoeiramente assassinado numa emboscada tramada, segundo a voz popular, pelo próprio Prefeito Departamental do Alto-Acre, o engenheiro militar Gabino Besouro. Parecia não haver mais espaço para uma solução negociada.Cruzeiro do Sul, a sede do Departamento do Alto-Juruá, tomou então à frente das manifestações de insatisfação e preparou um movimento revoltoso cujo único objetivo era demonstrar ao governo brasileiro a injustiça que se estava cometendo contra o povo acreano. O que se queria era muito simples e podia ser resumida em uma única palavra: AUTONOMIA.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Semeando nos Campos do Senhor...


Até os cinco anos de idade tenho guardadas em minha memória apenas rápidas cenas de lugares e pessoas que nem chegam a constituir propriamente lembranças, mas vagas impressões de um mundo que era gigantesco frente aos meus pequenos olhos.
De verdade mesmo minha memória (individual e coletiva) começa com a Copa de 70. Afinal, como não lembrar daquela seleção que tinha Pelé, Rivelino, Gérson (o canhotinha de ouro), Tostão e outros tantos craques inesquecíveis. Como não lembrar daquelas musicas que enchiam nossos rádios, televisões, casas e ruas com refrões que grudavam nos ouvidos: “Todos juntos vamos, Pra frente Brasil, Brasil, Salve a Seleção.” Como não lembrar das ruas cheias de gente enlouquecida depois do Brasil ter se tornado o primeiro tricampeão da história do futebol mundial e o definitivo dono da taça Jules Rimet. Atestado daquilo que a Ditadura Militar não cansava de repetir: “Este é um país que vai pra frente!” Mas eu era apenas um menino de 7 anos e não compreendia ainda a face perversa dos anos de chumbo.
Desde então sou capaz de contar toda minha vida através das Copas do Mundo. Desde a falácia de ser o campeão moral com a seleção de Coutinho; passando pela extraordinária magia daquela seleção de Tele Santana, em 82, que parecia jogar por musica com Zico, Falcão, Sócrates e outros imortais do nosso futebol; até aquele confuso sentimento, meio triste, meio feliz, da seleção de Parreira, campeã, mas dona do futebol mais feio que o Brasil já jogou em toda sua história.
E, em meio a todas essas memórias, carrego seus complementos naturais e pessoais, a primeira namorada, os tempos e amigos da faculdade, a campanha das Diretas Já, a tragédia anunciada do Collor e, mais tarde, a eleição do Lula e a vitória da esperança sobre o medo.
Isso tudo me voltou a cabeça neste 11 de junho, com o início da Copa do Mundo da África do Sul. Impossível não se emocionar com a alegria dos africanos, sua dança, seus ritmos, suas buzinas e seu evidente sentimento de um novo tempo nesta África tão massacrada e expropriada nos últimos séculos pelo Ocidente.
Assim como é impossível evitar essa sensação de que há mesmo algo de sagrado neste ritual travestido de esporte que é o futebol. Afinal, a humanidade é dada a demarcar sua existência através de rituais que ciclicamente mobilizam a todos seus integrantes. Sempre foi assim. Neanderthais, egípcios, gregos, maias, astecas, chineses, europeus, todos os povos da longa história da humanidade inventaram uma ou outra maneira de celebrar o que de sagrado existe em nós. E não tenho duvida que em nossa globalizada sociedade pós-moderna o futebol, em sua máxima expressão que é a Copa, assume, como nenhuma outra manifestação coletiva contemporânea, essa função.
Como não há duvida de que esta é uma Copa muito especial. Quando não fosse por mais nada, porque marca o encontro dessa magistral arte inventada pelos nossos índios americanos (porque esse papo de que foram os ingleses é furado, mas esse é outro assunto e infelizmente não vai dar pra falar disso hoje), com esse continente ancestral onde surgiu toda a humanidade. Encontro admiravelmente representado pelo jogo entre o México e a África do Sul.
Porque, afinal, está sendo bonito de ver novamente o futebol encantando e levando o povo pras ruas como só as coisas mais simples e verdadeiras são capazes de fazer. Um povo simples que apenas canta sua própria beleza e essa preciosa liberdade recém conquistada ao sul da África. Cantos de alegria e liberdade que, rogo aos Deuses do Futebol, espero ver, ainda nessa vida, se estender por toda Mama África.
Enfim, o certo é que, mesmo com o empate do México, o golaço de Shabalala lavou nossa alma... e só isso já seria o bastante para não mais esquecer.





terça-feira, 8 de junho de 2010

Nas fronteiras da guerra*

Na cidade de Porvenir, às margens do rio Tahuamano, existe um estranho monumento comemorativo do combate do Igarapé Bahia. Esse monumento é estranho porque possui três estátuas ao invés de uma. A primeira estátua carrega um papel nas mãos e retrata Nicolas Suarez, o maior proprietário de seringais do norte da Bolívia e financiador da guerra contra os brasileiros; a segunda, de armas na mão, representa Maximiliano Paredes, comandante da heróica coluna Porvenir; e o terceiro personagem é um índio Ixiameño, de nome Bruno Racua, responsável pela vitória que tanto orgulha até hoje os bolivianos.

A guerra do Acre se deu em várias frentes ao mesmo tempo. Enquanto o exército de seringueiros comandado por Plácido de Castro lutava contra as tropas regulares do exército boliviano nas regiões de Rio Branco e de Porto Acre, os habitantes do Alto Acre, Xapuri, tinham que lutar em cada seringal contra os seringueiros, campesinos e proprietários bolivianos. Foram muitas emboscadas e encontros casuais que resultaram em mortes de parte a parte, perseguições e fuzilamentos de suspeitos de espionagem e traição, boatos de novas invasões e confrontos que rapidamente se espalhavam pelos centros da mata e pelas margens dos rios. O povo que vivia nas vastas florestas acreanas conheceu tempos muito difíceis então.
Ao chegarem notícias de um combate entre brasileiros e bolivianos no barracão do Igarapé Bahia, José Galdino, comandante dos batalhões revolucionários sediados em Xapuri, ordenou que um destacamento fosse até a região para enfrentar os inimigos antes que eles avançassem mais.
No dia 02 de outubro de 1902 partiu de Xapuri uma força de 80 homens comandados por Manoel Nunes Tavares que foi aumentando pelo caminho segundo o relato que foi publicado no jornal Correio do Acre de Xapuri (1910): “... cujas fileiras sentiram-se engrossar à proporção que marchava, pelos voluntários que apareciam, tal era a corrente dominadora de idéias em prol da revolução ...”. Ao alcançar o seringal Porvir Velho a tropa foi recebida pelo gerente Major Francisco Conde que aumentou ainda mais as fileiras acreanas. Ao chegar no barracão do seringal Nazaré, já se contavam 150 homens em armas, aumentando a força para 180 homens durante sua estadia ali.
Entretanto, ao chegarem ao igarapé Bahia as tropas acreanas não encontraram nenhuma força boliviana na área. Manoel Nunes decidiu então acampar, abrir trincheiras para fortificar as defesas e saquear o barracão que pertencia à Nicolas Suarez. Os brasileiros passaram nessa faina cinco dias sem sinal dos inimigos. Até que na tarde do dia 10 de outubro, inesperadamente, os brasileiros sofreram o assalto da Coluna Porvenir, muito superior numericamente e com a vantagem da surpresa. Ainda assim, os brasileiros conseguiram repelir esse primeiro assalto. Percebendo, porém, que dificilmente resistiriam durante muito tempo. Por isso, Manoel Nunes destacou o índio Capenary para, protegido pela noite, escapar ao cerco boliviano e buscar reforços em Xapuri.
No dia seguinte, a superioridade boliviana ficou ainda mais evidente. As trincheiras escavadas pelos brasileiros estavam mal posicionadas, próximas demais do barracão do Bahia. Percebendo essa falha na defesa acreana, um índio Ixiameño, chamado Bruno Racua, lançou diversas flechas incendiarias sobre as construções do seringal.
A situação dos brasileiros se tornou extremamente grave, já que ficaram cercados entre o fogo do barracão e as balas dos inimigos bem posicionados. Diante da iminente derrota os oficiais brasileiros deliberaram pela debandada da tropa. Assim foi que, ao som das cornetas os brasileiros abandonaram as trincheiras e saíram correndo em campo aberto, sendo colhidos em cheio pelos tiros bolivianos. Era um verdadeiro “salve-se quem puder” que resultou na morte de grande numero de brasileiros.
Apesar dessa derrota acreana ter sido posteriormente vingada pelo massacre dos bolivianos de Santa Rosa por parte das tropas de Plácido de Castro, havia ficado evidente que o igarapé Bahia demarcava, não a fronteira imaginária dos tratados e mapas mas, os limites reais entre dois povos em luta.

* Artigo publicado no jornal Estado do Acre – 04 de março de 2002

OBS: Enquanto fuçava na internet atrás de imagens para esta coluna (aliás nem consegui o que queria, que era uma foto da estátua tripla de Porvenir), acabei me deparando com a incrível história do neto do herói indígena Bruno Racua que também se tornou um grande líder comunitário e foi recentemente morto nos conflitos entre os partidários de Evo Morales e Leopoldo Fernadez aqui ao lado, em Pando. Quem sabe, um dia, possamos tratar desta história aqui na coluna. Surpreendente Bolívia e sua secular história de resistência indígena. Mereceria ser melhor conhecida e compreendida ao invés de ser tratada apenas como um velho e incomodo problema, como fez o Serra essa semana.

sábado, 22 de maio de 2010

Tirando o atraso...

Durante toda a semana passada minha internet indomável resolveu ficar especialmente indomável e não consegui postar os dois artigos da Célia, que acumularam então com o artigo da coluna desta semana. Assim, lá vão eles na ordem em que foram pro jornal.

Botija de Histórias



No próximo dia 03 de julho a cidade de Brasiléia completará cem anos de sua fundação. O que faz com que esta cidade seja uma das mais antigas do Acre. Por isso, além de aproveitar o já tradicional e animado Carnavale, esta é também uma boa ocasião pra lembrarmos algumas das peculiaridades da vida nos limites do Brasil.
Assim, nas próximas semanas esta coluna vai trazer alguns textos mais antigos e outros inéditos sobre as histórias de Brasiléia, fim do Brasil, início do Acre.




Do outro lado do igarapé*




Quando chegamos em Cobija - cidade boliviana situada na fronteira, do outro lado do Igarapé Bahia, em frente à cidade de Brasiléia - era sábado de carnaval e o que vimos foi diferente de tudo que podíamos imaginar. Ao invés da multidão pulando e dançando ao som de marchinhas carnavalescas com que estamos acostumados, as crianças corriam pra todos os lados tentando acertar bexigas cheias d’água umas nas outras. Não entendíamos nada, mas a brincadeira era divertida. Especialmente porque ninguém parecia ficar chateado ao ser atingido e infalivelmente encharcado.
Mais na frente encontramos diversos grupos fantasiados ricamente. Eram grupos de dez a vinte pessoas caracterizadas de acordo com as várias regiões dos Andes ou com grupos étnicos específicos. Foi engraçado ver aquele grupo de bolivianos pintados de preto dos pés à cabeça representando, parece, os africanos que foram trazidos para a América há séculos atrás. Outro grupo nos chamou a atenção pela beleza e luxo das fantasias de veludo negro bordadas com fios dourados e lantejoulas simetricamente distribuídas. Como nosso tempo era pouco, não pudemos assistir, mas ficamos sabendo por informações, que todos aqueles grupos desfilariam na avenida principal da cidade ao som de bandas formadas por instrumentos de sopro e de corda. Quanta diferença de nossas batucadas e blocos de “piranhas” tão familiares para nós quanto devem parecer estranhos para olhos estrangeiros.
Seguimos, então, para longe da fronteira, em direção ao interior da Bolívia, rumo à cidade de Porvenir, ponto terminal da estrada asfaltada - a margem do rio Tahuamano - e inicio de um longo caminho de lama, poeira e pedras montanha acima até alcançar La Paz, a longínqua capital boliviana, distante dali 1.145 Km.
Mais uma pequena cidade, em quase nada diferente das pequenas cidades de nosso próprio interior, Porvenir existe em torno de uma praça dominada por um monumento que ao invés de possuir a tradicional estatua do herói local ou nacional, é diferente, possui três estatuas. Paramos a frente do estranho monumento tentando entender seu significado. E o que logo nos chamou a atenção em sua placa comemorativa foi a referencia ao combate, de triste memória para os brasileiros, do Igarapé Bahia. Grande vitória boliviana, conquistada às margens do igarapé que hoje divide o que é Brasil e o que é Bolívia.
Isso nos fez procurar alguém que pudesse contar o significado daquelas três estátuas e encontramos dona Ana Aguilera, uma simpática “maestra jubilada” que com menos de meia hora de conversa havia encantado a todos com a objetividade e sinceridade que expressava em todas as suas opiniões. E foi assim que além de nos explicar o significado do monumento, Dona Ana nos revelou algumas verdades que nunca havíamos sido capazes de compreender.
Com imensa surpresa aprendemos com a simpática professora aposentada que a Bolívia não foi derrotada na Guerra do Acre. A Bolívia perdeu o Acre sim. Mas não pelas armas. Perdeu pela lei, pelos tratados negociados com honra e honestidade e recebeu suas compensações por isso. Soubemos também que aquela famosa coluna Porvenir vitoriosa sobre os brasileiros à margem do igarapé Bahia, não era do exército regular boliviano, mas formada por seringueiros e campesinos da região, em nada diferente do exército de seringueiros brasileiros que tanto nos orgulhamos de lembrar.
Foi assim, numa tarde de sábado, em plena Bolívia, que tivemos uma aula de história e também uma lição inesperada sobre a secular necessidade do encontro entre dois povos vizinhos que não se conhecem.
Quanto ao combate do igarapé Bahia e à estatua de Porvenir só no próximo artigo.

* Artigo publicado no Jornal Estado do Acre, em 25 de fevereiro de 2002


Dez anos ... (2ª Parte)














(1ª parte – domingo)
Formalmente seu nome todo era Mauricélia Barrozo Alves de Sousa (Barrozo com z e Sousa com s, favor não se enganar). Mas ninguém a chamava assim. Nem em casa e nem na rua. Para todos ela era apenas Célia e para alguns, muitos, ainda, simplesmente Celinha (...).

(2ª Parte – terça-feira)
A mesma turma que - junto com o Prof. Rui Duarte (em memoráveis viagens ao Sítio Los Angeles – Xapuri) e, um pouco mais tarde, com o Prof. Oldemar Blasi - fez as primeiras e únicas (infelizmente) pesquisas arqueológicas realizadas pela UFAC até hoje. Uma experiência que determinou que Célia viesse a se tornar a primeira arqueóloga acreana.
Mas não só. Além de ser uma das técnicas da Fundação Cultural que ajudou a organizar e manter o Museu da Borracha, desde os anos 80; foi também Coordenadora do Patrimônio Histórico e Cultural da Fundação Garibaldi Brasil na gestão de Antonio Alves, quando deu início a todo esse trabalho de recuperação, revitalização e valorização de nosso Patrimônio Cultural que depois se consolidou nas duas gestões do Governador Jorge Viana e que pode ser facilmente reconhecido por toda a cidade de Rio Branco e do Estado do Acre.
A par de suas atividades como gestora pública, seu talento e disciplina para a pesquisa tornaram-na a maior especialista que já tivemos em fontes hemerográficas do Acre. Sua paixão pelos jornais antigos foi canalizada para muitas outras paixões, dentre as quais, em especial, a história do cinema e do teatro acreanos. O que resultou em sua monografia de conclusão de curso, infelizmente ainda desconhecida da maioria dos pesquisadores (o que teremos que corrigir em breve), onde desfiou histórias desde os primeiros tempos do cinematógrapho que funcionava no Campo dos Pipiras, nas primeiras décadas da existência de Rio Branco, até a consolidação do gosto da sociedade local pelo cinema com a criação do Cine-teatro Recreio, Cine Acre e Cine Rio Branco.
Mais tarde tive o prazer e a honra de compartilhar com ela a publicação de diversos artigos e livros sobre diferentes temas da história acreana, tais como o álbum fotográfico sobre a formação do Bairro Seis de Agosto e o livro “O Capitão e as seringueiras”, sobre a origem do Parque Capitão Ciriaco. Fora aquilo que fizemos e ainda não foi publicado, como o livro Vertentes da Memória sobre o Cacimbão da Capoeira através da história oral, e uma infinidade de pesquisas temáticas que continuam norteando o trabalho de Patrimônio Histórico aqui no Acre.
Mas, independente de qualquer outra paixão, o que mais falava ao coração da Célia era mesmo a arqueologia acreana. E não foi por outro motivo que ela se despencou para o Rio de Janeiro, onde em menos de três anos se tornou uma das principais pesquisadoras do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB); desenvolvendo inúmeras pesquisas no Rio, em Minas Gerais e na Amazônia, através do que se tornou especialista em cerâmica pré-histórica.
Com isso conseguiu financiamento do Smithsonian Intitution e da National Geographic Society para realizar aqui no Acre diversas missões de pesquisa arqueológica nos sítios arqueológicos com estruturas de terra geométricas (“geoglífos”) que haviam sido descobertos por Ondemar Dias, no final dos anos setenta.
Sua fecunda atividade como arqueóloga, além de ter motivado duas teses de doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF), era tema da dissertação de mestrado que estava elaborando na Universidade Federal do Rio de Janeiro (ICS-UFRJ), quando o destino ocasionou uma reviravolta completa em nossas vidas.
Em 1998, em meio a uma série de acontecimentos muito dolorosos em sua família, Célia teve que começar uma enorme batalha por sua própria vida. Uma luta que durou dois anos, durante os quais ela nunca esmoreceu ou se entregou, numa impressionante demonstração de força e fé.
Até seus últimos dias, já imersa num doloroso tratamento rádio e quimioterápico, continuava frequentando a Biblioteca Nacional, atrás reunir matérias sobre o Acre nos jornais do início do século XX. Era uma forma de, com infinita coragem e determinação, não esquecer quem era e nem o que fazia nesta terra.
Até que em um domingo, dia das mães, 14 de maio de 2000, Mauricélia - mãe de meu filho João Luiz que hoje, dez anos depois, já é um belo e digno homem - nos deixou... Mas tenho certeza que, como eu, todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ela são incapazes de esquecer o tanto que ela fez pelo Acre e por nós...
E quando penso nisso não consigo evitar a sensação de que a vida é mesmo como o rio Acre, tem tantas curvas, voltas e reviravoltas que às vezes é quase impossível saber o preciso rumo de nossos destinos. Só nos resta, então, realizar nesta vida o que há de melhor em nós, pois que assim era a Celinha. E ter fé de que um dia iremos nos reencontrar, afinal...


“Vou seguindo pela vida
Varejando de ubá.
Todos os rios dessa terra
unidos chegarão ao mar”
(Pia Vila, Felipe Jardim, Txai Terri)

Dez anos ... (1ª Parte)

“Retrocedendo aos primórdios e acompanhando o curso das coisas até o fim, aprendemos os ensinamentos do nascimento e da morte. A união da semente e da força gera todas as coisas; a evasão da alma causa a mutação. Através disso podemos reconhecer as condições dos espíritos que partem e dos que retornam.”
(I Ching, o Livro das Mutações, Pág. 226)

“Ando devagar
Porque já tive pressa.
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais.
Cada um de nós
Compõe a sua história.
Cada ser em si carrega o dom
de ser capaz e ser feliz...”
(Almir Sater)

Formalmente seu nome todo era Mauricélia Barrozo Alves de Sousa (Barrozo com z e Sousa com s, favor não se enganar). Mas ninguém a chamava assim. Nem em casa e nem na rua. Para todos ela era apenas Célia e para alguns, muitos, ainda, simplesmente Célinha.
Quem não a conhecia achava, à primeira vista, que era integrante de uma das muitas tribos acreanas. Uma bela índia de olhos claros, da cor do mel. E, na verdade, ela era mesmo tão doce quanto o mel de seus olhos. Mas não era indígena. Pelo menos não assim, de forma direta.
Seu pai, Seu João, era mais um dos muitos nordestinos vindos na loucura da Batalha da Borracha. Sua mãe, Dona Joana, era do interior do Acre, filha de nordestinos e, talvez, também de indígenas dessa grande floresta acreana.
Aliás, para a grande maioria, a Célinha era acreana do pé rachado e isso de fato ela era. Mas, por força do destino, havia nascido em Guajará Mirim, nesta imensa fronteira entre o Brasil e a Bolívia, filha dessa infinita floresta sem fronteiras. E amava esta terra, com uma força e uma determinação impressionantes. Por isso mesmo, ninguém tinha dúvida que ela fosse daqui, filha daqui, do Aquiry.
Pra dizer a verdade ela era uma pessoa muito fácil de lidar, na dela, apesar do permanente brilho de seus olhos revelar aos mais atentos que ela era calada por jeito, mas de boba não tinha nada. Entretanto, apesar dessa característica e contagiante tranqüilidade, queria ver a mulher virar onça era só falar mal do Acre.
Quantas vezes eu vi ela, lá no distante e intolerante sul maravilha, defendendo com unhas e dentes o Acre. E olha que não era uma época muito fácil de fazer isso. Início dos anos 90, um monte de coisas dando errado por aqui. Mas isso não importava. Nunca fez a menor diferença. Em sua presença ninguém falava mal dessa terra que ela tanto amava.
E não estou, em absoluto, exagerando. Nem sequer estou falando isso pra valorizá-la, porque ela não precisava disso, e quem a conheceu sabe. Mas por uma questão de justiça. Não havia semana em que ela não ligasse algumas vezes pra família, pra saber como estavam as coisas por aqui, pra contar como tinha saudade e como não via a hora de voltar logo...
Era tanto Banzo, tanto sofrimento pela distancia inclemente, que acabou me convencendo a vir pra cá. Primeiro de visita; pra conhecer essa floresta já distante, estranha e inesperadamente restrita ao horizonte. Mas também pra conhecer a Rainha da Floresta e ver/ouvir/sentir (não há verbo na língua portuguesa que possa expressar essas coisas) suas lições, que ainda busco compreender, mesmo vinte anos depois, diga-se de passagem.
E com isso, mais tarde, me convenceu a vir de vez, largando emprego, mestrado, família, amigos e todo o resto; pra mudar definitivamente minha vida; pra aceitar o fato que ninguém vem ao Acre impunemente. Pra aprender de uma vez por todas que aqui não temos uma causa, no Acre, é a causa que nos tem. Como sabiamente ensina, outra das extraordinárias mulheres acreanas, Marina.
Foi só então que eu soube inteiramente quem era a Mauricélia, Célia, Celinha. Que pesquisadora extraordinária! A mais disciplinada, detalhista, organizada e perfeccionista pesquisadora que já conheci nesta vida. Daquelas que não aprendeu a ser assim. Sempre foi. ÔÔÔÔ que inveja monstra... ÔÔÔ que falta doida...
Até onde eu sei, contar o tanto que essa mulher produziu ao longo de sua tão breve atividade profissional, não caberia aqui... Essa é uma história que ainda vou ter que escrever um dia, apesar dela ser tão viva na cabeça/coração de tantas pessoas, apesar de estar registrada em tantas publicações, apesar de fazer parte da história de tantas instituições acreanas.
Mas como esse artigo é pra lembrar. Não custa lembrar pelo menos uma parte do tanto que nos deixou. Ela foi de uma turma de história antológica na UFAC. Uma turma que junto com a Profª. França (outra saudade doída) levantou todos os jornais antigos do Acre, do IGHA (Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas) e da Biblioteca Nacional, produzindo uma preciosa coleção de jornais microfilmados que ainda hoje está no CDIH-UFAC nos abastecendo de histórias e mais histórias. Jornais que, de outra forma, certamente já não estariam mais disponíveis para nós e para os pesquisadores que virão.


segunda-feira, 10 de maio de 2010

Quase tão bom quanto sexo...

Este ano e, em especial, estas últimas semanas tem me deixado muito animado pela profusão de eventos, publicações e palestras de alta qualidade que vem acontecendo. Pra facilitar um breve passeio por esse conjunto de “animações” serei, grosso modo, cronológico.

Relicário
Logo no reinício desta coluna prometi tratar mais detalhadamente do excepcional livro de Edson Lodi, um dos principais dirigentes da União do Vegetal, chamado “Relicário – Imagens do Sertão”. Um verdadeiro primor, a começar pela edição do livro, realizada com material de primeira qualidade e uma programação visual agradável, limpa e, o mais importante, que valoriza ainda mais o extraordinário conteúdo deste enorme trabalho de pesquisa.
Em “Relicário”, Edson Lodi descreve boa parte da trajetória desse importante personagem da história da Amazônia Ocidental e do Brasil: a vida e a obra do Mestre José Gabriel da Costa, criador da mais recente das três doutrinas que fundaram uma nova religiosidade, originada da floresta e dos povos que nela vivem, em nosso planeta já tão sofrido de tantas guerras e sofrimentos.
Mas, como já falei no lançamento acreano (realizado como parte da programação do Seminário das Culturas Ayahuasqueiras – que pra mim foi um dos mais importantes eventos ocorridos no Acre nos últimos tempos – mas que, por isso mesmo, merece um artigo específico) deste livro tão belo quanto importante, seu maior mérito talvez nem esteja em sua primorosa e bem cuidada edição, e nem mesmo em seu tema tão relevante. Talvez, sua mais importante contribuição esteja no original meio que Edson Lodi encontrou para tratar de assuntos tão difíceis quanto perigosos, como os que envolvem práticas religiosas. É que o caminho encontrado por Lodi foi o da arte, tão pouco lembrada quanto se fala de manifestações religiosas da Ayahuasca.
Ou seja, este livro desfia sua história através da vida e da atividade do fotógrafo oficial dos primeiros tempos da União do Vegetal e das musicas que foram utilizadas por Mestre Gabriel e seus seguidores em suas praticas espirituais. Um repertório musical constituído pelos estilos e canções mais populares e tradicionais de nosso vasto sertão interior. Um Brasil de trabalhadores e homens simples tão pouco conhecido, e menos ainda reconhecido, repleto de arte e de fé. E por isso, improváveis leitores desta coluna, importante saber que este é um grande livro, daqueles que precisam ser lidos.

Sueño de La Razón
Mais recentemente fui convidado a participar do Festival Internacional de Fotografia de Porto Alegre (FESTFOTOPOA), onde as mesas redondas discutiram temas como preservação de acervos fotográficos, implantação de Pontos de Memória Fotográfica a partir da experiência dos Pontos de Cultura efetivada pelo MinC e os desafios contemporâneos da fotografia digital e sua profusão de imagens que parecem impossíveis de serem armazenadas na mesma velocidade com que são produzidas.
Mas o que mais me falou ao coração durante este festival - coordenado pelo grande parceiro do Acre, com vasta produção junto aos seringueiros daqui, Carlos Carvalho, a quem devo agradecer o convite e os meios necessários à minha participação - foi mesmo o lançamento da revista “Sueño de La Razón”. Produto de um coletivo de fotógrafos que atuam em nove países da América Latina e que se reúnem, mesmo sem nenhuma remuneração, em Santa Cruz de La Sierra para produzir esta linda revista, que destemidamente revela, não só a excepcional qualidade da fotografia que se pratica por aqui, como as entranhas dessa estranha América despedaçada que somos nós. Sobre, por exemplo a América do povo Mapuche que ainda luta no Chile, como faz já há quinhentos anos, por seu território original. Metáfora de um continente invadido, expropriado e ainda hoje dividido entre povos que não se conhecem e nem se respeitam.
O coletivo que produz essa revista está disponibilizando suas edições em PDF pra quem quiser conhecê-la (já disponível em www.olhave.com.br). Os números 0 e 1 já estão circulando e o financiamento que conseguiram garante apenas a publicação dos dez primeiros números. Torço muito pra que essa iniciativa possa durar muito mais porque nos serve de referência para o que deveríamos estar fazendo desde sempre: olhar atentamente pro interior dessa surpreendente e assustadora América, ainda que por mais nada, só pra nos inundar de sua beleza e força.

O Povo Manchineri e os Sítios Arqueológicos do Acre
Como já me estendi demasiadamente, vou ter que ser muito breve ao me referir a palestra da Pirjo Kristiina Virtanen. Tenho que reconhecer aqui que foi um grande prazer assistir a essa doce Finlandesa, que transita entre nós já há alguns anos, trazer de volta o resultado de seus trabalhos sobre temas tão variados como: jovens indígenas acreanos, mitos e história Manchineri e relações entre povos indígenas e os sítios arqueológicos geométricos (os ainda sensacionalistas geoglífos).
É raro ver pesquisadores comprometidos com as comunidades e sociedade com as quais se envolve durante sua pesquisa. A grande maioria dos mestres e doutores que escolhem coisas e gentes do Acre como tema, vem pra cá durante a pesquisa, ocupa a mídia, faz sua autopromoção travestida de genuíno interesse e colaboração com a sociedade regional e nunca mais aparece pra contar o que fez com tudo o que aprendeu por aqui.
Pois a Pirjo é uma exceção (daquelas que confirma a regra). Se envolveu com as pessoas daqui, foi sincera em suas intenções e praticas, produziu o que prometeu, e o que é ainda mais raro, reconheceu o que já estava sendo feito por aqui e voltou pra devolver seus resultados.
Com isso a Pirjo reflete a mesma conduta correta que seu mestre, o Prof. Martti Pârssinen, vem demonstrando em seus trabalhos, nos quais sempre cita corretamente as pesquisas, as datações, as hipóteses e conclusões que Ondemar Dias Jr, Célia Souza (que já acumula dez anos de saudades) e eu produzimos acerca dos sítios arqueológicos acreanos, nos últimos 30 anos. Quanta diferença em relação aos doutos senhores que, em sua extrema arrogância, acham que descobriram tudo e tomam descaradamente as conclusões alheias como se deles fossem, distorcendo as informações científicas de acordo com seus interesses pessoais inconfessados.
Assim a palestra da Pirjo foi mais uma comprovação cabal de que nada é superior à ética, quando lidamos com coisas tão sensíveis quanto o imaginário e a constituição cultural dos povos da floresta. Como vem demonstrando tão bem diversos pesquisadores que atuam no Acre.
Esta atuação eticamente irrepreensível pode ser facilmente encontrada, por exemplo, nos excepcionais trabalhos que vem sendo desenvolvidos por Manuela Carneiro e Mauro Almeida, cuja citação aqui não é gratuita, mas está relacionada à ultima publicação que ainda queria mencionar neste artigo.

Amazônia Antiga
É que esta semana recebi um presente muito precioso do grande amigo Marcelo Piedrafita. Trata-se do estraordinário livro “Tastevin, Parrisier: Fontes sobre Índios e Seringueiros do Alto Juruá” com transcrições de textos destes dois missionários franceses que percorreram o Juruá acreano ainda no final do século XIX e início do século XX. Uma leitura indispensável para a escrita da milenar história indígena acreana (assunto ao qual terei que voltar no futuro). O que me tem forçado, prazerosamente, é bom que se diga, há algum tempo na rede da varanda, sempre que o trabalho e os meninos deixam, enquanto desfolho esse verdadeiro tesouro em forma de livro.
Tenho mesmo que admitir, ler livros como esses aqui relacionados - que descrevem com maestria diferentes aspectos de nosso interior latino americano, amazônico, espiritual - é quase tão bom quanto sexo.